Minhas falas

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

As veias de Saramago poeta (II)

por Pedro Fernandes


Por motivo de viagem, sai mais uma vez o Letras in verso e [re] verso para uma pequena estadia sem postagem. Volto muito provavelmente segunda-feira próxima, já no mês de Machado. Deixo aos leitores a retomada de um tema que já deu o que falar por aqui outras vezes. Numa outra postagem refletia eu em torno da fala de um professor e crítico literário que falava acerca da pontuação insólita do escritor português José Saramago; em seguida apresentei um Saramago não tão conhecido dos leitores, o Saramago poeta. Hoje retomo a esta último post para fazer o que fiz no primeiro, refletir em torno de um outro artigo, esse do professor de Teoria da Unicamp Alcir Pécora, em que ele afirma ser o escritor português tudo, exceto poeta, num artigo para a Folha de São Paulo logo quando do lançamento do livro O ano de 1993.



No silêncio dos olhos

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

Longe de ser um “saramaguista”,mas como bom saramaguiano que se preze as palavras do professor veiculadas no Jornal Folha de São Paulo em torno da obra O ano de 1993 me soaram destoantes ao meus ouvidos. Como já li O ano de 1993 não consigo encontrar, no vão de minha insignificância teórica – não sou nenhum profundo conhecedor da obra de Saramago, tampouco professor de Teoria da Literatura num centro de excelência como julgo ser a UNICAMP – mas, não consigo encontrar onde estaria o tom de revolta apresentada pelo professor em torno dessa obra, a ponto de afirmar: “José Saramago não é poeta. ‘O ano de 1993’ é prova cabal disso. É tão ruim como poesia que deixa até supor que possa ter mérito como prosa. (...) Se algum dia a Ilustrada tiver a idéia de fazer uma dessas deliciosas enquetes sobre os piores versos do século passado, já adianto meu voto.”

Bem, diante de tudo, resolvi investigar mais nas malhas do virtual a procura de algo acerca dessa obra saramaguiana. Até que encontro um blogue que postou fragmentos do artigo e abaixo se seguiam algumas opiniões. Resolvi então dá a minha sob forma de post no meu blogue – e aqui nasce o post de hoje, que antes de ser uma homenagem é uma resposta a esse texto do professor Alcir Pécora.

Haveremos de considerar para todos os efeitos o cenário porque passa os gêneros literários do Realismo para cá. São todos eles resultados duma transformação cuja bases definidoras, se é que um dia houveram, não mais existem – de modo que em muitos casos é-se praticamente impossível definir fronteiras do que venha a ser prosa e poesia. Acho que, apenas por esse motivo, já temos de sobra pano para manga para discutir a colocação crítica do professor. Mas cito a professora Maria Alzira Seixo – a quem também o professor derruba com certa caolhice pelo vulgo de “valente apologista do Nobel para Saramago” e “passada para as fileiras do arqui-rival Lobo Antunes”:

O Ano de 1993 é um livro de teor inesperado, intrigante, simultaneamente misterioso e sedutor na sua indecisão estrutural, na sua feição alegórica e na indecisão de caminhos interpretativos que pode abrir. Embora nenhum subtítulo o integre num género literário determinado, certas indicações do autor parecem situá-lo no domínio da poesia, e com efeito a sua estrutura, organizada em 30 partes (poemas ou capítulos), assenta na escrita versicular, que aliás encontrámos em alguns textos de Provavelmente Alegria; no entanto, há um fio narrativo sensível ao longo do livro, com movimentos de progressão e de clímax que apontam para uma urdidura novelística - sendo sobretudo perceptível a intenção fantástica que, hesitando entre um maravilhoso de índole profética e uma nítida tendência para a ficção científica, pela primeira vez organiza com coesão orgânica numa obra do autor esta fundamental convergência “deste mundo e do outro”. Herda assim este texto da prática da crónica o tom sentencioso e a tendência moralizante (ou, pelo menos, judicativa) que irão persistir na sua restante obra; de algumas das melhores páginas dessa sua importante actividade de cronista, assim como da experiência lírica, traz ele também um veio poético, essencialmente expresso pelos processos metafórico e alusivo, que lhe comunicam uma funda capacidade evocativa; mas o seu mais importante sentido situa-se, a nosso ver, no esforço de transposição que pela primeira vez José Saramago pratica em relação ao tratamento do mundo, que já não é aqui abordado enquanto circunstância efectiva mas como formulação poética literal que, justamente por essa sua natureza poética, adquire uma significação humana, não só pela mensagem de conhecimento que se procura transmitir, mas também pela irradiação semântica multivalente que a criatividade verbal produz nos efeitos criados pela sua leitura.”

Finalizando, não vejo que o trabalho do crítico literário seja o “derrubar” escritores. Posso incitar um debate entre idéias, visões, de um e de outro crítico literário, questionar o trabalho do escritor, mas pô-lo abaixo não. Isso me parece soar como certa hipocrisia, tendo em vista que o nosso trabalho enquanto crítico depende exclusivamente do trabalho dos escritores. Se estes não existissem o que seria da crítica literária? Nada.

O mundo pintado pelo professor Alcir Pécora deixa entrever o mundo em que reina a rivalidade, do quem é o maior ou o melhor. Não vejo por essa ótica. Dizer que Saramago e Lobo Antunes são arqui-rivais me parece uma infantilidade que não tem explicação. Ambos os escritores podem ter visões diferentes do conjunto da escrita, mas, uma rivalidade, creio que não. Se um crítico ou um escritor trabalha por esse ângulo não tem ele a humildade e a mim me parece sê-lo um aproveitador, querendo construir uma face de polêmico atingindo alguém que já está no topo. Conhecendo o espírito do escritor português acho que ele diante de uma crítica desse tipo a receberia como um trecho duma música, Fátima, do saudoso Renato Russo do tempo do Aborto Elétrico – “Não quero ser como vocês/Eu não preciso mais/Eu sei o que eu tenho de saber/E agora tanto faz”.

Não me parece ser O ano de 1993 um livro de alegoria barata, antes como todo poema um corpo carregado de sentidos e correntes de sentido. Pela estrutura, creio que, O ano de 1993 inaugura um novo modo de escrita literária merecido de estudos mais detalhados, antes de críticas mesquinhas e superficiais.

Para isso, remonto alguns fragmentos d’ O Ano de 1993:

2


Os habitantes da cidade doente de peste estão
reunidos na praça grande que assim ficou conhecida
porque todas as outras se atulharam de ruínas

Foram tirados das suas casas por uma ordem
que ninguém ouviu

Porém segundo estava escrito em lendas anti-
quíssimas haveria vozes vindas do céu ou trom-
betas ou luzes extraordinárias e todos quiseram
estar presentes

Alguma coisa podia talvez suceder no mundo
antes do triunfo final da peste nem que fosse uma
peste maior

Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio
à espera

E depois nada mais se ouve que uma aérea e
delicada música de cravo

Qualquer fuga composta há duzentos e cin-
qüenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig

É então que os homens e as mulheres sem espe-
rança se deixam cair no pavimento estalado da praça

Enquanto a música se afasta e voa sobre os cam-
pos desvastados



4


O interrogatório do homem que saiu de casa de-
pois da hora de recolher começou há quinze dias e
ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada
sessenta minutos vinte quatro por dia e exi-
gem cinqüenta e nove respostas diferentes para
cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta
verdadeira entre as cinqüenta e nove que foram
dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para
descobrir qual delas seja e a sua ligação com as
outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem
dormirá enquanto o ordenador não disser não pre-
ciso de mais ou o médico não preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de
recolher não dirá por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está
na sexagésima resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico
declare

Não vale a pena

6


Um dos resultados da catástrofe foi que de uma
hora para a outra os animais domésticos deixaram
de o ser

A primeira vítima de que houve notícia foi a
mulher do governador escolhido pelo ocupante

Quando o macaco amestrado que a divertia nas
horas de aborrecimento a crucificou no portão do
jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para
vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés

Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas
por gatos castrados de estimação em memória do
atentado sofrido

E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas
pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ra-
mos e das alturas como pedras

Privadas dos animais domésticos as pessoas
dedicaram-se activamente ao cultivo de flores

Destas não há que esperar mal se não for dada
excessiva importância ao recente caso de uma rosa
carnívora

14


Nos quatro pontos cardeais os vigias defendem o
sono cansado da tribo ou rebanho de gente que va-
gueia pelos campos

Um homem ao norte uma mulher ao sul outro
homem a oriente e a ocidente a segunda mulher

Estão sentados de pernas cruzadas atentos a to-
das as sombras e gritam quando há perigo

Mas porque os perseguidores não gostam de
atacar na escuridão a noite decorre muitas vezes
calma apenas fria

Ao amanhecer a tribo acorda e divide-se em
quatro grupos conforme os pontos cardeais e vai
agradecer aos vigias a vida conservada

Depois o homem do norte e a mulher do sul o
homem do oriente e a mulher do ocidente juntam os
sexos porque assim foi decidido que deveria aconte-
cer todas as manhãs

Enquanto a união dura cantam em redor a única
canção feliz que não esqueceram

O sol levanta-se sobre os quatro corpos nus que
são a esperança inconsciente da tribo

Entretanto acende-se a primeira fogueira e o
fumo azul da lenha sobe para o céu

Se tudo isso ainda não parecer suficiente, cito:


Ouvindo Beethoven


Venham leis e homens de balanças,

mandamentos d'aquém e d'além mundo.

Venham ordens, decretos e vinganças,

desça em nós o juízo até ao fundo.


Nos cruzamentos todos da cidade

a luz vermelha brilhe inquisidora,

risquem no chão os dentes da vaidade

e mandem que os lavemos a vassoura.


A quantas mãos existam peçam dedos

para sujar nas fichas dos arquivos.

