Minhas falas

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008


POLÍTICOS, POLÍTICOS, POLÍTICOS E (CONSCIENTIZAÇÃO, VOTO E MUSIQUINHAS)

Políticos brasileiros só podem ser mortos com estacas, água benta ou exorcismo realizado pelo próprio papa. A teoria mais popular diz que são orcs de Sauron disfarçados, enquanto outros defendem a idéia de que na verdade são primos pobres do Drácula curtindo a aposentadoria em um país tropical.

(http://desciclo.pedia.ws)

Aliada a toda utilidade surgem n's futilidades. A epígrafe acima foi coletada de um site, o Desciclopédia, que é na verdade uma enciclopédia criada pelos usuários da rede mundial de computadores, apenas para divulgar bobagens, conspirações e mentiras. A intenção de colocar uma epígrafe como esta em um artigo sobre política é plausível porque soa algo de verdade no fundo de toda brindeira; e tão pura, a verdade, que parte da boca do povo. No limiar de pensamentos como este duas conclusões perigosas se formam:

1. o povo brasileiro sente-se em crise com seus representantes. O controverso é o fato de ser desse tipo de eleitor o voto responsável pela eleição da dita classe de orcs ou parentes pobres do Drácula. A consciência do povo brasileiro ao que me parece encontra-se passando por um sério processo de sucateamento, assim como os ideais, enterrados nas valas do último movimento insulflado pelas massas, as Diretas Já.

2. essa crise representa uma ameaça ao direito conquistado a sangue e suor pelo povo brasileiro. Há mesmo quem afirme que esta esquisofrenia que varre as camadas da sociedade brasileira culmine mais tarde com uma elevada simpatia pelos anos de militarismo. E estes podem voltar a ocupar a cena política do Estado Brasileiro? Dificilmente. Julgo, desde já, tal hipótese falsa, haja visto sou daqueles que prefere acreditar que o Brasil, ainda que cambaleante, segue numa democracia com forte tedências a se consolidar enquanto tal.

Mas, proveniente dessas duas breves conclusões, é interessante ressaltar que, algo podereia (pode ainda) ser feito. O voto apesar de ser uma conquista e nossa maior arma se configura ainda numa arma de mira voltada para nós mesmos. Ainda sequer passamos a entender seu sentido, seu valor; faz-se urgentente, entendê-lo, conhecê-lo.

Não há necessidade nenhuma de retomar como foi sua conquista. Apesar de termos a memória curta, isso não é algo que se esquece assim tão rápido, na primeira curva do tempo. E valorizá-lo. Sim faz-se necessário uma supervalorização de nosso direito maior. E valorizá-lo não no sentido capital, da moeda, quando o sujeito vai lá e troca seu voto por dinheiro, prática descabida e ainda mais comum do sonha nossa vã Justiça Eleitoral; inclusive com práticas modernas intituladas "programas sociais".

Só poderemos virar a face da moeda de pensamentos acerca de nossos representantes como a que introduz este artigo quando da posse de um voto soubermos mirar no alvo certo, a partir do entendimento pleno de seu poder de fogo. Enquanto não seremos sempre surpreendidos com escândalos; estaremos muito em breve, se não nos conscientizarmos, vivendo num país entregue ao Deus dará, abandonado como barco sem rumo, se é que já não nos encontramos. Ainda assim acredito. Pelo menos prefiro acreditar que o voto ainda é nossa maior conquista e nossa maior arma contra os políticos. Pena que temos em nossas mãos uma arma que ainda não aprendemos a manuseá-la; talvez porque não nos foi entregue um manual de instruções. Ou será que que lutávamos sem saber em prol do que lutávamos? Algo porém é certo, não deixemos que essa luta caia no esquecimento. Deveria mesmo existir um feriado, dia santo, sei lá, em prol dessa conquista; só para reavivar nossa consciência para perceber que não se pode brincar de política mesmo que os nossos políticos briquem. Por falar nisso, próximo ano teremos novamente eleições. Os eleitores mais atentos já devem ter percebido que as musiquinhas já começaram a pipocar nos meios de comunicação em massa. Já está na hora, portanto, de se ligar e não ficar só na musiquinha pra lá, na musiquinha pra cá, e depois, oh...



