
Vladimir Maiakóvski é o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam.
Maiakóvski deixa descortinar em sua poesia um roteiro coerente, dos primeiros poemas, nitidamente de pesquisa, aos últimos, de largo hausto, mas sempre marcados pela invenção. "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária", era o seu lema, e nesse sentido Maiakóvski é um dos raros poetas que conseguiram realizar poesia participante sem abdicar do espírito criativo.
(comentário de Haroldo de Campos publicado no livro Maiakóviski - poemas, Perspectiva, 1982)"Sou poeta, e exatamente por isso é que sou interessante. É sobre isso que escrevo; sobre o resto só foi defendido com a palavra"
Maiakóvski: o farol que era um poeta*
por Francis Combes
Ninguém tem o poder de riscar com um traço de caneta o fato de que ele foi e permanece um dos poetas maiores do século XX. Para ele, a revolução não se detinha na tomada de poder político nem na coletivização da economia. Ela devia permitir a transformação da vida cotidiana, da vida toda, do amor e da arte inclusive. Poeta da revolução, ele revolucionou a poesia, libertando-a do quadro estreito das antigas convenções. E não somente a poesia russa.
Boa parte da poesia mundial não teria o rosto que tem se Maiakóvski não tivesse existido. (Penso, por exemplo, em sua influência sobre Nazim Hikmet, ou sobre outros poetas americanos da Beat generation).
Ele (como depois dele Prévert) introduziu no poema a linguagem da rua, as palavras do povo e as construções grmamaticais familiares, sem que o poema se perca por esse motivo na insipidez banal das conversas de mesa.
1- Aumentar em volume o vocabulário do poeta com a ajuda de palavras arbitrárias e derivadas (renovação verbal).
2- Aversão irresponsável para com a língua existente antes.
3- Afastar, com horror, de cabeça orgulhosa deles a Coroa, feita por vocês, de piaçava, de uma glória de dois soldos.
4- Erguer-se do pedestal da palavra 'nós' nomeio do mar de gritos de indignação."

Com a estabilização da situação, essa arte de propaganda vai tomar outras dimensões. Os construtivistas criam em 1922, o Vkhoutemas, espécie de contra-Academia de Belas Artes, em que se inventa e se ensina uma arte aplicada aos objetos do mundo moderno. Trata-se da invenção (num espírito bastante próximo do Bauhaus, fundado em 1919 em Weimar) do que se chama hoje design.
Em colaboração com o pintor e fotográfo Ródtchenko (um dos mestres da "colagem") Maiakóvski realiza numerosas propagandas para o Magazine de Estado Goum, como para uma campanha em favor da esterilização da água, para lutar contra a epidemia de tifo. Praticando esta arte "aplicada", os artistas da vanguarda não têm o sentimento de rebaixar-se. Ao contrário, participam de uma ação de grande envergadura para modificar o décor da vida cotidiana, "mudar a vida" e combater o "gosto pequeno-burguês", que não desapareceu como por milagre após a revolução e conhece mesmo um impulso de febre, a favor do período complexo da NEP durante o qual o novo poder permite certo enriquecimento individual.
No mesmo tempo em que se entregava a estas atividades de "poesia aplicada", Maiakóvski multiplicava as intervenções poéticas, nas colunas de jornais, por ocasião de suas leituras através de país no estrangeiro (Alemanha, França, México e Estados Unidos) em que foi ao mesmo tempo emissário e propagandista da revolução, e simultaneamente um observador atento, pouco à vontade por sua ignorância das línguas estrangeiras, crítico radical da desigualdade social do regime burguês e ao mesmo tempo, em certos aspectos, admirador da modernidade capitalista.
