apenas meus poemas

quarta-feira, 30 de julho de 2008


Segue no meu blog, mais um poema meu catalogado das publicações feitas nos sites da web. Este pode ser lido no site Jornal de Poesias e no site Garganta da Serpente, dois torpores da literatura na Web. Confira os links para ambos os sites ao lado deste post, na segunda coluna.


Aproveito a ocasião para dizer que o Letras in Verso e [Re] Verso faz um intervalo até a segunda-feira, por motivo de viagem desse que aqui vos fala.


Na segunda, voltamos com João Ubaldo Ribeiro, vencedor do Prêmio Camões. E na terça-feira com a Exposição "Um retrato de James Joyce in Amostra Fotográfica".







2050



encontrei-me nu. criança
sob uma abóbada celeste chumbo
num futuro passado a limpo distante
alheio a mim mesmo.


divaguei e divaguei
nas capoeiras rotas
poeirentas, amareladas,
por vezes escura,
vestida de morte.



desterros.
no céu cinza escarlate
um passado futuro desatado, distante
desdobra-se em gotas de estrelas
escuras, alheias a mim.


quisera reverter a abóbada celeste
a abóbada do meu pensamento
dissecar todo o lamento em fúria
da natureza escura, morta.



re(ver) o azul celeste
que carrego na abóbada do meu pensamento.
ex(por) o brilho vivo das estrelas.
acalentar o lamento fúria da natureza
vê-la em colorido, forma viva.




minhas falas

terça-feira, 29 de julho de 2008

Na coluna minhas falas posto artigo meu publicado na sessão opinião do Jornal Correio da Tarde, de sexta-feira, 25 de julho. Boa leitura!



Grafitti: Moça Lendo - Beco Vila MadalenaData: 19-04-2008


Literatura pra quê?


Pedro Fernandes de Oliveira Neto


Ao longo da história da arte e não diferente da tradição literária - do conjunto de textos escritos produzidos pela humanidade não para fins práticos (como manter registros, leis, fórmulas científicas, atas de sessões etc.) - tem sido perguntado quais valores e/ou funções práticas fundam esse campo. Comentemos acerca desse questionamento. Nossa fala se guia pela voz de Umberto Eco, "Sobre algumas funções da literatura".

Associada a esta indagação tem surgido uma linha do pensamento segundo o qual o texto literário se produz por amor de si mesmo, sendo sua leitura apenas para deleite, puro passatempo, uma ampliação dos conhecimentos fazendo dos leitores assíduos intelectuais - quando do caso dos leitores gerais, da prosa e da poesia -, ou puro e simples espaço de elevação espiritual - quando do caso dos leitores da poesia. A partir desta ainda há outra, oposta, segundo a qual a literatura comporta um caráter de interventora nalgumas linhas sociais. Isso não é mentira, mas também não pode ser lido como de um todo verdade. Penso que o objeto literário carrega em si certa materialidade que, apenas guiar-se por estas linhas simplórias de pensar não dá conta para a pergunta lançada. A literatura como bem imaterial não se presta apenas a um bem de consumo donde se extrai certo prazer ou torpor. Visões destas ou similares reduzem a literatura apenas a um jogo de passatempo, produto de consumo, quando bem sabemos que não é bem isso.

Antes de tudo, devemos compreender que a literatura comporta em si - inconscientemente por diversas vezes - um papel de formadora da língua e criadora de identidades. Reporto aos exemplos citados por Umberto Eco. Muito dos vocábulos novos quando introduzidos na língua advém e se consolidam apenas quando adotados no plano da escrita literária; ou o que seria da identidade do povo nordestino/sertanejo sem os romances da década de 1930.

A literatura não se preza a ser espaço de qualquer um ou de qualquer leitura. A exibição do corpo imaterial é de que se compõe a materialidade do texto; a mesma é também responsável pelo caráter literário. Mas as palavras ao serem usadas na composição gráfica desse objeto artístico não se resumem à expressão de idéias e/ou de pensamentos (fluxo de consciência), mas também o seu ocultar ou dissimular, fundando novos sentidos, novas realidades. Assim, deste modo não posso admitir que a literatura seja simples espaço do devaneio porque nela encerra certa obrigatoriedade que nos leva a compreendê-la como espaço dotado de intenções e são estas intenções que devem ser respeitadas nos diversos planos de leitura.

Ao se ler na literatura certo militarismo tem sido sempre atribuída à ela a visão duma expressão concretizada do real, de um real suscetível apenas aos olhos do escritor. Essa característica, no entanto, parece falsificar um pouco o real interesse da literatura e assim ser entendida como um território onde se assenta uma verdade ou realidade outra que por vezes se confunde com a realidade vivida. A mim me parece que o real interesse da literatura é a ausência de interesses. Não é uma preocupação da literatura fantasiar uma realidade nem tampouco fundar uma realidade "real", onde por exemplo, a Chapeuzinho Vermelho viva na pele as situações que preencham os espaços discursivos de sua época no intuito de reparar as falhas da realidade "real". Ou ainda, do mundo dos livros não posso ver um Sherlock Holmes, um Poirot, um Arsène Lupin ou uma Madame Bovary como imagens de carne e osso ambientadas em nossa ou noutra realidade, também como não posso lê-los como espectros ou almas de seres comuns. "O mundo da literatura é um universo no qual é possível fazer testes para estabelecer se um leitor tem o sentido da realidade ou é presa de suas próprias alucinações" (Umberto Eco). Ao enxergar o que se encontra por trás dessa proposição de Eco, associo outro pensamento, o do filósofo Giles Deleuze, segundo o qual a literatura trata de fabricar o real e não de responder a ele. Isto é, não se assenta o papel de símbolo, antes o de alegoria, de certo pictorismo da realidade vivida, tornando a realidade em algo inerente, próprio, fundada no e pelo texto.

Diante destas três perspectivas poderia ainda enumerar outras tantas, mas estas parecem suficientes para entender que a literatura é algo que sai de um mundo de fantasia - conseqüentemente da arte de entreter - para ancorar-se a um mundo real próprio, onde a relação com o real vivido torna-se ressignificada a ponto de desfazer-se numa realidade que não imita e nem se limita ao imitar, mas criar/criar-se como tal.

Por esta definição a literatura é algo que se desdobra sobre si mesma produzindo em seu interior uma realidade que lhe é inerente com a função de apresentar e não representar. Ainda devemos desprezar a simbologia como elemento transitório e determinante fechado do signo lingüístico; no território da literatura ao apreendermos a materialidade bruta do signo estamos dando prioridade a uma leitura que se compõe no silêncio e nos espaços vazio deixados pelo abandono do simbolismo. Assim, a literatura é em suma a pluralidade de sentidos, entendida como território de diversas vias que seguem seu próprio curso, quando fundam a língua, ou se cruzam, se entrecruzam, perpassam fronteiras. Por este âmbito a literatura é mais que objeto artístico do entreter ou do responder por causas nobres, é organismo, matéria vivente, onde as palavras são dispostas no curso do papel como forças do real, onde as palavras são objetos que num processo (a) simbiótico compõem os organismos textuais. O caráter de entreter, de devanear, de ler o real vivido não cabe única e exclusivamente como via de leitura porque sendo organismo a literatura tem a capacidade de atuar por sobre outros objetos no mundo, sendo corpo palpável, sentido, vivido.


___
Fonte:

Correio da Tarde

URL :: http://www.correiodatarde.com.br/artigos/32546

Este artigo também foi publicado no site Overmundo. Aos interessados em vê-lo por lá, CLICA AQUI

A seguir na Série OS ESCRITORES o escritor brasileiro premiado no último dia 26 com o Prêmio Camões, João Ubaldo Ribeiro.

CORA CORALINA

segunda-feira, 28 de julho de 2008


Cora Coralina, fonte: internet, livre



Letras Biográficas


Conclusões de Aninha


Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.


O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?


Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.


Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, (Vila Boa de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985) foi uma poetisa brasileira.



Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, em particular dos becos e ruas históricas de Goiás.


Filha de Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, desembargador nomeado por D. Pedro II, e de Jacinta Luísa do Couto Brandão, Ana nasceu e foi criada às margens do rio Vermelho, em casa comprada por sua família no século XIX, quando seu avô ainda era uma criança. Estima-se que essa casa foi construída em meados do século XVIII, sendo uma das primeiras construções da antiga Vila Boa de Goiás.



fotos da casa onde Cora Coralina viveu maior parte de sua vida. A casa hoje é o museu Cora Coralina. Fonte: internet, livre


Começou a escrever os seus primeiros textos aos catorze anos de idade, publicando-os nos jornais locais apesar da pouca escolaridade, uma vez que cursou somente as primeiras quatro séries, com Mestra Silvina. Publicou nessa fase o seu primeiro conto, Tragédia na Roça.



Casou-se em 1910 com o advogado Cantídio Tolentino Bretas, com quem se mudou, no ano seguinte, para o interior de São Paulo. Nesse Estado passou quarenta e cinco anos, vivendo inicialmente no interior, nas cidades de Avaré e Jaboticabal, e depois na capital, onde chegou em 1924. Ao chegar à capital, teve que permanecer algumas semanas trancada num hotel em frente à Estação da Luz, uma vez que os revolucionários de 1924 pararam a cidade. Em 1930 presenciou Getúlio Vargas chegando à esquina da rua Direita com a praça do Patriarca. Um de seus filhos participou da Revolução Constitucionalista de 1932.


Com a morte do marido, Cora ficou ainda com três filhos para acabar de criar. Sem se deixar abater, vendeu livros em São Paulo, mudou-se para Penápolis, no interior do Estado, onde passou a vender lingüiça caseira e banha de porco que ela mesma preparava. Mudou-se em seguida para Andradina, até que, em 1956, retornou para Goiás.


Ao completar cinqüenta anos de idade, a poetisa sofreu uma profunda transformação em seu interior, que definiria mais tarde como a perda do medo. Nesta fase, deixou de atender pelo nome de batismo e assumiu o pseudônimo que escolhera para si muitos anos atrás.


Durante esses anos, Cora não deixou de escrever, produzindo poemas ligados à sua história, à ligação com a cidade em que nascera e ao ambiente em que fora criada.


Os elementos folclóricos que faziam parte do cotidiano de Ana serviram de inspiração para que aquela frágil mulher se tornasse a dona de uma voz inigualável e sua poesia atingisse um nível de qualidade literária jamais alcançado até aí por nenhum outro poeta do Centro-Oeste brasileiro.


Senhora de poderosas palavras, Ana escrevia com simplicidade e seu desconhecimento acerca das regras da gramática contribuiu para que sua produção artística priorizasse a mensagem ao invés da forma. Preocupada em entender o mundo no qual estava inserida, e ainda compreender o real papel que deveria representar, Ana parte em busca de respostas no seu cotidiano, vivendo cada minuto na complexa atmosfera da Cidade de Goiás, que permitiu a ela a descoberta de como a simplicidade pode ser o melhor caminho para atingir a mais alta riqueza de espírito.


Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes –
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...


(Meu destino)



Foi ao ter sua poesia conhecida por Carlos Drummond de Andrade que Ana, já conhecida pelo pseudônimo de Cora Coralina, passou a ser admirada por todo o Brasil:



"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)."
(Carlos Drummond)



Seu primeiro livro, Poemas dos Becos de Goiás, foi publicado pela Editora José Olympio em 1965, quando a poetisa já contabilizava 75 anos. Reúne os poemas que consagraram o estilo da autora e a transformaram em uma das maiores poetisas de Língua Portuguesa do século XX.



Onze anos mais tarde, em 1976, compôs Meu Livro de Cordel. Finalmente, em 1983 lançou Vintém de Cobre - Meias Confissões de Aninha pela Editora Global.


Cora Coralina foi eleita intelectual do ano e contemplada com o Prêmio Juca Pato da União Brasileira dos Escritores em 1983. Dois anos mais tarde, veio a falecer.



____
fonte. Jornal de Poesia, Site Releituras.






25 DE JULHO DIA DO ESCRITOR

sexta-feira, 25 de julho de 2008



Um blog que se preza a falar da escrita e de escrituras não pode deixar passar desapercebido a data do 25 de julho. É uma data como toda outra, mas como nos compomos nas convenções, instintuimos dias especiais em que celebramos algumas particularidades. Assim ao caledário oficial, junta-se outro calendário em que as datas estão todas no vermelho, porque são datas que celebram datas.

E hoje, para quem por acaso ainda não sabe, é dia do escritor. Uma data definida em 1960, por decreto governamental - é assim nas democracias, tudo se firma por decreto (o que é engraçado, não?) - logo após o I Festival do Escritor Brasileiro, organizado pela UNBE - União Brasileira dos escritores, presidida pelo então João Peregrino Júnior e Jorge Amado, o vice.

A todos - e me incluo - saudosos aplausos.

E, aproveitando essa ocasião para anunciar - formalmente, porque já estão as chamadas postadas na coluna ao lado - mais dois grandes momentos no meu blog: primeiro é a exposição "O Retrato de James Joyce in Amostra Fotográfica" que se dará nesta página na primeira semana de agosto, de 05 a 10, mais precisamente; segundo, para anunciar o especial "100 anos de Machado" em setembro, mês em que o Brasil celebra o centenário de morte do maior expoente da literatura brasileira.

É isso aí, aguardemos.


DOSSIÊ JAMES JOYCE

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O romance Ulysses é merecedor duma história do tamanho dele; uma não, várias. Letras in verso e [re] verso faz hoje uma trajetória por estas muitas histórias duma história.

Ulisses, histórias de uma história

A história da publicação de Ulisses é em si mesma uma aventura fascinante. Depois de demorar sete anos para escrevê-lo, Joyce enfrentou complicação no processo que vai da edição à distribuição. Em parte, houve as circunstâncias que lhe escaparam do controle, mas em parte ele se entregou à compulsão de (re) escrever até o último instante antes da impressão não resistiu ao convite da limpeza tipográfica das provas, que revelava o romance com um distanciamento que o manuscrito não proporcionava. A caligrafia de Joyce nem sempre era clara, a linguagem literária sem dúvida era incompreensível para os tipógrafos, e no vaivém o resultado foi uma edição com erros tipográficos. Os erros permaneceram nas edições subseqüentes. Só foram corrigidas na quarta edição da editora Odyssey Press, em 1932, com a ajuda de Stuart Gilbert, estudioso, tradutor e amigo de Joyce. Esta edição foi tida por muito tempo como a melhor.

As 27 páginas dos originais do episódio “Circe” de Ulisses, recentemente leiloadas.
fonte www.bbc.co.uk/.../noticias/001214_ulisses.shtml


Em 1977, porém, o neto e herdeiro de Joyce, Stephen Joyce, decidiu corrigir erros que julgava ainda existirem, inclusiva erros textuais, e publicar o romance exatamente como Joyce o concebeu. Para essa tarefa (que qualquer um concluiria ser impossível), convidou o acadêmico alemão chamado Hans Walter Gabler. Stephen Joyce teve a sensatez de formar um conselho de especialistas para acompanhar o trabalho, entre eles o mais importante biografo de Joyce, o acadêmico norte-americano Richard Ellmann.

O conselho se mostrou duvidoso quanto à escolha de Gabler. Primeiro porque, sendo alemão, não conhecia o inglês a fundo (e Joyce era, claro, mais do que proficiente no idioma). Segundo, porque o método que ele adotara parecia inadequado. Mas Gabler continuou a restaurar o romance. Entre 1981 e 1983, serviu-se da mais avançada tecnologia da informática, criou um gigantesco banco de dados e se debruçou no cotejo de manuscritos, textos datilografados, provas tipográficas e várias edições do romance.

Ao fim e ao cabo do dispendioso trabalho, Gabler apresentou cerca de cinco mil alterações ao texto que o próprio Joyce se empenhara para corrigir e vira publicado. Boa parte das correções se refere a pontuação, mas implica também na substituição de palavras e mudança de nomes de pessoas reais.

Os membros do conselho se negaram a endossar o resultado do trabalho que também foi criticado por outros acadêmicos. Stephen Joyce, porém, dessa vez não se mostrou sensato. Transformou o projeto em livro, lançado em 1986 com divulgação internacional estrondosa. As relações foram de forte resistência. Em 1988, o especialista norte-americano John Kidd publicou no New York Review of Books uma das críticas mais fundamentais, denunciando as incorreções de Gabler e defendendo as edições anteriores. Gabler ignorou todo mundo.

Há quem afirme que essa história editorial tenha apenas uma justificativa plausível. O objetivo de Stephen Joyce era, na posição de herdeiro, manter os olhos nos lucros gerados pelo que se passou a se chamar de indústria de Joyce. O estudioso inglês Bruce Arnold demonstrou no início da década de 90 (inclusive com um documentário chamado The scandal of Ulysses) que Stephen Joyce consentiu em publicar a edição “correta” de Gabler, ainda que “incorreta” academicamente, com o objetivo de estender os direitos autorais sobre o romance. Estes expirariam (como expiraram) a partir de janeiro de 1992, com o que a obra cairia em domínio público. Em termos legais, só uma edição radicalmente “diferente” das anteriores justificaria a renovação dos direitos.

Pode-se ver a mão de Gabler, e de Stephen Joyce, em outras edições das obras-primas de Joyce. Mas hoje o leitor tem, ao menos a opção de encontrar no mercado as edições que o próprio Joyce viu publicadas.

______

Fonte: o texto é da Revista Entrelivros, ano 1, n. 2, p. 38

Para acessar deste dossiê A PARTE I CLIQUE AQUI; A PARTE II, AQUI; A PARTE III AQUI; A PARTE IV AQUI.

ARTIGO

terça-feira, 22 de julho de 2008

Recuperando mais uma publicação no Caderno Domingo do Jornal de Fato. Sempre agradecendo a atenção da gentil Iza; cá entre nós, o livro dela, Um olhar sobre o idoso:percepções sobre a velhice em Mossoró, está muito bacana viu - uma pena eu não ter ido ao lançamento que ocorreu semana passada, mas a dica está dada.

O artigo meu que apresento a seguir é fruto daquela linha de sete trabalhos sobre Educação, ensino de língua materna. Confira!


Literatura Popular e ensino de Língua Portuguesa

Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Aluno do oitavo período do curso de Letras, língua portuguesa, (UERN)


Para ancorar essa nossa discussão faz-se necessário recobrar o que dizem os PCN’s, os Parâmetros Curriculares Nacional de Língua Portuguesa sobre a escolha de textos para se trabalhar em sala de aula: Quanto ao processo de escolha textual, dizem, as práticas de texto têm a necessidade específica de enxergar aqueles cuja circulação mais se aproxime do universo real ligado à efetiva participação social.

