Dos fins do dia em que a lua sobe mais cedo




Dos fins do dia em que a lua sobe mais cedo
Sempre voltei para casa assim como sol
E deixei me embalar nas linhas tênues
Ou oblongas dum verso

Como colecionador de sua humildade
Julgo-me na ausência da trama
De fama deserta
Esquecido no meio dum inverno
De olhos preto-e-branco
Jogado à distância
Da ânsia do tempo

Os olhos de insônia a me vigiar
Olhos de menino assim
Voam de lance em lance no relance do tempo
Cicatrizado naquelas sacolas de plástico velhas
Presas nos fios da memória
De ruas estreitas descalças descobertas ao sol

Na minha genealogia secreta
Crianças empoeiradas do sertão
Riscam meu pensamento e
Jogam no chão nu seco
As palavras de pedras que erguem meu poema

Ancorados na minha memória
Pendurados no tempo
Encontram-se uma grande família
Guiada pela imaturidade infantil
Encantada com o sal doutras terras tenras
Desfeita na meninice delas na juventude minha
Perdida na mesma rua de sacolas

Com essas mesmas memórias velhas
E já apodrecendo num indiscernível enredo
O que se tem de jovem em mim
Perde-se na fatalidade de vidas reais e falsas
Numa repetição infinita doutros eus
No cenário estrangeiro dum poema

Sem falar com ninguém
Agarrando-se e alimentando-se
Na mesma alma-teta
Na mesma calma pasma
Das linhas longas dum verso

Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

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Boletim Letras 360º #239