Não respeitem mistérios nem segredos

que é natural os homens serem esquivos.


Ponham livros de ponto em toda a parte,

relógios a marcar a hora exacta.

Não aceitem nem queiram outra arte

que a prosa de registo, o verso acta.


Mas quando nos julgarem bem seguros,

cercados de bastões e fortalezas,

hão-de ruir em estrondo os altos muros

e chegará o dia das surpresas.






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Fontes:

Alcir Pécora, Saramago pré-Nobel, faz poesia ruim. Jornal Folha de São Paulo, 22 de setembro de 2007.

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1987, págs. 22-25.

Os poemas são

- Os fragmentos são do livro “O ano de 1993”, José Saramago. Companhia das Letras.

- Os demais – o que abre o texto e “Ouvindo Beethoven” do livro “Os Poemas Possíveis”, José Saramago 1999.

apenas meus poemas

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Encerro esta semana em bom estilo. Semana que me foi de bom e excelente grado. Lembro-me da tarde de terça-feira, a discutir poesia. Lembro-me da conversa com amigos ontem, a discutir poesia. A semana foi de poesia. E hoje a tarde na Poty Livros, Raduan Nassar pela boca de um poeta - Leontino Filho - certamente sairá poesia. Não poderia terminar que não doutra forma, que não fosse com poesia. Segue mais uma que arrasto do site Garganta da Serpente - site que, aproveito a deixa, para merchandasiar, tem muita coisa boa por lá (novos e velhos poetas, vivos e mortos poetas, nascentes e morrentes poetas - tem muitos por lá - vale a pena conferir).



CADÁVER'S ADIADOS


Olhos secos
inchados, fúnebres
[otros amarelos, secos]
retr(atos) da fome.
Corpos secos
estirados à sargeta da África
à cobiçarem comida,
fonte de v(ida).
cadáveres secos-vivos
retratos do des(caso) cobiça.
A mãe África
sem futuro-teto-perspectiva
é um mundo assombrado,
de fantasmas tísicos
secos, do(entes), cambalentes de fome.
Terra tão rica
fica tão abando(nada)
é lembrada
somente pelo ouro, diamante
roubada, saqueada.
Men(inos) da mãe África
olhos secos de água
lágrimas sustento
dos sonhos abortados 'inda criança
sem esperança de vida [nada]
somente à espera de comida
são cadáveres adiados.
Nas cerca(nias) da fome [sem nome]
mãe África expõe ao horizonte
o rastro sujo de sangue,
o podre lixo, luxo do poder
enquanto uns têm para dar [e não dão]
e vender; outros matam, vendem o que não tem
o corpo.a vida. os sonhos. a alma
para comer, senão matam a si próprios
e se comem.
Urubus nus
de asas abertas
em vôos rasantes
à procura de carniça [certa]
povoam o azul-céu cobiça
azul turquesa [turquesas]
sujo de ssangue podre. manchado por pedaços d'alma humanas
[roubado por invejosos. poderosos]
o podre luxo lixo do poder
estampado nos ternos pretos luxo
[italianos]
as caras magras
desamamadas. crianças negras
abandondas.
Continente da desolação
povoado de cadávers nus
[outros vestidos de mortalhas-trapos]
expostos reforços de uma guerra
que impera [nunca termina]
muitos cotós arrasados pelas minas,
[finos presentes dos americanos
ao povo africano]
equecido. perdido. lembrado
apenas pelos urubus nus
nos seus vôos rasantes
à procurade carniça.
Talvez 'inda
por entre a carnifi(cina) da mãe África
um senhor deus dos desgraçados,
pobres. oprimidos e flagelados
crie vergonha do abandono
res(surja) da podridão
riaque da mente o poder-abono inveja
resgate a história perd(ida) de vida
de um povo faminto
corpos. ossos. esqueleto
e sopre o vento-verbo-vida, esperança
para que estes
que nesse instante
nascem não caiam
no[a] vale/vala da morte/guerra
e lá sejam esqucidos [sozinhos sepultados]
dado por perdidos
zumbis vencidos
perdidos do caminho trono celestial de seus deuses
e do nosso
que um dia disse sê-los negros [sem alma]
deus cruel, e
sejam jogados ao léu [não] sem morada
sem vida-projeto, sem nada.


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fonte: para acessar meus poemas e outros poemas no Garganta da Serpente CLIQUE AQUI

Raduan Nassar

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Amanhã na Poty Livros do Centro da cidade (Mossoró), às 17h, acontece mais uma sessão do Encontro com Autores. O evento vem sendo promovido pelo grupo de estudos do professor Ailton - das Ciências Sociais - e discute - nesse próximo encontro a obra e o autor Raduan Nassar. Em nome disso, segue o post de hoje. Com vocês um pouco mais de Raduan Nassar:


Raduan Nassar nasceu em Pindorama, cidade do interior do Estado de São Paulo, filho de João Nassar e Chafika Cassis. Seus pais haviam se casado em 1919 na aldeia de Ibel-Saki, no sul do Líbano e em 1920 imigraram para o Brasil. Seu pai junta-se a parentes que já estavam aqui e se inicia no ramo do comércio, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Em 1921 mudam-se para a cidade de Itajobi, no Estado de São Paulo.

Mudam-se, em 1923, para Pindorama, cidade vizinha de Itajobi, e lá seu pai abre uma venda, que posteriormente seria transformada em uma loja de tecidos, a Casa Nassar.

Pelas mãos da parteira Rosa Conca, na casa da família em Pindorama (esquina da Rua 15 de Novembro com 1º. de Maio), nasce Raduan, sétimo filho de João e Chafika (antes, haviam nascido Violeta, Rosa, Norma, Uydad, Raja e Rames; depois viriam Rauf, Leila e Diva — todos ainda vivos.

Em 1943 o autor inicia seus estudos no Grupo Escolar de Pindorama. Expansivo e de ótima memória, Raduan é freqüentemente chamado para recitar poesias nas datas comemorativas, mesmo com sua dificuldade em pronunciar corretamente o "r" fraco. Segundo ele, neste ano tem "uma das melhores alegrias da infância" de que se lembra, ao ganhar um casal de galinhas-de-angola do pai.

Torna-se coroinha em 1946, após dois anos do início de sua fase de fervor religioso que o levava a ir à missa todos os dias para comungar. Neste ano, sentado na varanda de sua casa, livra-se definitivamente do "trauma" do "r" fraco, ao tentar decorar o Hino à Bandeira (cantando inúmeras vezes o verso "Salve lindo pendão da esperança").

No ano seguinte inicia o curso ginasial na vizinha cidade de Catanduva e começa a trabalhar com o pai. Para facilitar a ida dos filhos à escola, João Nassar muda-se com a família para Catanduva em 1949. Nesta época Raduan tem uma coleção de pombas — que foram citadas em seu romance Lavoura Arcaica — que acabará deixando em Pindorama quando da mudança.

Em 1950, durante uma aula na quarta série do ginásio, Raduan sofre a primeira das sete convulsões que sofreria nos dois dias seguintes. O diagnóstico alarmista e incorreto de um médico — que chegou a mandar isolar sua casa — seus pais decidem levá-lo para São Paulo em um avião-ambulância. Lá é tratado por um neurologista, tendo retornado da crise com amnésia parcial e passa a ter um comportamento introvertido. Debilitado, não consegue concluir o ano letivo.

No ano seguinte reinicia seus estudos, tendo como professora de português sua irmã Rosa. Orientado por ela, começa a ler clássicos brasileiros como parte do currículo escolar. Com sua assistência também, faz consideráveis progressos no aprendizado da língua, em âmbito familiar.

Em 1952 inicia o curso científico em Catanduva, ao mesmo tempo em que começa a criar peixes em um tanque que ele mesmo constrói no quintal de casa.

Buscando sempre facilitar a vida escolar dos filhos, João Nassar resolve transferir-se para São Paulo, em 1953. A família se instala no bairro de Pinheiros, zona oeste da capital paulista, na Rua Teodoro Sampaio, 2.173. No mesmo local, João Nassar abre um armarinho, o Bazar 13, que anos depois viria a se tornar uma empresa comercial de expressão naquela cidade. Raduan trabalha ao lado do pai durante o dia e conclui o segundo ano do científico no curso noturno do Instituto de Educação Fernão Dias Pais, situado também em Pinheiros.

No ano seguinte troca o científico pelo curso clássico, mais voltado para a área de Ciências Humanas, e conclui o colegial na mesma escola.

Em 1955 ingressa ao mesmo tempo na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e no curso de Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). No segundo semestre abandona o curso de Letras. No curso noturno de Direito, conhece Hamilton Trevisan, procedente de Sorocaba (SP), e com aspirações literárias.

No segundo ano, Trevisan apresenta o escritor a Modesto Carone, outro sorocabano, que acabara de ingressar na Faculdade de Direito. Modesto também tinha projetos definidos no terreno da literatura. Como Raduan já começasse a manifestar suas primeiras preocupações nesta área, as conversas entre os três passam a ser dominadas por temas literários.

Em 1957 Raduan ingressa no curso de Filosofia da USP. Era o sexto entre os irmãos a freqüentar a mesma faculdade. Na Faculdade de Direito conhece José Carlos Abbate, um paulistano que acabaria se tornando um de seus melhores interlocutores. Inseparável, o grupo de quatro amigos começa a se encontrar com regularidade na Biblioteca Mário de Andrade e na biblioteca da Faculdade de Direito, onde discute autores e obras e faz boa parte de suas leituras. Também se tornam comuns as noitadas em salões de snooker e bares do centro velho da cidade.

