Vulgata romântica

Johann Henrich Füssli

Ao martirológio dos suicidas me junto eu
Por drama por tolice estou
O infortúnio, a fatalidade dos desgraçados
Arraigam a pele, come a carne humana

Bate o coração morto-vivo num peito inerte
Dum homem abatido pelos seus ideais
Três ou quatro razões
Capazes de levar-me desse chão
Ao abandono voluntário da existência

Que resta de mim em essência
Tão poucas razões travadas num colóquio constante
Entre felicidade e infelicidade dum pobre diabo
Que raro adega a ter de voltar a cabeça
Ao estrondo seco dum tiro
Esmigalhando um crânio com prazo de validade corrido

A vida acabou-se num fialho de sangue
Desfez-se o homem audacioso e o homem paciente
Eles eram prova de qualquer coisa
Nomeadamente de um sentido:
A ausência dele


* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

Quando Borges era Giorgie

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse