Euclides da Cunha

 


Em 1902 quando é lançado Os Sertões, há um sobressalto nos meios literários e políticos brasileiros. Euclides da Cunha vinha lembrar a existência de uma realidade nacional - o outro Brasil, pobre e atrasado, do interior - que as nossas elites, fixadas no Litoral e voltadas para a Europa, em sua maioria desconheciam, enquanto a minoria preferia ocultá-la de si mesma, para não perturbar a tranqüilidade artificial de que gozava nos grandes centros, especialmente o Rio de Janeiro. Brutalmente, como às vezes era de seu feitio, contando o que fora na realidade a campanha de Canudos e o aniquilamento dos seguidores de Conselheiro, expunha sem meias palavras todo o drama do desamparo e do atraso de que eram vítimas as populações do sertão, ou dos sertões, como ele preferia dizer. Às elites do Litoral, que consciente ou inconscientemente teimavam em desconhecer, não o drama apenas, mas até mesmo, às vezes, a própria existência das populações do interior nordestino, Euclides mostrava como o seu "Livro vingador", as penosas condições em que elas viviam.

E tudo isto numa linguagem de rara beleza, que fugia totalmente dos padrões literários da época: pontilhada de neologismos, de termos técnicos e científicos, de arcaísmos, numa construção pouco ortodoxa - Joaquim Nabuco chegou a dizer que Euclides escrevia com um cipó - mas original, vibrante, apaixonada, sedutora. Numa sociedade de bacharéis, o engenheiro Euclides seduziu a todos com a sua mistura bem equilibrada de formação matemática, agudo senso poético, sólidos conhecimentos em botânica, geografia, antropologia, sociologia e economia. Na morna sociedade literária do começo do século no Brasil, Euclides veio provar - como observa com propriedade Gilberto Freyre - que o estudo e o trabalho metódicos e sistemáticos não são incompátiveis com o escritor de talento. "Neste particular - diz Gilberto Freyre - ele pertenceu ao número dos Rui Barbosa, dos Joaquim Nabuco, dos Machado de Assis. Em vez de ter valorizado a tradição do escritor boêmio e improvisador, valorizou a outra: a tradição do escritor homem de estudo. A do escritor homem de trabalho. Com o que prestou um serviço imenso à cultura nacional, vítima, ainda hoje, do mito que associa ao escritor de gênio às boemias do café e às bebedeiras nas cervejarias."

E isto na época em que, com raras exceções, os nossos homens de letras, se não acreditavam em regra geral numa inspiração - por demais piegas - haurida nas mesas de café ou cervejaria, evitavam pundonorosamente ou achavam dispensável o contato com certas ciências que poderiam aparecer-lhes "bárbaras". Um espírito científico como o de Euclides, que fosse ao mesmo tempo um poeta - no sentido mais amplo da palavra - parecia àquela época um contra-senso. Daí, entre outras razões, o choque provocado por ele. Mas a sociedade literária de então se rendeu - e nesse ponto é indispensável fazer-lhe justiça -, recebendo-o com generosidade, com entusiasmo mesmo, numa atitude em que se descobrem insuspeitados traços de maturidade, pela consciência de que, afinal, era necessário alargar os horizontes das nossas pobres letras, que oscilavam entre o gênio de Machado de Assis, o valor de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José Veríssimo, e alguns outros, e um monte de poetrastos e de romancistas medíocres ou, no máximo, circunstanciais, menores.

Mas quem é afinal esse Euclides da Cunha que chocou e encantou os meios literários e políticos do Brasil, em 1902, e que até hoje, todos - os que leram, os que releram, os que não leram, os que "deram uma olhada por cima", os que não passaram de alguns trechos de antologias - concordam em que é um escritor genial, mesmo quando acham seu estilo difícil, tortuoso, torturado? Quem é esse Euclides que vemos nas velhas fotografias - reproduzidas em grande parte das edições de seus livros - franzino e de olhos esbugalhados, como um menino assustado diante da grandeza misteriosa e trágica da vida? Quem é esse Euclides que, escritor coberto de glória não se acomoda e - explorador na grande linhagem de Stanley e Livingstone - parte, numa expedição perigosa, à procura das cabeceiras do rio Purus, nos confins da Amazônia, buscando ao mesmo tempo a delimitação exata da defesa de nossas fronteiras e a elaboração do seu segundo "Livro vingador", dessa vez a defeza dos seringueiros: o seu Um paraíso perdido, irmão de Os sertões, que não pôde concluir? Quem é esse Euclides, que viveu uma curta, errante e atormentada vida de apenas 43 anos, terminada num defecho trágico?

Pois bem, Euclides nasce em 2o de janeiro de 1866, na Fazenda Saudade, município de Cantagalo, Rio e morre assassinado no dia 15 de agosto de 1909 no Rio. Órfão de mãe desde os três anos de idade, foi educado pelas tias. Freqüentou conceituados colégios e quando precisou dar continuidade aos seus estudos estudou na Politécnica e, depois, na Escola Militar da Praia Vermelha.

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Mais sobre a biografia de Euclides visite o site Releituras ou o site da ABL dedicado ao escritor. Para ir ao Releituras CLIQUE AQUI; para ir ao site oficial do escritor CLIQUE AQUI.

Boa parte do texto acima é uma transcrição ipis literes da introdução do livro biográfico sobre Euclides da Cunha de Lourenço Dantas Mota. Este livro faz parte da coleção - é o volume 11 - A vida dos grandes brasileiros, publicada pela Editora Três em parceria com a ISTOÉ.

Comentários

Xavier disse…
Escritor de mão cheia mesmo. Eu não falo nada porque ainda preciso me ater à obra de Euclides.

Força, meu caro.

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