PCN’s e ensino de Leitura

Por Pedro Fernandes

Diante de tantas discussões que perpassam acerca do ensino de Língua Portuguesa uma delas é o tocante ao ensino de leitura. O objeto desse artigo é estabelecer algumas concepções e encaminhamentos em torno dessa questão.

Sobre a leitura, concordo com o pensamento teórico de Kato, uma das estudiosas da questão quando a autora aponta duas grandes posições e as relaciona com dois tipos básicos de processamento de informação: um deles o processamento “bottom up” ou ascendente, centrado na visão estruturalista da linguagem que entende o texto como sendo único portador de sentidos, de modo que o leitor não é concebido como sujeito ativo, cabendo a ele apenas a função de descobridor do significado do texto. Para essa concepção o sentido estaria preso às palavras e às frases, numa dependência direta da forma, tendo em vista que a concepção estruturalista vê a leitura como um processo instantâneo de decodificação de letras e sons e a associação destes com o significado, fazendo uso das palavras de Kato em sua obra “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística”.

Acerca do outro, interessante colocar aqui, o “top down”; este, fundamentado nos aportes teóricos da psicologia cognitiva opõe-se à concepção anterior: aqui, o sujeito leitor é aquele que, diante dos dados do texto, tem a capacidade de acionar seus conhecimentos de mundo para interpretá-lo. O processo é, pois, não-linear, é analítico, é dedutivo e percorre todo o corpo do texto, nos seus elementos pré e pós-textuais.

Associando as duas visões, “bottom up” e “top down”, Kato apresenta-nos numa outra obra sua, “O aprendizado da leitura”, o que para ela seria o leitor ideal ou o bom leitor. Este seria aquele que é capaz de confrontar os dados do texto apresentado percorrendo as marcas de seu autor, com conhecimentos prévios socialmente – os chamados conhecimentos de mundo – a título de conseguir constituir o sentido do texto num processo interativo texto-leitor-autor. Dessa forma o sujeito leitor é ativo porque é dele a tarefa descobrir o sentido do texto e não é só isso, mas também opinar, inferir, criticar, jogar com os sentidos.

Nos Parâmetros Curriculares Nacional de Língua Portuguesa – PCN’s – a concepção de leitura delineada é uma variante dessa visão interacionista tendo seus fundamentos ancorados na psicologia cognitiva – a ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento lingüístico –, na psicolingüística – disciplina que compreende o estudo do sistema lingüístico adquirido (a gramática), dos métodos de aquisição desse sistema, e dos modelos de percepção e locução – e na sociolingüística – que ancora os estudos lingüísticos, antropológicos e sociológicos que tratam dos aspectos sociais do uso da língua, especialmente das variações lingüísticas que se dão no interior de um grupo, conforme as diferentes posições, funções ou circunstâncias dos indivíduos ou dos subgrupos de que estes fazem parte. Remontemos, então, a definição de leitura proposta nos PCN’s a título de reforçar essa afirmação: “A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que se sabe sobre linguagem”. Este é um conceito do PCN de Língua Portuguesa do ensino fundamental menor, 6º a 9º ano. Mais adiante reforça, “Trata-se de uma atividade de que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem os quais não é possível proficiência." Difere da postura interacionista no por acrescentar o viés sócio-histórico, que considera a linguagem além do caráter interacionista, mas algo portador de historicidade, uma vertente dos estudos sociolingüísticos, a sociointeracionista.

O que podemos recuperar em toda essa circularidade discursiva é que toda essa nova forma de ver a leitura já significa um grande avanço no tocante ao seu ensino na sala de aula. O ensino de leitura pode até ainda não ter absorvido dessas discussões reais incursões e/ou transformações no tocante às diversas questões haja vista ser muito comum que a leitura na sala de aula ainda se constitua numa obrigação ou simples forma de passatempo. Mas quando essas discussões ultrapassam o ambiente acadêmico, como se pode perceber, não é mais somente a Kato ou outros teóricos ou um leitor de suas teorias que discutem a questão, mas quando esta tem se transformado em preocupação pública, pelo menos é o que se imagina quando se ver figurar num documento oficial conforme são os PCN’s, há algo de interessante acontecendo. Isso é positivo.

Para fundamentar essa discussão podemos abarcar isso num questionamento, o de que, “Quais as reais mudanças ocorrem após essas discussões ganharem esse caráter?”

As atividades de leitura sugeridas para trabalhar textos em sala de aula que reflitam o mundo dos sujeitos discentes já é uma nova possibilidade que se avulta no horizonte da questão e que podemos utilizar aqui como resposta a esse questionamento. A inserção do texto enquanto objeto de ensino de leitura sendo referendada como posição proposta pelos Parâmetros é algo de importância porque insere no universo do professor de língua materna essa preocupação ou pelo menos, quem sabe, o despertar para a questão.

O que, no entanto, preocupa ainda é perceber que as atividades de leitura como propostas pelos PCN’s sejam recebidas pelos professores como uma obrigação. E aí o estudo do texto acaba por ficar restrito ainda àquela visão unívoca e mecanicista da leitura enquanto prática de decodificação.

Basta que tomemos nosso contexto escolar onde é muito comum que o livro didático, por exemplo, constitua modelo único para a leitura em sala de aula. Sabendo-se como o livro didático é portado, o espaço de diversidade de sentidos buscados da quantidade ampla de textos como propõe os Parâmetros, acaba por ficar atrofiada; o livro didático atrelado às cogitações ideológicas do professor acaba, muitas vezes, por ganhar essa amplitude da produção de sentidos, transformando os alunos em leitores induzidos, racionais perante o texto. Aliás, professor e aluno acabam mesmo sendo leitores neutros, meros reprodutores do saber institucionalizado há tempos no discurso escolar.

Diante de todas essas discussões alunos e professores se sentem sujeitos anulados de suas práticas sociais. Admitindo que a leitura enquanto processo que envolve a linguagem e a linguagem enquanto fator social não é concebida no seu real sentido, que é a construção de sujeitos leitores capazes de divagar seguramente pelo mundo da leitura, o real objetivo como proposto nos PCN’s acaba por se transformar em utopia. E tudo acaba se transformando num mundo faz-de-conta, onde o professor faz de conta que ensina a ler e incute o gosto pela leitura e o aluno faz de conta que aprende.

* Este texto foi publicado no Caderno Domingo, do Jornal De Fato em 22 de junho de 2008, p.14.

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