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Esta não é a tônica deste blog, mas o momento político pelao qual vive (sucumbe) esse miserável país pede isso; não dá para ficar em casa parado vendo do tudo pela TV.

Este artigo foi escrito no advento das musiquinhas de propaganda política; apesar de ter sido enviado para vários jornais locais, não foi publicado. Então que seja este mátir exposto aos olhos de algum leitor desprendido na rede mundial de computadores.

Apenas meus poemas

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008


Boca suja (fragmento)

in verso, poesis, in poesia, [re] verso

i'm f r a g m e n t a d o espartilhado

violentado por maiúsculas superiores

machine desejante

filho um cruzzamentto homofóbico e apocalíptico -

deus in diabo/diaboindeus

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Minhas falas

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Posto hoje neste blog mais um artigo publicado no caderno Domingo do Jornal de Fato, dia 17 passado.

Estudei e num aprendi português

Pedro Fernandes de Oliveira Neto

A aula de gramática deve implicar numa atuação participante de professor e alunos, movidos pelo desejo da descoberta científica. A ordenação dos achados é uma fase final no procedimento pedagógico.

(Ataliba Castilho)

Os estudos do francês Ferdinand Saussure (1857 – 1913) o fizeram considerado pai da Lingüística por ter redimensionado e ao mesmo tempo revolucionado as questões que se referem à língua e à linguagem. Nestes moldes, a teoria saussuriana será precursora de transformações diretas ou indiretas no que compete ao campo do ensino de língua materna. Ao dividir o signo em langue e parole, a Lingüística fundamentada em novas concepções passa a ser considerada inimiga ferrenha do tradicionalismo gramatical. Isso porque ela passa a considerar uma heterogeneidade lingüística, frente à homogeneidade pretendida pela gramática normativa. Então, a fim de se manterem na tradição a idéia é atirar granadas espalhando mitos de que a Lingüística concorda – e até apregoa! – com o uso da modalidade dita inculta. Aqui entra o espaço escolar como espécie de porta-voz, carro-chefe da visão dessa facção ou corrente terrorista. Ora, não nos é possível crer em tamanho despropósito, sequer sermos atraídos e concordarmos com ele!

A Lingüística encara o sistema lingüístico essencialmente como uma faculdade humana ou fenômeno humano ancorado num aspecto globo-social; ela enxerga a língua como instrumento, código do sistema comunicativo. E código heterogêneo, haja vista que no espaço da fala não se é possível usar de artimanhas das que usamos na escrita, a correção, a sistematização, a refacção. A partir de então não fará sentido algum considerar as querelas apregoadas nos bancos tradicionalistas das escolas tradicionais de que a língua é um sistema acabado, restrito, homogêneo e imóvel no espaço-tempo ou que ela constitua apenas somente numa gramática de leis e/ou normas, regras, e para surpresa nossa, até elas passam por transformações; afinal de contas a relatividade está em tudo, tudo é relativo.

A própria questão de variação/variedade lingüística é jogada como assunto passa-tempo. Ainda não se enxergou que a cada dia fica mais impossível carregar os esqueletos empoeirados que arrastam desde Aristóteles quando da formulação do primeiro conceito para substantivo. A língua materna não pode ser mostrada ou trabalhada como língua madastra-da-Branca-Neve, intocável, repreensiva, correta e repulsiva, uma vez assim posta é coerente ouvir dos alunos que Português é a língua mais difícil, a disciplina mais chata e que vão às aulas apenas para aprender a falar corretamente.

Modelou-se tanto o falar corretamente como objetivo próprio de se estudar Português que o sujeito usuário não mais se reconhece falante deste código lingüístico, mas sim caricatura obrigada a fazer uso daquele impresso nas páginas da gramática.

O professor gramatiqueiro transformou-se na mesma carga de adjetivos dada para o estudo de Língua Portuguesa. A arrogância de sentir-se dono das leis gramaticais ou até mesmo a própria língua em carne-pessoa contribui para que permaneça enraizada essa mitologia mundana fincada no pensamento brasileiro. Esse tipo de professor não cola mais; não cola mais também o mito de enxergar a língua materna como algo que se deve aprender para fazer uso.

Quando aqui chega, a pergunta que não quer calar mostra a cara: onde fica a concepção-mor de que a língua é instrumento de ação-comunicação? E mais, que outro papel de se fazer uso da língua, senão para agir e interagir com sujeitos alheios? Afinal somos seres sociais.

