Florbela Espanca

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

_______

FONTES:
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/projtelecolab/tintalusa/
numerodois/tl3.html

http://purl.pt/272/2/index.html

http://www.torre.xrs.net/

Coleção “A Obra Prima de Cada Autor” – Editora Martin Claret

O texto na íntegra é do http://www.prahoje.com.br/florbela/index.php, lá também está disponível uma série de dados à escritora portuguesa, bem como poemas escritos e em áudio, galeria com fotos e etc.

Os escritores

terça-feira, 29 de abril de 2008



Eça de Queirós: Cenas da vida portuguesa

por Hélder Garmes e José Carlos Siqueira


Em um artigo publicado na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 6 de dezembro de 1894, Eça de Queirós faz a seguinte projeção sobre a já então crescente migração de trabalhadores chineses pelo mundo: “Nas fábricas, nas minas, no serviço dos caminhos de ferro, não se verão senão homens de rabicho, silenciosos e destros, fazendo por metade do salário o dobro do serviço – e o operário europeu, eliminado, ou tem de morrer de fome, ou fazer revoluções, ou de forçar os estados a guerras com quatrocentos milhões de chineses. [...] Em cada centro industrial da Europa haverá assim um permanente e atroz conflito de raças”. Quando comparamos tais observações com as notícias que lemos diariamente nos jornais sobre os conflitos étnicos, não só Europa, mas em todos os cantos do mundo, resultantes, em sua quase maioria, da disputa pelo mercado de trabalho, constatamos que Eça não foi simplesmente um grande retratista da realidade portuguesa do século XIX, mas sobretudo um grande analista das conseqüências da internacionalização das formas de produção, quer no âmbito da luta de classes, quer no âmbito dos conflitos culturais.

A segunda metade do século XIX foi quando grandes empresas sedimentaram suas ramificações por todo o mundo, tendo também surgido a dimensão internacional do movimento operário. Além disso, é um momento privilegiado no processo de densificação das relações culturais internacionais, pela presença de diversos novos meios de comunicação que facilitavam o trânsito de pessoas e informações e, conseqüentemente, dos diferentes modos de vida existentes no globo.

Portugal encontra-se um tanto à margem desse processo, já que a industrialização ali tinha sido prejudicada na primeira metade do século XIX pelas invasões napoleônicas, pela conseqüente fuga da família real para o Brasil em 1808 e pela guerra civil gerada pelo processo sucessório com a morte de D. João VI em 1826. Com poucas indústrias, alto índice de analfabetismo, cultivando uma frouxa separação entre Igreja e Estado, a sociedade portuguesa em meados do século XIX está em todas as suas instâncias fragilmente atinada com o processo crescente de internacionalização das relações econômicas e culturais. É nesse contexto, no ano de 1845, que nasce Eça de Queirós, em Póvoa do Varzim, localidade do norte de Portugal. Seus pais, que ainda não se encontravam casados quando nasceu, tiveram que deixar o filho com uma ama, depois com os avós paternos e finalmente como interno de um colégio do Porto. Só é integrado oficialmente à família já adulto.

A preocupação com o descompasso da elite letrada portuguesa em relação às mudanças do contexto europeu, e mesmo global, surge na vida de Eça já na década de 1860, quando ainda era estudante na Universidade de Coimbra. É o momento em que eclode a famosa Questão Coimbrã, inaugurada pelo debate entre o também estudante Antero de Quental e o já consagrado literato Antonio Feliciano de Castilho, debate cujo pomo de discórdia gira em torno dos parâmetros adequados para a prática literária em Portugal. Enquanto Castilho defende uma estética de base neo-clássica e gosto romântico, Antero prefere as digressões filosóficas do romantismo alemão e o engajamento social do romantismo francês.

Terminado o curso em 1866, segue para Lisboa e logo parte para Évora, a fim de trabalhar no recém-criado periódico de oposição Distrito de Évora, editado e quase integralmente escrito por Eça. Após alguns meses vivendo a experiência de ser editor e autor daquele periódico, desiste da empreitada e retorna a Lisboa. Ali, juntamente com Antero de Quental e Batalha Reis, criam o poeta baudelairiano Carlos Fradique Mendes, cujos versos começam a ser publicados na imprensa. É uma provocação ao meio literário português, que julgam retrógrado e tedioso. Em 1869 faz uma viagem para o Egito e presencia a inauguração do Canal de Suez. Segue viagem até a Palestina e retorna com diversas anotações que irão lhe auxiliar na elaboração do texto de A relíquia (1887). Tais anotações de viagem serão publicadas postumamente sob o título de O Egito (1925).

De volta a Lisboa em 1870, é indicado para ser administrador do Concelho de Leiria. Fica pouco tempo no cargo, mas aproveita a experiência para depois fazer de Leiria o cenário de seu primeiro romance, O crime do padre Amaro. Nesse período, freqüentam em Lisboa a casa na qual então moravam Antero de Quental e Batalha Reis, onde se cria um círculo informal de amizades conhecido como Cenáculo, na certa parodiando o nome atribuído ao grupo de jovens escritores românticos que se reuniam na década de 1820 nos salões de Nodier e de Victor Hugo.