No ano de 1958 interrompe praticamente o curso de Filosofia ao restringir sua freqüência a uma disciplina (Sociologia). No ano seguinte, decidido a dedicar-se integralmente à literatura, abandona o curso de Direito (estava no último ano) e atende só com trabalhos ao curso de Estética na Faculdade de Filosofia.

Falece João Nassar, em 1960, após oito anos de enfermidade. No ano seguinte o escritor desliga-se dos negócios da família. Escreve o conto "Menina a caminho". Viaja para Matane, no Canadá francês, onde viviam duas tias, irmãs de seu pai. De lá segue como imigrante para os Estados Unidos, onde permanece por apenas dois meses.

De volta ao Brasil, em 1962, retoma o curso de Filosofia. Reaproxima-se dos irmãos, com quem passa a ter ótimo diálogo, muito embora lhes fale de seus projetos literários.

Concluído o curso de Filosofia, em 1963, no ano seguinte viaja para Lüneburg, interior da Alemanha Ocidental, a fim de estudar alemão. Através de cartas de amigos e de familiares, toma conhecimento do golpe militar de 31 de março. Comunica ao Departamento de Pedagogia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP sua decisão de não assumir a assistência da cadeira de Psicologia Educacional no campus de São José do Rio Preto daquela instituição. Ao mesmo tempo, abandona o curso de alemão e decide voltar para o Brasil. Antes disso vai ao Líbano e conhece a aldeia de seus pais.

Começa, em 1965, na Chácara Tapiti, em Cotia, São Paulo, a se dedicar à criação de coelhos. Ernst Weber, que mais tarde se dedicaria, como ele, ao jornalismo, era seu sócio. No ano seguinte Raduan passa a presidir a Associação Brasileira de Criadores de Coelho, ocasião em que promove uma concorrida exposição de coelhos e pássaros no Parque da Água Branca. Continua, no entanto, a se encontrar com o grupo de amigos da Faculdade de Direito, na casa de Hamilton Trevisan, onde discutem política e literatura.

Em mutação constante, encerra a criação de coelhos e funda, com os irmãos, em 1967, o Jornal do Bairro, contando com a participação ativa de José Carlos Abbate, que era o redator-chefe da publicação, e de Ernst Weber, então iniciando sua carreira no jornalismo. Apesar de regional, o jornal dedicava parte de seu espaço a textos referentes à política nacional e internacional.

O escritor faz, em 1968, as primeiras anotações para o futuro romance Lavoura arcaica. Dois anos depois escreve a primeira versão da novela Um copo de cólera e os contos O ventre seco e Hoje de madrugada.

Em 1971 morre sua mãe, Chafika, segundo ele "criadora de mão cheia" de galinhas e perus. Dela lhe veio o gosto por criação de animais. Apesar de não ter fé religiosa, participa em 1972 da leitura comentada que a família faz do Novo Testamento. As reuniões semanais para este fim se entendem ao longo de quase todo o ano. Ao mesmo tempo, ele retoma as leituras do Velho Testamento e do Alcorão (esta iniciada em 1968). A preocupação com temas religiosos irá mais tarde se refletir de modo acentuado em Lavoura arcaica. Escreve Aí pelas três da tarde, que sai como matéria no Jornal de Bairro e anos depois aparecerá republicado como conto em outros veículos.

Em 1973 conhece a professora Heidrun Brückner, do Departamento de Línguas Germânicas da USP, que viria a se tornar sua companheira.

No ano seguinte, por discordar da mudança editorial no Jornal de Bairro, deixa em abril a direção do semanário, que tirava 160 mil exemplares por edição. Sem alternativa imediata, começa a escrever Lavoura arcaica, trabalhando dez horas por dia, até concluí-lo, em outubro. Seu irmão Raja, formado em direito e licenciado em filosofia, é o primeiro leitor dos originais. À revelia de Raduan, Raja tira duas cópias do romance e decide passá-las para amigos. Uma dessas cópias acaba chegando às mãos de Dante Moreira Leite, ex-professor de Raduan na Faculdade de Filosofia, que encaminha os originais à Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro.

Em 1975, com a ajuda financeira do autor, a José Olympio publica Lavoura arcaica.

O livro ganha, em 1976, o prêmio Coelho Neto para romance, da Academia Brasileira de Letras, cuja comissão julgadora tinha como relator o crítico e ensaísta Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). Recebe, ainda, o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (na categoria de Revelação de Autor) e Menção Honrosa e também Revelação de Autor da Associação Paulista de Críticos de Arte — APCA.

Em 1978 a Livraria Cultura Editoria, de São Paulo, publica Um copo de cólera. A novela recebe o prêmio Ficção da APCA.

Em 1982 sai a edição espanhola de Lavoura arcaica, pela editora Alfaguara, de Madri. Segunda edição do mesmo livro pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro.

A Editora Gallimard, da França, lança Lavoura arcaica e Um copo de cólera num só volume, em 1984. A segunda edição de Um copo de cólera é publicada em São Paulo pela Editora Brasiliense (a 3a. edição sairia em 1985 e a 4a. em 1987). Raduan compra a Fazenda Lagoa do Sino, em Buri, sudeste do Estado de São Paulo e passa a se dedicar integralmente à produção rural. Morre o amigo Hamilton Trevisan, cujo livro de contos, O bonde da filosofia, seria publicado em março de 1985 pela Global Editora, de São Paulo. Numa entrevista ao "Folhetim", suplemento do jornal Folha de São Paulo, Raduan deixa claro que abandonou a literatura: no mesmo número, o jornal publica o conto O ventre seco.

Em 1987 a editora Suhrkamp lança o livro Lateinamerikaner über Europa, uma coletânea de ensaios e depoimentos de escritores latino-americanos sobre a Europa, organizada por Curt Meyer-Clason, que inclui A corrente do esforço humano, de Raduan Nassar.

A revista espanhola El Paseante publica, em 1988, os contos Aí pelas três da tarde e O ventre seco (o primeiro seria publicado ainda na Folha de São Paulo em1989 e o segundo, também neste ano no Jornal do Brasil).

Sai a terceira edição de Lavoura arcaica, em 1989, pela Companhia das Letras, de São Paulo, hoje em sua quarta reimpressão.

Em 1991 é publicada pela Suhrkamp, de Frankfurt, a edição alemã de Um copo de cólera. A segunda edição sai neste mesmo ano.

1992 marca a quinta edição de Um copo de cólera, pela Companhia das Letras, de São Paulo, hoje em sua segunda reimpressão.

Comemorando os 500 títulos da Companhia das Letras, é feita uma edição não-comercial de Menina a caminho.

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fonte: material obtido do site Releituras. O site reúne mais informações sobre o escritor e sua obra, para acessá-lo CLIQUE AQUI.

Sobre o Encontro com Autores, o evento ocorrerá, como já dito na Poty Livros do Centro da cidade, as 17h. O conferecencista será o poeta e prof. Dr Raimundo Leontino Filho.

minhas falas

quarta-feira, 20 de agosto de 2008



O post de hoje é o primeiro artigo duma série de três escritos sobre o poeta potiguar Jorge Fernandes (que eu debati no stand do Jornal de Fato, na IV Feira do Livro de Mossoró). Todos os três artigos foram produzidos a partir dessa palestra em especial para o caderno Domingo. Hoje posto aqui o primeiro que foi publicado no Caderno Domingo do Jornal de Fato, no domingo passado, 17 de agosto.

Capa comemorativa dos 80 anos da poesia do potiguar Jorge Fernandes pela revista Brouhaha. Fonte: www.natal.rn.gov.br/internet_new/noticianaintegra

Jorge Fernandes, o poeta de vários atos

Por Pedro Fernandes de Oliveira Neto

Aluno do oitavo período do curso de Letras, Língua Portuguesa

Cento e vinte um anos nos separam do nascimento de Jorge Fernandes de Oliveira ou simplesmente, como ficou conhecido, Jorge Fernandes. O poeta nasceu em Natal no dia 22 de agosto de 1887. De uma família de outros poetas, destacando-se Sebastião Fernandes, Jorge não se apresenta na cena literária potiguar já com seu “Livro de Poemas”, o que mais na frente lhe dará o respaldo merecido, mas com um outro pequeno livro em parceria com Ivo Filho, chamado “Contos & Troças – Loucuras”. Trata-se dum livro composto de contos humorísticos e de poesias, sendo que a prosa coube a Jorge e a poesia a Ivo. Além deste, publicou o autor pequenas peças de teatro. Todas, ao dizer do crítico Tarcísio Gurgel, sem maior importância.

A sua família nunca fora de muita monta no Estado. Seus pais Manoel Fernandes de Oliveira e Francisca Fagundes Fernandes tiveram ainda, além Jorge e Sebastião mais oito filhos. Era o pai apenas professor público, desenhista, dominava o latim e a mãe, dona-de-casa que, conforme Veríssimo de Melo, gostava de ler e possuía em casa as obras completas de Gonçalves Dias, Manuel de Macedo e José de Alencar. Ao poeta, o primeiro seria de bastante serventia mais tarde, quando parafrasearia num de seus poemas os saudosos versos de “Canção do Exílio” – “Mas a grande vida brasileira esbarra a inspiração/Do pobre poeta que na sua terra tem palmeira/Onde nunca cantou sabiá... (Ele só canta no mufumbo e nas caatingas...)”.

Seria também esta D. Francisca sua mãe das letras. Era natural por essa época que os filhos, por passarem mais tempo com a mãe, que esta lhe fosse não apenas uma progenitora, mas também uma educadora. E Jorge aprende a carta de ABC com a mãe. Carta de ABC que ele, segundo conta Veríssimo de Melo, logo largou para ler os livros de Macedo e de Alencar. Estudaria dois anos no Colégio Atheneu Norte-Rio-Grandense, mas não seria aluno exemplar. Como resultado do abandono dos estudos seu pai arranjou-lhe um emprego no comércio e trabalhou para a Fábrica Vigilante em torno de vinte e cinco anos, saindo de lá, em 1930, para negociar com cafés e bares da Rua Ulisses Caldas, tornando-se sócio de Firmo Guerra no famoso Café Majestic.