É vergonhoso ainda conscientizar futuros pilares sociais no erro de ser necessário um verdadeiro treino sistemático na escolinha taxativa e preconceituosa para se fazer o domínio pleno das artimanhas lingüísticas.

A questão é mais séria ainda: o ensino de língua materna ainda não conseguiu sequer embutir no estudante e usuário da língua o porquê, o quando e como deve estudar a Língua Portuguesa. Na realidade, os próprios professores se sentem meio que perdidos com estas questões.

E o mais preocupante é que apesar de todo o aparato teórico que disserta sobre o assunto e toda a formação que se temos para refletir questões desse tipo, continuamos portadores de olhos burro (uns dizem vítima do sistema) vidrados na falsa cara do ensino de Língua Portuguesa. Isso só será desfeito quando enxergarmos que é para os lados que as direções devem ser tomadas, noutras palavras, quando enxergarmos que o conhecimento lingüístico só se dará quando do estudo investigativo das diversas facetas da língua.

Não adianta carregar o peso duma gramática ou mesmo tê-la ambulante se sequer consigo distinguir aspectos textuais, por exemplo. Daí a tão importante necessidade de se arrastar para o epicentro das aulinhas de português, textos. Somente a variedade de gêneros prepara o indivíduo usuário da língua para uma posição crítica dentro de seu código lingüístico e o faz perceber que ele não é um estranho perante o blá-blá jurídico dum professor gramatiqueiro.

Precisamos é urgentemente incutir no espaço da sala de aula que o sujeito não se constitui em seu código lingüístico tábula rasa para ser moldado pelo professor da forma que ele considera correta. Isso frustra o aluno e esconde dele a riqueza do que temos na Língua. O usuário não pode ter a gramática normativa, querela que vigia, proíbe, pune, mas sim, como simples elemento de crítica, investigação e consulta.

Postular a língua culta como única é apagar as marcas históricas nossa; as marcas que, como usuários, imprimimos ao longo do eterno fluxo de desenvolvimento da riqueza lingüística. É algo primitivo e arcaico. Um estupro à identidade nossa, levando-nos a forjar um ambiente sistemático, repreensivo, repulsivo, um código lingüístico artificial, pobre. E antes de tudo, mascarar a beleza lingüística, expondo-nos como órfãos ou desmamados de nossa própria língua materna; criaturas portadoras de viseiras, distante do que se trata o verdadeiro ensino de Língua Portuguesa que é formar sujeitos críticos, ativos no processo de uso do código lingüístico.

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Apenas meus poemas

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Mais um poema. Este também foi publicado no site do Overmundo há tempo aí atrás.



No extenso horizonte sangue

no extenso horizonte-sangue
que desenha-se ao longe
enxergo-me nu. desnorteado. desordenado.
fugindo de mim no espaço.

e no vôo rasante
rasgo o céu diamante.
esbarro nas tintas d'aquarela-aurora.
por horas fico suspenso.
o globo corroendo minha coluna.
com seu peso.

desacordo.
enxergo dentro de mim.
minhas entranhas podres.
arranco-as fora:
fígado. baço. intestinos.
e poluo os oceanos.

pendente.
com min'alma nas mãos.
sou vil amante do caos.
da solidão.
de perto transmutado.
dilacerado. desfigurado.

no extenso horizonte-morte.
a escuridão escondeu minha face.
estou cego debatendo-me em trevas.
fugindo de mim no espaço.

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para ver o poema no original da publicação clique aqui http://www.overmundo.com.br/banco/no-extenso-horizonte-sangue

Apenas meus poemas

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Até agora apenas havia postado um único poema meu neste blog, logo qundo da sua criação; agora resolvi coletar os que já tenho publicado noutros sites e postá-los aqui, um lugar merecido, acredito. O primeiro que vem é este que foi publicado no site do Overmundo.



