Estudei e num aprendi português

Por Pedro Fernandes



A aula de gramática deve implicar numa atuação participante de professor e alunos, movidos pelo desejo da descoberta científica. A ordenação dos achados é uma fase final no procedimento pedagógico.

(Ataliba Castilho)

Os estudos do francês Ferdinand Saussure (1857 – 1913) o fizeram considerado pai da Lingüística por ter redimensionado e ao mesmo tempo revolucionado as questões que se referem à língua e à linguagem. Nestes moldes, a teoria saussuriana será precursora de transformações diretas ou indiretas no que compete ao campo do ensino de língua materna. Ao dividir o signo em langue e parole, a Lingüística fundamentada em novas concepções passa a ser considerada inimiga ferrenha do tradicionalismo gramatical. Isso porque ela passa a considerar uma heterogeneidade lingüística, frente à homogeneidade pretendida pela gramática normativa. Então, a fim de se manterem na tradição a idéia é atirar granadas espalhando mitos de que a Lingüística concorda – e até apregoa! – com o uso da modalidade dita inculta. Aqui entra o espaço escolar como espécie de porta-voz, carro-chefe da visão dessa facção ou corrente terrorista. Ora, não nos é possível crer em tamanho despropósito, sequer sermos atraídos e concordarmos com ele!

A Lingüística encara o sistema lingüístico essencialmente como uma faculdade humana ou fenômeno humano ancorado num aspecto globo-social; ela enxerga a língua como instrumento, código do sistema comunicativo. E código heterogêneo, haja vista que no espaço da fala não se é possível usar de artimanhas das que usamos na escrita, a correção, a sistematização, a refacção. A partir de então não fará sentido algum considerar as querelas apregoadas nos bancos tradicionalistas das escolas tradicionais de que a língua é um sistema acabado, restrito, homogêneo e imóvel no espaço-tempo ou que ela constitua apenas somente numa gramática de leis e/ou normas, regras, e para surpresa nossa, até elas passam por transformações; afinal de contas a relatividade está em tudo, tudo é relativo.

A própria questão de variação/variedade lingüística é jogada como assunto passa-tempo. Ainda não se enxergou que a cada dia fica mais impossível carregar os esqueletos empoeirados que arrastam desde Aristóteles quando da formulação do primeiro conceito para substantivo. A língua materna não pode ser mostrada ou trabalhada como língua madrasta-da-Branca-Neve, intocável, repreensiva, correta e repulsiva, uma vez assim posta é coerente ouvir dos alunos que Português é a língua mais difícil, a disciplina mais chata e que vão às aulas apenas para aprender a falar corretamente.

Modelou-se tanto o falar corretamente como objetivo próprio de se estudar Português que o sujeito usuário não mais se reconhece falante deste código lingüístico, mas sim caricatura obrigada a fazer uso daquele impresso nas páginas da gramática.

O professor gramatiqueiro transformou-se na mesma carga de adjetivos dada para o estudo de Língua Portuguesa. A arrogância de sentir-se dono das leis gramaticais ou até mesmo a própria língua em carne-pessoa contribui para que permaneça enraizada essa mitologia mundana fincada no pensamento brasileiro. Esse tipo de professor não cola mais; não cola mais também o mito de enxergar a língua materna como algo que se deve aprender para fazer uso.

Quando aqui chega, a pergunta que não quer calar mostra a cara: onde fica a concepção-mor de que a língua é instrumento de ação-comunicação? E mais, que outro papel de se fazer uso da língua, senão para agir e interagir com sujeitos alheios? Afinal somos seres sociais.

É vergonhoso ainda conscientizar futuros pilares sociais no erro de ser necessário um verdadeiro treino sistemático na escolinha taxativa e preconceituosa para se fazer o domínio pleno das artimanhas lingüísticas.

A questão é mais séria ainda: o ensino de língua materna ainda não conseguiu sequer embutir no estudante e usuário da língua o porquê, o quando e como deve estudar a Língua Portuguesa. Na realidade, os próprios professores se sentem meio que perdidos com estas questões.

E o mais preocupante é que apesar de todo o aparato teórico que disserta sobre o assunto e toda a formação que se temos para refletir questões desse tipo, continuamos portadores de olhos burro (uns dizem vítima do sistema) vidrados na falsa cara do ensino de Língua Portuguesa. Isso só será desfeito quando enxergarmos que é para os lados que as direções devem ser tomadas, noutras palavras, quando enxergarmos que o conhecimento lingüístico só se dará quando do estudo investigativo das diversas facetas da língua.

Não adianta carregar o peso duma gramática ou mesmo tê-la ambulante se sequer consigo distinguir aspectos textuais, por exemplo. Daí a tão importante necessidade de se arrastar para o epicentro das aulinhas de português, textos. Somente a variedade de gêneros prepara o indivíduo usuário da língua para uma posição crítica dentro de seu código lingüístico e o faz perceber que ele não é um estranho perante o blá-blá jurídico dum professor gramatiqueiro.

Precisamos é urgentemente incutir no espaço da sala de aula que o sujeito não se constitui em seu código lingüístico tábula rasa para ser moldado pelo professor da forma que ele considera correta. Isso frustra o aluno e esconde dele a riqueza do que temos na Língua. O usuário não pode ter a gramática normativa, querela que vigia, proíbe, pune, mas sim, como simples elemento de crítica, investigação e consulta.

Postular a língua culta como única é apagar as marcas históricas nossa; as marcas que, como usuários, imprimimos ao longo do eterno fluxo de desenvolvimento da riqueza lingüística. É algo primitivo e arcaico. Um estupro à identidade nossa, levando-nos a forjar um ambiente sistemático, repreensivo, repulsivo, um código lingüístico artificial, pobre. E antes de tudo, mascarar a beleza lingüística, expondo-nos como órfãos ou desmamados de nossa própria língua materna; criaturas portadoras de viseiras, distante do que se trata o verdadeiro ensino de Língua Portuguesa que é formar sujeitos críticos, ativos no processo de uso do código lingüístico.

* Texto publicado no Caderno Domingo do Jornal De Fato em 17 de fevereiro de 2008.


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