Estética realista

Provavelmente empolgados pela experiência da Comuna de Paris (quando, de março a maio de 1871, o operariado assumiu o governo da capital francesa), os membros do Cenáculo português concebem as Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, com o intuito de despertar a elite portuguesa do que entendiam ser a sua total letargia em relação ao que se passava no restante da Europa. As conferências só duram os meses de maio e junho de 1871, proibidas então pelos órgãos oficiais. Nelas, Eça pronuncia aquela intitulada “A nova literatura: o realismo como nova expressão da arte”, cujo texto original desapareceu, tendo sido posteriormente reconstituído a partir dos comentários saídos na imprensa. É a primeira vez que Eça pronuncia-se de forma explícita em favor do que ficou conhecido como estética realista, ou naturalista, oriunda do meio literário francês.

Quando em 1872, segue para ser cônsul em Havana, já carrega consigo alguma reputação literária e um claro perfil estético. É provavelmente em Havana que escreve o que é considerado por muitos críticos como o seu primeiro texto realista, o conto “Singularidades de uma rapariga loira”, publicado somente em 1874, num folheto dado como brinde aos leitores do Diário de Notícias.

Projeto romanesco

Em 1874 é nomeado cônsul em New-Castle-Upon-Tyne, na Inglaterra. É lá que irá conceber e elaborar seu projeto literário. Após a publicação da primeira versão em livro de O crime do padre Amaro (1876), Eça, inspirado em empreitadas de grande envergadura, como a “Comédia Humana”, de Honoré de Balzac, ou “Rougon-Macquart”, de Émile Zola, concebeu suas “Cenas da vida portuguesa”, que visavam retratar a sociedade portuguesa oriunda da Monarquia Constitucional estabelecida após 1834, quando toma o poder D. Pedro IV de Portugal – o nosso D. Pedro I do Brasil.

Para tanto, concebeu o plano de realização das seguintes obras: A Capital!, O milagre do vale de Reriz, A linda Augusta, O rabecaz, O bom Salomão, A casa n.16, O gorjão, Primeira dama, A ilustre família Estarreja, A assembléia da Foz, O conspirador Matias, A história de um grande homem, Os Maias.

Podemos reconhecer nessa relação de títulos somente os romances A Capital e Os Maias. Também podemos identificar aí A ilustre casa de Ramires, que teria como primeiro título A ilustre família Estarreja. José Maria, filho do escritor, nota que A história de um grande homem provavelmente tornou-se O conde de Abranhos – notas biográficas por Z. Zagalo. Porém, uma passagem de olhos por sua obra é o suficiente para constatar que os textos que Eça escreveu não correspondem em sua maioria àqueles inicialmente programados.

O primeiro romance que publicou, como já observado, foi O crime do padre Amaro, dado à luz primeiramente em 1875, na Revista Ocidental, depois em forma de livro em 1876 e finalmente em 1880, com a revisão definitiva. Em meio à complicada gênese desse texto, escreveu e publicou O primo Basílio (1878). A este se seguiram O mandarim (1880), A relíquia (1887), Os Maias (1888), A correspondência de Fradique Mendes (1890), A ilustre casa de Ramires (1901) e A cidade e as serras (1901), sendo que estes dois últimos não chegaram a ser publicados integralmente em vida.


Retrato peculiar

Como se constata, as “Cenas da vida portuguesa” não saíram como tinham sido planejadas. Importa, entretanto, que o essencial do projeto de fato se concretizou. Se tomarmos apenas os romances publicados de Eça, veremos ali um retrato do modo peculiar como a liberalismo político e econômico que caracterizou a monarquia constitucional se estabeleceu em Portugal.

A versão definitiva do romance O crime do padre Amaro, de 1880, traz por subtítulo “Cenas da vida devota” e faz o retrato crítico do forte poder que a Igreja ainda tinha em Portugal, demonstrando a distância que existia entre o discurso liberal e anticlerical propalado pela imprensa de Leiria e o efetivo apoio que esta, no decorrer da trama, acaba dando à corrupta dominação do clero.

Em O primo Basílio, que tem por subtítulo “Episódio doméstico”, vemos retratada a pequena burguesia lisboeta, com todas as suas veleidades, ora deslumbrada pelo glamour das grandes metrópoles européias, como Paris ou Londres, ao modo de Luíza, ora embebida de um nacionalismo estreito e tacanho, ao modo do Conselheiro Acácio. É uma classe que não tem valores claros, sendo a condição feminina um lugar privilegiado para se constatar sua falta de referências. Daí o fim a um só tempo trágico e melancólico da protagonista Luíza, pois o discurso liberal em torno da condição feminina não tem ali nem entendimento claro, nem lastro na realidade. Já Os Maias, não por acaso subtitulado “Episódios da vida romântica”, retrata a vida de uma família aristocrática de Portugal, que, apesar da mais velha e da mais nova gerações serem bem formadas nos valores liberais, estes não chegam a se concretizar no âmbito da vida prática, gerando um descompasso entre o que se pensa e o que se faz. A fatalidade presente no incesto entre os irmãos Carlos e Maria Eduarda transforma o que era tragédia, no mundo clássico, em acaso e comportamento cultural, no tempo histórico do romance, demonstrando que o liberalismo serviu, junto às elites portuguesas, para derrubar tabus sem colocar nada no lugar.