POEMA-CONTO DE SONHO-CABARÉ

na tarde sombria que alarde
ouço por baixo dos panos sujos, ensebados
de suor e gozo
os gemidos frenéticos
vindos do quarto ao lado.

parece uma ladainha
cantada, gritada em latim vulgar
ou um grito rasgado de rito
de ave-maria barroca.

e mais tarde
sob o desvario frenético
da última trepa da noite
como açoite aos meus ouvidos
a sirene de uma ambulância
e de carros de polícia
cercam o casebre
debruçado na beira da estrada
solitária e vazia.

alguma coisa comia meu pensamento
entre o entra-e-sai de meu órgão copiosamente
inebriado no orvalho do sulco vaginal.

a prostituta vizinha
que gritava e gemia
encontra-se nua e estrangulada
no meu pensamento.

quando de súbito acordo e recordo
mentalmente de nada,
passou,
um sonho,
uma polução noturna.

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publicado inicialmente em http://www.overmundo.com.br/banco/poema-conto-de-sonho-cabare

minhas falas

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008


Pingando neste blog mais um artigo publicado na revista Domingo no Jornal de Fato de domingo, dia 10 de fevereiro, ontem.


Num sei português

Um professor de Língua Portuguesa que possui um pingo de curiosidade pergunta no primeiro dia de aula aos seus alunos o porquê de se estudar Português. As respostas dificilmente variam; alguns responderão: “Ora, para aprender a falar!” Outros, “Pra ser gente!” Ainda outros, grande minoria: “Pra aprender a escrever corretamente.”

Em seguida ele faz outra pergunta, “O que os alunos acham de estudar Língua Portuguesa?” Aqui as respostas serão quase que unânimes em torno de que Português é ruim, chato. Só perde para Matemática. “Ou não, Matemática é bem mil vezes melhor.”

Essa historieta é para que possamos refletir acerca das multicaras do ensino de Língua Materna e os mitos que ainda rondam este ensino. Podemos deduzir de imediato que a situação do ensino de Língua Materna anda de mal a pior; tem-se, inclusive, uma nação insatisfeita com a própria fonte de comunicação e, além disso, incapaz de tomar as rédeas dessa língua e “brincar” com ela, assim como quando estou escrevendo um texto destes ou fazendo inferências em relação à leitura sua. E mais preocupante ainda, são portadores de uma carga de preconceito enraizada no “gene brasileiro”; enraizadas porque opiniões como estas são ouvidas desde crianças do Ensino Fundamental a adultos dos programas de alfabetização ou analfabetos.

A falsa sensação de que a língua portuguesa brasileira deve seguir um padrão é no mínimo pretensiosa, uma vez que esse padrão loca-se na escrita e não falamos conforme escrevemos. No processo de escrita é evidente que a língua expõe-se de maneira engessada. Na maioria das vezes, na escrita, fazemos uso do arranjo, disposição, escolha das palavras, das frases; buscamos encadeamento lógico – coerência e coesão – para que nossa opinião externada constitua sentido para o leitor. Temos a oportunidade de rever, refazer a organização dessas proposições apagando, riscando, rasgando o papel, refazendo o texto; tudo o que no instante da fala não temos chance.

E ainda, está longe de existir uma homogeneidade lingüística. Isso já dizia os lingüistas, desde o precursor Ferdinand Saussure. A língua que falamos constitui-se numa verdadeira colcha de retalhos; fazem parte vocábulos aos montes doutras línguas. Como podemos uniformizá-la? Não há essa possibilidade. A língua é algo que passa por transformações constantes e sutis.

O “pra aprender a falar” ou “português é muito difícil” são marcas de um desestímulo cultural imbricado historicamente nas raízes sociais. Num país como nosso a diferença entre pobres e ricos já é alarmante. E para dispersar ainda mais ambas as classes atribui-se à língua falada “o muito difícil” no pretexto de que os ricos batam no peito capacidades maiores de torná-lo fácil e, portanto, seus verdadeiros donos; tornando os pobres cabisbaixos diante da questão. Enxergamos aqui razões que vão além do marcar diferenças sociais, são razões mesmo de poder, a título de contribuir com a perpetuação dessas diferenças, bem como de uma sociedade ignorante, cega e acomodada.

Todas estas questões deságuam noutro porto: falamos errado, não sabemos português. Ao fazer essa assertiva rememoro uma cena que a Tv exibia num programa humorístico: “Pobre é raça ruim”, dizia, “tem pobre que para falar, precisa de tradutor, porque senão a gente não entende nada!” Ou mesmo ícones do chiste “brincam” com a fala dos que não possuem certo grau de instrução. Questões desse tipo só reforçam e perpetuam mitos e preconceitos em torno do uso da língua materna e se apresentam como marcas delineadoras de classes sociais entre pobres e ricos. A Tv, monopolista maior do poder de fala, incute-se dessa guarda ao bem simbólico que é a língua, não só ela, mas como a própria escola conforme explora Pierre Bordieu.