No fim dos anos de 1920, um tema retorna cada vez com mais freqüência às suas poesias e à sua produção teatral (Os Banhos e O percevejo): é a crítica feroz ao burocratismo. Maiakóvski está plenamente engajado na revolução, mas não é um seguidor. É ao mesmo tempo favorável e contrário. Ele se bate na revolução para revolucioná-la. Em seu poema, A Quinta Internacional, que apresenta a si mesmo como uma "utopia", ele escreve que será necessário refazer a revolução "na futura saciação comunista", a revolução do espírito. Ele, que foi membro do partido antes que este tomasse o poder, uma vez o poder político tomado, não segue o partido agora que considera que esse partido é seu. Mas "na arte e educação, explica ele, (os comunistas) era conciliadores".
Para Maiakóvski, a revolução toma todo o seu sentido apenas se ela permitir aos homens separar-se das mesquinharias da vida pequeno-burguesa, do papel pintado do conforto doméstico, içar-se ao nível de um amor verdadeiramente internacionalista, planetário, aumentar a alma e o coração às dimensões do universo, fazer frente a Deus, conjurar a morte, discutir intimamente com o Sol, as estrelas, os séculos futuros... O projeto espiritual do comunismo, aquele da transformação do homem por si mesmo, ele o leva a sério. Maiakóvski é, no modo da hipérbole poética, a presença da utopia prometéica na revolução, da qual ela é ao mesmo tempo o coração e a crítica "de esquerda". Isso o levou evidentemente a chocar-se com muitos, entre os burocratas, mas também entre os estetas, de rumo diverso, que queriam voltar à "arte".
Contrariando as interpretações simplistas de seu suicídio, ele, que era muito crítico a NEP, sente-se mais de acordo com o novo curso impulsionado por Stalin, a coletivização e os planos qüinqüenais que lhe dá (a ele como a milhões de soviéticos) o sentimento de que a marcha para frente em direção ao socialismo retomou. (Ainda que se saiba o custo humano, notadamente nas campanhas que o voluntarismo estalinista acarretou). Respondendo ao chamado do partido de que deseja a união de todos os seus partidários, ele decide ir ao encontro dos escritores proletários.
Porém, o último período de sua vida é também marcado por fracassos profissionais (a cabala dos invejos e medíocres, o insucesso da exposição que ele havia organizado para o jubileu de sua obra), decepções sentimentais (com Tatiana Iakovleva, uma emigrada que finalmente escolheu deposar um diplomata francês) ou com a atriz Verônica Polonskaia. Lila também não está ali para se ocupar de sua grande carcaça de melancólico em sofrimento de amor e arrancá-lo de sua depressão crônica. Ele que tão freqüentemente evocou em seus poemas a idéia do suicídio, e (num poema célebre) interpelou o suicídio de outro grande poeta, Sierguéi Iessiênin, dispara uma bala no coração, em 14 de abril de 10930. Como para prevenir as interpretações malévolas que não faltarão, ele escreve uma última carta: "A todos!... Eu morro, nao acusem ninguém disso. E nada de boatos. O defunto tinha horror disso... A barca do amor partiu-se contra o recife da vida cotidiana".
Resta-nos sua poesia. No mesmo tempo em que se lançava na refrega cotidiana, Maiakóvski construiu uma obra épica e lírica considerável, por intermédio da série de seus grandes poemas como "Nuvem de calças", "A flauta-vértebra", "Vladímir Ilitch Lenin", "A Quarta Internacional", "A guerra e o mundo", "Quinta Internacional" etc.