Lugar ambíguo

Também A correspondência de Fradique Mendes vem colocar em xeque os valores dessa elite aristocrática portuguesa. Retoma aquele poeta-personagem criado coletivamente na sua juventude e reconstrói o jogo entre ficção e realidade, na medida em que as cartas de Fradique são dirigidas a personalidades reais, como Ramalho Ortigão, Oliveira Martins ou o próprio Eça de Queirós. Nessa obra, o escritor debocha do eurocentrismo em geral e do aristocratismo provinciano dos portugueses. Fradique é, a um só tempo, exemplo e crítico do aristocrata português intelectualizado.

A ilustre casa de Ramires (1901) vem fazer a crítica ao aristocrata rural que, destituído de poder simbólico junto às elites liberais, não deixa de ter poder efetivo em relação ao conjunto da nação, sendo mesmo capaz de revitalizar a empreitada colonial. O princípio de exploração predatória é o que rege esse livro, no qual a própria idéia de nacionalidade portuguesa é colocada em xeque ao ser associada aos valores e à manutenção do poder das classes dirigentes, ferindo a concepção liberal de nação como expressão de valores coletivos e populares. Em A cidade e as serras (1901) o foco de sua crítica se estende de Portugal para toda a Europa. Uma das peculiaridades do liberalismo português é o fato de grande parte da elite tradicional e endinheirada portuguesa viver fora de Portugal. Quando retorna, limita-se a cuidar de seus bens, como o faz Jacinto, sem perceber o papel que deveria cumprir no desenvolvimento material da nação. Tanto esta quanto aquela elite já citadina de Os Maias se eximem de qualquer responsabilidade sobre a nação, cuja simbologia nacional as tem por referência, como fi ca demonstrado em A ilustre casa de Ramires. Portanto, quer valorize folcloricamente suas “raízes” como o faz Jacinto, quer considere tudo em Portugal muito provinciano, como o faz Carlos da Maia, a elite portuguesa de base econômica feudal e de pensamento liberal usufrui das vantagens propiciadas por esse lugar ambíguo, discursando como um político liberal e agindo como um monarca absolutista.

Mesmo textos como O mandarim e A relíquia, escritos e publicados na década de 1880 e considerados como obras não-realistas e, portanto, fora do projeto das “Cenas da Vida Portuguesa”, podem ser ali inseridos, pois colocam em questão os princípios éticos de uma sociedade fundamentada no livre mercado, na qual o acúmulo de capital e a conquista do bem estar material são valores absolutos em detrimento de valores humanistas.

Com a constante interferência da Igreja nos negócios privados e no Estado, com uma burguesia que não tem valores claros e empreendedores, uma elite letrada provinciana e uma elite econômica de base feudal, descomprometida com a nação, o liberalismo em Portugal se estabeleceu de forma canhestra, sem que gerasse uma mentalidade efetivamente burguesa para sustentar o modelo político e o modelo econômico que caracterizam tal ideologia. É certo, portanto, que as “Cenas da Vida Portuguesa” cumpriram o seu propósito primordial: retratar as peculiaridades do estabelecimento do liberalismo em Portugal.

Estratégias narrativas


Eça foi um grande renovador da língua literária em Portugal e no Brasil. Quando seus primeiros romances surgiram, todos ficaram impressionados com a linguagem empregada: muito semelhante à utilizada no dia-a-dia. Um renomado crítico de Eça, Guerra Da Cal, fez um extenso apanhado em toda a obra do escritor do uso peculiar que faz do português. Sua adjetivação, por exemplo, é muito original, trazendo coisas como: “batendo na barriguinha pedagógicas palmadinhas acariciadoras”, ou “a invasão surda e formigueira do trabalhador chinês”, ou ainda “aquele noturno cérebro de devota”, “erudita nave da biblioteca”, “homem de barbas proféticas” etc. O estilo de Eça, no entanto, varia no decorrer de sua vida. Por exemplo, sua adjetivação é mais abundante no início de sua carreira.

A ironia é outro tópico obrigatório quando se fala em seu estilo. Essa figura de linguagem foi largamente trabalhada pelos seus críticos, em especial por Mário Sacramento. Também a sátira, ao lado da ironia, poderia ser tomada como um procedimento recorrente do escritor, lembrando aqui a distinção entre ironia e sátira que faz André Jolles em seu já “clássico” estudo Formas simples. Este nos adverte que, enquanto a sátira não permite qualquer cumplicidade com o objeto ao qual ataca, não criando ambigüidade sobre a agressão realizada, a ironia parte de tal cumplicidade, dando margem para que a mensagem possa ser entendida literalmente ou em seu sentido contrário.

Há ainda um terceiro procedimento crítico no escritor português que nos parece relacionado aos dois anteriores no que concerne à relação entre a enunciação crítica e o objeto criticado. Dando um passo no sentido do objeto, uma terceira estratégia discursiva em Eça pode ser constatada quando, em muitos casos, o objeto aparece criticado de diversas perspectivas, sem que saibamos exatamente a qual delas o narrador se cola, qual delas seria a perspectiva legitimada por ele. Tal estratégia narrativa deixa o leitor em suspenso, sem saber como julgar as afirmações ou situações apresentadas, obrigando-se a se indagar sobre a matéria ali abordada. Um bom exemplo disso é o tratamento que o narrador dá em Os Maias ao debate ali travado entre concepções literárias românticas e naturalistas. Ao final, não sabemos o que pensar, pois ambas as posições são desqualificadas no decorrer do debate. Não é por acaso que em sua História da Literatura Portuguesa, Carlos Reis verá em Os Maias a “superação do naturalismo” por parte de Eça. E também não é menos significativo que tal superação não defina uma nova estética. Fica-se depois desse romance sem saber como qualificar a obra queirosiana. Parece que isso se dá pelo aprimoramento dessa estratégia narrativa prismática, que procura alcançar não mais a dita “realidade”, mas sim a lógica que a rege: a lógica do capital.

