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Mostrando postagens de Fevereiro 8, 2008

Dois manuscritos de Machado de Assis

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A CARIDADE

Ela tinha no rosto uma expressão tão calma
Como o sono inocente e primeiro de uma alma,
Donde não se afastou ainda o olhar de Deus;
Uma serena graça, uma graça dos céus,
Era-lhe o casto, o brando, o delicado andar,
E nas asas da brisa iam-lhe a ondear
Sobre o gracioso colo as delicadas tranças.

Levava pela mão duas gentis crianças.

Ia caminho. A um lado ouve magoado pranto.
Parou. E na ansiedade ainda o mesmo encanto
Descia-lhe às feições. Procurou. Na calçada
À chuva, ao ar, ao sol, despida, abandonada,
A infância lacrimosa, a infância desvalida,
Pedia leito e pão, amparo, amor, guarida.

E tu, ó caridade, ó virgem do Senhor,
No amoroso seio as crianças tomaste,
E entre beijos - só teus - o pranto lhes secaste
Dando-lhes pão, guarida, amparo, leito e amor

(De Crisálidas)



QUINZE ANOS*

Era uma pobre criança...
- Pobre criança, se o eras! -
Entre as quinze primaveras
De sua vida cansada
Nem uma flor de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a doida da esperdiçada
Tão festivas, …