Foi casado por duas vezes: em 1910, Maria Fagundes; em 1916, Alice Fernandes. É por esse intervalo de tempo, mais precisamente 1914, que o poeta começou a escrever para jornais. Ao lado de Ferreira Itajubá, Gotardo Neto, entre outros, aparece Jorge, pela primeira vez, na revista da Oficina Literária Norte-Rio-Grandense, “O Potiguar”. Depois chega a colaborar com vários jornais e revistas da época – “O Tempo”, “A Rua”, “Pax” e o jornal humorístico “Arurau”.

Isso tudo resultaria no já falado livro com Ivo Filho, “Contos & Troças – Loucuras”, publicado em 1909. Cinco anos mais tarde, aparece o poeta como teatrólogo. Escreve e encena “Anti-Cristo”, em colaboração com Virgílio Trindade; “Céu Aberto”, também com Virgílio e Ezequiel Wanderley; “Já Teve”; “O Brabo”; e, “Ave Maria”. Assim como seria com a poesia, também estas peças de Jorge eram dotadas dum caráter inovador para época. Se o tempo que se aviltava no horizonte da sociedade era o do minuto sonoro, da pressa, do arranque, conforme Câmara Cascudo, Jorge introduzia essa condensação do tempo nas suas peças. Tinham elas o caráter de “sketches”, como “Ave Maria” encenada em apenas um curto ato.

Desse corpo de peças e ainda “O Aniversário”, Jorge escreveria “Pelas Grades”, peça de maior sucesso, extraída de um dos seus contos. “Pelas Grades” chegou a ser encenada no palco natalense por várias vezes, chegando a turnear por outras cidades e ser adaptada para o rádio. Além destas, outras duas no mesmo estilo dos “sketches”, também fizeram sucesso de crítica e público, que foram as tragicomédias de um ato “De Joelhos” e “Desesperada”.

Todos estes atos, apesar do sucesso, não deram o respaldo merecido a Jorge. Teria ele de esperar o ato do lançamento de seu “Livro de Poemas”, em 1927. Com a poesia adere ao Movimento Modernista de 22, juntamente como Câmara Cascudo, que foi, indubitavelmente, quem alavancou seu nome, colocando-o em correspondência com o poeta Mário de Andrade. Será por essa época que chega a ser incluído em antologias modernistas do sul. Foi a partir desse ano que Jorge passa a escrever periodicamente para o jornal “A República”, um dos mais importantes do Estado, o que não lhe rende tanta coisa, dado o fato de que a receptividade à sua poesia não ter sido feita com bom grado pela maioria do público, ainda que a crítica da época se resumisse a Câmara Cascudo e estava Jorge avalizado por ele.

Morava à Rua Vigário Bartolomeu, que segundo os registros históricos, chamava-se Rua da Palha, numa casa de porta e janela – semelhante a da foto da capa da quinta edição de seu livro lançada esse ano pela Editora da UFRN. Gostava dum bate-papo, de perguntar sobre as novidades. Atesta-nos os registros como um poeta de temperamento irrequieto. Passou os últimos anos de sua vida doente, vindo falecer no dia 17 de julho de 1953, em Natal. O reconhecimento como divisor do ato no adro da poesia do Estado o poeta só teria bem mais tarde.




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este artigo é fruto das discussões travadas no Ciclo de Palestras Escritores e Escrituras Potiguares realizado no stand do Jornal de Fato por ocasião da IV Feira do Livro de Mossoró (RN). É o primeira duma tríade que está para ser publicado no no Caderno Domingo do Jornal de Fato.

LETRAS&LIVROS

terça-feira, 19 de agosto de 2008

O blogue Letras in Verso e [Re] verso abre mais uma coluna, que deve permanecer como fixa por aqui - trata-se da coluna "Letras&Livros", onde pretendo apresentar resenhas (minhas ou não) acerca de livros.


foto do autor


E inaugurando esse espaço, notas acerca do livro de Paulo Martins, "De Gabriel a Noel: uma festa na terra e outra no céu". Paulo é um poeta de Natal, o qual tive a honra de conhecê-lo no lançamento desse seu livro na IV Feira do Livro de Mossoró no Stand do Jornal de Fato. Confesso que apenas folheei o livro dele e dei uma rápida corrida de vista pelos poemas, tanto que me restrinjo a falar que trata-se de um livro que, certamente, deve ele ter feito uma vasta pesquisa acerca das letras e um também um vasto duelo com as palavras a fim de que elas ainda que soltas encaixassem-se e dessem forma ao poema. É um trabalho interessante e que mostra, antes de tudo, que o fazer poético não está de forma alguma atrelado ao insight ou inspiração como ainda parecem crer a maioria das pessoas. Transcrevo a seguir resenha publicada no Jornal Tribuna do Norte que, ao meu ver apresenta bem o que venha ser esse livro.



“De Gabriel a Noel”: um livro em forma de homenagem


http://tribunadonorte.com.br/noticia.php?id=82685

O poeta e compositor Paulo Martins presta uma homenagem a antigas e novas referências da Música Popular Brasileira na obra “De Gabriel a Noel: uma festa na terra e outra no céu”.

A obra é composta por 49 letras referentes aos conjuntos das principais obras de vários mestres da MPB vivos e imortais. “O livro é uma invenção singela, especialmente destinada a uma clientela que na certa gosta de MPB, e está repleto de criatividade, sobriedade, sensibilidade, versatilidade e originalidade”, comenta Paulo.

O autor conta que o livro “De Gabriel a Noel: uma festa na terra e outra no céu” foi escrito a partir da criação de histórias baseadas nesses conjuntos e nas vidas dos músicos, com o intuito de eternizá-los, evidenciando plenamente seus perfis artísticos e retratando diferentes realidades que sequer foram um dia imaginadas por ele.

Entre os nomes homenageados por Paulo em sua obra estão: Pixinguinha, Tom Jobim, Cartola, Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Lulu Santos, Raul Seixas, Rita Lee, Gabriel o Pensador, Renato Russo, Marisa Monte, Seu Jorge, Zélia Duncan, entre outros.

Para Paulo, o mundo artístico da MPB traduz fielmente a nossa riquíssima diversidade cultural, respeitando as diferenças de estilo, ritmo e gosto de oriundas de nossa gente. “Com base nisso, busquei inovar, sem querer popularizar algumas de suas principais estrelas imortais e atuais, visando aproximá-las cada vez mais de seus incondicionais admiradores”, explica o compositor.

Quando assistia o programa Altas Horas, da Rede Globo, em um dia de 2007, Paulo teve a idéia de escrever seu primeiro livro. “Na ocasião, assisti um compositor da velha guarda carioca, cujo nome não lembro, fazendo uma homenagem a outro compositor. A partir daí, pensei que eu também poderia homenagear muitos nomes da nossa música, os quais admiro”, explica Paulo.

Então, em agosto do ano passado, o autor deu início a pesquisas para constituição do título “De Gabriel a Noel: uma festa na terra e outra no céu”. Paulo buscou informações sobre as letras das músicas dos compositores e criou novas letras, presentes na obra, a partir dos títulos das composições. “Somente três artistas são exceção, pois me baseei em suas histórias de vida para criar as letras. São eles: Luiz Gonzaga, cuja canção que escrevi para o livro cita apenas uma composição sua, que é Asa Branca; Elis Regina, que aproveitei para homenagear, na mesma música, sua filha, Maria Rita; e Martinho da Vila, cuja canção compus a partir de sua criatividade e também homenageei a sua filha, Martinália”, ressalta o escritor.

Através do livro “De Gabriel a Noel: uma festa na terra e outra no céu”, Paulo Martins conquistar não apenas os fãs dos mestres da música brasileira presentes na obra, mas também os entusiastas de outros estilos musicais.

Tribuna do Norte
http://www.tribunadonorte.com.br

R. Roldan-Roldan

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Lembro que certa vez, nalgum post dos que por aqui já pus a circular ter falado acerca de minha atração por fuçar curiosidades nas bibliotecas. Faz cerca de um ano, acho que isso, se me engano, faz mesmo dois (a mim me parece que foi quando me encontrei com a obra de José Saramago pela primeira vez) que eu encontrei um sujeito chamado por R. Roldan-Roldan. O livro era Os úberes do infinito – uma obra que, nossa!, transpira poesia por todos os poros da palavra. Encantei-me. Pesquisei mais e descobri mais coisas do autor na pequena biblioteca da Universidade. Li Ao sul do desejo. Passei a vista por Carta a uma mulher separada e Azeviche ou Nossa Senhora do Sagrado Sexo. Bem, surpresa tive quando numa roda de sorteios feita no I SARAU na faculdade (que também comentei aqui a respeito, do sarau, que se fique claro – lá nos primórdios desse blogue) estava o livro primeiro que li de R. Roldan-Roldan, doado por outro poeta (em breve falarei dele) Leontino Filho (que me orgulho de tê-lo como mestre, orientador e etc. e tal). E arrumando minhas primeiras bagagens para voltar do exílio que estive quatro anos para cursar faculdade em Mossoró, dou de cara com Os úberes do infinito (vê-se que ganhei o livro do Roldan-Roldan naquela noite). E é sobre esse livro e sobre R.Roldan-Roldan que quero falar hoje neste post.

imagem do autor R. Rolda-Roldan


Fuçando na net – vou logo ao site Jornal de Poesia – doutro grande poeta – o Soares Feitosa (quanto tempo que não escrevo para ele, nem dele recebo mais nada!) encontro alguns elementos biográficos desse sujeito que vale a pena ser lembrado: Roldan-Roldan nasceu na Espanha, foi criado no Marrocos e passou sua educação na França. É radicado no Brasil. Teve uma Infância conturbada: separou-se dos pais durante o pós-guerra devido à perseguição política. Tornou-se empregado numa empresa de transporte aéreo e, como isso viaja pelo mundo. Numa dessas viagens, um marco em sua vida, é detido por engano no Afeganistão, país que o marcará para o resto de sua existência. Em 1996, já gerente de uma multinacional e com três filhos, abandona absolutamente tudo para dedicar-se à literatura. Come o pão que o diabo amassou. Mas, coerente e liberto, assume seu destino e sente-se finalmente digno e em paz. É autor de 20 livros publicados. Os 5 primeiros (3 na França e 2 no Brasil) são por ele destruídos depois de editados e não constam de sua bibliografia. Sua obra, que abrange romance, conto, poesia e teatro, vai aos extremos. Como sua vida. Com a qual se confunde. Da paixão ibérica, do ceticismo gaulês, do solo islâmico e da sensualidade tropical surge a cor intrínseca de sua identidade, obsessão e tema principal de sua obra.