Quando propostas como estas entram em circulação, o MEC – Ministério da Educação – certamente não esperava que se transformassem em inimigas ferrenhas dos professores de Língua Materna. O fatal erro de comunicação com relação às propostas dos Parâmetros para o ensino caiu como que em cheio à ignorância dos professores. Com medo de perderem o que ainda lhe resta de autonomia, muitos vêem nos Parâmetros qualquer coisa, menos a que o vê como uma espécie de manual de propostas a serem discutidas para a melhoria no ensino; soma-se nessa parcela, outra, crente no mito de fiscalizadores e regularizadores; já para os professores de Língua Materna, mais outra, a de que os Parâmetros o repreendem do uso e ensino da gramática tradicional à moda de outra errônea concepção, a da Lingüística como condenadora-mor, já aqui discutida noutros artigos. Esta última por sua vez baseia-se na visão única que, o texto – oral ou escrito – é algo discutido tão abrangente a partir da colocação inicial recobrada no início deste artigo que fere diretamente o modelo de ensino tradicional, regido único e exclusivamente pela gramática normativa.

Ressalvas sejam feitas. Os PCN’s, em se tratando do ensino de Língua Materna, buscam criar no espaço do ensino uma necessidade voltada para a questão de uso da oralidade e da escrita, privilegiando a escuta, leitura e prática de textos orais e escritos como objetivo central de permitir ao usuário da língua uma capacidade crítica-reflexiva, bem como um domínio das práticas textuais. Enxerga-se, pois, que o real objetivo dos Parâmetros é mostrar que os sujeitos usuários de sua língua devem possuir internalizadas essas capacidades uma vez que estas não apenas irá servir como suporte básico para o estudo de Língua Portuguesa, mas de toda e qualquer outra disciplina.

Para a concretização de seu objetivo central os PCN’s remontam uma lista específica que não é imposta, como muitos pensam, mas como portadora de elementos norteadores para o estudo de gêneros textuais na sala de aula a título de compreensões diversas, tais como do âmbito da linguagem falada, escrita ou do âmbito da diferenciação de escrita, oralidade. Nota-se que a preocupação particular é fazer com que o professor se adéqüe ao espaço em que ele se insere. E, uma das formas propostas, que podemos aqui recobrar, se trata da adequação docente-discente através da escolha dos textos para se trabalhar em sala de aula. A necessidade de proximidade do universo real em que o aluno está inserido, o enxergar de peculiaridades desse universo é de fundamental importância para que se forme uma consciência de leitura e produção textual e do real objetivo do estudo de Língua Materna.

Citar a literatura popular como elemento possível e capaz de promover a prática desse objetivo não seria nenhuma utopia, uma vez que esta é parte integrante dos estudos lingüísticos e estes não devem ser (está) separados dos estudos literários, visto haver uma interação contínua entre ambos. Além de que o popular é a expressão mais firme e próxima do sujeito; não é algo enfadonho e carregado de uma linguagem clássica, extremamente lapidada, pertencente a outro contexto, alheia, pois à realidade discente, chamada de antiquada pelos alunos.

Tomemos como exemplo desse cenário literário popular o cordel. Dono de um universo rico enxerga-se nele a representatividade da autenticidade nordestina. Também nele encontram-se elementos que trazem tantas discussões que permitem o desencadear doutras práticas discursivas. E não apenas isto. Por meio do cordel o professor de Língua Materna pode relacionar as questões que dizem respeito à linguagem, compreender o processo da oralidade na escrita. E, fazê-los crer que o popular, parte de seu espaço, deve ser valorizado, é, sem dúvidas, muito instigante; muito mais que impor a eles a leitura e profunda adoração imediata por clássico, como Machado de Assis, o que muitas escolas e professores fazem quando escrevem seus programas anuais de ensino.

A priori verificamos que há necessidade de o universo em que o discente está inserido aproximar-se ou mesmo tornar a ser aspecto incorporado às aulas de Língua Portuguesa; necessidade que se reforça nos Parâmetros. Essa proximidade é esperada com a inserção da Literatura Popular, visto ser ela, representação próxima da autenticidade oral e escrita, portadora de um universo rico e emergente do meio em que se inserem os sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.

Encara-se aqui a real visão de ensino do texto e do ensino de Língua Portuguesa: o suprimento de uma necessidade em reconhecer os sujeitos formadores de um espaço social; despertar seu interesse e raciocínio crítico, demonstrar capacidade para a intertextualidade, reconhecer os traços lingüísticos, escuta e prática escrita, conforme propõe os PCN’s. E tudo isto é possível de se trabalhar fazendo uso da Literatura Popular. Resta apenas que haja o professor como um elo, mediador entre o comum, usual, o popular, próprio dos sujeitos e o formal, padrão, o erudito; enfim, uma desmistificação de que os PCN’s constituem um código penal do ensino no País.

____

o artigo foi publicado no Caderno Domingo do Jornal de Fato, Mossoró, 1 de junho de 2008, p. 14.


A seguir mais peças do Dossiê James Joyce.

JOSÉ PAULO PAES

segunda-feira, 21 de julho de 2008


foto do poeta José Paulo Paes: fonte livre


"Pode-se ler a poesia de José Paulo Paes, breve e aguda a cada lance em sua tendência constante ao epigrama, como se formasse um só cancioneiro da vida toda de um homem que respondeu com poemas aos apelos do mundo e de sua existência interior".
(Davi Arriguci Jr)


José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga, São Paulo em 22 de julho de 1926 e faleceu em 9 de outubro, São Paulo, de 1998. Poeta, tradutor, crítico e ensaísta, entre 1945 e 1948 estuda química industrial na cidade de Curitiba. Depois passou a trabalhar num laboratório farmacêutico.

Paralelo à profissão José Paulo não deixou a literatura de lado. Mantém seu interesse desde o avô que era livreiro. Ainda nos tempos de aluno em Curitiba colaborava com a revista dirigida por Dalton Trevisan, Joaquim. É dessa temporada que nasce o primeiro livro, O aluno, 1947, fortemente influenciado pela poesia de Drummond.


a poesia está morta
mas juro que não fui eu
eu até tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo mendes vladimir maiakóvski joão cabral de melo neto paul éluard oswald de andrade guillaume apollinaire sosígenes costa bertolt brecht augusto campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou incerto) josé paulo paes poeta de riberãozinho estrada de ferro araraquarense

(trecho de Acima de qualquer suspeita)


Em 1949, transfere-se para São Paulo, passando a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense, aproximando-se de escritores modernistas como Oswald de Andrade. Conhece também Dora, sua mulher a quem dedicou Cúmplices, de 1951, seu segundo livro.

Madrigal

Meu amor é simples, Dora,
como a água e o pão.
Como o céu refletido
nas pupilas de um cão.


"Uma pequena objeção: a poesia não é trabalho, é vocação. Para realizar a sua vocação, todo e qualquer poeta deve preservar o menino que todos trazemos dentro de nós mas que a avida dita prática nos obriga freqüentemente a renegar. O poeta é aquele que se recusa a renegá-lo. E, paradoxalmente é esse menino que torna o poeta o mais agudo dos adultos."
(José Paulo Paes)



Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.


Só que
bola, papagaio,pião
de tanto brincar
se gastam.


As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

(trecho de Convite)


“Desde cedo, José Paulo partira, discreta, mas resolutamente, na direção de um gênero maldito, que os Modernistas de 22 haviam reabilitado, mas que fora logo outra vez descartado sob os arroubos sério-esteticistas da geração posterior – o epigrama, depreciativamente apelidado de ‘poema-piada’. Por isso a época em que predominava uma poesia florida e metaforizante, passou despercebido o esforço de JPP no sentido de retomar, em dois aspectos – o da concisão e o do humor –, a anti-tradição de Oswald de Andrade e encetar uma poesia sarcástico-participante, uma poesia ‘interessada’, mas de uma participação avessa ao demagógico, entendida não como um discurso catequético, mas como lúcido testemunho”

(Augusto de Campos In PAES, José. Anatomias. São Paulo: Cultrix, 1967)

Enraizada na Geração de 45, José Paulo participa de uma antoolgia na companhia de Haroldo de Campos e Décio Pigantari, bem antes da Poesia concreta, movimento em que o poeta bebe mais feroz. Em 1967, é lançado seu livro Anatomias, onde mais que a poesia concreta, é um livro em ritmo oswaldiano, com poemas em que predominam a estética do verso e humor.

As encomendas

faz uma reza
bem piedosa
faz uma valsa
bem langorosa
faz uma arenga
bem clamorosa

dá devoção
aos que blasfemem
dá diversão
aos que bocejam
dá convicção
aos que duvidem

mas tua reza
não é ortodoxa?
mas tua valsa
não é amena?
mas tua arenga
não é convicta?

fora o poeta
(excomungado)
fora o poeta
(desempregado)
fora o poeta
(amordaçado)


Epitáfio para um banqueiro

n e g ó c i o
e g o
ó c i o
c i o

0

Por volta de 1963, JPP dá início a um trabalho editorial intenso à frente da Editora Cutrix, abandonando o trabalho como químico, dedicand-se a partir de então integralmente à literatura. Na companhia de Massaud Moisés organiza pela Cultrix, em 1967, Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira.

"Sua poesia, desde O aluno (1947) até Prosas (1992), revela uma voz instigante e original, que a cada livro aprimora aquelas características que lhe são mais peculiares: a concisão epigramática, o horror ao derramamento e ao sentimentalismo, a tendência conceitual mas antidiscursiva e a engenhosidade verbal, que em vez de buscar o malabarismo exibicionista busca a síntese exemplar, o laconismo prenhe de insinuações. Uma das marcas registradas dessa voz poética é o humor, aprendido em parte com Drummond, um humor que trafega ágil entre o trocadilho e o deboche, a acidez ferina e a soltura da gozação lúdica, sempre funcionando como revelação aguda do ridículo e das misérias da condição humana — ceticamente, mas com afeto, à Machado de Assis. Esse conluio de lirismo contido e denúncia amarga está invariavelmente a serviço da consciência política, sem dogmas: a consciência do homem da Pólis, o homem solidário em sua relação com a comunidade."

(Carlos Felipe Moisés)


Canção do Exílio

Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.

Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.

Guardei no fundo da mala
um raminho de alecrim.

Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava por mim.

Fechei a porta da rua
a chave joguei ao mar.

Andei tanto neste rua
que já não sei mais voltar.


Em 1981, José Paulo aposenta-se como editor e dá início a um dos mais competentes trabalhos de tradução entre os escritores brasileiros, vertendo para o português trabalhos de Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J K Huysmans, entre muitos outros, sendo nomeado, reconhecidamente, a diretor da oficina de tradução de poesia no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.

Em 1986 lança Um por todos, reunião de seu trabalho até então. Vem da década de 80 o seu interesse por poesia para crianças.

"o metro curto, o ritmo rápido, a sintaxe cortada e o tom menor vedam o texto a qualquer inflexão épica. [...] Canto de chão dos revoltosos, epitáfios de indomados, descobre o lado subterrâneo da sátira e o veio amargo do seu pathos"
(Alfredo Bosi)


Passarinho fofoqueiro


Um passarinho me contou
que a ostra é muito fechada,
que a cobra émuito enrolada,
que a arara é uma cabeça oca,
e que o leão marinho e a foca..
xô , passarinho! chega de fofoca!


Acidente


Atirei um pau no gato,
mas o gato
não morreu,
porque o pau pegou no rato
que eu tentei salvar do gato
e o rato
(que chato!)
foi quem porreu.

Em 1989, Zé Paulo lança pela coleção Claro Enigma, organizada por Augusto Massi, o livro A poesia está morta mas eu juro que não fui eu, título extraído do poema Acima de qualquer suspeita.

Na década de 1990 dá seqüência ao seu trabalho, lançando diversos livros de ensaios, poemas infantis, traduções e poesia, sendo um dos mais bem recebidos Prosas seguidas de odes mínimas, livro no qual reflete um momento difícil de sua vida, quando tem uma perna amputada.


Ode àminha perna esquerda

1

Pernas
para que vos quero?
Se já não tenho
por que dançar,
Se já não pretendo
ir a parte alguma.
Pernas?

2

Desço
.........que .....................subo
................desço...... que
........................subo
........................camas
........................imensas.

Aonde me levas
todas as noites
........pé morto
........pé morto?
Corro, entre fezes
de infância, lençóis
hospitalares, as ruas
de uma cidade que não dorme
e onde vozes barrocas
enchem o ar
de p
.....a
.....i
.....n
.....a sufocante
e o amigo sem corpo
zomba dos amantes
a rolar na relva.

........Por que me deixaste
.............................pé morto
.............................pé morto
........a sangrar no meio
........de tão grande sertão?

..............................não
..............................n ã o
..............................N Ã O !

3

Aqui estou,
Dora, no teu colo,
nu
como no princípio
de tudo.

Me pega
me embala
me protege.
Foste sempre minha mãe
e minha filha
depois de teres sido
(desde o princípio
de tudo) a mulher.

4

Dizem que ontem à noite um inexplicável morcego
....assustou os pacientes da enfermaria geral.

Dizem que hoje de manhã todos os vidros do ambu-
....latório apareceram inexplicavelmente sem tampa,
....os rolos de gaze todos sujos de vermelho.

5

Chegou a hora
de nos despedirmos
um do outro, minha cara
data vermibus
perna esquerda.
A las doce em punto
de la tarde
vão-nos separar
ad eternitatem.
Pudicamente envolta
num trapo de pano
vão te levar
da sala de cirurgia
para algum outro (cemitério
ou lata de lixo
que importa?) lugar
onde ficarás à espera
a seu tempo e hora
do restante de nós.

6

esquerda... direita
esquerda... direita
....................direita
....................direita

...Nenhuma perna
...é eterna.

7

Longe
do corpo
terás
doravante
de caminhar sozinha
até o dia do Juízo.
Não há
pressa
nem o que temer:
haveremos
de oportunamente
te alcançar.

Na pior das hipóteses
se chegares
antes de nós
diante do Juiz
coragem:
não tens culpa
(lembra-te)
de nada.

Os maus passos
quem os deu na vida
foi a arrogância
da cabeça
a afoiteza
das glândulas
a incurável cegueira
do coração.
Os tropeços
deu-os a alma
ignorante dos buracos
da estrada
das armadilhas do mundo.

Mas não te preocupes
que no instante final
estaremos juntos
prontos para a sentença
seja ela qual for
contra nós
lavrada:
as perplexidades
de ainda outro Lugar
ou a inconcebível
paz
do Nada.

"poderia dizer que, ao longo da minha experiência pessoal, deparei-me com três concepções de poesia. Os professores do curso primário me incutiram a idéia de que ela era um tipo especial de linguagem rimada, metrificada e enfeitada, para ser declamada, mão no peito, durante as festas escolares. Mas os versos metafísicos de Augusto dos Anjos, com que travei contacto aos l5 ou 16 anos, abalaram essa idéia primeva ao convencer-me, pela força do exemplo, de que poesia é a linguagem de descoberta do mundo e das perplexidades que ele podia suscitar em nós. Tanto o mundo fora como o mundo dentro de nós. Um pouco mais tarde, com os seus poemas desafetados que estilizavam a linguagem coloquial, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade me ensinaram que poesia é a redescoberta da novidade perene da vida nas pequenas/grandes coisas do dia a dia. Desde então, em maior ou menor grau, venho tentando ser fiel, em quanto escrevo, a essas duas últimas concepções. Meu ideal poético é a desafetação, a concisão e a intensidade postas todas a serviço da minha própria visão de mundo."
(José Paulo Paes)


Ao falecer em 1998, deixou inédito o livro Socráticas que veio a público em 2001. Socráticas reúne peças que estava escrevendo para o que seria um livro novo de poemas.





____

fonte: este texto foi produzido a partir de pesquisas feitas nos sites Jornal da Poesia, Wikipédia, poesia net.



DOSSIÊ JAMES JOYCE

quarta-feira, 16 de julho de 2008

UM GUIA PARA ENTENDER ULISSES



imagem in culturaclassica.blogspot.com

Ulisses tem lá suas dificuldades, claro. Isso significa que o leitor que não estiver preparado para enfrentá-las corre o risco de se decepcionar. É preciso conhecer o caminho a se trilhar, sob pena de se perder. A sinopse a seguir abre uma picada na densa floresta literária de Joyce. Conduz o leitor, capítulo a capítulo, à essência do enredo e das técnicas narrativas. Joyce é parcimonioso na indicação de pistas. A única referência que serve mais ou menos de guia é o título do livro: o nome latinizado do herói da Odisséia, de Homero. A leitura de Homero seria enriquecedora, embora não obrigatória, porque os paralelos com a epopéia grega servem sobretudo de base estrutural, funcionam como metáfora profunda - estabelecida com ironia, humor e seriedade - do heróico no homem comum na era moderna. A idéia de um guia não era estranha ao próprio Joyce. Reconhecendo a complexidade do livro, ele elaborou um diagrama explicativo "para uso doméstico". No diagrama, Joyce adotou a divisão da Odisséia: "Telemaquia" (parte I, episódios 1 - 3), "Odisséia" (parte II, episódios 4 - 15) e "Nostos" (parte III, episódios 16 - 18). A cada episódio, que no diagrama tem o título , corresponde uma denominação grega, um cena, um órgão do corpo, uma arte, uma cor, um símbolo e uma técnica narrativa. A ação se passa num único dia: 16 de junho de 1904.


Os quatro personagens principais



Leopold Bloom por Joyce

Leopold Bloom, 38 anos, filho de pai judeu imigrante, o húngaro RudofVirag (que ao cehgar à Irlanda mudara o nome para Rudolph Bloom) e Ellen Higgins, não judia. Corretor de anúncios de jornal. Casado com Molly Bloom. Pai de Milly Bloom. O casal teve um filho, Rudy, que viveu apenas onze dias, de 29 de dezembro de 1893 a 9 de janeiro de 1894. Bloom, homem comum, sente-se deslocado na comunidade xenófobica de Dublin. Quando o encontramos, ele relembra o suicídio do pai e a ausência do filho, preocupa-se com a filha adolescente e remói a suspeita de uma traição de Molly.