A obra mais ambiciosa e mais bem realizada é talvez seu grande poema "A próposito disto". Este formidável poema-romance é o resultado de uma crise em sua relação com Lila Brik. O "disto" de que se trata aqui é evidentemente o amor, às voltas com as mesquinharias da vida cotidiana, o risco de adormecer no conforto pequeno-burguês e as mundanidades da vida literária pós-revolucionária. Confundem-se neste poema o sentimento trágico do amor-paixão, assombrado pelo ciúme, ao mesmo tempo que a crônica na época da NEP, o risco do sepultamento, o apelo moral e patético a transformar o homem a partir do íntimo. Como sempre, Maiakóvski utiliza diretamente em seu poema elementos biográficos precisos, os lugares autênticos, os nomes verídicos das pessoas referidas, até seu número de telefone... (Conforme a exigência de verdade factual dos artistas da Lef). Porém, o todo é sublimado, levado por uma imensa montagem metafórica, o poeta ultrapassa a relação dos fatos para manobrar alegremente e com elevada norma na ficção. O poeta converte-se em uso, a água de suas lágrimas invade o quarto, é transportado pelo rio e deriva num travesseiro de gelo, num país talvez batizado de "Amorlândia", onde reencontra, enganchado por seus próprios versos numa ponte, aquele que ele era sete anos antes e, no poema "O Homem", preparava-se para se lançar no Neva.
A forma é formidável. O poema urde tudo. Tanto o tema individual como o tema coletivo. Tanto o presente como o passado e o futuro. O realismo e a imaginação mais delirante. Se existe uma linguagem artística que Maiakóvski anuncie e reúne em seus poemas, mais ainda que o cinema de Einsenstein e suas montagens, trata-se do desenho animado em que tudo é possível. Este lado visual e plástico, esta mistura de dramatismo mais elevado e de humor, até de galhofa popular, não são sem dúvida gratuitos na repercursão da poesia de Maiakóvski.
Quanto ao fundo, este poema atesta, como muitos outros, a "tragédia-Maiakóvski". Está ligada à contradição, para ele dificilmente suportável entre o romantismo revolucionário e a mediocridade da vida real. Na verdade, essa tragédia não é inerente a Maiakóvski. Por conseguinte, é de certo modo aquela Revolução de Outubro. Como observa com persipicácia um pensador marxista atual*, todas as grandes revoluções atribuem-se objetivos que as ultrapassam. O que explica, além disso, que para além de seus fracassos, elas continuam a parecer portadoras de uma luz. A Revolução Francesa não foi apenas uma revolução burguesa; ela também proclamou princípios universais: liberdade, igualdade, fraternidade dos quais se sabe que estavam longe de ser realizáveis nas condições da época. A consciência desta tragédia, desacordo entre o ideal e o real, explica a atitude de Robespierre, ao recusar apelar aos sansculottes para escapar a seu destino. Do mesmo modo, a Revolução de Outubro queria acabar com a exploração, a alienação, a guerra e o chauvinismo, dando o poder aos sovietes e proclamando a unidade dos "proletários de todos os países" e de todos os "povos oprimidos". Porém, tendo se produzido num país economicamente retardatário , ele teve de fazer frente a obrigações históricas que são habitualmente do capitalismo: desenvolver a indústria, realizar "a acumulação primitiva", edificar as bases materiais, construir um Estado, formar produtores... Daí uma contradição (que explica amplamente as coações impostas aos libertados individuais, por este "fórceps" da história) da qual se conhecem as conseqüencis e os efeitos.
Maiakóvski é a vítima e o herói desta tragédia. Dedicou-se à revolução, mas a revolução o içou a outro nível.
Maiakóvski (cujo nome vem da palavra russa "maïk" , "farol" "guia", em português) em seu sonho nos aparece, na extremidade de suas pernas intermináveis, como plantado, solidamente, na rocha do futuro, batido pelas ondas da vida real e varrendo a noite dos séculos, em torno dele, com grandes movimentos de projetor, de sua poesia visionária.
Amostra poética
A SIERGUÉI IESSIÊNIN
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo. . .
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem moedas.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não, lessiênin,
não posso
fazer troça, -
Na boca
uma lasca amarga
não a mofa.
Olho -
sangue nas mãos frouxas,
você sacode
o invólucro
dos ossos.
Sim,
se você tivesse
um patrono no "Posto"(1) -
ganharia
um conteúdo
bem diverso:
todo dia
uma quota
de cem versos,
longos
e lerdos,
como Dorônin(2).
Remédio?
Para mim,
despautério:
mais cedo ainda
você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodca
que de tédio !