__________________

AMOSTRA POÉTICA



Os úberes do infinito


Estendido sobre o algodão dos sonhos

em tardes vestidas de chuva

diluo o ego em palácios de penumbra

lácteo prazer que por fissuras ancestrais

pontua o sabor de identidade

lapidando transparências que mentem

ocultando verdades opacas que transpiram luz

verde ou azul sagrados códidos

que me acendem milênios

facho de constelações

adormecidas em longínquas memórias

buscando o ritmo do eterno

em brechas esquecidas pela rapidez

humildes lampejos de lucidez

na vastidão da gangrena

pulsando

vida

ser

cumes por alcançar abismos por preencher

êxtases de comunhão universal



Alçar vôo e romper-se contra estrelas inexistentes

retornar ao zero

cadafalso do poeta

tingir a seda da alma

morte vestida de farrapos místicos selando o destino

degradar-se

renegar os princípios em nome da fome

cópulas de encomenda

masturbações de desespero

o escárnio entre as mandíbulas

vagando pelas latrinas do mercantilismo

a inércia da mente buscando em vão um bálsamo

em livros ditos sagrados

frívolas considerações em era de decomposição

de digno apenas a máscara

de objeto o berro da consciência

verme em meio à escatologia

nem sequer a luz do pirilampo ou as asas do pardal

e os infinitos sem registro estagnados no limbo

prenhe de férteis silêncios

os úberes plenos esperando os lábios

ah vastidões eternas aguardando o grão

melodias siderais condensadas em pensamentos

abastecidos pelo coração

qual é o nome

qual é nome daquilo que jamais tocarei

_________

Fonte: site Jornal de Poesia. O fragmento do poema Os úberes do infinito são de. Roldan-Roldan, Roldolphe. Os úberes do infinito. Campinas: Komedi Editores, 1998, p. 11 e 12.

Leia mais sobre a poesia de R. Roldan-Roldan no site da Revista Agulha em ensaio crítico do poeta Leontino Filho http://www.secrel.com.br/JPOESIA/ag33roldan.htm e no site http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=123&rv=Literatura

apenas meus poemas

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vou recolhendo meus poemas onde vou achando. Mais um. Este do site Overmundo. Confiram.



Do silêncio
PEDRO FERNANDES ·
Natal (RN) · 20/6/2007 16:35



Tá vendo o silêncio entre nós?
São crateras assassinas que se abrem
se dilatam para nós...

Ouve o silêncio,
o que ele quer dizer?

Traduz num olhar o silêncio
desse nosso olhar!

Vês! São como fossos
se descortinam à nossa frente,
o que dele faremos?

Joguemos palavras para aterrá-lo
mesmo que monossílabos
mesmo que a batida e velha frase "quebremos o silêncio"...
Façamos algo!

Esse silêncio...
Ah! Não tenha dúvidas
é o que há de mais cruel entre nós.

Tenho medo em teu silêncio
desse nosso silêncio.



__________
Disponível em http://www.overmundo.com.br/banco/do-silencio ·

apenas meus poemas

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

imagem: poema cansaço, disponivel no blogue Antologia do Esquecimento

Poema em processo


como gotas d’água

que caem do teto de uma caverna

meio que, por acaso, no papel

na figura do poeta

prefiro fecundar-me e parir

em palavras, poemas

afinal poema é sentir

ainda por definir-se

e ser e causa

poema ainda traz a missão secreta

sei lá, discreta, até

de novas ordens de vida

mesmo que carregado de talvez

(...)

mesmo que despido de palavras

diz tudo

porque em sendo tudo não é nada

e sendo nada diz tudo.


____

Poema disponível no site Garganta da Serpente



minhas falas

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Apresento hoje neste blog mais um artigo que já foi publicado há um certo tempo no Jornal Correio da Tarde, puxado dos meus arquivos com certa dificuldade e que vem para blog para garantir proximidade comigo e com os leitores desse espaço.



O vício do assistencialismo



Pedro Fernandes Estudante de Letras





Depoimentos alheios (desculpem por andar ouvindo conversas alheias, mas nossos ouvidos também servem para isto) dão conta de que um novo tipo de dependência começa a demarcar espaço no sambódromo social brasileiro. A apologia carnavalesca, apesar de ainda não estarmos nesse período, é de propósito; não dizem que tudo por aqui é festa... Então, é só uma maneira hilária de ver a coisa.

Identifiquei a causa, sem muitos estudos. Quisera eu ser um mestre na questão social brasileira! Mas impregnei nela certo faro crítico (coisa que anda faltando à escola de samba Brasil) e cheguei a uma conclusão nem tão surpreendente, uma vez que esse tipo finque ou quem sabe não já fincou raízes neste solo mãe-gentil. De imediato caracterizei-o como um novo vício que se alastra nas camadas ditas populares e é composto de um emaranhado exuberante, de causa-efeito incontáveis, mas ainda assim tentei enumerá-los:

1. Os programas de assistencialismo social surgem no governo FHC como medida paliativa de combate ao disparate social entre pobres e ricos no Brasil, através de um elemento chamado incentivo escolar. Era o chamado Bolsa Escola. Agora, a idéia deu tão certo que se transformou em bandeira política, programa de governo e uma forma moderninha de comprar voto às barbas da Justiça Eleitoral. Para os políticos é a mulher boa do carro-abre-alas. E ainda houve quem gritasse aos quatro cantos que candidato tal se eleito acabaria com eles; jamais fariam uma indecência desta, tirar o tapa-sexo que provoca o povão a os reeleger.

2. A finalidade central desses programas assistenciais era incentivar os beneficiados a tomar rumo na vida; estar com os filhos matriculados (ou jogados) numa instituição de ensino; reduzir ou quem sabe erradicar o trabalho infantil. Detalhe: agora, tomou rumo completamente diferente, até se apregoa isso do antigo Bolsa Escola, mas é por debaixo dos panos. Se antes estavam matriculados ou freqüentavam era uma história, mas agora uma grande parcela dos beneficiados joga o dinheiro em mercearias para pagar as cuias de farinha e feijão que compram fiado, ou para pagar as prestações de um jogo de sofá ou a TV nova exposta na sala como progenitora da educação. É a grande parcela que não entende nem pra que serve essa esmola repassada pelo governo, uma parcela acomodada, que já tem isso como uma renda fixa.

3. Esses programas deveriam assistir famílias pobres (que o governo maquia e chama de baixa renda). Mas o programa não é seguro, possui brechas e a quantidade dos que não precisam e deles se beneficiam é enorme. Pensaram em alternativas, mas falharam. O governo que se diz tão conhecedor da realidade pobre brasileira não parou para perceber que há no país escolas de chão batido e à luz de lampião, que jamais acomodariam um ponto eletrônico, como quis criar.

4. O dinheiro destinado aos programas assistenciais do Estado Federal soma uma "miséra" quantia que se incorporada ao orçamento da educação, a bateria da escola de samba Brasil, pilar e base de qualquer nação que almeje o topo das desenvolvidas, faria mais sentido. Esmolas acabam, educação fica!

5. E, se aproximando do fim, esses programas representam uma maquete gigantesca do homem que tem alguma coisa e a divide com o mendigo da porta do banco. É uma nova visão de poder político para com a camada pobre da sociedade; é o ser humano visto como bicho! Basta-lhe uma ração três vezes ao dia para que escape. Não interessa ao poder se esta ala do desfile é ignorante, escrava ou outro adjetivo qualquer (somos criados à imagem e semelhança da fome, nos calamos com um prato de comida ou uma TV 21" na sala para nos entreter; só dizemos, obrigado!). Basta-lhe o reconhecimento às esmolas do Estado e como pagamento venda seu voto, mantendo no poder os chefes que se lembrarão do eleitor somente daqui a quatro anos.

6. E, por fim, uma coisa é certa, dados denotam que com esses programas assistenciais a renda do brasileiro melhorou (2%!), isto é, tem menos pobre "pobre" nas margens do corredor do samba e alguns até aparecem figurando brigas entre si com um discurso de que saíram da miséria e agora se enquadram no carro abre-alas da classe média (média-baixa é lógico!).

Evidentemente que os programas assistenciais representam sua parcela de bem-aventurança, mas será que somente isto nos basta? Não é possível que questões como estas não inquietem a consciência do bicho humanus brasilis. O bom é se fosse só medida paliativa, mas pelo andar da carruagem, o dia amanhece e essa escola não passa.


