Dora Ferreira da Silva


Há duas coisas que como acadêmico de Letras tenho vício, duas não, três: da biblioteca, fuçar o que me pareça novidade, conhecer daquilo que ninguém ainda falou - pelo menos pra mim; da internet, buscar leituras interessantes sobre literatura (diria que semelhante atividade ao primeiro vício) e, por fim, ler - uma reunião dos dois outros vícios.

Recentemente tenho começado alguns incursões pelo universo poético, colocando por um instante a prosa na estante - se bem que não funciona bem assim, há mesmo um intercalar de prosa-poesia. Mas, o fato é que a metade maior do tempo tenho eu ido por esse universo poético, resultado de um minicurso que irei ministrar com minha amiga Monick aqui no curso de Letras, acredito que em setembro.

Pois bem, somando-se estas duas atividades, os vícios e o estudo da poesia para o minicurso, encontro com uma obra de uma escritora, Dora Ferreira da Silva, uma poeta diria, "de mão cheia" e uma poesia deliciosa.




A POESIA DE DORA FERREIRA DA SILVA*

“Nós é que damos sentido ao tempo, e buscamos fazer o melhor nesta fração de tempo que é a nossa vida aqui”
(Dora Ferreira da Silva, em entrevista a Gilberto Kujawski e Hermes Nery, em 1989)

Três vezes ganhadora do Prêmio Jabuti por sua poesia, premiada pela Academia Brasileira de Letras por sua Poesia Reunida, tradutora de autores como Rilke, Saint-John Perse, San Juan de la Cruz, Hörderlin, T. S. Eliot, Valéry e Jung, admirada e elogiada por nomes de relevo como Vilém Flusser, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Cassiano Ricardo, Euryalo Cannabrava, Gilberto Kujawski, Nogueira Moutinho e Gerardo Mello Mourão, ensaísta que colaborava com diferentes jornais – essa era Dora Ferreira da Silva.

Nascida em Conchas, São Paulo, no dia 1º de julho de 1918, Dora foi casada com o filósofo Vicente Ferreira da Silva, união muito profícua – a casa deles, na rua José Clemente, se tornou um centro irradiador de cultura, onde muitas reuniões com intelectuais, poetas, artistas plásticos, religiosos e professores universitários aconteceram. A respeito destas reuniões, disse ela em entrevista a Donizete Galvão:

“Tudo era muito informal, sem periodicidade. Juntavam-se as pessoas mais díspares e as coisas aconteciam espontaneamente. Muitas vezes, o Vicente fazia conferências ou lia parte dos seus escritos (...). Os poetas liam seus poemas (entre outros, Carlos Felipe Moisés, Rodrigo de Haro, Roberto Piva e Rubens Rodrigues Torres Filho nos anos 60). Ouvíamos música (...). Passavam por ali professores vindos da Europa.”

Destes encontros nasceram duas revistas bastante expressivas: a Diálogo, fundada por Vicente, Dora e Milton Vargas, em 1955, que teve uma grande repercussão, com participações de Haroldo de Campos, Mário Chamie, Heraldo Barbuy, Ruy Apocalypse, e traduções de Dora de grandes poetas como T. S. Eliot e Novalis. Esta revista contou com 16 edições. Destacamos a edição de número 8, por ser a primeira revista brasileira a dedicar um volume especial sobre a obra de Guimarães Rosa, em novembro de 1957.

Já a revista Cavalo Azul, mais voltada para a poesia e a literatura, com 12 edições, foi idealizada por Dora dois anos após a morte precoce de Vicente, em um trágico acidente automobilístico. Cavalo Azul – nome inspirado nos cavalos etruscos que conduziam as almas para o mundo dos mortos – teve colaborações de Anatol Rosenfeld, Vilém Flusser, Clarivaldo Prado Valladares, Theon Spanudis, J. C. Ismael, Péricles Eugênio da Silva Ramos, entre outros, e serviu para Dora divulgar sua poesia em um círculo mais amplo, assim como a de outros poetas do mesmo período.

Outra presença constante foi a de Agostinho da Silva, escritor português exilado no Brasil pelo governo Salazar, com quem o casal Dora e Vicente manteve estreita amizade. Sobre ele, afirmou: “Agostinho fundou diversas universidades no Brasil, deu aulas na Universidade de Brasília. Era um animador cultural. Conhecia pessoas do mundo inteiro. Os diálogos dele como Vicente começavam cedo e iam até a noite”. Agostinho foi um grande colaborador da revista Cavalo Azul.

Afeita a uma vida mais reservada após a viuvez, Dora Ferreira da Silva continuou com suas obras de tradução e suas poesias. Sua tradução das Elegias de Duíno, feita quando a poeta tinha apenas 28 anos, lhe valeu numerosos elogios da crítica. Este livro mereceu diversas reedições, sendo a mais recente a de 2001, pela editora Globo. Incentivada por amigos, publicou seu primeiro livro de poemas, Andanças, que compreendia sua produção poética entre os anos de 1948 a 1970, em edição própria. Com ele recebeu seu primeiro prêmio Jabuti. É dele o poema que segue abaixo, um dos mais elogiados por seus críticos:

Nascimento do poema

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

Em seguida vieram Uma via de ver as coisas (1973), Menina seu mundo (1976) e Jardins/Esconderijos (1979). Em todos, as temáticas e características que viriam marcar sua obra poética são expostas: a musicalidade de seus versos, a predileção pelas formas livres, o pensar poético, de que fala Dante Milano – um pensamento permeado pela emoção, pelo espanto e pelo sentido do sagrado.