Carlos Reis, em seu trabalho sobre o Estatuto e perspectivas do narrador na ficção de Eça de Queirós, demonstra como a partir de Os Maias o narrador de Eça passa a assumir aquilo que Gérard Genette chama de “focalização interna”, isto é, apesar de ser um narrador onisciente, passa a narrar colado na consciência da personagem e, portanto, não a ultrapassa, fazendo com que uma narração em terceira pessoa funcione como se fosse em primeira. Isso, em parte, limita a consciência do narrador e, em parte, a torna bastante mutável, já que ora endossará uma opinião, ora outra, a depender da personagem narrada.

Essa desconstrução do narrador é paradigmática da importância desse recurso que chamamos aqui de narrativa prismática, na medida que ele deixa de ser o porto seguro, o ponto de referência do leitor, para ser mais um elemento mutável da narrativa. Tal qual na sociedade de consumo, nada é fixo, tudo é permutável.

______

Fonte: Revista Entrelivros.

Caio Fernando Abreu

domingo, 27 de abril de 2008

[1] Guardo o meu amor por dentro. É precioso. Pensar nele faz com que eu tenha vontade de cuidar de mim mesmo – então é bom. Guardando, guardando, feito jóia. Precioso, delicado. Meus dias têm sido claros.

[2] É difícil aprisionar os que têm asas.


[3] Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você, ou apenas aquilo que eu queria ver em você,eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim,até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que, no fundo, sempre no fundo,talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?

[4] Não existe volta para quem escolheu o esquerdo.


[5] Queria tanto poder usar a palavra voragem.
Poder não, não quero poder nenhum, queria saber.
Saber não, não quero saber nada, queria conseguir.
Conseguir também não – sem esforço, é como eu queria.
Queria sentir, tão dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão e evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso.
A-racional ,abismal.
Não me basta escrevê-la – que estou escrevendo agora e sou capaz de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e mais nada significar (...)
Eu quero sê-la, a voragem.


Todas estas falas que acima se desdobram faz parte do espólio de pensamento de um escritor que eu acabei de conhecer, até então sequer havia ouvido falar acerca dele; é o brasileiro Caio Fernando Abreu. É sobre ele que posto matéria neste blog hoje.

Nasceu em Santiago, Rio Grande do Sul, e morreu no dia 25 de fevereiro de 1996, em Porto Alegre.


Dedicou-se a maior parte de sua escritura à narrativa curta, preferencialmente o conto, estreando com o livro O Inventário do Irremediável.


Sua bibliografia, no entanto, consta obra de diferentes gêneros literários como seus dois romances Limite Branco e Onde Andará Dulce Veiga?, o livro infantil As Frangas e um de crônicas publicado após sua morte, Pequenas Epifanias.


O livro seu mais conhecido é Morangos Mofados onde entre mofos e morangos passeia suas obsessões por personagem anônimas vivendo em grandes cidades e em direção a um palmo qualquer de luz. Ou de sombra.


Como seus personagens, Caio se sentia um estrangeiro eterno, irremediável, um estranho estrangeiro, sem paz fora da própria terra, incapaz de viver nela.

Em quase todos seus contos aborda seus temas preferidos: o estranhamento, a solidão, a dor e o sentimento de marginalizado. Seus personagens vão envelhecendo com ele: sempre jovens em Inventário do Irremediável.


Mergulhados no espaço contaminado da pós-modernidade sua narrativa representa seres degradados pelas drogas, paranóias, AIDS, esquizofrenia, desencanto, muita procura e muito desamparo.


A cidade é o cenário preferido incorporando ao espaço urbano novos significados, ampliando o repertório e o alcance da literatura, representando seres diversificados ou muitas vezes melancólicos.


A leitura dos contos de Caio proporciona o enigmático, o silêncio percebido como trágico, e o cinema ganha representações nos imaginários dos personagens e na linguagem entrecortada, como a narrativa cinematográfica.


Enfim, no reino de Eros, a narrativa de Caio, como no filme A Morte em Veneza, testemunha e recupera a sensibilidade, assim como a angústia diante do mundo que não atende às suas necessidades existenciais, atirando o homem de seu tempo à marginalidade e à transgressão.


O que nos hipnotiza em sua escrita é o magnetismo narrativo movido pela mágica e pelo silêncio que seduz o leitor sensível na tentativa de encontrar o espinho que atravessa a carne do texto, tudo num cuidado muito especial na pista escorregadia da linguagem.


_______

Fontes: Rodrigo da Costa Araujo, blog Tom Zine.

Intervalo

quinta-feira, 17 de abril de 2008

As veias de Saramago poeta, breve homenagem



Há cerca de um ano mais ou menos que tive contato com a obra do escritor português nobelizado José Saramago. Amor à primeira vista. Aquele emaranhado de sua escrita, confesso, foi meu primeiro fascínio quando dele me aproximei em O Evangelho segundo Jesus Cristo, primeira obra sua que tive o prazer de ler.

Há cerca de um ano que estudo a obra saramaguiana. Desse estudo já me renderam vários bons frutos. A publicação de quatro artigos sobre algumas leituras minhas de textos seus, inclusive d'O Evangelho.

De facetas múltiplas sua escrita serpenteia por todas as vias dos gêneros literários, o que apresento aqui é uma, a poética, em celebração a um ano que tive contato com sua obra. Os poemas que se apresentam a seguir são, Retrato do poeta quando jovem, Poema à boca fechada, de sua obra Os poemas possíveis. Depois, Na ilha por vezes habitada, da obra Provavelmente alegria. E, um fragmento, o 29, da obra O ano de 1993.



Retrato do poeta quando jovem


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.



Poema à boca fechada


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.




Na ilha por vezes habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
-


29


Levantou-se então um grande vento que varreu
de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a
terra dos homens

Durante três dias soprou constante arrastando
as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta
dos invasores

Durante três dias as árvores foram sacudidas
mas nenhuma arrancada porque este vento era igual
a uma mão apenas firme

As carcaças dos animais mecânicos rolavam pe-
las planícies como arbustos desenraizados e tudo era
arrastado para longe para os países onde os pesade-
los nascem e o terror

Depois choveu e a terra ficou subitamente verde
com um enorme arco-íris que não se desvaneceu
nem quando o sol se pôs

Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a
gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores
contra o fundo negríssimo do céu

E houve quem chorasse de joelhos na terra
branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso
cheiro do húmus

E houve quem ininterruptamente cantasse uma
extática melodia não ouvida antes que era o longo
suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena
na garganta

E pelos campos fora arderam fogueiras altas que
fizeram da terra vista do espaço um outro céu
estrelado

E um homem e uma mulher caminharam entre a
noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar
precioso onde nascia o arco-íris

Ali se despiram e nus debaixo das sete cores fo-
ram toda a noite um novelo de vida murmurante so-
bre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas

Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-
-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes
deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna

O dia amanheceu numa terra livre por onde cor-
riam soltos e claros os rios e onde as montanhas
azuis mal repousavam sobre as planícies

A mulher e o homem voltaram à cidade dei-
xando pelo chão um rasto de sete cores lentamente
diluídas até se fundirem no verde absoluto dos
prados

Aqui os animais verdadeiros pastavam erguen-
do os focinhos húmidos de orvalho e as árvores
carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto
no interior delas se preparavam as doce combi-
nações químicas do outono

Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noi-
tes e isso é um bom sinal

minhas falas

segunda-feira, 14 de abril de 2008


Visão prospectiva da literatura no Brasil






Desde que a literatura brasileira adquire esse adjetivo nacional, brasileira, ela se debate em cada novo ciclo de produção escrita com a necessidade de se auto-justificar enquanto produto genuinamente da terra. No entanto, paralelo a esse esforço hercúleo há de se considerar a formação de camadas literárias que se utiliza duma palavra rebelada, consoante Coutinho, que de certa forma assiste-se como um fenômeno inerente a todos os povos. No entanto, corre-se o risco de, ao trabalhar esta convencional idéia de nacionalidade, perder-se na construção histórica, haja vista que a era da qual fazemos parte hoje não mais nos permite a essa espécie de ostracismo. Se o domínio planetário se baseia em novos moldes ou padrões transnacionais ou mesmo antinacionais, resta somente enxergar onde que, a literatura enquanto arte se recicla, se ressignifica, o que leva-nos a concordar que, a chamada contracultura interpõe-se como uma resposta positiva ao monocêntrico cânone que se organizou por aqui. Enquanto crise a contracultura passa a ser entendida com um movimento de transição, representada metaforicamente como um raio que toca um prisma e se dispersa, ao opor-se ao presente, receptar o passado e projetar-se, expondo-se enquanto movimento de transparência no justo momento em que se constata uma exaustão das formas institucionalizadas. Diante destas considerações Coutinho considera a emergência da paraliteratura enquanto modalidade expressiva ocupante do espaço que separa a literatura exaurida e a literatura do por vir; noutras palavras a paraliteratura trata-se duma literatura da crise da literatura. Ao entender o consumo enquanto voragem da criação artística, filão que ao massificar a literatura despoja ela de sua função formadora, a paraliteratura, aliada a uma nova estrutura de mercado que determina a manufatura, comporta-se como voz de seu tempo. Ou seja, a paraliteratura assume uma faceta despojada para com os reais interesses de outrora o que nos leva a perguntar sobre sua função neste cenário e a natureza da “real” literatura. A título de registrar uma resposta a estas indiretas indagações, Coutinho cita o caso da crônica brasileira, que desde Machado de Assis assumiu papéis importantes no sítio da produção escrita no País, haja vista que ela deixa de ser gênero amorfo e incolor para ancorar-se no território dos gêneros literários como um objeto artístico extremamente matizado. Constata-se que, apesar de figurar no território da marginalidade literária deve ser vista como elemento dotado de literatura à medida que o cronista é o criador/modelador do signo lingüístico. A mesma transfiguração lingüística que se faz viva na poesia se vê latente na escrita da crônica, entendida na sua maleabilidade como um gênero onde o fazer literário se expõe como próprio, além de comporta-se como o instrumento que preenche o vazio deixado pela produção fictícia, fabricando e expondo realidades coletivas, individuais, anônima e pessoal. Semelhante ao movimento da paraliteratura, as alternativas vanguardistas também reservam o propósito de preencher o rastro do vazio deixado pela crise, apenas pecam por não acreditar na totalidade do signo verbal, que sendo mudo, ao justapor-se a outro fala por si só. Ao recobrar esses propósitos da paraliteratura e das vanguardas, Coutinho entende que a nova literatura brasileira deve emergir de um solo fértil e forte que se constituirá nas marcas de uma nação planetária; caso ainda permaneçamos nos moldes ostracistas não haveremos de alcançá-la. A única medida, portanto, trata-se de questionar o posto e fundar um novo.


______
O título desse texto é o mesmo de Afrânio Coutinho (ver COUTINHO, Afrânio. Visão prospectiva da literatura no Brasil. In: COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. vol. 6. 6 ed. São Paulo: Global, 2003, p. 281-289), sendo as idéias desse teórico as que aqui usamos, tratando-se, pois, dum percurso por sobre outro.

INTERVALO

terça-feira, 8 de abril de 2008






Pois quem não adivinhou aí está a legenda: trata-se da ex-prefeita de Mossoró (Rn) e atual senadora Rosalba Ciarlini acompanhada da prefeita Fafá Rosado da cidade de Mossoró (Rn) numa canoa apreciando a paisagem inundada da cidade de Mossoró. Com a abertura das comportas da barragem de Apodi a cidade de Mossoró tem sofrido constantes alagamentos.

Algum comentário? Na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza eis que um político usa do ser humano para se autopromover... eleições este ano... hum... prato cheio...

_____
FOTO: Carlos Costa


Minhas falas

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Avaliação-entrevista: LITERATURA, POESIA, EDUCAÇÃO



As avaliações em sala de aula ainda existem; estamos ainda engatinhando nas discussões de uma possibilidade de ver como e o que poderemos fazer para contribuir com um aprendizado em que o método avaliativo mude.

As avaliações tal qual concebemos é falha do ensino porque entre outros motivos contribui para o arragaimento de um ensino mecanizado, afinal de contas, o aluno leva o semestre ou bimestre "nas coxas" e se mata de estudar nas vésperas da prova e passa com conceito A.

Não é apenas isso, mas também vão de encontro ao ensino pregado nos documentos oficiais, como os Parâmetros Curriculares Nacional (PCN's) e nos aparatos teóricos do qual os licenciandos estudam nas cadeiras universitárias uma vez que individualiza a produção escrita. Diferente de um texto onde o aluno compartilhe com outros, por este método, continuam a produzir uma escrita fabricada a título de impressionar o professor a ser generoso com a nota.

A avaliação como entrevista

Por esta pecepção compartilho com os leitores avisados ou desavisados desse blog de uma avaliação que fiz na disciplina de Prática de Ensino II na faculdade. Encarem, leitores, como uma entrevista, onde o professor é o repórter e eu o entrevistado. É uma brincadeira que faço aqui, mas extremamente saudável já que estou fugindo das concepções tradicionais e arcaicas que ainda que com teias de aranha insistem em povoar o ambiente acadêmico, tido como o berço da formação do estudante para a vida.


Entrevista


O entrevistado é Pedro Fernandes, deste blog e para este blog. Pedro Fernandes é, atualmente aluno do sétimo período de Letras, Língua Portuguesa, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, UERN.

Entrevistador:
Usando o texto abaixo como ilustração ou argumento, responda a seguinte questão: o poeta trabalha com ou o poeta trabalha o signo lingüístico?

Vozes veladas, veludosas vozes

Volúpias dos violões, vozes veladas

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas


Pedro Fernandes:
Falar da poesia e do signo lingüístico poético é complexo porque a literatura é um objeto artístico no qual a função primordial é não ter função. A palavra sempre é no texto poético o material bruto, sobre o qual é necessário o poeta trabalhar, esculpi-la com um olhar estetizante. Logo, a poesia é por si só objeto atuante no campo da estética. Nela não se ancora um real verdadeiro, há um real fabricado. Se assim compreendemos, o texto poético é sempre, enfaticamente, construção.

Ao falarmos de poesia, falamos de palavra viva, entendendo esta como a que cria realidades, que dispara sensorialmente nos seres viventes, sensações, daí o fundamento de ser a poesia pertencente ao plano estético. Assim sendo, sempre estará em jogo o trabalho com o signo e o trabalho do signo lingüístico; não há como dissociar, trata-se de um processo simultâneo. O ato de leitura do texto poético já define isso. Ler poesia é puxar fios do signo que se desdobram em significantes; uma vez encarado o signo lingüístico em poesia como portadores de significantes perceberemos que as palavras são nômades, móveis, flexíveis, abertas.


Tomando como exemplo fragmento de Cruz e Souza a fim de explicar essa ausência de dissociação entre o com e o o, percebemos um trabalho com o signo à medida que as palavras são modeladas no corpo no poema. Quando defino que elas são modeladas no corpo do texto, já está embutido que ele trabalha o signo lingüístico haja vista que não são dispostas aleatoriamente, elas têm e cumprem um propósito.

Entrevistador: Segundo Magnani, “Percebe-se, hoje, em nossas escolas, uma grande distância entre a intenção explícita em formar leitores críticos, com gosto e habito de ler, e o fato de esses alunos demonstrarem desagrado e incompetência em relação à leitura”. Pergunta-se: (a) terá sido sempre assim? (b) Por que hoje isso acontece? (c) Como reverter esse quadro a partir (c.1.) da escola, (c.2.) do professor e (c.3) do aluno?

Pedro Fernandes: O berço da educação brasileira esta na elite. Se olharmos a poucos anos atrás, afinal de contas, não somos tão velhos assim, veremos que o esboço de esforços a fim de uma alfabetização da população só se dará mais precisamente há vinte anos. Basta esta constatação para percebermos que o descaso com o a educação é algo inerente desde que somos Brasil. Se para com a educação obedecemos a esta constatação, para a formação de leitores críticos não é diferente, uma vez que, no país se priorizou desde sempre uma formação a título de exercer uma profissão. Justifique-se os pequenos grupos de intelectuais brasileiros. Dificilmente são das letras, mas vêm de outra formação. O que se conjuntou de intelectuais no Brasil, em sua grande maioria, foi um certo atrevimento a fim de se mostrar ao mundo que por aqui se vivia de pensar, ler e escrever.

Os fatores do descaso são muitos; enumerá-los daria em mais um livro destes de besteirol que se tornaram popular quando se avistou uma crise. Não haveremos de atribuir culpa a sujeito A ou B, mas sabemos que os governantes carregam uma boa parte desse desgostoso bolo, porque o interesse deles foi sempre o de uma camada de ignorantes que possam mendigá-los e eles venderem seus votos. Isso é o mais visível; basta não irmos muito longe e citar a “belezura” dos programas educacionais do governo Lula, unicamente voltados para o sucateamento do sistema educacional e os programas sociais para a criação de uma corja de acomodados. Esse discurso de “ensinar a pescar” nunca foi tão forjado como vemos agora. Isso acontece porque os interesses dos políticos continuam sempre os mesmos desde que políticos são políticos neste país: enriquecimento próprio e ganhar nome para ir para as barbas da história.

Reverter este quadro? Parece coisa para louco. Talvez se esconda em alguma cartola um fio de Ariadne que dê com uma sonhada revolução pela educação. Não dá para acreditar que, somente pela formação de leitores críticos a coisa venha melhorar, mas talvez esteja aí um começo. Nesse jogo de empurra-empurra só resta apelar para a figura pálida do professor como base para que tal revolução aconteça. Acontece, no entanto, que as universidades, ainda centro sucateados de excelência, parecem sofre de certa esquizofrenia que as fazem esquecer-se de formar professores e/ou pesquisadores. Em sua grande maioria apenas amontoam gente para o mundo para nada. Aonde isso vai dar? Boa pergunta.

Entrevistador: De que forma o texto poético poderia garantir o salto qualitativo no aluno-leitor?

Pedro Fernandes: Não só o texto poético, mas a literatura em si é única e exclusivamente uma receita para tudo. Não que ela se comporte como um novo messias, mas se dela não apreendermos nada, pelo menos nos entretemos e esquecemos a miséria que constrói este país a luz de um falso crescimento.

Entendendo o texto poético como terreno por onde a palavra se funda e se ressignifica; entendendo o texto poético com força motriz de uma realidade própria, entenderemos que ele garante a certeza de que se posso refletir as multicaras do signo lingüístico e se disso sou capaz é porque sou capaz também de ler as misérias do mundo. Noutras palavras, a capacidade de sentir poesia é capacidade de tecer crítica e tecer crítica é o primeiro passo para ser cidadão no que se refere o sentido da palavra.





Minhas falas

terça-feira, 1 de abril de 2008

Estou republicando neste blog mais um artigo meu que foi publicado no Caderno Domingo, do Jornal de Fato, domingo, 30 de março. Este artigo faz parte dos sete produzidos em aulas de Morfossintaxe I e que estão saindo, assim, meio que sempre neste caderno; graças a organizadora (é lógico!), Iza Talita. Os outros três também figuram em algum lugar deste blog.

O objetivo com estes textos é refletir sobre a educação e, em especial, sobre o ensino de língua portuguesa. Assim, o primeiro artigo, foi Sobre educação, meio que uma espécie de introdução deste conjunto; logo, nele as discussões são mais gerais e o campo da educação como um todo é alvo de observação. A reflexão que se pretende é uma inqueitação para entender acerca do quadro da educação na atualidade brasileira.

Em seguida, o segundo artigo, Num sei português. Aqui já se refletem questões mais específicas sobre a condição do público de língua portuguesa brasileira - alunos do ensino fundamental e médio ou qualquer usuário da língua. Aqui o intuito foi refletir acerca das multicaras do ensino de língua materna e os mitos que ainda rodam este ensino.

No terceiro artigo, Estudei e num aprendi português o foco se volta para o ensino de língua materna, acomodando as principais inquietações que afligem, principalmente, quem estuda/estudou língua portuguesa. Ao recobrar os estudos do lingüista francês Ferdinand Saussure, procuro refletir acerca das questões diversas que se referem à língua, à linguagem e o ensino.

Neste quarto artigo Aula de português o espaço afunila. O foco agora é a sala de aula, o ensino de língua portuguesa num exame das questões abordadas anteriormente nos outros textos.

Ainda restam três que estão no prelo, aguardemos.


AULA DE PORTUGUÊS

Por Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Aluno do sétimo período do curso de Letras, Língua Portuguesa (UERN)

Inicialmente faz-se necessário uma espécie de raio-X da atual situação que é o espaço para aulas de Língua Portuguesa: geralmente as escolas dispõem de cinco aulas semanais para a disciplina, isto é, Língua Portuguesa constitui uma maior carga horária de todo o programa curricular, juntamente com matemática, de igual proporção. Além disso, a maioria dos professores de Língua Portuguesa trabalha 98%, dado meramente ilustrativo, desta carga horária com gramática tradicional. Boa parte também não está preocupada com a forma da qual se utiliza para trabalhar Língua Materna; alguns se preocupam mesmo em “bater capa” do livro didático no final do ano julgando que se possuem um programa pedagógico a seguir e cumprir ortodoxamente.

A situação tal qual como exposta é típica de uma escola pública ou particular; não se admitem distinções na maioria dos pontos anteriormente especificados. Até que as teorias lingüísticas por aqui despertem, em meados da década de 1960, o tradicionalismo vigora no espaço dedicado às aulas de Português; a partir de então, duas curiosas correntes de opinião se formam entre os professores de Língua Portuguesa, ambas enfeitiçadas por essas reviravoltas no modo de compreensão da língua, conseqüentemente na compreensão dos estudos gramaticais, uma vez posto ser este indissociável daquele. Uma vertente entenderá o ensino de gramática da língua como um total liberalismo das normas postas, outra, se manterá no tradicionalismo ferrenho e enxergará as teorias lingüísticas como baleleísmo. No interior desta última ainda surgirá uma subcorrente que preocupada com o que ensinar sente-se perdida no âmago das discussões.

O que devemos já admitir da posse desse exame de correntes é que todas, ao que parece, permanecem portadoras de certo analfabetismo diante do real sentido representado por esses novos estudos, contemporâneos ao nosso modo, da língua. Primeiro, nenhuma teoria lingüística prega, por exemplo, que não se deva corrigir a escrita do aluno, como fazem os adeptos da primeira corrente de pensamento. Segundo, também nenhuma teoria lingüística está preocupada no ditame de normas para professores de Língua Portuguesa, como parece acreditar os tradicionalistas ferrenhos. E, terceiro, nenhuma teoria lingüística é balela, mas estudos de objeto extremis complexo, a Língua.

O que se quer nada mais é que uma mudança de foco para o ensino de Língua Materna. Se antes preocupávamos com os conceitos, hoje devemos nos preocupar com isto e mais precisamente com sua formulação crítica deste. A intenção de se estudar Língua Portuguesa envolve não apenas e somente o falar. As aulas de Português carecem de tornarem-se encontros interativos, de observação, uso e análise da Língua em funcionamento.

Como isso se daria, não há receitas com ingredientes puros para modificar e resolver de uma vez por todas os problemas que subjazem à questão do ensino de Língua Portuguesa. Uma coisa podemos e devemos esquecer: a figura do professor totalitário. Isso não combina com a proposta de interatividade. Devemos dar lugar ao professor mediador, aquele que constrói o conhecimento junto com o aluno. Isso significa a valorização do aluno enquanto sujeito membro do processo ensino-aprendizagem. Para isso, tem o professor uma série de recursos que estão disponíveis ao seu redor, no próprio âmbito da sala de aula, por exemplo. Deve o professor largar a preocupação extremista em cumprir conteúdos por cumprir, do avaliar para obter nota somente e preocupar-se com apenas um elemento chamado de aprendizagem.

Assim, entenderemos que uma gramática da língua como rezam as teorias lingüísticas não se refere apenas a uma gramática da norma ou abolição desta, mas num conglomerado de outras gramáticas que visam ao compreender de uma estrutura tão vasta quanto é a língua. Esta, por sua vez, não existe enquanto tal sem este conglomerado de gramáticas; e, sendo algo maleável no espaço-tempo, deve ser objeto de estudo constante. As aulas de Português deveriam, pois centrar seu foco, como aulas de leitura, fala, escrita e audição de textos. O texto como unidade máxima da língua é sem duvidas o objeto língua em concreção. Logo perceberemos que o vocábulo “abolir” não figura nesse cenário novo do ensino, justamente porque não se deve abolir, mas reformar.

O professor de Língua Portuguesa não pode permanecer sujeito das correntes inicialmente postas, mas sujeito inaugural de uma nova corrente, aquela que se preocupa com o outro, que enxerga o aluno como sujeito interactante, portador de características sociolingüísticas próprias e que vê a língua, seu objeto de estudo, como um elemento de interação. As aulas de Português não podem continuar nas listas de exercícios, mas no observar, no ouvir, no falar, no escrever, no ler textos de diversos gêneros. Este é o objetivo central e maior para um propósito pedagógico único: preparar cidadãos críticos e polivalentes na questão do domínio lingüístico. Se não conseguirmos isso, não poderemos sequer pensar em avançar socialmente.

_____
esta e as outras publicações tem seus direitos autorais reservados ao autor e ao jornal da publicação.