URL :: http://www.correiodatarde.com.br/artigos/10954

ESCRITORES E ESCRITURAS POTIGUARES

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Aproveitando o momento depois que falei da poesia de Jorge Fernandes na Feira do Livro de Mossoró, no I Ciclo de palestras Escritores e Escrituras Potiguares, no Stand do Jornal de Fato, para reproduzir aqui a belíssima introdução, ainda que em fragmentos, feita pelo poeta e crítico literário Verissímo de Melo à edição da Fundação José Augusto ao seu livro de poemas. Reproduzo este texto, porque creio que é um dos pequenos textos que mais dizem sobre o autor e sua poesia, sem dúvidas. Por isso vale a pena conferir.



(trechos da Introdução escrita pelo poeta e crítico e Veríssimo de Mélo para a edição do Livro de Poemas e outras poesias de Jorge Fernandes organizado pelo mesmo e publicado pela Fundação José Augusto, em 1970)

Os homens só serão julgados verdadeiramente dentro da época e do meio em que viveram. O que hoje não tem mais sentido – com as mudanças que ocorreram nestes últimos quarenta anos – já foi no passado, a marca do espírito mais refinado e progressista, a elegância por excelência, o supra-sumo da inteligência e graças literárias. Certo que alguns valores são imutáveis, atravessando os anos e os séculos. Muitos outros, porém, se desgastam, empalidecem e morrem.

Os espíritos privilegiados são aqueles que, embora tendo sofrido as influências do tempo em que viveram, se sobrepuseram aos seus conterrâneos e avançaram pelos anos seguintes, conservando permanente atualidade em sua mensagem.

Jorge Fernandes – um dos precursores do movimento modernista no Brasil – há de ser julgado, também para ser compreendido e valorizado, dentro dos mesmos critérios.

Na sua época – décadas de vinte e trinta, principalmente –, Jorge surge na literatura norte-rio-grandense como um pioneiro, um desbravador de formas e conceitos estéticos, rebelado contra o status quo, ironizando poetas consagrados e profetizando o mundo novo que irrompia com o automóvel, os aviões, as máquinas, o dinamismo do século vinte.

Em muitos aspectos, ele refletia o meio, a mentalidade provinciana, no espanto diante da revolução que surgia, nos estereótipos e modismos que utilizava, no choque em face dos novos elementos culturais que penetravam na cidade pacata e “dorminhoquenta”. Todavia, enxergava longe. Sentia que estávamos numa época de transição, de mudanças profundas em nossa vida econômica, social e política. E por isso martelava os poetas parnasianos, desvinculados da nossa ecologia, pensando ainda à européia, enquanto muito mais belos e autênticos eram a natureza em torno, as máquinas, os sons novos, um mundo todo que chegava e eles não viam. Nesse sentido, Jorge é porejante de atualidade. Suas imagens, observações, os traços do ambiente nordestino que fixou, tudo ainda conserva um vigor de juventude. Por isso sua poesia é lida e apreciada ainda hoje pelos moços, como se estivesse escrevendo. Jorge Fernandes venceu o tempo.

***

Natal da mocidade de Jorge Fernandes era, certamente, cidade tranqüila, quase parada, só se movimentando com as festas da Igreja e raros dias de agitação política nacional.

Era a época dos trovadores, das serenatas à porta das donzelas, das modinhas langorosas, dos violões “bêbados em dó menor”, como ele dizia. Das noites natalenses, ele próprio nos fornece depoimento, quando escreveu:


A luz elétrica do meu tempo
Vinha com a lua-cheia...

Era também a época dos cafés literários. O “Majestic”, por exemplo, foi o centro da boemia e atividades culturais. Em torno das mesas, discutiam-se os temas do momento, liam-se poemas e comentava-se a vida da cidade. E normalmente se formavam os grupos, as rodinhas literárias, com os “moços” de um lado, os “velhos” do outro. Exatamente como hoje.

O que há de notável em Jorge Fernandes é que foi ele o primeiro, no Rio Grande do Norte, a cantar no verso livre, sem rima, desprezando a métrica e fórmulas tradicionais. Numa época em que o soneto era forma de alto requinte literário, Jorge surgia escandalizando a cidade com versos sem rima, quase pé-quebrado, como se dizia, provocando protestos e iras por toda parte. Certo que já nesse tempo Mário de Andrade fazia o mesmo em São Paulo, iniciando o movimento que iria fecundar todo o país. Mas São Paulo já era grande metrópole, um dos centros mais cultos do Brasil de então. Escândalo maior era o Jorge em Natal, na década de vinte, escrevendo daquele jeito.

É preciso recuar no tempo para sentir o impacto que Jorge provocou na província. Impacto não somente nas formas novas de poetar, não apenas na referência a coisas consideradas prosaicas para a época, mas igualmente na maneira de grafar as palavras, utilizando termos populares, expressões vulgares, e até na pontuação exagerada, esbanjando reticências em quase todos os versos. Reticências que sugeriam coisas, provocavam suspense, ironizavam, ferretavam, perdoavam, contemporanizavam até.

O seu LIVRO DE POEMAS, publicado em 1927, com depoimento de Luiz da Câmara Cascudo, causou escândalo em Natal. Era, na verdade, simples caderno de oitenta e seis páginas, em brochura, mais largo que comprido (até nisso!), em papel de segunda categoria. Sabemos que Jorge não tinha condições para publicar, por conta própria, livro graficamente superior, dentro ou fora do Estado. Mas, há muita coisa intencional na forma humilde com que lançou o LIVRO DE POEMAS, que era muito mais caderno do que livro.

E por que tanta agressividade do poeta?

Simplesmente porque os tempos estavam mudando e ninguém queria ver. Porque a gasolina – que ele chamou “catinga nova” – estavam determinando enorme revolução na vida da província. E era preciso atualizar-se, frente à nova era que surgia.

Jorge se antecipava. E se transmudou em crítico feroz do momento. Contra tudo e contra todos. Sabia que os donos da época eram conservadores incuráveis.

Mas assim mesmo os enfrentou, correndo os riscos das conseqüências que poderia sofrer, como sofreu pela sua atitude quixotesca.

A reação de Jorge lhe custou caro. Poucos, raríssimos, eram aqueles que o aplaudiam e incentivavam, com Luis da Câmara Cascudo à frente. (*) Por isso, Jorge viveu sempre circunscrito a pequeno grupo de amigos fiéis, teimosos, mas sem influências políticas. Para viver, depois que deixou a Fábrica de Cigarros Vigilantes, passou a negociar com cafés e bares na Rua Ulisses Caldas, onde apenas ganhava o suficiente para sustentar a família. Só mais tarde seria nomeado 4º escriturário do Tesouro do Estado, tudo quanto lhe rendeu a cidade, que ele cantou em versos imortais.

***

Jorge é o poeta que assinala a transição das viagens do interior no lombo de animais para o caminhão, o automóvel Ford-de-bigode, roncando pelas serras e estradas cheias de pedregulhos. Vejam como há cobras nas viagens de Jorge pelo sertão! Ele era caixeiro-viajante e saía de lugarejo em lugarejo entregando mercadoria ansiosamente esperada. Foi pioneiro também nessa atividade, varando estradas precárias e perigosas. Vejam, nos seus versos, como os pneus estouram. E até o processo antigo de mudar o pneu, com a ferramenta colocada debaixo do assento do carro.

Para Jorge Fernandes, homem da cidade, o sertão foi um alumbramento. Sua nova profissão descortinava-lhe um novo mundo. Sensível à presença dos pássaros, que ele tanto amava – seus poemas estão cheios de azulões, curiós, graúnas, galos-de-campina, tetéus, acauãs, casacas-de-couro, riscando as páginas em todas as direções. Mais do que o homem do sertão, com o qual apenas tratava de negócios, o sertão de Jorge é feito de aves de todas as espécies. Achava mesmo que os pássaros que “ cantam contentes são poetas”. Os tristes, “engrujados de pé suspenso e bico enfiado nas penas” – esses não.

É preciso que se saiba que o amor de Jorge pelos pássaros era verdadeiro. Ele os entendia, conversava com eles, tinha intimidades.

Carlos Siqueira a propósito, contou-nos fato curioso. Num dos seus bares, Jorge tinha um galo-de-campina de estimação. Vivia numa gaiola no alto da porta que dava para o “reservado”, onde a turma boêmia bebericava. Quando Jorge se aproximava da gaiola, no seu passo arrastado, o galo-de-campina ficava pulando e cantando. Era a alegria de quem avista o amigo querido. Pois bem. Os boêmios resolveram imitar o passo de Jorge, para ver se o passarinho cantava. Iam-se arrastando, até bem perto da gaiola, mas o galo-de-campina nem se mexia.

Quando Jorge aparecia, o pássaro voltava a pular e cantar alegremente...

Conta ainda Carlos Siqueira que foi uma tristeza, um dia, no bar, quando os boêmios notaram que a gaiola tinha desaparecido com o galo-de-campina. Jorge o vendera! A necessidade o obrigara. E por isso foi quase um dia de luto no bar.

E quem mais sentiu, naturalmente, foi o poeta, que adorava o passarinho, seu bom amigo.

***

Na poesia de Jorge Fernandes há uma preocupação típica da época: a síntese. O menor poema condensando o maior número de sugestões, de idéias. Influência que se manifestava igualmente no teatro, com as pequenas peças de um a dois atos, quase sketches. Inúmeros exemplos poderíamos apontar no LIVRO DE POEMAS ou nos poemas esparsos. Em “Pescadores”, Jorge se esmerou na síntese:

Quando há tormenta e a jangada vira

O homem forte matou a fome

Do irmão do mero que ele comeu...

Cascudo, em seu depoimento, chamou a atenção para este aspecto do poeta norte-rio-grandense.

***

Há um poema, “Rede”, que é antecipação da poesia concretista, conforme notou em artigo Newton Navarro. Jorge queria fixar em versos rápidos todas as sugestões de uma rede armada num alpendre nordestino. Não se conteve e grafou a palavra “suspensa” em meio arco, como uma meia lua. Era o máximo em síntese e sugestão.

Vinte ou trinta anos mais tarde, jovens do movimento concretista iriam utilizar as mesmas sugestões formais, como se estivessem descobrindo um mundo. Naturalmente, eles levaram a invenção às últimas conseqüências. Mas não se pode contestar o pioneirismo de Jorge também nesse campo. E se ele sofreu influências dos líderes do movimento modernista, nos versos livres, já não se pode dizer o mesmo em relação à forma de grafar a palavra “suspensa” no poema “Rede”. Aqui foi mesmo invenção dele. Antes de 1927 – data da publicação do LIVRO DE POEMAS, não chegariam a Natal influências do concretismo que ainda não nascera.

***

Jorge Fernandes foi nosso vizinho, durante muitos anos. Morava na Rua da Palha, hoje Vigário Bartolomeu, numa pequena casa de porta e janela. Raros os momentos em que passando por lá não parasse, para “bater papo”, perguntar coisas, contar as novidades literárias. Nos últimos anos de sua vida, Jorge andava doente e só saía de casa para a repartição, à tarde, apoiado numa bengala, arrastando uma perna.

Algumas vezes, conseguimos arrancar de Jorge alguns poemas inéditos, que publicamos em “A República”.

Queremos deixar o nosso depoimento da figura humana inesquecível de Jorge Fernandes. Ele era de uma humildade total. Nunca lhe notamos um pingo de vaidade em coisa nenhuma. Além de humilde, era de uma displicência invulgar.

Quando lhe perguntávamos sobre as cartas que recebera de Mário de Andrade e outros intelectuais do Sul, ele sorria e dizia que não tinha mais nada. O “dilúvio” que passara por dentro de sua casa, nos dias de chuva, em conseqüência das malditas goteiras, carregara tudo. E como não tinha condições para mandar consertar o telhado, achava graça na sua extrema pobreza. Mas nunca se queixava de ninguém em particular. Era tempo – dizia –, já estava muito velho e era isso mesmo.

Apenas uma vez, eles nos chamou para mostrar uma carta de Mário de Andrade, milagrosamente salva por sua esposa, D. Alice Fernandes, que a encontrava, por acaso, no meio de papéis velhos. É esta a carta de “grande Mário”, como ele chamava, depoimento dos mais importantes sobre a admiração que lhe votava o autor de Macunaíma. Está datada de 14 de julho de 1926. Ei-la:

“Jorge Fernandes

Por intermédio desse queridíssimo Luís da Câmara Cascudo faz já um mundo de tempo que recebi uns poemas de você, entre os quais dois dedicados a mim. Só agora e como sempre de carreira venho lhe dizer o muito obrigado efusivo e a sinceridade enorme com que me agradam os seus versos. Tem neles um certo ar brusco meio selvagem, meio ríspido e no entanto côa de tudo uma doçura e um carinho gostoso. Tudo isso eu tenho apreciado e me tem dado vontade de ler mais coisas suas. Você é original, é incontestável e é duma originalidade natural nada procurada. Isso é dom preciosíssimo, meu amigo. Fique certo que ando guardando os poemas de você como dos mais interessantes dentre os de nosso Brasil de hoje. Veja se me manda mais coisas. Estou com idéias de escrever chamando a atenção sobre vocês daí norte-rio-grandenses e você terá lugar importante nesse artigo. Vá mandando coisas que fizer pois, mesmo que não seja por causa disso, só por causa de nossa amizade que ano que vem será conversada voz contra voz, nós dois aí mesmo em Natal bonita. (Não pense que esse “bonita” é pra agradar, tenho umas fotografias de Natal aqui e gostei mesmo.) veja se me escreve um pouco e manda dizer se recebeu o livro que mandei pra você. Conte coisas e retribua este abraço do (a) Mário de Andrade.”

Efetivamente, em 1927, Mário de Andrade esteve em Natal e foi procurá-lo no Café “Majestic”, onde se encontraram e confraternizaram numa roda de boêmios e intelectuais.

***

Em 1949, Lenine Pinto – companheiro de jornal – entrevistou o poeta para o “Diário de Natal” e suplemento do “Diário de Pernambuco”. No subtítulo está uma frase do poeta que sintetiza todo o seu desencanto, quase no fim de sua existência:

– Eu avancei para muita coisa e terminei em nada.

Quatro anos depois, falecia em Natal. A entrevista, em mais de um tópico, reflete a tristeza do poeta diante do iniludível.

Lembramos ainda da luta de Lenine Pinto para conseguir uma fotografia de Jorge. O poeta não queria mudar a roupa, para posar. Com muita relutância, Lenine conseguiu o milagre da foto, que realmente seria a última. E ele previa, quando afirmava:

– Estou gostando disso, porque tenho a impressão que está é a última vez que me visto, antes de “ir embora”. Quero me ver no espelho, saber como estou. Breve as águas que levaram no “dilúvio” as minhas coisas descerão de novo pelas paredes e então é a minha vez que chegou. Mas queria ir enrolado num lençol branco, e isto daria até menos trabalho aos micróbios. Depois, é ridículo, você imagine um homem gordo, que com duas semanas o queixo está entrando pelo colarinho.

Embora reservado como sempre, Jorge falou sobre vários aspectos literários, conservando, contudo, a mesma humildade extrema e lá um ou outro rasgo de ironia contra os parnasianos.

Disse, por exemplo, que ainda não sabia escrever direito.

Sobre o fenômeno poético, começou declarando que certos poetas parnasianos andavam como “mariposas em torno dos órgãos sexuais, ou danados a meter os clássicos gregos e latinos, feito gênios, na poesia”. Acrescentou, numa das suas mais sérias e definitivas declarações que conhecemos:

– Ora, nós somos uns garimpeiros. Temos que remover a massa de terra com esforço e paciência, para no fim encontrarmos apenas um grãozinho, e este é que é nosso e é o que realmente valor. Não adianta que se queira toda a peneira de terra e que se faça como alguns dos nossos poetas, poesia orientada para os burgueses, nem se deve escrever nada para os burgueses.

A respeito do soneto, que ele tanto combatera na mocidade, declarou:

– Não tenho opinião, porque não quero me meter nos negócios de vocês.

Apenas, acho que o soneto é uma forma imortal de comunicação patética, pelo que tem de grande e belo, pelo ritmo, apesar de ser um cubículo de 14 grades, onde o poeta se limita em busca de liberdade. Só sou mesmo é contra a rima e isso já faz tempo...

Sobre as Academias de Letras, Jorge fez “blague” e relembrou o jogo infantil:

– Adoro-as, as da minha infância, onde se pula de um pé só e sem nenhum formalismo.

Impressionante a resposta sobre o seu maior sonho literário. Parece ter dito, de uma forma toda sua, aquilo que os poetas sempre procuram dizer, inutilmente.

É aquele momento mais alto, nunca atingido, em que o poeta se sentira plenamente realizado. Por isso declarou a respeito do seu maior sonho literário:

– Ainda está comigo. É compor uma canção, mas uma coisa diferente dessas que andam rolando por aí. Quero uma canção tremenda, como as espanholas.

***

Alguns dados biobibliográficos são fundamentais para o conhecimento do poeta.

Jorge Fernandes de Oliveira nasceu a 22 de agosto de 1887, em Natal, sendo seus pais Dr. Manoel Fernandes de Oliveira e D. Francisca Fagundes Fernandes de Oliveira. O casal teve dez filhos, dos quais Jorge foi o sétimo, nesta ordem: Ovídio, Elisa, Maria, Raul, Sebastião, Roque, Jorge, Manoel, Hugo e José.

O pai, professor público, desenhista, cultivava seu latim e o idioma português. D. Francisca, dona-de-casa exemplar, gostava de ler e possuía mesmo as obras completas de Gonçalves Dias, Manuel de Macedo e José de Alencar.

Dos irmãos de Jorge, o que mais se destacou pela cultura e inteligência foi Sebastião Fernandes, bacharel, juiz desembargador, figura nobre e elegante, “o último fidalgo”, no dizer de Câmara Cascudo.

Quem ensinou as primeiras letras a Jorge Fernandes foi a sua bondosa mãe. Mas o poeta, já na infância, revoltado contra tudo o que tinha cheiro de coisa oficial, abandonava a carta de ABC e ia ler palavras nos livros de Macedo e Alencar – confessou-nos.

Estudou dois anos no Ateneu Norte-Rio-Grandense. Aluno vadio e arribador de aulas, o pai findou arranjando-lhe emprego no comércio, quando abandonou os estudos. Entrou para a “Fábrica Vigilante”, trabalhando aí cerca de vinte e cinco anos. Saiu de lá como entrou, com as mãos abanando, em 1930, pobre como sempre.

Todavia, reunindo economias, começou a negociar com cafés e bares na Rua Ulisses Caldas. Foi sócio de Firmo Guerra no Café “Majestic” e tinha outro estabelecimento defronte à Prefeitura. De ambos – perdoe-nos sua memória –, era um dos maiores consumidores, com a turma dos boêmios...

Casou-se duas vezes. A primeira, em janeiro de 1910, com D Maria Fagundes Fernandes de Oliveira, falecida em 12 de outubro de 1916. Do primeiro matrimônio teve quatro filhos: Alba, Sara, Rui e Ilka. O segundo casamento foi com D. Alice Fernandes de Oliveira, nascendo deste consórcio três filhos, dois dos quais morreram. Sobrevive Alice.

O poeta Jorge Fernandes faleceu no dia 17 de julho de 1953, em Natal, sepultando-se no Cemitério do Alecrim.