Molly Bloom, 34 anos, mulher de Leopold, mãe de Milly. Cantora soprano. Nascida em Gibraltar no dia 8 de setembro de 1870, com o nome de Marion Tweedy, mudou-se para Dublin aos 16 anos, com o pai, o major Brian Tweedy. A mãe, Lunita Laredo, talvez espanhola e de família judia, teria morrido ou abandonado a família quando Molly era nova. Molly é vista por outras personagens como mulher sensual, voluptuosa e até prostituta. Só aparece substancialmente no fim da narrativa, enquanto o marido dorme, no extraordinário monólogo.

Stephen Dedalus, únco personagem em Ulisses que aparece no romance anterior de Joyce, Um retrato do artista quando jovem. Neste, Stephen é enfocado desde a infância até à juventude, dos primeiros estudos à universidade, da complexa formação de um artista inconformado até a recusa do provincianismo cultural e político, à sociedade católica coercitiva, e a inevitável partida para Paris. Em Ulisses, Stephen retorna à Irlanda devido à morte da mãe. Por falta de dinheiro e indecisões, permanece em Dublin, onde mora com Mulligan no litoral num antigo forte circular, a torre do Martello, do tempo das guerras napoleônicas. Leciona numa escola para adolescentes e continua a pregar a estética em que acredita.

Malachi "Buck" Mulligan, estudante de medicina e escritor que, sem se importar de fazer concessões em relação à arte, começa a se integrar ao círculo literário de Dublin. Mora na torre do Martello com Stephen Dedalus, de quem é amigo e rival.


a torre do Martello, hoje o Museu James Joyce.Fonte: www.erasmuspc.com/index.php


Dublin, 1904

DUBLIN, o cenário

1 – a torre do Martello

2 – a escola onde Stephen leciona

3 – Cervejaria Guinness

4 – Eccles street, onde moram Leopold e Molly Bloom

5 – Sede do Freeman’s Journal

6 – Pub David Byrne, onde os personagens se reúnem

7 – Biblioteca Nacuional

8 – Praia de Sandymount



A odisséia



map of the odissey, ulysses, james joyce. Fonte: internet, livre.


B&W dot: O'Connell Circle at Glasnevin (Hades)
Orange dot: 7 Eccles (Calypso, Ithaca, Penelope)
Green dot: Barney Kiernan's (Cyclops)
Coral dot: Ormond Hotel (Sirens)
Red dot: Freeman's Journal (Eolus)
Black dot: Cabman's shelter (Eumeus)
Violet dot: Bella Cohen's (Circe)
Blood dot: Davy Byrne's (Lestrygonians)
B&W dot: National Library (Scylla & Carybdis)
Brown dot: Sweny's (Lotus Eaters)
White dot: Holles Street Maternity Hospital (Oxen of the Sun)
Bluegreen dot: Sandymount Strand (Proteus)
Bluegrey dot: Sandymount Strand (Nausikaa)
White & gold dot: Martello Tower (Telemachus)
Brown dot: Deasy's school (Nestor)


1

Telemachus


Oito horas da manhã na torre do Martello, à beira-mar, onde Stephen Dedalus mora com Mulligan. O inglês Haines, amigo de Mulligan, é hóspede. Mulligan e Stephen discutem arte: Stephen preza a arte íntegra e despreza a concessão para obter reconhecimento, que é a posição de Mulligan. A tensão subliminar entre os dois é aumentada por Haines, que pretende estudar o renascimento da Literatura Irlandesa e admira o folclore. Revela-se anti-semita. Stephen vê em Haines um representante do colonizador, opressor da Irlanda. Tomam café da manhã e saem. Mulligan vai se banhar. Dois homens procuram o corpo de um afogado. Stephen sente que não há mais lugar para ele na torre. Entrega as chaves a Mulligan e parte, sem intenção de voltar.

Stephen Dedalus é apresentado como artista. Mulligan e Haines equivalem aos pretendentes de Pénelope (da Odisséia) e a partida de Stephen simboliza a busca de um pai (no caso, espiritual).Stephen, que já havia deixado a casa dos pais, começa o dia assediado pelo espectro da mãe; remói a culpa de não ter rezado por ela no leito de morte um ano antes. A narração combina realismo com o monólogo interior (a técnica narrativa é juvenil).


Stephen vai para a escola onde leciona, a poucos quilômetros as torre, no sudeste de Dublin. Os alunos comportam-se mal e Stephen não consegue controlá-los. Terminada a aula, fica na classe para orientar o garoto Cyril Sargent, atrasado em matemática. Stephen se identifica com Cyril quando menino. Imagina-o protegido dos males do mundo pela mãe. Libera-o para jogar hóquei e procura o diretor da escola, Garrett Deasy, para receber o pagamento. Deasy discursa sobre economia, aconselha Stephen a controlar as finanças, defende o unionismo como se fosse inglês, explica mal as relações entre Inglaterra (o dominador) e Irlanda (a dominada), revela-se anti-semita, tal como Haines (“a Irlanda nunca perseguiu judeus porque nunca os deixou entrar”). Deasy escreveu uma carta de alerta para os perigos de epidemia de febre aftosa e entrega-a a Stephen para, por meio de sua influência, publicá-la em jornal.

O episódio enfatiza a situação histórica da Irlanda (a arte aqui é história) e ressalta o deslocamento de Stephen, tanto físico como psicológico. Por meio do menino Cyril, é introduzido o tema do amor materno, associado sutilmente ao espectro da mãe de Stephen. O monólogo interior é utilizado durante todo o episódio, mais intensamente no início e no fim.


3

Proteus


Depois de sair da escola, Stephen anda pela praia a caminho do centro de Dublin. Reflete sobre filosofia e estética, evocando o filósofo grego Aristóteles e o poeta inglês Willian Blake, entre outros. Passa pela casa dos tios e imagina uma visita que não faz. Reflete sobre o que aspirou, realizou e não realizou, sobre os anos em paris como estudante de medicina auto-exilado. Imagina a vida pregressa de duas pessoas que vê na praia. Num pedaço de papel que arranca da carta de Deasy, anota os versos de abertura de um poema simbolista.

Stephen reflete sobre o visível e o invisível, o mundo objetivo como sinais que exigem interpretação, a transformação de tudo no tempo e no espaço, na própria mente. O grande significado aqui é a matéria primordial, a água e o símbolo a evolução e a metamorfose. Correm sublinarmente os temas da mãe, da mulher e da fertilidade. Monólogo, interior intenso (masculino).

4

Calypso


Oito horas da manhã, casa número 7 da rua Eccles, noroeste de Dublin. Leopold Bloom prepara o café da manhã para si, para a mulher e para o gato. Resolve comer rim de porco, vai ao açougue comprar. Vê uma mulher que lhe desperta devaneios. Volta para casa, recolhe a correspondência. Uma carta da filha Milly, outra de Blazes Boylan endereçada a Molly. Blazes organizou uma turnê de concertos que inclui Molly, mas Bloom desconfia que mulher o trai com Blazes. Bloom come rim tostado, vai ao banheiro, fora de casa, com um jornal. Prepara-se para ir ao enterro de um amigo, Paddy Dignam.

Este capítulo apresenta o personagem que se pode interpretar como a encarnação de Odisseu, o pai espiritual de Stephen. O monólogo interior prevalece, mas diferente, porque Bloom é um homem comum. O devaneio ocupa-lhe a mente, sugerindo temas que vão e voltam ao longo do romance, como sionismo e erotismo (os símbolos aqui são Israel, família, vagina).

5

The Lotus Eaters


Bloom sai de casa e anda pelas ruas de Dublin. Pensa em anúncios, ciência. Carrega uma carta que recebeu endereçada a Henry Flower (seu pseudônimo), enviada por Martha Clifford, que nunca conheceu, mas que sempre lhe escreve. Vai à Igreja, à Farmácia. Reflete sobre remédios, produtos químicos. Um conhecido pede-lhe o jornal emprestado, para verificar informações sobre corrida de cavalos.

O tema da sensualidade e da sexualidade vai se formando, com as fantasias sobre Martha. Os jogos de palavras também se estabelecem: o nome Henry Flower e Bloom remetem a florescência, o desejo sexual que aflora (a correspondência direta com Homero é lotófagos); o nome do cavalo que o amigo vai apostar é Thorowaway (jogar fora). O significado aqui é sedução e lealdade.

6

Hades


Bloom vai ao enterro de Dignam com amigos. No cemitério, conhece pessoas, entre elas o jamais identificado homem “de capa impermeável”. Reflete sobre nascimento, morte transitoriedade, o filho Rudy, o pai suicida. Participa de conversas sobre a morte que desembocam na situação da Irlanda após a morte do líder do Partido Nacionalista Irlandês, Charles Stewart Parnell.

A correspondência com Homero é o episódio da Circe, a deusa-feiticeira que aconselha Odisseu a descer aos infernos e consultar os mortos para tentar encontrar um rumo. As pessoas que Bloom conhece representam esses mortos. O significado é a descida ao nada e os símbolos o homem desconhecido e o inconsciente. Joyce denomina a técnica “incubismo”.

7

Aeolus


Bloom vai à redação dos jornais onde trabalha, Freeman’s Journal e Evening Telegraph, para fechar o contrato de um anúncio. Stephen aparece para entregar a carta do diretor da escola. Um vento forte sopra quando as portas se abrem, fazendo voar papéis. Histórias ligadas ao jornalismo, discursos e política (Grã-Bretanha comparada com Roma, Israel com Irlanda), exílio. Stephen e outros vão para o bar, Bloom vai para a Biblioteca Nacional pesquisar o layout para um anúncio.

Joyce substitui o monólogo interior pela linguagem do jornalismo, com o uso abundante de manchetes. O vento representa a retórica pseudo-objetiva, transparece uma espécie de consciência coletiva. Joyce recorre à retórica, cuja origem é grega e romana. A narrativa é impessoal.

8

The Laestrygonians


Bloom continua a andar por Dublin, pensando no passado: Molly, amores de Molly, nascimento e família. Avista a irmã de Stephen da rua, alimenta aves, pensa em publicidade. Encontra uma conhecida, ex-amor passageiro, que lhe conta que a Senhora Purefoy está internada na maternidade. Bloom, com fome, entra no bar David Byrne. Sai do bar, ajuda um cego a atravessar a rua.

Joyce retoma o monólogo interior para retratar Bloom como homem bondoso e solidário. O pensamento que corre quase imperceptível, como se reprimido, é a suspeita de traição de Molly com Blazes Boylan, que ele receia encontrar. O significado aqui é a melancolia. Joyce constrói o capítulo com associações de idéias.

9

Scylla and Charybdis


Stephen discute Shakespeare com um grupo de intelectuais, entre eles A. E., na Biblioteca Nacional. Stephen expõe sua teoria da criação literária utilizando o idealismo defendido por Mulligan para mostrar que a arte e a vida interagem. Com base na teologia, filosofia e literatura, defende que Hamlet seria o fruto de uma relação verdadeira, assim como o filho de Shakespeare, Hamnet, teria sido fruto de uma relação adúltera de Ann Hatthaeay. Mulligan aparece na biblioteca, ridiculariza da teoria de Stephen. Bloom chega e parte. Mulligan ridiculariza Bloom por ser judeu e afirma que Bloom deseja Stephen. Saem todos da biblioteca.

A narrativa adota o estilo Stephen das três primeiras partes. A ênfase na teoria de Hamlet de certa forma mina a teoria estética de Stephen em Hamlet, o príncipe teme a traição materna, mas aqui Stephen remói a traição em relação à própria mãe. Joyce parece enfatizar a função criadora da mulher, com seu amor físico e seu amor materno, o que aparece em todo o romance através do símbolo da água. Joyce sugere também a relação entre ele mesmo, como autor, e a criação de Stephen, seu alter ego, tendo do outro lado a relação pai-filho espiritual de Stephen-Bloom. A arte aqui é a literatura, a técnica a dialética, os símbolos, a juventude e a maturidade.

10

The Wandering Rocks


Abundância de personagens, entre eles o padre Conmee, as imãs de Stephen e Blazes Boylan. Os acontecimentos são praticamente impossíveis de recontar com brevidade.

O episódio consiste em dezoito narrativas breves, desconectadas e sem seqüência temporal. Vários motivos se repetem, como se a narrativa principal não tivesse rumo a tomar. É a interpretação de Joyce do episódio Circe, na Odisséia de Homero, em que ela sugere a Odisseu que não tome determinado rumo. O significado é ambiente hostil, a técnica labiríntica, os símbolos homônimos, sincronizações e semelhanças. Note-se que o romance tem dezoito episódios sobre as errâncias (internas e externas) dos personagens num único dia.

11

The Sirens


Bloom compra jornal, vê o carro de Blazes Boylan estacionado em frente ao hotel Ormond e desconfia que ele está lá dentro. Entra com o amigo oRitchie Goulding. Boylan flerta com as garçonetes e vai embora. Simon Dedalus, pai de Stephen, toca ao piano e canta, Ben Dollard canta uma balada sobre a revolta irlandesa. Atmosfera de nacionalismo. Bloom, alheio, pensa em Molly, escreve uma resposta à carta de Martha Cardiff. Depois sai.

O episódio compõe-se de inúmeros fragmentos que se relacionam como uma fuga. A técnica adequada às sereias é a música; daí está repleto de canto e música. Falas e associações também são arranjadas como música, algumas palavras fragmentadas a ponto de se tornarem puros sons. A narrativa lógica se dilui e a música é uma espécie de voz narradora. Resta a mente de Bloom, de novo desconfiado de que Boylan foi visitar Molly.

12

The Cyclops


Bloom dirige-se para o bar de Barney Kiernant, Tavern, onde pretende reunir com Martin Cunningham para conversar sobre assuntos da família Dignam. Lá está o personagem Cidadão, nacionalista ferrenho. Bloom entra. O Cidadão fala de pena de morte. Bloom tenta conversar com ele com jeito. O Cidadão desdenha Bloom, afirmando que a Irlanda está cheia de estrangeiros, discursa sobre a história irlandesa. Bloom fala de amor e compreensão, ciente de sua descendência judia, depois sai. Lenehan acha que o cavalo em que Bloom teria apostado (Throwaway) foi o vencedor. O cidadão se enfurece. Bloom volta e o Cidadão, violento, força Bloom a deixar o bar.

Um dos capítulos mais complexos, a narrativa é interrompida por inúmeras passagens paródicas voltadas para si mesmas, indo do discurso jurídico e lendas irlandesas, eventos sociais e religiosos a desastres da natureza. Há um narrador não identificável e outro que é o Cidadão. No paralelo com Homero, o Cidadão é o Ciclope, que vê tudo segundo um único ponto de vista, sobretudo a ordem estabelecida. Os símbolos são a nação, o estado, o fanatismo; a técnica é o gigantismo.

13

Nausicäa


Novos dublinenses aparecem na praia de Sandymount, onde Stephen caminhou às oito da manhã (agora são oito da noite): Gerty MacDowell, Edy Boardmanm e Cissy Caffrey e os irmãos desta. Gerty irrita-se com a algazarra dos meninos. Devaneia, pensa no homem que a rejeitou e em coisas religiosas. Bloom está na praia, um pouco distante. Gerty pensa nele romanticamente. Começa a queima de fogos de artifício. As amigas saem correndo, Gerty fica, insinuando-se levemente e deixando que Bloom lhe entreveja as pernas. Quando ela se vai, Bloom percebe que manca. Antes disso, Bloom já havia se masturbado. Pensa nos filhos, pensa em Gerty.

Os estilos aqui variam conforme as personagens. O de Gerty é tirado de um romance romântico. O romantismo possibilita a Joyce “revelar” o impulso sexual subjacente e o erotismo discreto. Os fogos de artifício estouram no exato momento do orgasmo de Bloom. Com a partida de Gerty, o ponto de vista narrativo volta para Bloom. A traição de Molly retorna com o canto de um cuco. O significado é a ilusão projetada; os símbolos o onanismo, a mulher, a hipocrisia; a técnica, tumescência, detumescência.

14

The Oxen of the Sun


Na maternidade do hospital de Dublin, a senhora Purefoy está em trabalho de parto. Bloom a visita. Stephen, Lenenhan, Lynch e Mulligan festejam ruidosamente. Discutem a técnica da medicina em relação ao parto malsucedido e à prevenção da gravidez. Bloom pensa no filho morto. Stephen discorre sobre literatura. Cai um temporal, que Bloom explica cientificamente. A enfermeira pede-lhes silêncio duas vezes. O menino nasce. O grupo vai embora. Stephen e Lynch vão para a zona de prostituição.

Outro episódio complexo: aos nove meses de gravidez correspondem várias vozes, estilos de literatura inglesa, linguagem simbólica, disparates, gíria e discurso religioso. A linguagem vai do primitivo à modernidade. De acordo com a visão corpórea do romance, Joyce põe na linguagem a mediação da realidade física. A técnica, como ele informou, é o “desenvolvimento embriônico”; os símbolos são a fecundação e a partogênese; a arte a medicina.

15

Circe


Meia-noite, bordel de Bella Cohen. Stephen e Lynch entram, bêbados. Bloom chega. Alucina, acossado pelas visões de Gerty, Molly, do pai e da mãe. Preso por desordem, é submetido a um julgamento, durante o qual o chamam por vários nomes. Uma prostituta lhe diz que Stephen está na sala de música. Bloom transforma-se no avô de Stephen; Stephen transforma-se num cardeal ao discutir teologia. A dona do bordel, Cohen, troca de sexo com Bloom e o submete a castigos. O espectro da mãe de Stephen aparece, ele destrói um candelabro e, com Bloom, é expulso do bordel. Na rua, soldados rasos espancam Stephen por ter ofendido o rei e o largam inconsciente na calçada. A polícia chega. Bloom resolve a situação. O filho Rudy aparece em visões.

Um episódio em que a objetividade e a subjetividade se interpõem, a alucinação substitui o realismo. Joyce chama a zona de prostituição de “cidade da noite”, uma metáfora do inconsciente, lugar propício para fantasias, pesadelos e realizações de desejos. Densamente metafórico, na diluição de fronteiras concretiza-se o encontro mais profundo de Bloom e Dedalus. A arte é a magia; os símbolos são zoologia, personificação.

16

Eumaeus


Bloom leva Stephen para o abrigo de motoristas de praça, não longe da cidade da noite. Stephen encontra um amigo desempregado e recomenda procurar emprego na escola de Deasy, de onde resolveu se demitir. No abrigo, bebem café e conversam com um marinheiro, W. B. Murphy. Bloom sonha em viajar. Bloom fala do encontro com o Cidadão, mas Stephen não lhe presta atenção. Mostra a fotografia de Molly. Os dois saem do abrigo.