Entenderemos aqui o quanto que a língua é cara nossa, mas também cara do poder, fator social. Como consolo, enxergo que apenas como professores de Língua Materna, também guardiões desse bem simbólico, não devemos se restringir a apenas isso, mas somos bem capazes de rever tudo isso. Com vergonha enxergo que não demos conta dessa missão, ainda nos comportamos fiéis mantenedores disso tudo; ainda estamos presos a arcaica vigilância do código lingüístico. E parece que quando tentamos fugir, virar a mesa, um pan-óptico nos mira, nos cerca, nos cercea e nos convence com um simples mito da andorinha só não faz verão. Há, inclusive, professores de Língua Materna que afirmam que as aulas devem ser chatas porque Português é mesmo difícil.

E enquanto isso perdura o “num sei Português”. Talvez se encaixe aqui uma raiz do grande problema social brasileiro. Como gritar por direitos se nos mantemos acuados? Como gritar por direitos se diante de um “num sei Português” não conseguimos sequer mostrar quem somos? As respostas dos alunos para as questões que introduziram este artigo é uma maquete da sociedade brasileira; uma sociedade calcada nos mitos, de facetas políticas distintas – ricos e pobres – e acovardada como medo de falar. Somos repreendidos pela fala dos que têm voz e nos calamos mesmo nos poucos momentos que poderíamos fazer uso dela. São as mazelas expostas, nua e crua, tatuada na própria língua. É a cara do Brasil!

minhas falas

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008



A segunda parte do texto também publicado como o outro, no mesmo jornal Correio da Tarde, segue agora.

Mídia e sociedade [desconstruindo o sensacionalismo]

O artigo Mídia, BBB e sociedade despertou uma outra visão, necessária de ser exposta como inversamente proporcional àquela uma vez escrita. Enquanto afirmava que a mídia televisiva cumpre um papel comedido, estrito ou que ela comporta-se em prol do belo, do sensacionalismo e do espetacular, por isso só, fui levado a enxergar minha própria opinião sobre outro ângulo, a título de aventurar-se ainda mais nesse objeto de análise. Naquele artigo, a posição em que me coloquei foi na de sujeito enquanto ausente do objeto-mídia (em posição externa); aqui, pretendo vestir o avesso e analisá-lo como sujeito imbricado no conjunto de engrenagens que o comporta.

Basta que tomemos como afirmativa a necessidade de unir massas em torno de si em busca do elemento número um, a audiência, para percebermos que todas as emissoras sentem a necessidade de exibir as mesmas coisas, só que do ponto mais dramático, do fulcro, do furo de reportagem, da realidade escancarada e nua nas novelas (e é por isso que vêm os reallity shows) ou do inusitado, do trágico. É a exposição do cotidiano que dá audiência: paira o sensacionalismo. Explicam-se aí os índices globais para as novelas a Manoel Carlos ou jornais X. No caso dos jornais, quantas vezes não já nos deparamos com a mesma reportagem, praticamente, em determinada época do ano? (costumo mesmo dizer que só mudam os repórteres, o texto é paráfrase do antigo). A grande jogada, o grande furo encontra-se aí, na padronização do cotidiano. Existe, pois, uma tentativa de homogeneização, que se não se está presente apenas na programação, mas nas próprias emissoras com suas programações; os elementos aqui envolvidos, as emissoras, fazem o possível e o impossível para se sobressaírem. Buscam pelo espaço e não por espaço. Por esse viés, enxergamos a mídia televisiva como escrava da própria mídia televisiva. É tudo um jogo de ir-e-vir de poderes simbólicos, como bem categoriza Pierre Bordieu, sociólogo francês, em uma de suas palestras no Colége de France. A mídia busca o escravizar porque ela própria expõe uma escravidão para com ela mesma. É todo um jogo, também, de estruturas mentais do ver-pensar. A mídia não se põe alheia ou estritamente culpada pela futilidade, ela ajusta-se às estruturas do próprio público. O inusitado que se pôr longe do público não faz sucesso, uma vez que o sucesso é o próprio público. Retomemos o caso do BBB. Por mais que a mídia insista em X para ganhar o prêmio porque o sujeito é bonito ou possui chances com o mercado televisivo, ainda assim o público brasileiro, com espírito à Tereza de Calcutá, procuraria valorizar e dar oportunidade ao candidato Y se este se mostrar carente, necessitado, injustiçado. Não foi à toa então que em edições pré-BBB 7 escolheram-se candidatos aleatórios aos padrões da casa, na edição em voga detonou-se isso, já que os ganhadores eram justamente representantes do povo.

