Onze filmes que têm um dedo de Arthur Miller

Arthur Miller, Marilyn Monroe e George Kukor nos estúdios de Adorável pecadora. O dramaturgo terá participado no roteiro do filme, mas não teve seu nome incluído nos créditos.

Não é necessário sublinhar a grandiosidade de Arthur Miller como dramaturgo; a extensa quantidade de textos publicadas na mídia ano a ano e leva dos mais importantes galardões que ganhou são provas suficientes de que sua obra é brilhante. Mas, não foram apenas as peças para teatro, alguns contos, romance e memórias o que escreveu o estadunidense.

Desde cedo, Arthur Miller manifestou interesse pelo cinema e fez ponta como ator (O justiceiro, do amigo Elia Kazan), noutros, apesar de haver trabalhado não apareceu (Adorável pecadora, de George Cukor), adaptou, produziu alguns roteiros, e, claro, seu envolvimento com Marylin Monroe, com quem ficou casado por cinco anos, são exemplos dessa proximidade sua com a sétima arte. 

Por isso, decidimos preparar essa listinha de alguns filmes que têm algum dedo do dramaturgo. Aqui estão desde as produções mais famosas e algumas não tão conhecidas do público brasileiro porque estiveram restritas a algumas mídias, como Playing for time, título produzido apenas para televisão.

1. Resgate de uma consciência, de Irving Reis (1948): este foi o primeiro texto de Miller adaptado para o cinema ("Todos eram meus filhos"), embora o autor seja sempre lembrado não por ele, mas pela escrita do roteiro de Os desajustados. A crítica costuma analisar o filme como uma peça mais contida em relação ao texto original, mas o tom de crítica à participação dos Estados Unidos nos conflitos mundiais colando em risco vidas do próprio país está aí impressa. Burt Lancaster vive um soldado que descobre as falcatruas armadas por seu pai, responsáveis pela morte de mais de vinte pilotos estadunidenses durante a Segunda Guerra Mundial; Joe Keller é um empresário bem-sucedido e dono de uma fábrica situada numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos: é ele o delatado pelo filho ao governo americano com a acusação de ser um dos responsáveis em vender componentes adulterados para as forças do governo, processo do qual foi absolvido, enquanto seu sócio, está preso porque carregou toda a culpa pelo crime. O drama se arma no envolvimento amoroso de ambos os filhos, o de Joe e a filha do sócio.

Cena de A morte do caixeiro-viajante (1951)

2. A morte do caixeiro-viajante, de László Benedek (1951): o título é de uma das peças de maior sucesso de Arthur Miller – basta lembrar que da estreia a saída de cartaz foram 742 apresentações, com muitas reprises de sucesso dentro e fora dos Estados Unidos. Foi com essa peça que Miller ganhou o primeiro Pulitzer e muitos outros prêmios importantes na época. Essa versão para o cinema é bastante fiel ao texto do autor e preservou até alguns nomes do elenco original como Mildred Dunnock, Cameron Mitchell, Howard Smith e Don Keefer.  Conta a história de Willy um vendedor de sessenta e poucos anos que vê sua vida familiar e profissional sucumbir à revelia de sua ilusão de grandeza. Willy crê representar o típico herói do sonho americano, por mais que o relativo fracasso de sua vida deponha em contrário. A ambígua relação de dependência com o filho Biff, no qual projeta o sucesso que ele próprio gostaria de ter alcançado, é o principal conflito da trama. Este é um drama devastador sobre a ética do sucesso, ou a crítica mais fervorosa de Miller sobre o American Dream. A peça ganhou um filme também para a TV na Alemanha em 1985 com direção de Volker Schlöndorff e Dustin Hoffman no papel principal.

