A figura (divina) de Jesus (des)construída - o mito

Por Pedro Fernandes



Há discussões das mais variadas em torno da figura de Jesus, talvez pelo carisma histórico (isso é o que analisaremos), que ainda alimenta multidões e até então líder político algum conseguiu. Logo se percebe que adotaremos aqui a perspectiva de um Jesus como figura política daquela sociedade, tomando por base uma das discussões que gira em torno de sua falsa divindade uma vez que historicamente esta divindade teria sido construída ao longo dos séculos e sido uma decisão política sobre uma renovação do cristianismo.

Para tanto admitiremos que a história de Jesus enquanto ser santo tem algo de mítico, uma vez partirmos do pressuposto de que o mito explica a ordem social cósmica vigente e preocupa-se com as origens e a fixação de valores. A imagem de fábula, mentira, tida hoje como sinonímia comum para o termo mito fora estabelecida ainda no mundo greco-romano e, no entanto, sabe-se que o mito narra um fato verdadeiro em busca de uma verdadeira razão para o fato. Essa visão construída ainda na antiguidade é o que dará suporte para que haja uma fuga do tempo histórico de Cristo e este seja fixado em um calendário litúrgico. A liturgia, pois, teria o papel de perpetuar o mito do Cristo divinizado, semelhante ao contar de histórias de pai para filho, aqui com uma diferença, é algo registrado no inconsciente coletivo por uma série de intenções dos cristãos.

Esse ponto é interessante e abrirei uma pequena brecha no andar do texto para expor uma relação mínima, mas necessária: Nietzsche certa vez afirmou que o cristianismo morrera na cruz com Jesus, visto sua figura central ter ruído perante o poder político da época. O calendário litúrgico então nada mais seria que uma estratégia cristã para manter a história sagrada de Jesus Cristo sempre viva; não é à toa que a experiência religiosa do cristão está assente na imitação de Cristo, sobre a repetição litúrgica da vida, morte e ressurreição. Atribuir ao Cristo o tom mítico não estaria, de acordo com a idéia primeira, desconstruindo-o, mas justificando tamanha penetração histórica que sua figura alcançou. A idéia de carisma histórico apenas tende, então, a ser desconstruída.

Um ponto que justificaria este elevado grau de discussão acerca da figura de Jesus se explica pela própria forma como surgiu o cristianismo, fruto de decisões políticas historicamente comprovadas; cristianismo este que foi moldado em torno de elementos e simbologias que permeavam os cultos religiosos de então: a instituição do 25 de dezembro como data de seu nascimento, por exemplo, é a mesma data em que os pagãos romanos comemoravam a divindade solar (Sol Invictus).

O mito do Cristo, o Messias, teria surgido, é verdade, bem mais anterior a esse fato político e histórico: é fato bíblico, aquele apregoado pelos profetas do Antigo Testamento que já clamavam pela vinda de um Salvador, que resgataria o povo de Moisés em tamanhas atribulações, visto historicamente como um momento de perda da hegemonia israelita do Oriente.

O Jesus faria uso desses clamores proféticos para erguer sua figura política em torno de uma nova visão de mundo, crítica perante os poderosos, eleita pelos pobres, grande massa social da época, visão esta que seria vista mais tarde como ameaça ao poder do Estado Romano a ponto de merecer uma morte na cruz. Sim, o Jesus mais crível é esse revolucionário que tinha interesse num estado em que todos não padecessem da ganância, do ódio pelo outro - duas características totalmente subvertidas na contemporaneidade com todo o gosto das igrejas pelo dinheiro dos fiéis ou as corriqueiras práticas de incentivo à perseguição e ao preconceito no seio de alguns sectarismos do cristianismo.

Uma morte na cruz fez cumprir todas as sentenças proféticas, o consagrou, senão para todos, mas para alguns, os seus apóstolos, os quais levariam as palavras de um Cristo ressuscitado, demarcando os alicerces do que mais tarde seria o pilar para a construção de um movimento cristão que eternizasse sua figura. Sem a decisão política tomada, a figura de Cristo seria resumida a de um profeta como outros do Antigo Testamento.

A figura de Cristo enquanto mito cristalizou-se, ganhou forma, visto que está viva e presente em nossa sociedade, transformou-se mesmo em ideologia, com seguidores aos milhares, e as igrejas, tornadas centros de formação em massa em torno de suas idéias, repito, em grande parte, deturpadas. Tanto é ideologia que todos os credos cristãos fecham-se perante uma possível discussão do Jesus humano, político e de certa impõe aos seguidores uma visão linear, desprezível de perguntas acerca do fazer histórico; criam-se dogmas, eclodem a intolerância e a perseguição, como há muito já figurou e aqui-acolá se mascara nos espaços religiosos.

Também nesse aspecto a figura de carisma histórico esfacela-se, seus ensinamentos são deturpados perante interesses alheios, sejam os que visem ao capital, seja aos que visem comodidade covarde perante as misérias humanas. A figura de Cristo com tal, sob viés histórico, constitui-se, pois, não pelo caráter de seu carisma, mas pela gama de interesses que rondam sua figura. Ao estabelecer nele, enquanto divindade, o poder de remissão dos pecados, de salvação e de vida eterna, o dogma cristão aguça interesses humanos em prol de perpetuar o caráter divino a serviço de mazelas sociais como a intolerância, ignorância perante a realidade, comodidade perante as desgraças humanas. O Cristo que se perpetua é ícone contrário dele mesmo, é símbolo das relações de poder, força motriz da engrenagem social; do amor que tanto pregou o que resta?


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