Não revelam
as razões
desse impulso
nem o nó,
nem a navalha aberta.
Pare,
basta !
Você perdeu o senso? -
Deixar
que a cal
mortal
Ihe cubra o rosto?
Você,
com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
- É o vinho!
- a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Sim,
se você trocasse
a boêmia
pela classe;
A classe agiria em você,
e Ihe daria um norte.
E a classe
por acaso
mata a sede com xarope?
Ela sabe beber -
nada tem de abstêmia.
Talvez,
se houvesse tinta
no "Inglaterra"(3);
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol de suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
Agora
para sempre
tua boca
está cerrada.
Difícil
e inútil
excogitar enigmas.
O povo,
o inventa-línguas,
perdeu
o canoro
contramestre de noitadas.
E levam
versos velhos
ao velório,
sucata
de extintas exéquias.
Rimas gastas
empalam
os despojos, -
é assim
que se honra
um poeta?
-Não
te ergueram ainda um monumento -
onde
o som do bronze
ou o grave granito? -
E já vão
empilhando
no jazigo
dedicatórias e ex-votos:
excremento.
Teu nome
escorrido no muco,
teus versos,
Sóbinov(4) os babuja,
voz quérula
sob bétulas murchas -
"Nem palavra, amigo,
nem so-o-luço".
Ah,
que eu saberia dar um fim
a esse
Leonid Loengrim!(5)
Saltaria
- escândalo estridente:
- Chega
de tremores de voz!
Assobios
nos ouvidos
dessa gente,
ao diabo
com suas mães e avós!
Para que toda
essa corja explodisse
inflando
os escuros
redingotes,
e Kógan(6)
atropelado
fugisse,
espetando
os transeuntes
nos bigodes.
Por enquanto
há escória
de sobra.
0 tempo é escasso -
mãos à obra.
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la -
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista:
Mas,
dizei-me,
anêmicos e anões,
os grandes,
onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
General
da força humana
- Verbo -
marche!
Que o tempo
cuspa balas
para trás,
e o vento
no passado
só desfaça
um maço de cabelos.
Para o júbilo
o planeta
está imaturo.
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida
morrer não é difícil.
O difícil
é a vida e seu ofício.
(Tradução de Haroldo de Campos)
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1. Alusão à revista Na Postu (De Sentinela), órgão da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), cujos colaboradores se mostravam muito zelosos em atacar os escritores que lhes pareciam transgredir a moral proletária.
2. Referências ao poeta soviético I.I. Dorônin (n. em 1900).
3. Hotel em que Iessiênin se suicidou.
4. O famoso cantor L.V. Sóbinov (1872-1934) foi um dos participantes
da homenagem à memória de Iessiênin, que teve lugar no Teatro de Arte de Moscou, em 18 de janeiro de 1926, quando interpretou uma canção de Tchaikóvski.
5. O papel de Loengrim, da ópera deste nome, de Wagner, constituiu um dos grandes êxitos da carreira artística de Leonid Sóbinov.
6. O crítico P.S. Kógan (1872-1932), representante da crítica mais dogmática, com quem Maiakóvski manteve freqüentes polêmicas.
(publicado no livro Maiakóviski - poemas, Perspectiva, 1982)
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Notas
* este texto apresenta-se como introdução do livro Maiakóvski: vida de poesia, da Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, da Martin Claret.
* este texto é de Francis Combes, porém a tradução é de Sebastião Paz.
* acmeístas - o acmeísmo é o estilo pós-simbolista da poesia russa, que destaca a concisão e o objetivismo (nota do autor)
* alexandrino - verso de doze sílabas, no qual o acento obrigatório na sexta e na décima segunda sílabas (idem)
* soviete - conselho formado por pessoas dos meios operário e camponês, nos países comunistas, para participar de decisões políticas (idem)
* pochoir - "lâmina recortada com letras ou figuras para colorir" (idem)
* Samir Amin (idem)