A narração é convencional, mas com vários estilos. Novas personagens parecem ser simuladas, como se ocultassem a identidade. O mesmo aplica-se a Stephen e Bloom. Vaguidão e incoerência permeiam o episódio. A arte é a navegação; o símbolo são marinheiros; a narrativa é senil.

17

Ithaca


Bloom leva Stephen para casa, o mesmo número 7 da rua Eccles. Como Stephen, está sem a chave da porta da frente (perdeu-a), pula a grade para entrar pela porta dos fundos, não querendo acordar Molly. Prepara um chocolate e os dois rememoram tempos passados. Arte, no caso de Stephen; ciência, no caso de Bloom. Bloom convida-o a morar com ele e Molly. Stephen entoa uma cantiga sobre uma menina judia. Bloom convida Stephen para passar a noite. Stephen recusa. Vão para o jardim e urinam, enquanto no céu passa uma estrela cadente. Stephen vai embora. Bloom volta a entrar. Guarda a carta que escreveu para Martha Cardiff numa gaveta, depara-se com coisas que lhe trazem lembranças. Repassa o dia que findou. Vai para o quarto. Sente na cama a presença de Boylan. Deita-se com a cabeça voltada para os pés de Molly, posição fetal, e dorme.

Próximo do fim, o romance parece carecer de armação. É um episódio com a técnica do catecismo (impessoal), em forma de perguntas e respostas. As respostas muito precisas e científicas (por exemplo, a reflexão sobre o complexo sistema que leva a água à torneira da cozinha de Bloom). O “fim” é o encontro de Bloom e Stephen como pai e filho espirituais (Joyce usa as composições “Stoom e Blephen”), mas também a separação um do outro, ao menos neste dia. E é um distanciamento também de Homero. O símbolo são cometas.

18

Penelope


Na cama, Molly reflete sobre o marido, o encontro com Boylan, o passado, as esperanças. Suspeita que Bloom tenha uma amante, pensa nos próprios amantes idos. Aspira um grande futuro. Pensa em Gibraltar, na filha. É interrompida duas vezes, uma por um apito de trem, outra pelo início da menstruação. Pensa no médico, Stephen, no filho morto e em Bloom. O relógio toca. Lembra-se de quando fez sexo com Bloom pela primeira vez.

Este longo e último episodio, sem pontuação gráfica, é um monólogo interior fragmentado, com frase ligadas ininterruptamente por associações. Há o infinito, a intemporalidade, a ausência de identificação. Segundo o próprio Joyce as oito frases de Molly começam e terminam com “sim” porque são a afirmação do “eterno feminino”: “Mulher, sou a carne que sempre afirma”.





____
Fonte: o texto na íntegra é da Revista Entrelivros, ano I, n. 2, p. 40 - 44.

CLIQUE AQUI PARA ACESSAR A PARTE I; AQUI PARA A PARTE II; AQUI PARA A PARTE III



Apenas meus poemas

O jornal Trabuco, do qual faço parte trata do universo literário do curso de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Dentre as colunas está uma que se chama SARAU, dedicada à produção poética. Em sua primeira edição lançada no início do mês, duas poesias minhas foram publicadas, uma "Salvação" (que produzi especialmente para este blog) e outra, uma amostra poética de meu livro Sertanices, "Previsões", a qual transcrevo para cá.



previsões


Minha avó costumava em certos meses do ano

Pôr sobre a casa numa tabua morros de sal,

Doze ao todo, os doze meses do ano:

Janeiro. Fevereiro. Março. Abril. Maio.São João.

Santana. Agosto. Setembro. Outubro. Novembro. Dezembro.


No dia seguinte contava a quantidade do derreter

E dessa quantidade via os meses chuvosos,

Os menos e os mais,

Também os meses secos –

Estes, de Santana em diante serão secos.


Nos meses de São João e Santana

Se um bando de garças cortasse o azul pardo

Nas tardes afogueadas

É que a seca estabanada encontrava o sertão.


E era mesmo: as garças se iam deixando para trás

Uma caatinga de verde esmorecido,

Capim amarelo.


Breve a caatinga fazia-se cinza,

Como que morta, adormecida,

Vestida mesmo de morte, despida de vida

Para suportar as agruras o calor.




____

Para ler Salvação CLIQUE AQUI ou no link ao lado Apenas meus poemas.


para acessar o blog do Jornal Trabuco CLIQUE AQUI.


A seguir mais peças do Dossiê James Joyce.



APENAS MEUS POEMAS

terça-feira, 15 de julho de 2008

Fotograma feito de sertanices


saulosaboyna@zip.net
Quadro 1: espelhos do sertão

Já acena este agosto – o principia
De suas tragédias ou de suas alegrias
Muito do seu de narrativa
Em curtos capítulos
Componho-o em versos
Que juntos o chamo de poema

Com um feixe de poemas que
Intimamente conversam comigo
Toda vez que os leio ou releio
Tento pintar em quadros espelhados
O que há anos inspirado em matéria de memória
Chamo de sertanices.


Tela de Mauro Andriole
Quadro 2: invenção do sertão

Muitos dos episódios que se desdobram
Se revelam, enovelam, empoetizam-se
Na pureza e no lirismo da paisagem sertaneja
Afinal são sertanices.

Porque o sertão em seu enlevo encantatório
Define-se em poesia por si mesmo –
Com o seu destino, seus homens,
Suas raízes, suas lembranças.


Fco Simões
Quadro 3: sertanices

O sertão que me vêm à memória
Perambula do mais amplo horizonte imaginável
Perpassa por figuras algures
E emerge pela rachadura das palavras
Desfraldadas em closes enigmáticos
Que juntas chamo de sertanices.

Um arquétipo colossal
Do escape por um triz
Da queda destas memórias em palavras
A surgir do nada misteriosamente
Entre o escuro e o esplendor
A coragem, o incomum são sertanices.


________
este poema é um dos que abre meu livro, Sertanices e foi publicado no site Overmundo.

DOSSIÊ JAMES JOYCE

segunda-feira, 14 de julho de 2008



Em Ulysses Joyce narra a potencialidade de um mito épico na vida mundana e rotineira, marcada pela indeterminação.


JAMES JOYCE: PEÇAS PRIMEIRAS PARA UM RETRATO DO ARTISTA (III)

Enquanto prosseguia a seriação do livro Um retrato... o escritor começa a escrever o romance Ulysses. Por esta época, 1914, foram muitos os reveses - basta lembrar que por esta época eclodia a I Primeira Guerra Mundial. E aí Joyce sai de Trieste (apesar de pretender continuar por lá) e vai para Zurique - Suiça -, ficando por lá até 1919. Depois de quatro rejeições pelas editoras do seu livro Um retrato... Joyce o tem publicado pela editora Hariet Shaw Weaver, a mesma responsável pelo The Egoist.

Terminada a Guerra, em outubro de 1919, Joyce volta para Trieste, agora território italiano em sua boa parte. Encontrando a cidade como um caos a sua escrita, Joyce vai novamente para Paris, onde residiria por longos vinte anos. Adquirindo uma certa estabilidade, Ulysses nasce nesse momento, em 1921.

Romance que Joyce já trabalhava desde seus vinte oito anos de idade, quando ainda trabalhava no conjunto de contos de Dublinenses.

Originalmente teria o romance 22 capítulos, mas ao londo de sete anos de criação passou o texto por muitas transformações. Sai ele publicado sob forma de fascículos (catorze ao todo) a pedido do poeta americano Ezra Pound. Essa publicação data de 1918 e 1919, pela The little review (revista norte-americana) e pela The egoist (revista inglesa); nesta última em apenas algumas partes. O romance, ao final em quase nada mais corresponde a estes originais, visto que aparece mais expandido, com segmentos em sua estrutura totalmente modificados e detalhes estilísticos eliminados e/ou acrescentados.

O romance segue a trilha do personagem Stephen Dedalus de Um retrato do artista quando jovem. Agora o personagem está de volta a Dublin, vindo de Paris, remoendo a culpa por se negar a rezar pela alma da mãe agonizante. O personagem, no entanto, encontra-se num segundo plano porque quem marca o trajeto da narrativa em primeiro plano pe o Leopold Bloom. E será por através de Bloom que Dublin se nos apresenta.


Bloom por James Joyce

O romance joyciano em questão adquire uma sólida estrutura homérica, a começar pelo título dado a obra, técnica que o escritor irlandês já vinha fazendo desde o romance anterior a este. O marcará esse romance é ainda a quantidade de personagens num constante monólogo interior, o qual usa e abusa o escritor. A história é ora narrada por um narrador impessoal, como estamos acostumados aos romances comuns (lineares) ora continuada por um narrador que é o próprio narrado, ora ainda é a linguagem sua própria narradora. Sem doutros momentos em que tudo converge num mesmo espaço, oferecendo ao leitor momentos em que a lingaugem se manifesta enquanto bifurcante entre o individual (a voz interior) e o coletivo.


(imagem do primeira página em original do Ulisses, de Joyce. Fonte: www.idelberavelar.com/archives/2006/06/)

Joyce narra, desse modo um mito, que também como o texto homérico é uma épica da vida mundana, marcada pela indeterminação.

"O fato de Stephen entregar a chave da torre Martello a Buck Mulling tem um paralelo no fato de Leopold Bloom estar sem a chave da porta de número 7 da rua Eccles. Bloom consegue entrar e volta para o lar, em que Molly o espera. Stephen, depois de recusar o convite para ficar, não tem um lugar aonde ir. O encontro entre o pai e o filho espirituais se deu, a separação é física. Mas não há 'resolução'. Carecemos da síntese, que pode, talvez, ser encontrada no monólogo afirmativo de Molly Bloom. Joyce parece nos dizer 'bem-vinda ó vida!', saudando a literatura em evolução, inextricavelmente na realidade mutável. Stephen e Bloom urinam, passa uma estrela cadente. Ulisses é também um cíclico tecer e destecer."
(José Antônio Arantes In Revista Entrelivros, n 2, p. 37)

Acerca dessa cena dos dois a urinar, muitas outras cenas como as que Joyce fala abertamente do defecar e masturbar do Bloom, é algo que choca aos leitores desavisados da época; é realista demais a ponto de se classificar como ofensivo. Tanto que em 1920, o correio norte-americano confisca quatro edições da publicação, sendo o episódio Nausícaa motivo de processo contra a publicação pela Sociedade de Combate ao Vício de Nova Iorque. Na Inglaterra a obra só seria aceita para publicação em 1936, graças à conjuta ação de intelectuais e escritores influentes como o poeta T S Eliot junto ao Ministério do Interior britânico.

Em 1923, com o destino de Ulysses numa incógnita, Joyce inicia um novo romance, Finnegans Wake, sendo este concluído apenas em 1939, romance tido como o mais ilegível de todos.

"Mais radical do que Ulisses, irredutível a um mero resumo, pode ser visto com uma versão do romance anterior, um sonho de uma noite apresentado por uma linguagem apropriadamente onírica, distorcida em limites até então inéditos."
(idem)

O texto se apresenta novamente intercalado por um linguagem enciclopédica e retrata uma família irlandesa.

Por aqui dá-se início a último período da vida do escritor, este um dos mais infelizes para a família. Joyce começou a ficar cego, causa da catarata, doença que levaria o escritor a submeter-se nove cirurgias. Além disso, a filha Lucia apresentava os primeiros sinais de demência.

Preocupados com família Joyce e Nora voltam a Londres, em 1931, a fim de se casarem e resolver as questões legais em relação a herença dos filhos. É em dezembro desse ano que o pai vem a falecimento. Meses depois, a Segunda Guerra Mundial. Em 10 de janeiro de 1940 Joyce é submetido a uma cirurgia para tratar-se duma úlcera. Três dias depois vem a óbito antes de completar os 59 anos.

O último livro chega a ser publicado em 1939, mas o próprio amigo Pound o renega. Começa, então desprezo a obra do escritor.

_____
As informações, bem como as notas ou citações desse texto são todas de Jose Antonio Arantes coletadas na Revista Entrelivros, n. 2, p. 28-39. As partes I e II deste Dossiê também.

José Antonio Arantes é tradutor. Entre os livros que traduziu estão Histórias e poemas para crianças extremamente inteligentes de Harold Bloom; Giacomo Joyce de James Joyce entre outros.

À exceção das imgens postadas com suas respectivas fontes, as imagens que compõem os posts são também todas, aleatoriamente da internet.

>>> DICAS

O Ulysses em Hipertexto na íntegra, Clique aqui
Um guia completo para Ulisses, Clique aqui
Blog com excelentes informações sobre James Joyce e a sua obra-prima, http://odisseialiteraria.com/





Para acessar A PARTE I, CLIQUE AQUI e a PARTE II , CLIQUE AQUI ou nos links ao lado.



A seguir o Dossiê James Joyce apresenta Um guia para entender Ulisses. Aguardemos.




MARIA MADALENA ANTUNES

sexta-feira, 11 de julho de 2008

 ALGUMAS INFORMAÇÕES RELATIVAS AO TEXTO.

Todo o texto que se segue até antes da citação do professor Tarcísio Gurgel foi escrito graças às anotações da neta da escritora Lúcia Helena, registros estes encontrados no blog Vivi Eventos, bem como as fotos (as que enumerei em vermelho) também são do acervo pessoal dela.

Às imagens (2) e (3) leia-se a legenda: (O Solar Antunes, construído em 1888, por iniciativa e custos próprios do meu bisavô, era a residência da família.)

À imagem (5) leia-se a legenda: (A 2ª edição do Oiteiro teve a cessão da poeta Lúcia Helena, neta da autora para os direitos autorais que ela assinou junto a um dos proprietários da A.S. Livros (Cícero). Dos 3.500 exemplares (lançados na Bienal Nacional do Livro, em Natal, 2002), teve ela a oportunidade de autografar cerca de 600 exemplarews do stand da Academia Feminina de Letras, onde sua avó é Patrona).

Dos engenhos citados são o Oiteiro - residência da família - e o Guaporé.


Agradeço por esta via as considerações feitas pela neta da autora que sem dúvidas só tem a enriquecer o conteúdo deste post.








O Blog Letras in Verso e [re] verso traz no último post da semana a escritora potiguar Maria Madalena Antunes.



(1) foto da escritora

Maria Madelena Antunes de Oliveira nasceu no dia 25 de maio de 1880, no engenho Oiteiro, município de Ceará - Mirim; filha do coronel José Antunes de Oliveira e Joana Soares de Oliveira. Posteriormente, ao se casar com Olympio Varela Pereira, passou a assinar Maria Madalena Antunes Pereira, tornando-se, a partir de 1958, mais conhecida como a Sinhá - Moça do Oiteiro.

(2)

(3)

O Solar Antunes, Ceará-Mirim, em três diferentes épocas, antiga casa-sede do engenho da família, hoje sede da Prefeitura Municipal


Para os que conheceram a escritora, falam duma Madalena Antunes criança alegre, virtuosa, cheia de amor pela família, pelos irmãos Juvenal Antunes de Oliveira, que foi poeta, Etelvina Antunes de Lemos, também poeta e Ezequiel Antunes de Oliveira.

Senhorinha ou Sinhá de engenho, Madalena parece não ter levado a alvunha muito ao pé da letra; relatos dizem ter sido ele afetiva e carinhosa para com as filhas de escravos; citem-se Tonha e Patica, "crias da casa do coronel", com as quais apegou-se, em correspondida afeição, além, da fidelidade das jovens mucamas, suas companheiras diletas nos tempos de criança.

Do engenho Oiteiro, Madalena Antunes veio a mudar-se com a família para Natal. Já pela época escrevia seus manuscritos no palco do velho terraço da casa da avenida Hermes da Fonseca, 700, a título de fuga de seus momentos de solidão. Vale salientar que Madalena está numa época de muitos preconceitos ao papel da mulher na literatura e em outras atividades quase que destinadas apenas ao homem. Mas, preconceitos à parte a escritora desenvolveu fortes laços com intelectuais como Luiz da Câmara Cascudo, Manoel Rodrigues de Melo, Esmeraldo Siqueira, Veríssimo de Melo, Nilo Pereira, entre outros. Foi do convívio com o meio que surgiu a possibilidade para editoração e lançamento do seu livro, o qual, em manuscritas páginas já estava concluído. Nessa época, conheceu Paulo de Tarso Correia de Melo, por quem a escritora inaugura fortes laços de amizade.


"Os preparativos para o lançamento do livro de vovó foi um acontecimento raro! Presenciei essas “cenas” por algum tempo, observando a empolgação dos intelectuais diante da perspectiva de uma norte-rio-grandense infiltrar-se no mundo literário. E foi desses nomes da nossa rica literatura, que ela recebeu os melhores estímulos, até que, através do contacto de Câmara Cascudo e Nilo Pereira, com um escritor pernambucano, seus manuscritos chegaram à Editora Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro - e o livro foi editado com o apoio da Casa Euclides da Cunha, Coleção Nisia Floresta em 1958."
(Lúcia Helena Pereira, escritora e poetisa)

“Largo é o sorriso que me acompanha e estreito o caminho daqueles que não compreendem as poesias da alma. Eu sou apenas uma mulher feliz, alguém que aprendeu a canalizar os sentimentos, sem se queixar diante dos embates da vida! Madalena Antunes!”
(palavras anotadas, em letras de formas, na contra capa em cartolina, do rascunho do livro, oferecido à neta Lúcia Helena Pereira)
(4) capa do livro Oiteiro - Memórias de um sinhá moça, 1a. ed. 1958, Fundação José Augusto - antiga Escola de Jornalismo de Natal

(5) Mais tarde o livro reeditado pela A.S. Livros na II Bienal Nacional do Livro em Natal, 2003, (capa)


Com toda a movimentação para o lançamento do seu livro, Madalena foi surpreendida com a visita de Maria Tereza, redatora-chefe da Revista carioca Da mulher para muhlher, 1958, para uma entrevista.

“Como a senhora se sente ao publicar o seu primeiro livro, com tantas manifestações de carinho, notícias em jornais, intelectuais cercando - a a todo instante? E esse terraço, haverá um história”?