Por tal atitude depura-se que a TV enquanto monopolista senhora escrava busca impor o que deve ser padrão (no vestir, no falar, no comer, no agir, no comportar-se etc.). É uma forma inconsciente de conscientemente dar continuidade ao processo de dominação simbólica que ela própria vivencia. A estratégia é jogar fatias da realidade, as mais chocantes possíveis, sem reflexões, a fim de sobressair das amarras homogeizantes que existem no próprio espaço midiático.

Uma outra questão ainda inserida no bojo mídia televisiva enquanto formadora de opinião está no mostrar apenas um lado da questão. Isso acontece porque toda e qualquer cadeia de televisão está à frente de interesses outros que não os da própria mídia televisiva, uma vez sê-la está moldada pelo campo econômico; a prioridade em seguir o lema do tudo pela audiência parte justamente dessa esfera capitalista.

Só enxergo no breu da questão uma maneira em que esse papel midiático contemporâneo seria revisto, até modificado e utopicamente ruiria; seria quando os próprios sujeitos, peças da engrenagem social chamada público, passassem a fazer uso do pouco poder que ainda lhe resta na mídia, para na mídia levá-la ao repensar da mídia enquanto mídia. Caracterizo tal fato de utopia porque a população parece tão compenetrada como suas individualidades que as questões político-sociais, e esta é uma, que diz respeito a todos, são postas de lado. Algo desse tipo deveria ser extremamente sutil, levado pela lógica do cavalo de Tróia.

minhas falas



Bom, não estranhem, soube da existência de um novo Big Brother duas semanas depois que o mesmo já havia se iniciado; e isso porque ouvi comentários de um dos funcionários do setor onde trabalho.

E por curiosidade, como diz o "fracassado" Pedro Bial, dei uma espiadinha de zapping e achei então que era hor a de rever algumas coisas que eu havia escrito sobre e que já estavam no baú de meu currículo.

São dois textos que foram publicados num jornal de circulação estadual, o Correio da Tarde por essa época do ano passado, quando a nossa telinha besta exibia a edição não sei quanto do reality show.

Nesta primeira postagem vem o primeiro, "Mídia, BBB e sociedade" escrito a partir duma palestra do Pierre Bourdieu no Colège de France em que ele refletia sobra a mídia.

MÍDIA, BBB E SOCIEDADE

Falar sobre a mídia na mídia apresenta-se como algo comedido, estrito. No entanto, não farei uso do comedido e estrito espaço dessa mídia para falar dela; como já está subentendido no "BBB" do título deste texto, levarei em consideração a mídia televisiva para falar sobre ela. Esta se apresenta socialmente como um monstro cibernético daqueles à Spielberg, que ameaça as esferas da produção cultural, arte, literatura, filosofia, ciência etc. E vou mais adiante. A mídia televisiva apresenta-se como sujeito fabricador de sujeitos a seu modo de agir, pensar (?). Não há necessidade de compará-la a uma arma no espaço social, afinal de contas, existe poder maior que entrar em nossa casa, livre e espontaneamente, tomar nossa fala e incutir idéias, modos? A mídia televisiva é algo invisível, silencioso e que detém um poder tamanho que no alto dessa silenciosidade e invisibilidade nos cala, nos cega a tal ponto de nós mesmos afogarmos nossas necessidades e nossos valores enquanto humanos. Basta que analisemos todas estas questões a partir do reality show Big Brother Brasil (cito-o porque é o que está em voga) para percebermos um construir, desconstruir e reconstruir de identidades na sociedade. O olhar que devemos lançar aqui não é um olhar falsamente crítico, mas uma análise verdadeira, ainda que breve, desse sujeito maior.