O imaginário da poeta está intimamente imbricado com a Grécia e o Mediterrâneo, fontes inspiradoras não só por estarem relacionadas com as origens da poeta e da própria poesia, mas também por sua força arquetípica, descoberta por Dora ao envolver-se com a tradução das obras de Carl Gustav Jung – psicanalista suíço que trabalha com novos conceitos, como o de inconsciente coletivo e sincronicidade. Esta nova influência é perceptível em suas novas obras: Talhamar (1982) – menção honrosa do Pen Club –, Retratos da origem (1988) e Poemas da estrangeira (1996), este último ganhador de seu segundo prêmio Jabuti. Neles, como comenta Constança Marcondes César, na fortuna crítica que acompanha sua Poesia completa, estão os temas recorrentes na obra de Dora:

“... o quotidiano e o pássaro, a música, o jardim são, em sua poesia, metáforas da transcendência; o feminino e os retratos do humano apontam, na sua multiplicidade, para os arquétipos fundadores, ensinado-nos Uma via de ver as coisas; a montanha, por sua vez, é apelo à verticalidade existencial, o espaço sagrado por excelência, onde se dá, para a autora, a imersão na interioridade e adesão ao cósmico”.

Limitar a poesia de Dora Ferreira da Silva a correntes literárias é difícil. Contemporânea de Vinicius de Moraes, Manoel de Barros e Gerardo Mello Mourão, e enquadrada ora na geração de 45, ora na chamada “poesia feminina”, a obra da poeta não aceita facilmente classificações. A respeito disso, afirma Donizete Galvão:

“... penso que Dora é livre demais para qualquer um desses rótulos. Embora muitos leiam-na desatentamente, sua poesia não tem nada de intuitivo, de derramamento emocional ou falta de rigor. A poesia de Dora é toda pensada já que ela pensa poeticamente. A sua razão é a razão poética (...)”.
É em nome desta “razão poética” que a poesia de Dora se concretiza, aproximando-se da música, irmã da poesia. Isto fica claro em seus Poemas em fuga (1997), em que os poemas da primeira parte do livro recebem títulos de andamentos musicais, e em que podemos perceber uma atenção especial a Mozart. O panteísmo que permeia suas obras adquire maior vigor em Hídrias (2004), seu último livro e terceiro prêmio Jabuti, recebido em 2005. Neste livro, em bela edição da Odysseus, a poeta volta a suas origens mediterrâneas, dando vazão a seu acervo imagético e arquetípico, como aponta Luiz Alberto Machado Cabral, na apresentação desta obra:
“Assim como Hölderlin não via os mitos gregos como uma fonte de inspiração literária, mas como percepção concreta do sagrado, cujo intérprete é o `vate inspirado´, para Dora Ferreira da Silva o poeta é um visionário, um agente de forças invisíveis e desconhecidas, que tem a possibilidade de ver aquilo que os outros não conseguem; que sabe, no entanto, que sua arte praticamente não lhe pertence, uma vez que depende da inspiração.”

O ano de 2000 foi muito significativo quanto à repercussão da obra de Dora: ela conquista o Prêmio Machado de Assis de Poesia, da Academia Brasileira de Letras, por sua Poesia Reunida, editada pela Topbooks, consolidando a iniciativa de legar às novas gerações a obra de uma poeta que fundou em sua casa um Centro de Estudos de Poesia e que durante mais de 50 anos dedicou-se ao fazer poético. Também neste ano a poeta participa da série “O escritor por ele mesmo”, produzida pelo Instituto Moreira Salles, recitando alguns de seus mais belos poemas.

Dora Ferreira da Silva faleceu aos 87 anos, na tarde do 6 de abril de 2006. Seu último trabalho foi publicado postumamente pelo Instituto Moreira Salles, na edição dos Cadernos de Literatura Brasileira dedicada a Guimarães Rosa, que freqüentou a residência do casal, quando esteve em São Paulo, na década de 50, e com quem manteve correspondência. O acervo pessoal de Dora encontra-se desde 2006 sob a responsabilidade da Biblioteca, na sede do IMS, em São Paulo, onde está em processamento técnico.
É em homenagem à obra desta importante escritora, que nos deixou há um ano, que a Biblioteca do Instituto Moreira Salles presta esta homenagem. Sempre fiel a suas inclinações místicas e poéticas – José Paulo Paes a vê como um caso de hierofania, por sua poesia vir permeada sempre pela “manifestação do sagrado” –, é assim que Dora Ferreira da Silva define a si e a poesia:

“Acho que o papel do poeta é parecido com o daqueles que levam a tocha na Olimpíada. Mesmo que o mundo esteja dessacralizado, temos que acreditar que a vida é forte, transforma-se e cria novas saídas. Penso na imagem de uma flor brotando nos interstícios de uma pedra. Acredito nas diversas manifestações do divino, no anima mundi. Temos que viver este não-ser, esta noite, esta dor como uma passagem. A fidelidade de cada um a si mesmo é o que se pede. Dar o pouco que se tem, ser fiel à sua voz interior, é o que se pede aos poetas na tentativa de suprir essa carência dos deuses.”


* Texto do site do Instituto Moreira Salles.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

A ignorância, de Milan Kundera

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017