“Saí de um vale encantado para a cidadezinha dos Reis Magos. Aqui, então, fui reunindo as minhas reminiscências e encontrando escritores que me incentivaram na árdua caminhada. Deixar o Oiteiro e a velha Ceará-Mirim - O Solar Antunes, para morar em Natal, deu-me algumas vantagens e os primeiros vislumbres intelectuais. Por outro lado, venho sentindo falta da minha paisagem de infância, da mansidão do vale, dos parentes e amigos que lá ficaram. Quanto ao terraço, nele está a fronteira do meu pequeno grande mundo, a minha “ilha”, o meu refúgio, a mangueira frondosa e bela! Afinal, as árvores também saem dos seus lugares e dão sombras e frutos, e os pássaros pousam e cantam as suas lindas estrofes musicais! Sobre o meu livro, creio que a vida vai escrevendo a nossa história e o Oiteiro vai me levando de volta a um tempo ameno, cheio de poesia e beleza, ao meu “templo” de gratas recordações que vou deixando para as novas gerações.”


“Então, somente as recordações e saudades do vale levaram - na a escrever um livro?”

“ Foram os encantamentos da infância que enriqueceram as minhas lembranças; o feitiço do Oiteiro com suas perfumadas auroras e os crepúsculos enchendo-me de inspirações! O Oiteiro, o velho engenho com o oitizeiro à beira da estrada! Aquele pedaço de céu foi o palco iluminado das minhas recordações! A fonte perene dos meus sonhos de menina! Saiba, Maria Tereza, desde criança fui aprisionando no coração as minhas lembranças, o que não imaginava é que, um dia, elas seriam impressas nas páginas de um livro. Creio que isso foi seduzindo o meu espírito e me privando da solidão comum desses novos tempos, na cidade. Escrever, pelo menos para mim, é um belo exercício da alma, uma forma de suprir as solidões e as saudades. E no Oiteiro, ficou o grande oitizeiro, o qual devo bendizer: Oh! Velho oitizeiro, figura do passado, templo de minhas primeiras impressões! Quantas coisas recordas! Oh! Árvore do pomar da minha felicidade!"

(trecho da entrevista)



Madalena Antunes faleceu em 11 de junho de 1959, na mesma casa onde veio morar em Natal, à Hermes da Fonseca.



“ Natal, 23 de março de 1935: Meu querido filho, Abel, hoje, dia do seu aniversário, quero dar-lhe minha benção espiritual, como o melhor presente que poderia ofertar-lhe neste dia tão especial. Ela vai perfumada do olor daquelas rosas, que você plantou, com tanto amor e cuidados, no jardim do meu coração. Plantamos, nos jardins da vida, muitos balcões de plantas preciosas. Qual a mais bela? Não saberia dizer. Mas, em você, meu filho, jamais encontrei a pequena graminha comum, entre as rosas do amor filial. Por tudo isso, peço - lhe, que quando chegar a hora derradeira, você possa entrelaçar as minhas mãos frias com as contas do rosário, onde oro por sua felicidade. Um beijo de sua Lhene (Madalena!)”

(fragmento de carta de Abel Antunes Pereira, pai da poetisa, Lúcia Helena Pereira, neta da escritora, recebida, em 1935, de sua mãe, Madalena Antunes)

Madalena Antunes, nasceu no engenho Oiteiro, morou no Solar Antunes - construído pelo pai José Antunes de Oliveira - , costumeiramente passava férias na casa-grande do engenho Guaporé (construído na metade do séc. XIX, que pertencera ao Barão do Ceará-Mirim, Manoel Varela do Nascimento) foi a primeira mulher na história do Rio Grande do Norte, a publicar um livro regionalista e de memória.


(6) foto da casa-grande do engenho Guaporé construído na metade do séc. XIX, que pertencera ao Barão do Ceará-Mirim, Manoel Varela do Nascimento, onde Maria Madalena Antunes costumeiramente passava férias


"Outra obra de qualidade literária excepcional e que é, certamente, a mais interessante entre as aqui escritas no campo da memória é Oiteiro, da cearamirinense Madalena Antunes Pereira. Oriunda de uma família que já revelara um poeta extraodinário, Juvenal Antunes, e já na maturidade, revela-se aquela que se tornaria a mais importante memorialista, potiguar, aí incluída também a contribuição masculina. Esta afirmativa se justifica pela análise dessa obra enquanto transcendência do registro meramente biográfico. E o seu livro, como nenhum outro no gênero, em nossa literatura, revela-se, em vários trechos, como ótima e, em muitos outros como excelente literatura. Como uma atenta observadora do universo marcado pelo fausto da cultura canavieira, refletida no poderio de alguns Senhores de Engenho, na incamporável beleza do vale, no romantismo das sinhazinhas, tão familiares essa escritora temporã e de um só livro vai registrando, movida por grande sensiblidade, tudo o que sob sua ótica tinha importância. E o faz tão bem, como tamanho talento memorialístico, que o privilegiado leitor acaba concordando, digamos assim, com a sua escolha. Não surpreendente que ao passar do crivo cascudino, o registro memorialístico dessa filha da aristocracia cearamirinense tenha feito, o mesmo, entusiasmado invocar Helena Morley, a de Minha vida de menina que tanto encantou a intelectualidade brasileira na época de seu lançamento, continuando ainda hoje, a interessar à nossa melhor crítica. É que, embora pertencendo a extratos sociais e culturas diferentes, como o livro da inquieta e vivaz menina mineira, o de Madalena Antunes é narrado com graça de uma personagem onde se confundem inteligência e autenticidade, esperteza e bastante humor, mas que contém, igualmente, a marca de uma observadora perspicaz que não abre mão de consignar aspectos interessantes da sociedade em que viveu e os resgata, enfatizando, pela via literária, sua importância etnográfica, sociológica, genealógica, historiográfica, folclórica. De Oiteiro, bastaria uma página, onde a memorialista narra o sonho da negrinha Tonha (de ultrapassar um dia os limites do engenho, onde a fantasia expande apenas na sessão de estórias em Patica), numa viagem imaginária a "Olindra", para que merecesse reconhecimento em qualquer literatura."
(Tarcísio Gurgel)

"Tomava parte em nossos serões a negrinha Tonha esparralhada no chão, coçando os pés e não perdendo uma só história de Patica.
Nos lances às vezes aterradores, de passagens de gibóias engolindo incautas crianças, fantasmas de um olho só no meio da testa, correndo pelos desertos e fazer penitência, as crianças ficavam de olhos esbugalhados e cabelos em pé.
Nesta altura, cotucava-me a Tonha: - Sinhá Lica, estou toda arrepiada! Mas, os seus grandes olhos de jaboticaba cresciam mais e arredondavam-se, oscilando como pêndulo de relógio, de um lado a outro, quando nas novelas aparecia um "lobisomem" e Patica, encarando-a sizuda, dizia: "Era o homem que comia barro..."
Neste caso, eu é que cotucava a Tonha...
Não sei se as histórias da nossa excelente contista influíram para as travessuras na negrinha que falava puxando os r r...
Ficam recordadas algumas:
Uma vez me afirmou, em tom confidencial, que ia à cidade de "Olindra". Decorridos dias, falara num lugar encantador chamado "Olindra", onde havia coisas fantásticas e fabulosas. Perguntava-lhe admirada:
- Tonha você conhece a cidade?
E ela, com um muchocho e alguma gravidade:
- Ora, se eu não conhecesse não falava; e mesmo a gente só fala do que conhece? Já vi perfeitamente a cidade de "Olindra" em livros da estante o Doutô Meira. Quando vou lá com Tetê, minha avó, leva presente da Sinhazinha pra mulhé do doutô, assim que tenho uma escapula rumexo nos livro!
Fazia uma pausa, revirava os olhos e continuava: Sinhá Lica não sabe daquela moda que fala numa rua de briante só pra meu passiá? Pois aquela rua é na Olindra...

...

Pasma, perguntava-lhe: Tonha, e o que o francês? Respondia, estalando a língua: coisa muito facir: - Faca é garfo; caneta é lápis; livro, pote, onde a gente bebe água; vinho, água; farinha, arroz; e assim por diante. É só trocá o nome das coisa. O fabriqueiro lá da Igreja, quando está contando história do tempo antigo aos menino diz que na torre de Babé foi assim... De repente tudo ficou atrapalhado purquê começaram com a ganança e Deus castigou trocando os nome das coisa. Aí saiu o inguilês, o francês e o alemão.

...

(fragmentos de Oiteiro, Capítulo V, Tonha e Patica)

Essa contribuição masculina de que fala Tarcísio Gurgel acima, diz o autor em nota, foi trazida em períodos diversos por, entre outros, Eloy de Souza, Memórias; Clementino Câmara, Décadas; Luís da Câmara Cascudo, O tempo e eu, Ontem e Na ronda do tempo; João Maria Furtado, Vertentes; Augusto Severo Neto, Ontem vestido de menino; Raimundo Nonato, Memórias de um retirante; Artéfio Bezerra, Memórias de um sertanejo; Gerlado Batista, Moleque do Acari. Entre as mulheres há também um interessante livro que sequer chegou a ser notado, Menina Feia e Amarelinha, de Chicuta Nolasco. Registre-se ainda a narrativa romanceada de Nilo Pereira, Rosa Verde, que embora tenha sido marca dum estilo inconfundível, se frusta, justamente na indefinição do seu autor e oscila perigosamente entre um e outro gênero. (T.G.)

"Um livro amorosamente cultivado como quem cultiva uma amizade, ou quase um mito – é um passado que nos arrasta à contemplação de uma cidade, romântica à sua época, é uma viagem que se faz do Ceará-Mirim ao colégio São José no Recife.

O Ceará-Mirim dos seus grandes dias está nessa lembrança da menina que se fez sinhá-moça e senhora de engenho, escritora e poetisa, aquarelista do vale.

Aquela que viu crescer uma civilização na doçura do canavial, que viveu mergulhada sempre num sonho, quer escritora ou pianista, no seu sobrado antigo, do qual fez uma admirável descrição”.
(escritor Nilo Pereira, em seu livro Imagens do Ceará-Mirim ao falar do livro Oiteiro)




______
Fontes,

GURGEL, Tarcísio. Informações da literatura potiguar. Natal: Argoos, 2001.

Semana que vem, mais peças do Dossiê James Joyce.

DOSSIÊ JAMES JOYCE

quinta-feira, 10 de julho de 2008


O poeta Ezra Pound, protetor de Joyce no início da carreira, conseguiu subsídios do governo britânico para o futuro autor de Ulysses, tirando-o da sargeta.


JAMES JOYCE: PEÇAS PRIMEIRAS PARA UM RETRATO DO ARTISTA (II)


Viúvo a quase um ano, Joyce, por puro acaso, conheceu uma moça de vinte anos, filha de um pedreiro beberrão separado da mulher, que se mudara para Dublin. Nora Barnacle estava longe de Joyce em termos de formação, abandonara os estudos ainda aos treze anos. Ainda assim nasce entre os dois um relacionamento que duraria para todo o resto da vida. Três meses depois de se conhecerem ambos decidiram sair da Irlanda, fixaram-se em Pola (Croácia hoje) e depois em Trieste (Itália hoje), cidades estas que faziam parte do Áustria-Hungria.












James Loyce e Nora



Instalados em Trieste, Joyce passa a trabalhar numa escola como professor de inglês. Já por aí, Nora engravidara. Perdida por está num país em que não tinha noção nenhuma do idioma e ainda com o hábito de beberrão de Joyce, Nora teve de se resignar. Estado que alivia quando da chegada de George Joyce, em 1905, que apesar das alegrias, trouxe mais complicações financeiras. Na esperança de arranjar alguma estabilidade o casal dá início a uma verdadeira perigrinação pelo continente europeu e a primeira parada foi em Roma, em 1906, onde Joyce trabalhou num banco por nove meses. No ano seguinte voltaria a Trieste. Por essa mesma época Nora engravidara de novo. Nasce Lucia Joyce.





















Nora e os dois filhos



Dobram-se as necessidades e Joyce passa a lecionar para um número maior de alunos, ao mesmo tempo em que procurava brechas para escrever, publicando em 1907 o livro de poemas Música de Câmara e, depois, concluiu uma reunião de contos, Dublinenses. Em seguida começou a escrever Stephen Hero, transformado em Um Retrato..., livro que ele só viria a concluir em 1914.

Em 1913, Joyce recebe uma carta inesperada. Esta carta seria a que lhe abriria muitas portas para um homem que pretendia viver da literatura. Era a carta do poeta norte-americando Ezra Pound que estava em Londres e pedia a Joyce autorização para publicar um poema de Música de Câmara numa antologia de poetas imagistas. Já nessa época Pound era líder de um grupo de poetas que professava um poesia de imagens cristalinas com base numa linguagem cotidiana. Joyce, parecia já buscar, ainda que vagamente, algo semelhante, autorizou.

Dessa autorização nascia o incentivo e a proteção de Pound que era bastante influente, obtendo, inclusive, em 1914, do governo britânico um subsídio anual para Joyce, que mais tarde chegou a admitir que o poeta o tirara da sarjeta. Assim Joyce conclui Um Retrato... e Pound o publica sob forma de seriado num periódico londrino, The Egoist entre 1914 e 1915. É esta a obra de importância à literatura joyciana não apenas por sê-la a primeira do escritor, mas antecipar uma gama de elementos que comporiam mais tarde a obra-prima Ulysses.

Um retrato do artista quando jovem relata a evolução da vida do artista Setphen Dedalus, da infância aos anos de estudos e formação universitária até a partida inevitável da Irlanda. Uma história aparentemente banal se não se espelhasse na vida do próprio escritor. Em cinco capítulos, equilibra uma narrativa convencional naturalista com episódios sem seqüências reunidos de maneira clara permitindo ao leitor o "acesso" ao imáginário de Setephen, resultando numa revelação do processo mental pelo qual o personagem aspira se desvencilhar das restrições impostas pela família católica e pelo movimento político nacionalista.

São estes temas - o da religião e da política - que Joyce usa para tingir sua escrita, usando de todas as suas experiências pessoais para demolir, ao menos no interior de Stephen, as instituições. Ressaltem-se os personagens, o bondoso padre Conmee e o sadista padre Dolan, como uma crítica bem ponderada ao jesuitismo.

Acompanhando a libertação do artista, Joyce cuida de construir sua própria estética. Na conclusão sobre as três principais formas literárias - a lírica, a dramática e a épica -, Stephen afirma que todas elas se inter-relacioname no fim o artista, "como o Deus da criação, permanece dentro, atrás, além ou acima de sua obra, invisível, refinado, fora da existência, indiferente, aparando as unhas". Ou como Stephen diz, "bem-vinda, ó vida!", antes de partir para Paris a fim de "moldar a forja de minha alma a incriada consciência de minha raça".

____
Para acessar a primeira parte do Dossiê James Joyce, CLIQUE AQUI ou siga os links ao lado.

Dora Ferreira da Silva

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Há duas coisas que como acadêmico de Letras tenho vício, duas não, três: da biblioteca, fuçar o que me pareça novidade, conhecer daquilo que ninguém ainda falou - pelo menos pra mim; da internet, buscar leituras interessantes sobre literatura (diria que semelhante atividade ao primeiro vício) e, por fim, ler - uma reunião dos dois outros vícios.

Recentemente tenho começado alguns incursões pelo universo poético, colocando por um instante a prosa na estante - se bem que não funciona bem assim, há mesmo um intercalar de prosa-poesia. Mas, o fato é que a metade maior do tempo tenho eu ido por esse universo poético, resultado de um minicurso que irei ministrar com minha amiga Monick aqui no curso de Letras, acredito que em setembro.

Pois bem, somando-se estas duas atividades, os vícios e o estudo da poesia para o minicurso, encontro com uma obra de uma escritora Dora Ferreira da Silva. Uma poeta diria "de mão cheia". Uma poesia deliciosa.



A POESIA DE DORA FERREIRA DA SILVA

“Nós é que damos sentido ao tempo, e buscamos fazer o melhor nesta fração de tempo que é a nossa vida aqui”

(Dora Ferreira da Silva, em entrevista a Gilberto Kujawski e Hermes Nery, em 1989)


Três vezes ganhadora do Prêmio Jabuti por sua poesia, premiada pela Academia Brasileira de Letras por sua Poesia Reunida, tradutora de autores como Rilke, Saint-John Perse, San Juan de la Cruz, Hörderlin, T. S. Eliot, Valéry e Jung, admirada e elogiada por nomes de relevo como Vilém Flusser, Carlos Drummond de Andrade, Wilson Martins, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Cassiano Ricardo, Euryalo Cannabrava, Gilberto Kujawski, Nogueira Moutinho e Gerardo Mello Mourão, ensaísta que colaborava com diferentes jornais – essa era Dora Ferreira da Silva.



Dora Ferreira da Silva em foto de estúdio.
São Paulo, 26 março de 1946. Acervo Dora Ferreira da Silva / IMS

Nascida em Conchas, São Paulo, no dia 1º de julho de 1918, Dora foi casada com o filósofo Vicente Ferreira da Silva, união muito profícua – a casa deles, na rua José Clemente, se tornou um centro irradiador de cultura, onde muitas reuniões com intelectuais, poetas, artistas plásticos, religiosos e professores universitários aconteceram. A respeito destas reuniões, disse ela em entrevista a Donizete Galvão:

“Tudo era muito informal, sem periodicidade. Juntavam-se as pessoas mais díspares e as coisas aconteciam espontaneamente. Muitas vezes, o Vicente fazia conferências ou lia parte dos seus escritos (...). Os poetas liam seus poemas (entre outros, Carlos Felipe Moisés, Rodrigo de Haro, Roberto Piva e Rubens Rodrigues Torres Filho nos anos 60). Ouvíamos música (...). Passavam por ali professores vindos da Europa.”

Destes encontros nasceram duas revistas bastante expressivas: a Diálogo, fundada por Vicente, Dora e Milton Vargas, em 1955, que teve uma grande repercussão, com participações de Haroldo de Campos, Mário Chamie, Heraldo Barbuy, Ruy Apocalypse, e traduções de Dora de grandes poetas como T. S. Eliot e Novalis. Esta revista contou com 16 edições. Destacamos a edição de número 8, por ser a primeira revista brasileira a dedicar um volume especial sobre a obra de Guimarães Rosa, em novembro de 1957.

Já a revista Cavalo Azul, mais voltada para a poesia e a literatura, com 12 edições, foi idealizada por Dora dois anos após a morte precoce de Vicente, em um trágico acidente automobilístico. Cavalo Azul – nome inspirado nos cavalos etruscos que conduziam as almas para o mundo dos mortos – teve colaborações de Anatol Rosenfeld, Vilém Flusser, Clarivaldo Prado Valladares, Theon Spanudis, J. C. Ismael, Péricles Eugênio da Silva Ramos, entre outros, e serviu para Dora divulgar sua poesia em um círculo mais amplo, assim como a de outros poetas do mesmo período.

Outra presença constante foi a de Agostinho da Silva, escritor português exilado no Brasil pelo governo Salazar, com quem o casal Dora e Vicente manteve estreita amizade. Sobre ele, afirmou: “Agostinho fundou diversas universidades no Brasil, deu aulas na Universidade de Brasília. Era um animador cultural. Conhecia pessoas do mundo inteiro. Os diálogos dele como Vicente começavam cedo e iam até a noite”. Agostinho foi um grande colaborador da revista Cavalo Azul.

Afeita a uma vida mais reservada após a viuvez, Dora Ferreira da Silva continuou com suas obras de tradução e suas poesias. Sua tradução das Elegias de Duíno, feita quando a poeta tinha apenas 28 anos, lhe valeu numerosos elogios da crítica. Este livro mereceu diversas reedições, sendo a mais recente a de 2001, pela editora Globo. Incentivada por amigos, publicou seu primeiro livro de poemas, Andanças, que compreendia sua produção poética entre os anos de 1948 a 1970, em edição própria. Com ele recebeu seu primeiro prêmio Jabuti. É dele o poema que segue abaixo, um dos mais elogiados por seus críticos:



detalhe de um retrato a óleo de Dora, feito pelo pintor Edmar José de Almeida. Itatiaia, RJ, 1988. Acervo Ferreira da Silva / IMS

Nascimento do poema

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

Em seguida vieram Uma via de ver as coisas (1973), Menina seu mundo (1976) e Jardins/Esconderijos (1979). Em todos, as temáticas e características que viriam marcar sua obra poética são expostas: a musicalidade de seus versos, a predileção pelas formas livres, o pensar poético, de que fala Dante Milano – um pensamento permeado pela emoção, pelo espanto e pelo sentido do sagrado.

O imaginário da poeta está intimamente imbricado com a Grécia e o Mediterrâneo, fontes inspiradoras não só por estarem relacionadas com as origens da poeta e da própria poesia, mas também por sua força arquetípica, descoberta por Dora ao envolver-se com a tradução das obras de Carl Gustav Jung – psicanalista suíço que trabalha com novos conceitos, como o de inconsciente coletivo e sincronicidade. Esta nova influência é perceptível em suas novas obras: Talhamar (1982) – menção honrosa do Pen Club –, Retratos da origem (1988) e Poemas da estrangeira (1996), este último ganhador de seu segundo prêmio Jabuti. Neles, como comenta Constança Marcondes César, na fortuna crítica que acompanha sua Poesia completa, estão os temas recorrentes na obra de Dora:

“... o quotidiano e o pássaro, a música, o jardim são, em sua poesia, metáforas da transcendência; o feminino e os retratos do humano apontam, na sua multiplicidade, para os arquétipos fundadores, ensinado-nos Uma via de ver as coisas; a montanha, por sua vez, é apelo à verticalidade existencial, o espaço sagrado por excelência, onde se dá, para a autora, a imersão na interioridade e adesão ao cósmico”.


Dora caminhando na Acrópole.
Atenas, Grécia, década de 1970. Acervo Dora Ferreira da Silva / IMS



Limitar a poesia de Dora Ferreira da Silva a correntes literárias é difícil. Contemporânea de Vinicius de Moraes, Manoel de Barros e Gerardo Mello Mourão, e enquadrada ora na geração de 45, ora na chamada “poesia feminina”, a obra da poeta não aceita facilmente classificações. A respeito disso, afirma Donizete Galvão:


“... penso que Dora é livre demais para qualquer um desses rótulos. Embora muitos leiam-na desatentamente, sua poesia não tem nada de intuitivo, de derramamento emocional ou falta de rigor. A poesia de Dora é toda pensada já que ela pensa poeticamente. A sua razão é a razão poética (...)”.

É em nome desta “razão poética” que a poesia de Dora se concretiza, aproximando-se da música, irmã da poesia. Isto fica claro em seus Poemas em fuga (1997), em que os poemas da primeira parte do livro recebem títulos de andamentos musicais, e em que podemos perceber uma atenção especial a Mozart. O panteísmo que permeia suas obras adquire maior vigor em Hídrias (2004), seu último livro e terceiro prêmio Jabuti, recebido em 2005. Neste livro, em bela edição da Odysseus, a poeta volta a suas origens mediterrâneas, dando vazão a seu acervo imagético e arquetípico, como aponta Luiz Alberto Machado Cabral, na apresentação desta obra:

“Assim como Hölderlin não via os mitos gregos como uma fonte de inspiração literária, mas como percepção concreta do sagrado, cujo intérprete é o `vate inspirado´, para Dora Ferreira da Silva o poeta é um visionário, um agente de forças invisíveis e desconhecidas, que tem a possibilidade de ver aquilo que os outros não conseguem; que sabe, no entanto, que sua arte praticamente não lhe pertence, uma vez que depende da inspiração.”


O ano de 2000 foi muito significativo quanto à repercussão da obra de Dora: ela conquista o Prêmio Machado de Assis de Poesia, da Academia Brasileira de Letras, por sua Poesia Reunida, editada pela Topbooks, consolidando a iniciativa de legar às novas gerações a obra de uma poeta que fundou em sua casa um Centro de Estudos de Poesia e que durante mais de 50 anos dedicou-se ao fazer poético. Também neste ano a poeta participa da série “O escritor por ele mesmo”, produzida pelo Instituto Moreira Salles, recitando alguns de seus mais belos poemas.


Dora Ferreira da Silva. Fotografia de Edu Simões/Acervo IMS - Set., 2000


Dora Ferreira da Silva faleceu aos 87 anos, na tarde do 6 de abril de 2006. Seu último trabalho foi publicado postumamente pelo Instituto Moreira Salles, na edição dos Cadernos de Literatura Brasileira dedicada a Guimarães Rosa, que freqüentou a residência do casal, quando esteve em São Paulo, na década de 50, e com quem manteve correspondência. O acervo pessoal de Dora encontra-se desde 2006 sob a responsabilidade da Biblioteca, na sede do IMS, em São Paulo, onde está em processamento técnico.

É em homenagem à obra desta importante escritora, que nos deixou há um ano, que a Biblioteca do Instituto Moreira Salles presta esta homenagem. Sempre fiel a suas inclinações místicas e poéticas – José Paulo Paes a vê como um caso de hierofania, por sua poesia vir permeada sempre pela “manifestação do sagrado” –, é assim que Dora Ferreira da Silva define a si e a poesia:

“Acho que o papel do poeta é parecido com o daqueles que levam a tocha na Olimpíada. Mesmo que o mundo esteja dessacralizado, temos que acreditar que a vida é forte, transforma-se e cria novas saídas. Penso na imagem de uma flor brotando nos interstícios de uma pedra. Acredito nas diversas manifestações do divino, no anima mundi. Temos que viver este não-ser, esta noite, esta dor como uma passagem. A fidelidade de cada um a si mesmo é o que se pede. Dar o pouco que se tem, ser fiel à sua voz interior, é o que se pede aos poetas na tentativa de suprir essa carência dos deuses.”


Dora Ferreira da Silva em sua residência. Fotografia de Edu Simões/Acervo IMS - Set., 2000

Obras de Dora Ferreira da Silva:

Andanças. Edição da autora, 1970 – Prêmio Jabuti
Uma via de ver as coisas. Duas Cidades, 1973
Menina seu mundo. Massao Ohno, 1976
Jardins/Esconderijos. Edição da autora, 1979
Talhamar. Massao Ohno, 1982
Retratos da origem. Roswhita Kempf, 1988
Poemas da estrangeira. Massao Ohno, 1996 – Prêmio Jabuti
Poemas em fuga. Massao Ohno, 1997
Poesia reunida. Topbooks, 1999 – Prêmio Machado de Assis da ABL
• Hídrias. Odysseus, 2005 – Prêmio Jabuti


____
Fonte:
http://acervos.ims.uol.com.br/php/level.php?lang=pt&component=37&item=40


Em seguida mais peças do Dossiê James Joyce.

DOSSIÊ JAMES JOYCE

terça-feira, 8 de julho de 2008
































JAMES JOYCE: PEÇAS PRIMEIRAS PARA UM RETRATO DO ARTISTA

Quando a obra clássica de Joyce e da Literatura Mundial chega ao Brasil é por volta de 1966, por iniciativa de Enio Silveira. Trata-se da edição traduzida pelo filólogo, escritor e acadêmico Antonio Houaiss. Em 2005, chega a tradução feita por Bernardina Pinheiro, uma iniciativa sua, que se dedicou a essa tarefa ao longo mais de sete anos, tudo para atingir um objetivo, que a seu modo de ver não se via na edição do Houaiss, recuperar a linguagem coloquial que faz esse romance no uso da linguagem coloquial, coisa que, com o Houaiss era bastante rebuscada. Bem, se este objetivo foi ou não logrado, isso é outra história porque a verdade é que Ulysses apresenta dificuldade até para os leitores na sua língua original, o inglês.

Uma justificativa talvez esteja no fato de que Joyce ao fazê-lo buscou inovar seja na linguagem, seja na estrutura e estética desse romance, tanto que hoje, esse romance se mostra à beira do indecifrável, caracterizando o sujeito que o lê como louco ou duma capacidade de leitura à beira da perfeição.

Exageros à parte, o romance joyciano é sim complexo. Isso é algo inquestionável. As visões muito próprias do escritor estão aí transmutadas ao fazer o autor uma autópsia na vida contemporânea e cotidiana da Irlanda de seu tempo.

James Joyce nasceu em 1882, numa Irlanda que se debatia com as consqüências de uma longa história de domínio inglês, fortalecido a partir do século XVI. Além do camalhaço de divisões políticas outras se marcavam presentes por essa época, as divisões religiosas entre católicos e protestantes. Era o primeiro filho de John Joyce Stanislaus, numa família constituída de seis filhos e quatro filhas.

Casa-se em 1880 com Mary Jane. Herdou alguns imóveis, os quais foram sendo vendidos pouco a pouco, perdendo a vida confortável, basta que comecemos por Joyce numa residência de classe média no subúrbio de Dublin e encontremos mais adiante fixado num bairro pobre no nordeste da cidade.

Joyce iniciou seus estudos numa escola jesuítica ainda com seis anos; estudos estes que viriam a ser interrompidos mais tarde por falta de dinheiro, levando Joyce a outras instituições religiosas gratuitas.

Ainda adolescente se mostrava nas suas decisões radicais, com suas críticas ao catolicismo e às instituições políticas e sociais; posição que se fortalece quando entra para a Universidade de Dublin, instituição também jesuítica. É dessa época que se apresenta sua sagacidade em torno da língua e da literatura.

Aos vinte anos, Joyce já possuía sólida formação intelectual e foi por essa época que ele começou a publicar seus textos. Cite-se a leitura de seu ensaio sobre o escritor norueguês Henrik Ibsen, seu dramaturgo preferido, quando da reunião da Sociedade Literária e Histórica da Universidade de Dublin, realizada em 1900. É desse ano também sua análise da peça Quando nós mortais despertamos, também do dramaturgo norueguês.

Na mesma linha, volta-se Joyce para o teatro irlandês e, no ano seguinte, apresenta sua crítica ao Irish Literary Theatre, fundado e dirigido pelo poeta e dramaturgo William Butler Yeats. Esse ensaio foi recusado pelo periódico da universidade, o que faz o escritor imprimi-lo de seu próprio punho. Neste ensaio Joyce criticava o que estava, na sua concepção, por trás da grandeza de Yeats, a grandeza política nacionalista e o folclore didático.

Em 1902, já formado em línguas modernas, Joyce muda-se para Paris a fim de estudar Medicina; fluente em irlandês, latim, francês, italiano e alemão, isso soa meio dissonante no território biográfico desse autor. Com a doença da mãe, Joyce volta imediatamente para Dublin, em 1903. No mesmo ficava viúvo de Mary Jane.

Permace, então em Dublin e aí dá os primeiros passos a composição de suas obras. Por esse período também escrevia contos que saíriam mais tarde sob o nome de Dublinenses e deu início ao texto intitulado Um retrato do artista, concluído em 1904.

O texto Um retrato do artista falada evolução da sensibilidade artística de um jovem e a percepção que ele tem dela. Já por essa época é possível notar os traços que se desenvolveria mais tarde na sua escrita, tais como a ressignificação da sintaxe, o tom de voz da narrativa e do narrador, além do hermetismo do vocabulário irlandês.

Em seguida Joyce dá início ao romance que chamou logo de Stephen Hero. O texto preservaria sua essência até sê-lo abandonado, porque, segundo ele, apenas possuía metade do texto em 964 páginas manuscritas. A elas Joyce voltaria mais tarde e vem até o leitor sob Um retrato do artista quando jovem.


JOÃO CABRAL DE MELO NETO IV

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O Blog Letras in verso e [re] verso encerra hoje a sua trajetória pela obra e vida do poeta João Cabral de Melo Neto; hoje falaremos da influência da Sevilha na sua obra e do poeta contido. Leiam!


JOÃO CABRAL - INFLUÊNCIAS DE SEVILHA

"Há que sevilhizar a vida . Há que sevilhizar o mundo."
(J.C. de Melo Neto)


Em 1956, João Cabral novamento removido para Barcelona, agora como cônsul adjunto e autorizado a morar em Svilha para fazer pesquisas no Arquivo das Índias. Foi então que Cabral se descobriu na cidade e descobriu totalmente a cidade. Saiu dos bairros turísticos, dos grandes momunmentos, que representam um Sevilha mais aparente e mais exterior e foi para a Sevilha íntima que não se oferece facilmente.

Caminhou por todos os bairros populares como Macarena e Santa Maria la Blanca descobrindo seus becos, tabacarias e praças; participou de tertúlias no bairro taurino de São Bernardo onde sempre via os toureiros como os irmãos Pepe Luiz, Antonio e Manolo Vasquez; conheceu os bailadores de flamenco do bairro cigano de Triena; fez longos passeios pela Calle Ciertes até La Campana e passou a traduzir todo esse mundo fascinante em sua poesia.

"Sevilha é uma cidade intima. Você anda nas ruas de Sevilha como você anda no corredor de sua casa. É difícil explicar, aqui no Brasil, o que é uma corrida de touros, o que é um toureiro... um taurino ... para compreender o que é um taurino é preciso ter vivido na Espanha como eu, que vivi treze anos lá. "
(João Cabral de Melo Neto)

"Ele era um poeta com sensibilidade. Um poeta que sabia apreciar o mundo das touradas, dos touros. Que apreciava o flamenco em toda sua gama: o 'baile', o 'cante' e a guitarra. É preciso ter muita sensibilidade para entender tudo isso. Especialmente para quem não é da Espanha e não nasceu em Sevilha."
(Manolo Vasquez, toureiro)

"É muito bonito quando ele fala de Sevilha, do aspecto feminino da cidade, quando compara a uma mulher andando nas ruas, pisando o chão, sob a luz e na obscuridade, nos recantos bonitos e nas ruas tranqüilas. O olhar de Cabral é muito profundo e não fica no aspecto exterior. Ele vai sempre até o centro das coisas."
(Pablo Del Barco, poeta e escritor)

Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

...

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto de extremos,
de natureza faminta.
gosto de chegar ao fim
do que ele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim
de atingir a própria cinza.

...

(trechos de Estudos para uma bailadora andaluza)


Nessa época, Cabral começou a escrever Quaderna onde sua bailadora é comparada aos quatro elementos: a terra, a água, o fogo e o ar , em diferentes estrofes de Estudos para uma Bailadora Andaluza.

Seus trabalhos seguintes foram Os dois parlamentares e Serial que, ao lado de Quaderna, foram reunidos, em 1961, num livro chamdo Terceira Feira.

Em 1968, foi publicada a primeira edição de Poesias Completas e João Cabral é eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateubriand.

Em 1975, publicou Museu de tudo, um livro que reúne poemas diversos. Em 1980, lançou A escola das Facas e, em 1985, Agrestes, dedicado a Augusto de Campos, poeta por quem Cabral nutriu grande admiração.

"Eu, no livro O Anticrítico que publiquei logo a segui respondi ao João Cabral dedicando a obra a ele e com este poema, Agrestes. "
(Augusto de Campos)

uma
fratura
tão
osso
que eu
o ad
o
e
palavras
senão
o
que
nunca
contra

fala
tão
ácida
tão
procuro
verso
concreto
não
para
as
menos
só aqui
houve
mais
tão
ex
tão
osso
e não
do que
é o
encontro
o
do
ante o
contra
um
a

faca
posta
aço

acho
faço
outro
nem
abraço
aprendiz
sem
diz
leitor
favor

(Agrestes)


JOÃO CABRAL - O LIRISMO CONTIDO

Em 1987, João Cabral publicou Crime na Calle Relator. Em 1990, já aposentado na carreira diplomática como embaixador, publicou Sevilha Andando. Pela primeira vez Cabral escreveu um livro inspirado numa única pessoa, a poeta Marli de Oliveira com quem se casou, em 1986, ao enviuvar do primeiro casamento.

A partir daí começam a surgir livros que não estão baseados em projetos únicos, detalhados. João Cabral retoma e retrabalha os grandes temas que já estavam presentes em sua obra.

"Os poemas de Sevilha Andando repercutem o que já estava em Quaderna, livro prouzido na década de 60. Nesse trabalho, pela primeir vez, a mulher e o lirismo amoroso entram na obra de João Cabral e entram sob o domínio da tensão e não pela facilitação. Já em Sevilha Andando parece ter havido uma pacificação. É como se ele tivesse encontrado a mulher sevilhana que ele havia procurdo em livros anteriores."
(João Alexandre Barbosa)

Além de Sevilha andando ele escreveu Andando Sevilha onde de modo novo retoma temas antigos.

...

Só em Sevilha o corpo está
com todos os sentidos em riste,
sentidos que nem se sabia,
antes de andá-la, que existissem;

Sentidos que fundam um só:
viver num só o que nos vive,
que nos dá mulher de Sevilha
e a cidade ou concha em que vive.
(trecho de Viver Sevilha)

Como é possível, por enquanto,
civilizar toda a terra,
o que não veremos, verão,
de certo, nossas tetranetas,

infundir na terra esse alerta
fazê-la uma enorme Sevilha,
que é a contra-pelo, onde uma viva
guerrilha do ser, pede a guerra.
(trechos de Sevilhizar o mundo)

"É preciso compreender o barroco para compreender a Espanha. E isto ajuda a compreender a obra de João Cabral porque ele vai assimilar o barroco enquanto conceito e levar isso ao extremo. Um barroco que tenta resgatar o Homem, assim como o barroco da Espanha tinha que resgatar Deus. Ele fez um esforço extraordinário de tentar juntar a visão marxista, o problema pré industrial no Nordeste, o barroco espanhol... buscando uma solução conceitual do seu poema."
(Décio Pignatari)

"O Homem pra mim é, precisamente, o homem sofredor do Nordeste. O homem que me interessa é o cidadão miserável, do nordeste cujo futuro, menos miserável, está ligado ao desenvolvimento do Brasil. "
(João Cabral de Melo Neto)

Aqui o mar é um montanha
regular redonda e azul,
mais alta que os arrecifes
e os mangues rasos ao sul.

Do mar podeis extrair,
do mar deste litoral,
um fio de luz precisa,
matemática ou metal.

Na cidade propriamente
velhos sobrados esguios
apertam ombros calcários
de cada lado de um rio.

Com os sobrados podeis
aprender lição madura:
um certo equilíbrio leve,
na escrita, na arquitetura.

E neste rio indigente,
sangue-lama que circula
entre cimento e esclerose
com sua mancha quase nula,

e na gente que se estagna
nas mucosas desse rio,
morrendo de apodrecer
vidas inteiras a fio,

podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é morte mas a vida.




OBRAS DO AUTOR

Poesia

Pedra do sono. Recife: Edição do autor, 1942.
Os três mal-amados. Rio de Janeiro: Revista do Brasil, 1943.
O engenheiro. Rio de Janeiro: Amigos da Poesia, 1945.
Psicologia da composição com a fábula de Anfion e Antiode. Barcelona: O livro inconsútil, 1947.
O cão sem plumas. Barcelona: O livro inconsútil, 1950.
O rio ou Relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife. São Paulo: Edição da Comissão do IV Centenário de São Paulo, 1954.
Dois parlamentos. Madrid: Edição do autor, 1960.
Quaderna. Lisboa: Guimarães Editores, 1960.
A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.
Museu de tudo. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1975.
A escola das facas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio,1980.
Auto do frade. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1984.
Agrestes. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985.
Crime na Calle Relator. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987.
Primeiros poemas. Rio de Janeiro: Edição da Faculdade de Letras da UFRJ, 1990.
Sevilha andando. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990.


Poemas Reunidos

Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Edição de Orfeu, 1954.
Duas águas. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1956.
Terceira feira. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1961.
Poesias completas. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1968.
Poesia completa. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1986.
Museu de tudo e depois (Poesia Completa II). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988.
Poemas escolhidos. Seleção de Alexandre O'Neil. Lisboa: Portugália Editora, 1963.
Antologia poética. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1965.
Morte e vida severina. São Paulo: Teatro da Universidade Católica, 1965.
Morte e vida severina e outros poemas em voz alta. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1966.
Morte e vida severina. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1969.
O melhor da poesia brasileira (Drummond, Cabral, Bandeira, Vinicius) Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1979.
João Cabral de Melo Neto. Seleção de José Fulaneti de Nadal. São Paulo: Abril Educação, 1982.
Poesia crítica. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1982.
Morte e vida severina. Litografias de Liliane Dardot. Recife: Grandes Moinhos do Brasil S/A, 1984.
Morte e vida severina e outros poemas em voz alta. Recife: Moinho Recife, 1984.
Os melhores poemas de João Cabral de Melo Neto. Seleção de Antônio Carlos Secchin. São Paulo: Global Editora, 1985.
Poemas pernambucanos. Centro Cultural José Mariano. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1988.
Poemas sevilhanos. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1992.

Prosa

Considerações sobre o poeta dormindo. Recife: Renovação, 1941.
Joan Miró. Barcelona: Editions de l'Oc, 1950.
Joan Miró. Rio de Janeiro: Cadernos de Cultura do MEC,1952.
O Arquivo das Índias e o Brasil [pesquisa histórica]. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1966.
Poesia e composição. Coimbra: Fenda Edições, 1982.

Filmes

O curso do poeta. Produtores: Fernando Sabino e David Neves. Roteiro e direção de Jorge Laclette, 1973.
Morte e vida severina: um filme documento. Direção de Zelito Vianna, 1976.
O mundo espanhol de João Cabral de Melo Neto. Produção e direção de Carlos Henrique Maranhão, 1979.
Morte e vida severina. Direção de Walter Avancini. TV Globo, 1981.
O ovo da galinha. Recitado por Ney Latorraca. TV Globo, 1980.
Duas águas - Tv Cultura SP - 1997

Discografia

Poesias - Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto. LP 010. Festa, Discos Ltda., 1956.
O Teatro da Universidade Católica de São Paulo apresenta Morte e vida severina.
P.632.900 L., Nancy, 1966.
Morte e vida severina - Música de Chico Buarque de Holanda, CAR 4002, Caritas.
João Cabral de Melo Neto por ele mesmo. IG 79.029. Festa, Série de Lux. s/d.
Poemas de João Cabral de Melo Neto. 2 discos. Som Livre, 1982.




_____
todos os textos relativos a vida e obra de João Cabral de Melo Neto estão no site do Alô Escola da Tv Cultura. São eles parte do documentário Duas Águas - João Cabral de Melo Neto, Tv Cultura, 1997. Para ter acesso ao site, clique aqui.

todas as imagens relativas a vida e obra de João Cabral de Melo Neto são imagens aleatórias retiradas da própria rede.







JOÃO CABRAL DE MELO NETO III

sexta-feira, 4 de julho de 2008

(Cândido Portinari. Os Retirantes, 1950)

Ler a poesia de João Cabral de Melo Neto faz sentir nos poros uma aragem sem piedade; é uma poesia cortante, profundamente cortante, mas um corte que não sangra, porque sangrar seria um consolo, uma saída, e ele não nos oferece saídas saídas ou mesmo nada que amenize, que alivie. É como a seca no sertão: daquela marca a terra. Dele nada se conhece ou se pode conhecer de verdade sem ter vivido a escassez, o fatalismo, o silêncio.

João fala das coisas com uma contenção exemplar, áspero e duro nas expressões, uma espécie de voz monótona. João é um sobrevivente que resistiu e nunca precisou de outra linguagem que não aquela que gravita em torno da poesia.


O AMBIENTE CULTURAL E AS PRIMEIRAS POESIAS


Apesar de ser primo, pelo lado paterno, do poeta Manuel Bandeira e, pelo lado materno, do escritor sociólogo Gilberto Freire, até os quinze anos de idade João Cabral não havia demonstrado interesse pela literatura, mas sim pelo futebol. Em 1935 jogava pelo juvenil do América, seu time de devoção. Depois tornou-se campeão pernammbucano ao participar do Campeonato Juvenil pelo Santa Cruz.

O interesse pelo poesia só viria em 1936 quando descore uma antologia de poetas modernos e entra em contato com os poemas de Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade.

Os anos trinta foram de especial importância para a literatura brasileira e caracterizou-se pela literatura regionalista de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa e pela poesia de Cecília Meirelles e do mineiro Carlos Drummond de Andrade. O movimento modernista de 1922, que insurgiu contra o parnasianismo, criou espaço para o apaecimento desta importante geração de escritores. Quem se iniciava na literatura na década de 30 tratava de assimilar a melhor contribuição que os poetas e escritores de 30 traziam e, a partir dali, buscar seus próprios caminhos.

"O Carlos Drummond de Andrade, quando eu li ainda no Recife, foi uma revelação. Eu tenho a impressão de que eu escrevo poesia porque eu li o primeiro livro dele Alguma poesia. Foi ele quem me mostrou que ser poeta não significava ser sonhador, que a ironia, a prosa cabiam dentro da poesia."
(João Cabral de Melo Neto)

E foi esse o percurso de João Cabral. Através da poesia abre-se para ele todo o universo da arte em que ele mergulha, transformando-se num grande intelectual.

Em 1938, em Recife havia um grupo de intelectuais interessados em literatura e foi com eles que Cabral primeiro dialogou. Uma roda literária que circulava no Café Lafaiete e se reunia em torno de Villes Levy e do pintor Vicente do Rego Monteiro. Ville Levy dava especial atenção aos surrealistas e incentivava os jovens escritores para que lesse novos autores principalmente os franceses.

Cabral, então, começa a se influenciar pela poesia de Baudelaire e Mallarmé, mas foram os ensaios críticos de arquitetura, de Paul Valéry, que mais influenciaram o pensador e intelectual João Cabral de Melo Neto. Nessa mesma época foi construída a primeira grande obra cívica da arquitetura moderna brasileira, que é o prédio do Ministério da Educação de Le Corbusier, Niemayer, dos irmãos Roberto e Lúcio Costa com quem, finalmente, nós o Brasil, ingressava na arquitetura moderna e João Cabral esteve inserido nesse clima.

João Cabral era um autodidata e não se animou a fazer nenhum curso superior. Começou a trabalhar. Surgem os sintomas de uma forte dor de cabeça, celebrizada nos versos Num monumento à aspirina e que acompanharia ao longo da vida, fragilizando sua saúde. Num período de hospitalização Cabral intensifiocu seu interesse pela poesia. Datam dessa época seus primeiros poemas.


Ó jardins enfurecidos,
pensamentos palavras sortilégio
sob uma lua contemplada;
jardins de minha ausência
imensa e vegetal;
ó jardins de um céu
viciosamente freqüentado:
onde o mistério maior
do sol da luz da saúde?
(Pedra do Sono)

"João começou a escrever por volta de mil novecentos e poucos, mas trancava tudo nas gavetas. Ele só ia escrevendo e trancando. Ninguém via nda. Em 1940 nós fomos passar umas férias no Rio de Janeiro e ele mostrou as poesias dele a Murilo Mendes que ecreveu, no Jornal do Brasil, um artigo sobre o poeta de 20 anos. Eu li essa notícia e como eu era meio bisbilhoteiro e além de bisbilhoteiro eu era o primogênito, criado dentro daquele regime do norte em que o primogênito tem uma certa ascendência sobre os demais, eu procurei descobrir onde é que João guardava esses escritos.Descobri, tirei e mostrei a papai. Papai gostou e procurou a Empresa Gráfica Brasileira que a era a melhor tipografia que tinha naquele tempo, aqui em Recife, e assim nasceu Pedra do Sono"
(Vinílio Cabral de Melo, irmão)

Essa viagem para o Rio de Janeiro foi um marco na vida de João Cabral. Ele foi apresentado, por Murilo Mendes, a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório médico do escritor Jorge de Lima. Influenciado pelo humor amardo de Drummond em sua primeira fase e pela poesia imagética de Murilo Mendes, Cabral estreou na poesia com Pedra do Sono, um livro com influências surrealistas. Nesse mesmo ano de 1942 o poeta mudou-se para o Rio de Janeiro e começou a escrever O Engenheiro onde radicalizava seus processos construtivistas negando definitivamente o surrealismo e o subjetivismo.

"Eu era muito amigo de Joaquim Cardozo que era o calculista de cimento armado de Oscar Niemayer e tudo isso me encorajou muito a levar a poesia pra esse lado arquitetônico."
(João Cabral de Melo Neto)

A vida no Rio transcorreu intensa. Cabral freqüentava os intelectuais que se reuniam no Café Amarelinho e no Café Vermelhinho no canto da cidade. Publicou, nesta época, Os três mal amados inspirado no poema Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade e ficou amigo do poeta Vinicius de Morais que sempre considerou como seu irmão. Em 1945, prestou concurso para a carreira diplomática para a qual foi nomeado em dezembro. Em 1946, Cabral se casou com Stela Maria Barbosa de Oliveira, com quem teve cinco filhos. Em 1947, em função da carreira diplomática passou a viver fora do Brasil.

Curiosamente o primeiro livro importante de João Cabral chama-se O Engenheiro, mas poderia se chamar O Arquiteto, pois a influência que teve da arquitetura foi marcante. A descoberta da arquitetura e das teorias de Le Corbusier acontecem ainda no Recife por intermédio de um grupo de arquitetos com os quais conviveu.

Quando veio a público sua poesia chocava. A secura da linguagem, o rigor construtivo do poeta que não acreditava em inspiração punha em cheque toda uma tradição. Cabral passou então a ser commbatido pela crítica e pelos escritores em 1945. Acusavam-no de ser um poeta sem alma, que fazia poemas frios, racionalistas, medidos a fita métrica e sem coração.

Apesar das críticas, a poesia de Cabral se manteve impassível em suas convicções estéicas. Em diversos depoimentos dados à imprensa durante toda a sua vida ele sempre deixou clara a sua posição.

A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.
(trecho do poema O Engenheiro)

"A poesia é uma linguagem para a sensibilidade. E a prosa é uma linguagem pra razão. São duas maneiras muito categóricas de ver a coisa porque existe uma prosa como a do James Joyce - é um prosa que é poesia também - e existe uma poesia como a do Carlos Drummond - é uma poesia que também é prosa. Poesia e prosa são dois extremos mas exatamente o poeta e o prosador muitas vezes ganham de jogar em dois lados. O que acontece com muitos poetas é que eles escrevem os poemas e depois poetizam o poema. Eu tenho a impressão de que a poesia é uma forma de expressão diferente da prosa e não é preciso poetizar o poema. O poema bom, o poema verdadeiro já é poético, não precisa fazer poético. A poesia é - nós estivemos falando de corrida de touros - aquele meu poema sobre Manolete termina assim, sem perfumar sua flor, sem poetizar seu poema"
(João Cabral de Melo Neto)


Eu vi Manolo González
E Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

...

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toreiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra,
o de figura de lenha.
lenha seca de caatinga.

...

Sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
(trecho de Alguns toureiros)


O POETA E DIPLOMATA

João Cabral de Melo Neto vivu quarenta anso no exterior, em diversis e constrantes países: Espanha, Inglaterra França, Senegal, Mauritânia, Conacre, Guiné, Equador, Honduras, Portugal... desenvolvendo, lá fora, boa parte de sua obra literária. Na Europa, Cabral ampliou suas impressões do Brasil e nunca se esqueceu de Pernambuco, além de manter contato com intelectuais e artistas brasileiros que o visitavam no exterior ou trocavam correspondências com o poeta.

Viver na Espanha e conhecer a cultura espanhola fez, curiosamente, o olhar de João Cabral voltar-se para a poesia e o romanceiro popular do Nordeste. Pode-se dizer que ele passou por uma espécie de conversão e não pode fugir da literatura regionalista de sua época, cujo último representante foi o escritor Guimarães Rosa.

Sevilha de noite: a Giralda,
iluminada, dá a lição
de sua elegância fabulosa
de incorrigível proporção.

...

(trechos de A Giralda)


De todos os países em que esteve, o mais decisivo para sua vida e obra foi a Espanha. Cabral morou diversas vezes e por longos anos nas cidades de Madri, Barcelona e Sevilha. Nesses períodos aprofundou-se na literatura espanhola desde a leitura de " EL CID " até os poetas contemporâneos. E se deixou fascinar pela região da Andaluzia, elegendo para si a cidade de Sevilha. Além de Recife, Sevilha foi a cidade em que ele mais gostou de viver. Considerava-se regionalista não só em relação a Pernambuco mas, também era regionalista na Espanha. Apesar de ter vivido em Barcelona e Madri, João Cabral considerava-se sevilhano.

"Há que sevilhizar a vida. Há que sevilhizar o mundo."
(João Cabral de Melo Neto)

O contato com a Espanha ampliou o conceito dialético da sofisticada poesia de Cabral. Tensões e encontros: do litoral com o sertão, da Zona da Mata com o agreste, o encontro dos rios Beberibe e Capibaribe, e destes rios com o mar e também de duas cidades de países distintos: Sevilha, na Espanha e Recife, em Pernambuco. Aos poucos, sem abandonar a linhagem profundamente nordestina de seus poemas, Cabral passou a tecer constantes paralelos entre o universo dos engenhos, do mar e do sertão nordestino com a também seca e quente, cigana e exóticamente árabe região da Andaluzia.


O cigano desliza por encima da terra
não podendo acima dela, sobrepairado;
jamais a toca, sequer calçadamente,
senão supercalçado: de cavalo, carro.

O cigano foge da terra, de afagá-la,
dela carne nua ou viva, no esfolado;
lhe repugna, ele que pouco a cultiva,
o hálito sexual da terra sob o arado.

De onde, quem sabe, o cigano das covas
dormir na entranha da terra, enfiado;
dentro dela, e nela de corpo inteiro,
dentros mais de ventre que de abraço.
Contudo, dorme na terra uterinamente
dormir de feto, não o dormir de falo;
escavando a cova sempre, para dormir
mais longe da porta, do sexo inevitável.
(trecho de Nas covas de Baza)

O primeiro posto consular de João Cabral foi em Barcelona em 1947. Lá o poeta tornou-se amigo pessoal de importantes artistas catalãos como os pintores Juan Miró e Anton Tapis e o escritor visual Joan Brossa, um grupo de intelectuais que se reunia em sua casa, na Calles Montanier, para trocar idéias sobre arte e política.

A Espanha estava vivendo um dos períodos mais difíceis do regime ditatorial do General Francisco Franco e suas fronteiras estavam fechadas. Para os artistas, uma vez que a arte contemporânea era proscrita pelo regime franquista, a convivência com João Cabral significava a possibilidade de estarem em contato com novas idéias e de manterem-se informados sobre o que acontecia no mundo exterior.

João Cabral, por sua vez, era um crítico extraordinário e, com sua visão marxista, procurava influenciar este grupo de artistas na produção de uma arte mais humanista e menos apegada às correntes de vanguarda da época como o surrealismo e o dadaísmo.

Em Barcelona, Cabral aumentou suas considerações sobre o livro como suporte instrumental e artístico do poema. Ao lado das artes plásticas, o amor pelas artes gráficas se tornou tão manifesto que o poeta adquiriu uma pequena tipografia artesanal com a qual imprimia livros de poetas brasileiros e espanhóis, além de seus próprios poemas.

João Cabral era muito cuidados e maneja a prensa com grande precisão. Ele chamava estas publicações de livro inconsútil. Desta tipografia saíram Psicologia da Composição, de sua autoria e a primeira edição de Sonetos de Caruixa do espanhol Joan Brossa que, até então, nunca tivera um trabalho seu impresso em livro. O aspecto gráfico da obra de João Cabral, embora não tenha sido bem destacado, é quase tão importante como a própria poesia porque um complement a outra.

Em 1950, Cabral publicou por sua própria editora O cão sem Plumas e em 1954, O Rio. Nessa época, acusado de comunista e de fazer poemas engajados, foi obrigado a retornar ao Brasile colocado em disponibilidade não remunerada pelo Itamaraty enquanto respondia a inquérito.

Segundo o próprio João Cabral foi este um acontecimento sem grandes conseqüencias e após três anos ele retomou, normalmente, sua carreira diplomática.

"Não pensei em fazer literatura engajada ou não engajada. Eu fazia o poema pensando em fazer bem o poema. O que se pode chamar de literatura engajada, na minha poesia, são os temas da seca, da miséria do Nordeste. São os temas dos romancistas do Nordeste, temas que estão presentes em toda a literatura nordestina ".
(João Cabral de Melo Neto)

No Brasil, João Cabral voltou a morar em Pernambuco entrando em contato com novos intelectuais como o ceramista Francisco Brenan e o escritor Ariando Suassuna, de quem logo se tornou amigo, entre outros.

Dando continuidade às suas concepções sobre o livro como suporte da poesia, João Cabral participou de um importante grupo chamado O Gráfico Amador, fundado por Aloísio Magalhães. Era um movimento de artistas pernambucanos, ligados às artes gráficas, que publicavam algumas edições em imprensa manual e apuravam o conceito do livro como um objeto artístico.

Nesta época Cabral lançou Aniki Bobo especialmente para O Gráfico.

João Cabral peramaneceu no Brasil de 1953 até 1956. Neste período, além de publicou Poemas Reunidos publicou Duas águas com os inéditos Morte e vida severina, Paisagem sem figura e Uma faca só Lâmina, obras bastante influenciadas por sua vivência no exterior.


Morte e vida serverina é uma homenagem às diversas literaturas ibéricas.A foi encenada em 1965 no Tuca, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com direção de Silney Siqueira, adaptação de Roberto Freire, música de Chico Buarque de Holanda e o ator Paulo Autran no elenco. Tornou-se um marco na história do teatro brasileiro. Narra a trajetória do retirante Severino que foge da seca do sertão, em busca de sobrevivência no litoral. No caminho, ao invés da vida que tanto anseia só encontra a morte.

O sucesso da montagem e da música, que foi tema da peça, tornaram João Cabral conhecido do grande público, mas nem por isso assimilado. Sua poesia, altamente intelectualizada, é difícil para o leitor comum, por isso, até hoje, em função da adaptação teatral, Morte e Vida Severina é um dos seus trabalhos mais lidos, estudados e encenados.

Em Uma faca só Lâmina Cabral concretiza a trajetória da melhor poesia moderna que é a de permitir várias leituras e interpretações da obra e não aceitar o leitor passivo.

Paisagem com Figuras é considerado seu momento espanhol. Entre outros poemas sobre a Espanha encontra-se o importante Alguns Toureiros onde mais uma vez Cabral define suas idéias sobre poesia e metapoesia. O poema Pregão Turistico de Recife teve uma edição de 20 exemplares ilustrados pelo O Gráfico Amador.











______
A seguir João Cabral - Influências de Sevilha e João Cabral - o lirismo contido.

O texto desse post é uma adaptação livre do texto no site Alô Escola, da Tv Cultura.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO II

quinta-feira, 3 de julho de 2008






O POETA, A PAISAGEM E A POESIA E A POESIA VISUAL


Falar da estética poética de João Cabral é retomar a didática classificação dele enquanto poeta precursor do Movimento Concretista no Brasil. Sem dúvidas, como dissemos noutro post, a poesia cabraliana é um marco dentro da literatura brasileira, porque sua obra desencadeia uma revolução formal das mais importantes na história da poesia em nosso país, representando a maturidade das conquistas mais radicais do século XX.

Opondo-se ao principal curso da poética nacional que sempre fora o do sentimental, retórico, ornamental, João Cabral de Melo Neto constrói uma poesia não-lírica, não-confessional, presa à realidade e dirigida ao intelecto. Apesar de pertencer cronologicamente à Geração de 45, formada por nomes como Péricles da Silva Ramos, Geraldo Vidigal, Ciro Pimentel entre outros, João Cabral não se enquadra esteticamente nesta geração. A Geração de 45 propunha um retorno às formas tradicionais do verso, como o soneto e negava o expertimentalismo dos Modernistas de 22. João Cabral é tido com o único poeta da geração de 45 que influencia a forte geração posterior, formada pela vanguarda brasileira dos anos 50 e 60, sobretudo, a vanguarda concreta.

"Pode-se dizer que ele não tem antecedentes na poesia brasileira, a obra dele tem conseqüente. Porque é a poesia concreta que via manter, continuar, expandir e levar para outros caminhos essa linhagem de uma poesia não sentimental, de uma poesia objetiva, uma poesia de concretude, uma poesia crítica, como é a poesia de João."
(Augusto de Campos)

"A poesia concreta é muito mais visual do que auditiva e talvez resida aí a possível influência minha sobre ela. A poesia concreta é muito interessante e não precisava de mim pra ser o que ela é."
(João Cabral de Melo Neto)

A poesia concreta brasileira interessou a muita gente e não só ao Brasil. Em 1966 houve na Bélgica um importante festival de poesia e, segundo o próprio João Cabral que estava lá a serviço do Itamaraty, o assunto principal em discussão no festival foi a poesia concreta no Brasil.

Em 50 anos de intensa atividade literária, João Cabral de Melo Neto publicou 18 livros de poemas e 2 autos dramáticos, o conhecido Morte e Vida Severina e o Auto do Frade.

Poeta do rigor, não existe em sua obra "o livro mais importante" mais sim um conjunto de poemas fundamentais da literatura brasileira. Em prosa, João Cabral sempre escreveu pouco; seu ensaio mais significativo foi Joan Miró sobre o pintor espanhol, publicado em Barcelona em 1950, com ilustrações do próprio Miró.

A poesia de João Cabral de Melo Neto pode ser dividida em dois módulos distintos, propostos pelo próprio poeta ao publicar o livro Duas Águas (1956): uma construtiva, outra participante.

A primeira água seria formada pelos poemas experimentais, arquitetônicos, feitos para poetas e que versam sobre o próprio fazer poético.

A água participante volta-se para a problemática social do homem do nordeste e é formada por obras como O cão sem plumas e O rio que são poemas longos sobre os miseráveis habitantes dos manguezais do rio Capiberibe. Apeasr do mesmo rigor estético das obras construtivistas, atingem com mais facilidade o leitor comum, pois lidam com problemas universais do ser humano: a fome, a miséria, as diferenças sociais.

"Eu acho que é reducionista e prejudica o entendimento da obra de João Cabral. O pessoal da Academia de Letras e os acadêmicos da Universidade se contentam com esta divisão e acham que ela explica tudo. Mas não é bem assim. João Cabral sustenta uma enorme crise, um debate que nunca se resolve entre a obra de arte em si e a obra de arte enquanto instrumento de melhoramento e aperfeiçoamento social. Ele mantém esta contradição constantemente, e isto impregna toda obra dele. O conflito é rico e é muito mais entranhado."
(Décio Pignatari)


"Já fostes algum dia espiar
do alro do Engenho Trapuá?
Fica na estrada de Nazaré,
antes de Tracunhaém.
Por um caminho à direita
se vai ter a uma igreja
que tem um mirante que está
bem acima dos ombros das chãs.
Com as lentes que verão
instala no ar da região
muito se pode divisar
do alto do Engenho Trapuá.

Se se olha para o oeste,
onde começa o Agreste,
se vê o algodão que exorbita
sua cabeleira encardida

...

Se se olha para o nascente,
se vê a flora diferente.
Só canaviais e suas crinas,
e as canas longilíneas
de cores claras e ácidas,
femininas, aristocráticas,

...

Porém se a flora varia
segundo o lado que se espia,
uma espécie há, sempre a mesma,
de qualquer lado que esteja.
É uma espécie bem estranha:
tem algo de aparência humana,
mas seu torpor de vegetal
é mais da história natural.

...

Apesar do pouco que vinga,
não é uma espécie extinta
e multiplica-se até regularmente.
Mas é uma espécie de indigente,
é a planta mais franzina
no ambeinte de rapina

...

(trechos de Alto do Trapuá)

A poesia de João Cabral é difícil para o grande público porque não dialoga apenas com o leitor comum mas, também com os realizadores de poesia. A primeira temática de Cabral é a reflexão do próprio fazer poético. Sua poesia é auto-explicativa e ninguém melhor do que ele mesmo, através de sua obra, se analisou.

Em sintonia com a corrente evolutiva da melhor poesia contemporânea parte da poesia de Cabral reflete uma postura crítica sobre o ato de escrever e são descrições ou mesmo reflexões, quase sempre indiretas, sobre o fazer literário de outros escritores como a americana Marianne Moore, o português Cesário Verde, os franceses Baudelaire, Paul Valéry e Mallarmé.

(a americana Marianne Moore)

(o português Cesário Verde)

(o francês Baudelaire)

(o francês Pual Veléry)

(o francês Mallarmé)

João Cabral de Melo Neto é um poeta construtivista, ligado por temperamento às formas visuais de expressão fato que o levou a, desde cedo, se interessar pela arquitetura e pelas artes plásticas. Ele valoriza a forma visual dos poemas, a geometrização. Propõe para a poesia um verso construío, desmistificando o ato de criar com inspiração.

Sua poesia dialogo com artistas plásticos contemporâneos, como o jpa citado Juan Miró ou Monsdrian e tem afinidade com os cubistas. Além das influências literárias, seus poemas são inspirados nas teorias arquitetônicas de Le Corbusier e nas estruturas das artes plásticas construtivas. Seus poemas são trabalhados em blocos ou qudras-blocos que funcionam com os retânguos de um quadro de Mondrian.

Em geral os poetas só começaram a pensar na publicação de um livro após terem escrito um certo número de poemas. João Cabral procedia de maneira diferente: ele planejava seus livros antes mesmo de começar a escrever e sabia, exatamente, como queria editá-los; assim, ele determinava o formato e o número de poemas que seriam publicados em cada um de seus livros. O próprio poeta afirmava que se impunha todas essas dificuldades para que o livro e os poemas crescessem paralelamente. João Cabral costumava dizer que o livro não é um depósito de poemas e, portanto, deveria ser concebido como uma estrutura total, uma macroestrutura.

Seu livro A Educação pela Pedra (1966) é dividido em quatro partes: a, A, b e B. Nas partes maiúsculas os poemas são curtos e nas partes maiúsculas os poemas são longos. Os temas dos poemas também são distrubuídos conforme as letras. Esta maneira de organizar os poemas pode exmplificar a preocupação do poeta com um livro cuidadosamente projetado.

"O que o mar sim ensina ao canavial:
o avançar em linha rasteira da onda;
o espraiar-se minucioso, de líquido,
alagando cova a cova onde se alonga.
O que o canavial sim ensina ao mar:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncios paralelos."
(trechos de O canavial e o mar)





____
A seguir, João Cabral de Melo Neto - ambiente cultural e primeiras poesias e João Cabral de Melo Neto - poeta e diplomata.

O texto desse post é uma adaptação livre do texto no site Alô Escola, da Tv Cultura.









-
-
-

JOÃO CABRAL DE MELO NETO

quarta-feira, 2 de julho de 2008

O Blog Letras in verso e [re] verso tem a honrosa missão de hoje falar desse poeta que, sem dúvidas, fundou no espaço literário brasileiro, um novo modo de se ver e de se fazer poesia. Estou falando do João Cabral de Melo Neto.


O POETA E A HISTÓRIA

Descendente de tradicionais famílias de Pernambuco e da Paraíba, João Cabral de Melo Neto foi o segundo dos seis filhos de Luiz Antonio Cabral de Melo e de Carmem Leão Cabral Melo. Nasceu no Recife (PE), no dia 9 de janeiro de 1920, mas passou parte de sua infância e adolescência em engenhos de açúcar, haja vista que seu pai era senhor de engenho. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata e, depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno. A vida no campo marcou profundamente o poeta e se a escrita literária sofre influências do meio de onde ela emerge, pode-se dizer então que em João Cabral de Melo Neto nasce enquanto poeta dessas "influências".

Apesar da vivência nos grandes centros urabnos, João Cabral nunca se adaptou à cidade grande e à agitação desse mundo, sempre sentiu-se um homem do interior. Na infância feliz seu tempo era dividido entre as brincadeiras na casa grande com Virgínio, seu irmão mais velho e a quem era muito unido e os passeios pelo canavial. João era uma criança sensível e, desde pequeno, demonstrava preocupação com o ser humano, numa atitude muito singular para sua pouca idade.

Por volta dos oito anos de idade, ele morava com a família no Recife e ia para o engenho no tempo das férias. Seu irmão Virgínio lembrou que, aos domingos, o administrador do engenho ia à feira fazer as compras de mantimentos para a casa. Nestas ocasiões João Cabral dava-lhe dinheiro e encomendava a compra de folhetos de cordel - seu primeiro contato de verdade com o universo literário - mesmo que o cordel, nessa época ainda longe estivesse de se enquadrar pelo menos enquanto literatura popular. Contam então, que à tarde ele ida para a moita do engenho e, com os empregados todos ao redor de si, lia três, quatro folhetins para o pessoal do engenho.

O contato com os trabalhadores da usina seria a experiência fundamental para o poeta, pois, mais tarde, na vida adulta, viajando pelo mundo como diplomata, João Cabral teria o necessário para ver melhor com preocupação e pungência, a verdadeira realidade do nordeste e retratá-la em sua obra.

"Ele tem um lado popular que se chama João Cabral e tem o lado aristocrático que se chama Melo Neto. Então, ele é, um pouco, todo este universo conflituado e passaou quarenta anos tentando resolver esse conflito."
(Décio Pignatari)


Não se vê no canavial
nenhuma planta com nome,
nenhuma planta maria,
planta com nome de homem.

É anônimo o canavial
sem feições, como a campina;
é como um mar sem navios,
papel branco de escrita.

(trecho do poema O Vento no canavial)


Em 1930, ano da Revolução, terminava a Primeira República e começava a Era Vargas. Por complicações políticas com o presidente Getúlio Vargas, seu pai, foi obrigado a abandonar o engenho. No Recife, um novo mundo menos acolhedor e tranqüilo se apresentava ao poeta e, apesar das brincadeiras nos trilhos de trem e dos alegres acompanhamentos no corso em época de carnaval, a vida já não era tão feliz.

Matriculado no Colégio Marista onde cursou até o secundário, Cabral sofria profundamente com a severidade do estabelecimento. Criança tímida embora avessa a tudo aquilo, não conseguia se rebelar, desenvolvendo uma personalidade introspectiva, séria e profundamente angustiada. Apesar de toda racionalidade com que sempre enxergou a vida, manteve, para sempre, um terrível medo do inferno com suas labaredas, caldeirões e todo aquele mundo tenebroso e o de culpa e pecado com os padres costumavam ameaçá-lo.

No Recife, a visão dos retirantes fugitivos da seca, dos miseráveis habitante dos manguezais, o contraste entre os casarões e os mocambos constrídos dentro da lama, também afetariam o poeta. Uma realidade que mais tarde se transformaria num outro elemento importante a sua poesia participante.


O POETA, A PAISAGEM E A POESIA


"Nenhum nordestino é indiferente ao meio em que vive, em que se criou."
(João Cabral de Melo Neto)

O universo poético de João Cabral de Melo Neto é, principalmente, o da zona da mata e o do sertão nordestino. Sua poesia remete o leitor constantemente às cidades de Olinda e Recife com seus casarões antigos, seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capiberibe, e aos canaviais da zona da mata pernambucana. Mas também remete para a vegetação escassa da caatinga e a dor do agreste brasileiro. Por isso mesmo, dois de seus livros, Pedra do Sono (1942) e A educação pela pedra (1966) trazem no título a idéia de pedra, símbolo de secura sertaneja e do solo pedregoso da região.

"A obra de poetas como João Cabral de Melo Neto exerce um papel na formação e na manutenção da identidade nacional. A obra de João Cabral está indissoluvelmente ligada a esta identidade profunda e verdadeira do nosso país e do nosso povo."
(Ariano Suassuna)

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
Choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

...

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de
[secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra
ao parir
suas ilhas negras de terra.

...

Espesso
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia,
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
(trechos O cão sem plumas - discurso do Capiberipe)


Por temperamento, apesar de ter vivido em meio a euberância sonora dos ritmos pernambucamos, João Cabral de Melo Neto foi um poeta não-musical, avesso principalmente à melodia e à musicalidade do verso. Através de rigoroso trabalho de linguagem e construção, a dura poesia de Cabral, feita de "pedras" e "palo seco", como gostava de dizer, inspira-se na aridez geográfica e humana do sertão para se tornar, também ela, uma poesia seca e exterior.


Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem o cante;
o cante sem mais nada;

se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

...

A palo seco existem
situações e objetos
Graciliano Ramos
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

Eis os poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.
(trechos A palo seco)


Personalidade sensível, obsessiva, angustiada e fascinanete, o poeta João Cabral de Melo Neto recebeu inúmeros prêmios literários importantes como o New Stadium Internacional Prize, em 1992, nos Estados Unidos e na Espanha, em 1994, o Prêmio Rainha Sofia de Poesia pelo conjunto de sua obra Além disso João Cabral foi, durante vários anos, um dos fortes candidatos ao Nobel de Literatura, mas estes fatos não abalaram ou comoveram o escritor que não acreditava em vitórias literárias.

Coerente com suas idéias, João Cabral não gostava de dar entrevistas e receber homenagens. Em 1968, quando sua original poesia ainda provocava impacto nos meios literários, o sempre polêmico Cabral, num depoimento para o disco Cabral por ele mesmo chegou a afirmar que se considerava um marginal da poesia luso-brasileira ao definir-se como poeta.

Nos últimos anos de sua vida ele estava quase cego (o que o impedia de ler e escrever) e enfrentava muitos problemas de saúde. Mesmo assim o poeta continuava com grande vitalidade intelectual. Exigente e corajoso, nunca se sentia plenamente satisfeito como criador. Considerava que sua obra estava ainda em processo.

...

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.

São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.

É mineral
a linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.

É mineral , por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

...

(trecho A psicologia da composição)

______
A seguir, João Cabral: o poeta, a paisagem e a poesia e a poesia visual

O texto desse post é uma adaptação livre do texto no site Alô Escola, da Tv Cultura.