Hoje, graças ao avanço tecnológico, o objeto TV deixou de ser artigo de luxo e categorizou-se como o necessário, a tecnologia básica que todo alguém pode possuir; ela, por sua vez, invade lares sem nenhuma restrição ou alerta, porque a própria figura sua é algo encantador e hipnotizador. Ter ou não ter uma TV é algo estritamente particular, assistir ou não assistir dado programa não; as pessoas parecem preocupadas em ver o que as outras pessoas vêem.

A pergunta que surge é: por que, então, decidimos valorizar e endeuzar o fútil, empurrado goela abaixo? É uma pergunta interessante que nos faz refletir até sobre nós mesmos. Sim, porque todo mundo já, uma vez ou outra, perdeu tempo vendo, nem que de zapping, algum besteirol na TV. Tenho impressão de que fazemos isto com o intuito de vermos a nós mesmos, enquanto tal, ainda que indiretamente. Não foi à toa que conquistamos a programação bestial que as emissoras abertas nos colocam. Um programa como Big Brother, que em sua sétima edição pára público e crítica é a mais concreta prova disto. Os corpos sarados, os diálogos tapados, a sexualidade aguçada ou o mundo uma eterna festa são, no fundo, no fundo, futilidades que todos nós enquanto humanos gostamos ou almejamos. É algo histórico, vire-se para a Grécia Antiga: o ser como algo superior a tudo. E como dizia Berkeley, "Ser é ser percebido". Participar de um programa como este, o Big Brother, ainda que fora da casa global, é a uma única forma fácil e pronta que encontramos contemporaneamente de ser percebido, nem que nas rodas diárias de conversa.

Mas voltemos a idéia primeira de que a TV constitui instrumento de poder e a mãe-perda de nossa autonomia enquanto humanos. É fato que, uma série de fatores proveniente de fatores diversos permeia uma assertiva como esta. A mídia televisiva pós-censura adquiriu um poder, uma autonomia e tornou-se aparelho, instrumento cerceador de opiniões. Exibir corpos sarados num reality show, por exemplo, é a maneira mais clara em que isto se manifesta. O narcisismo humano é mostrado enquanto coisa superior à nossa própria realidade, isso é um desconstruir de identidade, a realidade em que estamos inseridos é alheia à realidade da mídia. Nos cega, leva-nos a crer que o padrão de perfeição é algo comum, quando de fato não o é. A TV forja realidades e se as aparências é o fulcro do homem, por que não fazer uso delas? Sua missão comporta-se no fazer ver-crer das coisas, dos fatos sob um único viés; incita-nos à divisão de grupos sociais (o das crianças, o dos adolescentes, o dos advogados etc.) e conseqüentemente incita-nos ao preconceito para com o próprio humano. E isto se manifesta de forma tão propensa, que nos amordaça, paralisa e leva-nos ao conformismo político de que nada podemos fazer para mudar uma dada realidade ao não ser abaixar a cabeça e em posição semi-fetal obedecê-la. Quando é incitada, principalmente em nossa colônia Brasil, sente-se ameaçada e ameaça os sujeitos críticos, apelando logo para a censura vivida nos Anos de Chumbo. Ou seja, faz-nos de objeto, mas não gosta e nem se sente à vontade quando é manipulada como objeto.

Por todas estas reflexões e outras que ainda poderia colocar, concluo que a seleção pela busca do belo, do sensacional, e do espetacular constitui unicamente numa fórmula fácil de englobar o maior número de telespectadores e a ser a número um no formidável elemento audiência. Tudo por e pela audiência. Esse é um lema engessado em grande parte das emissoras. Então, expor um reality show é uma das maneiras mais viáveis de atingir um grande padrão social, todos gostam de fuxicar a vida alheia ou mesmo enxergarem-se enquanto reflexos. A telinha que nos seduz é o mesmo lago que seduziu Narciso. E é fazendo-nos Narcisos que a mídia televisiva, primeiro comuta as idéias alheias, tidas como conspiratórias; segundo, acomoda sujeitos, amordaça-os (obedecer sempre, lutar jamais!); e assim caminha a sociedade, plagiando e parafraseando o grande Lulu Santos, a passos de formiga e sem maldade, assim Narcisos.