3. Os desajustados, de John Huston (1960): o roteiro desse longa dirigido por um diretor que já tinha no currículo outras adaptações de grande importância, tal como a leitura de Moby Dick, de Herman Melville, foi escrito no ponto mais conturbado da carreira profissional de Miller e tem muito daquilo que vivenciava então. O dramaturgo escreveu o roteiro quando passava pelas crises matrimoniais com Monroe, que culminaram na separação no ano seguinte, e fez em homenagem a atriz que abrilhanta essa narrativa de uma mulher sensível à beira do divórcio com o cowboy Gay Langland por incompatibilidade de gostos: Roslyn, a personagem vivida pela atriz, não concorda com o trabalho de Gay que é pegar cavalos selvagens para transformá-los em comida para cachorro. O longa ainda reúne Clarke Gable e Montgomery Clift, compondo, assim, uma constelação para um filme que quando lançado fez grande sucesso. Os bastidores dessa produção serviriam a Arthur Miller na composição de um de seus últimos trabalhos, Finishing the Picture.

cena de Panorama visto da ponte

4. Panorama visto da ponte, de Sidney Lumet (1962): a peça encenada pela primeira vez em 1955, gira ao redor de uma família de imigrantes italianos que vive num bairro sob a Ponte do Brooklyn, numa comunidade pautada pelos códigos sociais dos sicilianos. A espiral trágica do estivador Eddie Carbone tem início quando dois parentes de sua esposa chegam da Itália e um deles se envolve com sua afilhada Catherine. A adaptação feita entre estúdios dos Estados Unidos, Itália e França confere um sotaque bastante original para esse conjunto de nacionalidades diferentes que se encontram na peça de Miller; este aspecto mais uma produção sem grandes ambições são elementos que se à primeira vista não favorecem à fama do filme respaldam o fato de ser esta a leitura cinematográfica que melhor pode capturar o espírito do texto de Arthur Miller.

5. O inimigo do povo, de George Schaefer (1978): o filme foi roteirizado por Arthur Miller a partir de uma peça de Henrik Ibsen, autor que terá influenciado muito na escrita de seus primeiros textos. É uma peça raríssima porque, apresentada nos Estados Unidos, teve apenas uma circulação mais no meio universitário. Mas, o leitor encontra o texto que deu origem ao roteiro para o filme no Brasil. Há uma tradução feita por Pedro Mantiqueira e publicada pela L&PM Editores. O texto de Ibsen foi publicado em Copenhague em 1882 e estreou no Teatro Nacional de Oslo em janeiro de 1883. Foi um texto de grande repercussão na Europa, sobretudo entre os escritores e leitores franceses. Na França, o a peça teve sua mais histórica apresentação em 1898 quando na época do processo Dreyfus. Lida pela crítica como uma obra-prima sobre as contradições humanas e a falência do indivíduo diante da unanimidade.

6. Amarga sinfonia de Auschwitz, de Daniel Mann e Joseph Sargent (1980): depois de quase já não despertar o interesse grande com que estreou no teatro, Arthur Miller viajou pelo mundo e numa dessas ocasiões esteve na cobertura dos julgamentos contra envolvidos no nazismo. Essa experiência de cunho jornalístico impressionou o dramaturgo e o influenciou bastante – alguns de seus trabalhos finais versam sobre o tema. Mas, este filme, apesar da proximidade com esse momento da vida pessoal de Miller não é de sua autoria; trata-se de um livro, The musicians of Auschwitz, de Fania Fénelon, que ele roteirizou para os diretores Daniel e Joseph. Trata-se de um drama sobre prisioneiras num dos campos de concentração mais tristes da história do nazismo que eram obrigadas a cantar canções para os outros prisioneiros que eram encaminhados para o extermínio. O filme foi produzido apenas para a televisão estadunidense.

7. Broken Glass, de Davide Thacker (1994): escrita por Miller, este foi o texto com qual foi nomeado ao Oscar no mesmo ano de produção da peça para a televisão. Aqui, o foco é a Nova York de final dos anos trinta; Philip e Sylvia Gellburg são um casal judeu que vive no Brooklyn os últimos dias do mês de novembro de 1938 e trabalham para uma hipoteca e, do nada ela é tomada por paralisia da cintura para baixo, caso que será investigado pelo companheiro que, suspeita ser este um caso psicossomático. O drama se acentua quando, depois de uma discussão com o Philip sofre um ataque cardíaco; inválidos, os dois precisarão se redescobrir, ainda que a situação dele já não seja mais reversível.

cena de As bruxas de Salém



























8. As bruxas de Salém, de Nicholas Hytner (1996): este é talvez, o filme mais conhecido a partir de uma obra de Arthur Miller. Tem um elenco de peso e foi um dos seus maiores sucessos no teatro. Aqui, estão nomes como Daniel Day-Lewis e Winona Ryder. O texto recorre a um fato registrado nos anais da história de um vilarejo do interior de Massachusetts, quando um grupo de mulheres foram acusadas pela igreja local de estarem à serviço da bruxaria; o caso tornou-se uma febre que mexeu com todos os moradores do pequeno local. Na época quando a peça veio a lume, os Estados Unidos atravessavam um dos períodos mais controversos da sua história política: o senador John McCarthy comandava uma comissão com o interesse de promover outra caça, a nomes que estariam envolvidos com o comunismo. O próprio Miller foi convidado a depor e sofreu as sanções impostas pelo governo de seu país. A peça foi um adendo para tratar dessa questão contemporânea ao tempo de sua publicação. Mas o filme de Nicholas Bytner não foi a primeira adaptação: em 1957, o francês Raymond Rouelau filmou este texto a partir de uma adaptação de Jean-Paul Sartre; adaptação que foi rejeitada por Miller que acusou o escritor francês de transformar o texto numa peça de apelo marxista.

9. O crime que o mundo esqueceu, de Karel Heisz (1996): este foi o primeiro roteiro escrito por Miller desde Os desajustados. Novamente, aquilo que prevalece aqui é uma forte crítica ao modo de vida estadunidense, sobretudo a competição desenfreada, as desigualdades e a injustiça. O filme bebe na fonte da estética noir dos anos 1940 e 1950, pela maneira como todas as instituições sociais parecem corrompidas de alguma maneira. Aqui, o investigador Tom O'Toole trabalha com dois perigosos mistérios em sua carreira: um assassinato numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos; e o contrato de investigação de uma jovem e sedutora mulher que espera O'Toole provar a inocência do crime de um adolescente, quando ele descobre que o caso não é nada daquilo que autos indicam.

10. Éden, de Amos Gitai (2001): a produção israelense é uma prova de que a obra de Arthur Miller é bem recebida em toda parte do mundo. O texto é uma releitura de Homely girl e se passa antes da Segunda Guerra Mundial, quando os alguns judeus (os primeiros) se esforçam para retomar uma vida na terra sagrada. No texto do dramaturgo estadunidense, a história dedica-se a alguns anos da vida de uma mulher que tem em volta um marido que se mais à construção da nova cidade do que a ela. Amos Gitai, entretanto, não dá muito atenção à vida da personagem visto que se interesse se centra mais no pano de fundo histórico sobre os primeiros povos que deram início à reocupação da Palestina, o que vai, depois da guerra, resultar no Estado de Israel.

11. Focus, de Neal Slavin (2001): é até o presente o único romance de Miller adaptado para o cinema. Escrito em 1945, a narrativa é uma das primeiras a tratar diretamente de uma questão delicada: o preconceito contra judeus no famoso melting pot dos Estados Unidos, nação que sempre se orgulhou de acolher as mais diversas etnias ao longo da sua história. O texto de Miller é incisivo sobre as contradições no interior de uma sociedade multicultural. Newman, um gentio de ascendência inglesa, circula ileso por uma Nova York em que cada bairro encerra um grupo étnico diferente e a tensão, talvez justamente por isso, parece estar sempre latente e muitas vezes ela descamba para a violência: uma mulher hispânica sofre abuso sexual, o dono de uma loja é perseguido, tudo se passa ante o silêncio incólume de todos. E, tudo isso muda quando ele começa a usar um prosaico par de óculos e passa a ser confundido com um judeu. No filme de Slavin, essa personagem principal é vivida por William H. Macy e ele é um executivo de meia idade que há 20 anos trabalha com a seleção de pretendentes a um emprego numa grande firma; o drama se acentua quando fica receoso em contratar uma mulher, Gertrude, por julgá-la judia. O uso do óculos que o levará ser confundido como tal é espécie de revira-volta em prol da retificação da consciência da personagem ou uma poderosa metáfora sobre a necessidade de ver quando todos os outros já perderam a visão.



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