***

A primeira colaboração literária de Jorge Fernandes apareceu em “O Potiguar”, revista da Oficina Literária Norte-Rio-Grandense, onde também escreviam Ferreira Itajubá, Gotardo Neto, Angíone Costa, Francisco Ivo Filho e João Estevão.

Escreveu depois para inúmeros jornais e revistas da província, como “O Tempo” – jornal de Armando Seabra – “A Rua”, “Pax” e no terrível jornal humorístico “Arurau”. Nesse tempo, em 1909, publicou seu livro de estréia, em colaboração com Ivo Filho. A parte de Jorge era uma coletânea de contos humorísticos. A de Ivo Filho, “Loucuras”, versos.

Em 1914, Jorge era apaixonado pelo teatro, convivendo com artistas, que nos visitavam, escrevendo revistas e peças que marcaram época na cidade. Escreveu e encenou “Anti-Cristo”, em colaboração com Virgílio Trindade; “Céu Aberto”, em colaboração com Virgílio Trindade e Ezequiel Wanderley, musicada pelo violinista paraense Armando Lameira; “Já Teve” (revista); “O Brabo” (peça cômica); e “Ave Maria”, peça em um ato. Tinha a encenar “O Aniversário”. Sua peça de maior sucesso foi “Pelas Grades”, extraída de um dos seus contos. Tem sido encenada várias vezes em Natal e noutras cidades, sendo adaptada para o rádio. Jorge nos dizia que gostava da peça e achava que tinha sido outra pessoa que atuara nele, para escrevê-la. Por esse tempo, lia muito Gorki e Dostoievsky. Não foi sem razão que notaram em “Pelas Grades” influências de autores russos. Para atender pedido de artistas, escreveu ainda duas peças que foram encenadas em Natal, com sucesso: “De Joelhos” e “Desesperada”, tragicomédias, em um ato.

Com o advento do Movimento Modernista, em São Paulo, começou então a mandar seus versos para revistas paulistanas como “Antropofagia”, “Terra Roxa” e outras.

Só depois de 1927, com a publicação do LIVRO DE POEMAS, é que Jorge passa a escrever para “A República” e outros jornais consagrados da terra. Nos últimos anos, publicou pouca coisa. Escreveu mais para entender pedidos de amigos do que pelo prazer de aparecer.


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Amostra poética


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POEMAS DAS SERRAS 3

A carreira do Forde

Toca no arranco... nervoso ronca o motor...

Toca a primeira marcha... grita fanhoso e sai...

Olhos de gato brabo na escuridão da noite fonfonando...

Balança todo no catabio...

Clareia o verde que está dormindo e passa...

O bacurau com os olhos de tição de fogo pula na estrada...

Entra no marmeleiro o gado espantado...

O Forde vai estrada afora moendo léguas...

Milietas de mutucas giram zonzas ao clarão dos olhos fórdicos...

O homem retardado da feira entra no mato no rosilho espantado...

E ele vai soltando no ar um cheiro de gasolina – catinga nova –

Num barulho novo – subindo em primeira... debreando descendo...

Em primeira contornando as serras brutas pintadas de escuro

Da noite quente...

Se espoja nos leitos quase secos

E vai resfolegando levando pedradas miúdas nos pára-lamas

Numa vaia sem razão das estradas pedregosas...

Insultado pelos cachorros estúpidos das fazendas...

E sempre danisco nas serras e gurguéas e nas tangentes

Macias e amigas do batuta viajor do meu tempo...





MEU POEMA PARNASIANO Nº 1


Que linda manhã parnasiana...
Que vontade de escrever versos metrificados
Contadinhos nos dedos...
Chamar de reserva todas as rimas
Em - or - para rimar com amor...
Todas as rimas em - ade - pra rimar com saudade...
Todas as rimas em - uz - pra rimar com Jesus, cruz, luz...

Enfeitar de flores de afeto um soneto ajustadinho
Todo trancado na sua chave de ouro...
Remexo os velhos livros...

“Ah! que saudades eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida...”

Zim... (ligaram um dínamo de milhares de cavalos
E as polias giram e as máquinas abafam o último verso da quadrinha...)

E lá me vem à mente o ritmo dos teares...
As grandes rimas dos padrões...
Os fios se cruzam... se unem pras grandes peças de linho...

- Óleos... fios... polcas... alavancas,
Apitos. Ponteadores. Carrités.
Zim traco! traco! traco! Malhos. Alicates. Ar comprimido.

Fuco! fuco! dos foles
Marcação de fardo pra exportação: marca M.B.C. - Fortaleza - M.F.M. - Mossoró - setas e contra marca -
Trepidação de decoviles.
“Ah! que saudades eu tenho.”

E me abafa o segundo verso de Casemiro
Um caminhão cheio de soldados que segue para o interior
A caçar bandidos.

Que linda manhã parnasiana!
Vou recitar “A vingança da porta”.
Os lindos e sangrentos versos do meu passado:
- “Era um hábito antigo que ele tinha..”
Pregões de gazeteiros: - Raide de San-Roman! Ribeiro de Barros
O grande momento da aviação mundial!
- Que poema forte o de San-Roman!
- Que poema batuta o de Ribeiro de Barros!
Todo misturado de nuvens, de óleo, gasolina,
De graxa, de gritos de bravos! de emoções!

Dem! dem! dem!: - o auto-socorro -
- Quem vem ali?
Um operário que quebrou uma perna de uma grande altura.
- Viva o grande operário! - Viva o grande herói do dia!
- Vivôôôôô...



REDE


Embaladora do sono...
Balanço dos alpendres e dos ranchos...
Vai e vem nas modinhas langorosas...
Vai e vem de embalos e canções...
Professora de violões...
Tipóia dos amores nordestinos...
Grande... larga e forte... pra casais...
Berço de grande raça

Guardadora de sonhos...
Pra madorna ao meio-dia...
Grande... côncava...
Lá no fundo dorme um bichinho...
— ô...ô...ô...ôô...ôôôôôôôôô...

— Balança o punho da rede pro menino dormir...


FONTE:

O texto de Verissímo de Melo foi extraído de FERNANDES, Jorge. Livro de Poemas. 2 ed. Natal: FJA, 1970.

Os poemas estão em FERNANDES, Jorge. Livro de poemas. 5 ed. Natal: EDUFRN, 2008


INTERVALO

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

IV FEIRA DO LIVRO DE MOSSORÓ





A foto aqui acima é dos palestrantes do Ciclo de Palestras Escritores e Escrituras Potiguares (da esquerda para direita: eu, quem vos fala nesse post, Lilian e Monick). Este ciclo de palestras ocorreu dentro da programação da IV Feira do Livro de Mossoró, que este ano foi do dia 05 de Agosto ao dia 10 no estande do Jornal de Fato, presente na feira já desde o ano passado. Neste estande foram desenvolvidas palestras, oficinas, debates etc. com o intuito de despertar o interesse entre os jovens pela leitura.

O estande abrigou
o Ciclo de Palestras "Escritores e Escrituras Potiguares" nos dias 07 e 08 de Agosto. Este ciclo teve por objetivo apresentar aos visitantes e convidados a literatura potiguar, usando como recurso a vida e a obra de três autores: Jaime Hipólito, Auta de Souza e Jorge Fernandes.

Coordenados pelos professores da Faculdade De Letras e Artes - FALA -, o prof. Dr. Raimundo Leontino Leite Gondim Filho e o prof. Esp. Aluísio Barros de Oliveira, os acadêmicos Pedro Fernandes de Oliveira Neto e Monick Munay e a graduada em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Lindelíllyan Fernandes, apresentaram este ciclo de palestras, dividido em dois dias distintos, já acima enumerado.

No dia 07 de Agosto - Mesa I "Estórias Gerais de Jaime Hipólito" cuja a palestrante foi Lindelíllyan Fernandes Martins, coordenada por Pedro Fernandes de Oliveira Neto e Monick Munay; já no dia 08 de Agosto - Mesa II "Auta de Souza e Jorge Fernandes - cartografias e confluências poéticas" com os palestrantes Pedro Fernandes de Oliveira Neto e Monick Munay, coordenados por Lindelíllyan Fernandes Martins.

Ficam registrados nesse espaço a enorme satisfação que foi participar ativamente deste evento, que apesar de ainda ser uma gota d'água muito pode fazer, certamente, pela literatura do estado. Sem palavras para agradecer a Larissa Gabrielle, gerente de Marketing do Jornal de Fato; a Anand Rao - músico, jornalista e escritor - que, entre nós se apresentou e mostrou seu belíssimo trabalho musicando dois poemas - um meu e outro de Monick Munay; a Paulo Martins - escritor que estava lançando seu livro, muito interessante, diga-se de passagem - "De Gabriel a Noel, uma festa na terra, outra no céu". Enfim, a todos que nos receberam, para o lançamento da segunda edição do Jornal Trabuco, a TCM, na pessoa do apresentador João Maria, pelo espaço, ao estande do Jornal de Fato, na pessoa da Larissa, ao estande da Editora Queima Bucha,na pessoa do Gustavo Luz, ao estande do Jornal Gazeta do Oeste, na pessoa do jornalista Mário Gerson.

Foram quatro intensos dias muito bons, diga-se de passagem.

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foto do site da Editora Queima-Bucha, link para conferir: http://www.queimabucha.com/#


Um retrato de James Joyce in Amostra fotográfica

terça-feira, 5 de agosto de 2008

UM RETRATO DE JOYCE IN AMOSTRA FOTOGRÁTICA





EM EXPOSIÇÃO NO BLOG LETRAS IN VERSO E VERSO DE 05 - 10 DE AGOSTO


A exposição "Um Retrato de Joyce in Amostra Fotográfica" é o resultado de uma longa pesquisa - gastamos em torno de três meses, a contar do Bloomsday, 16 de junho - que apresenta James Joyce em imagens em várias faces e formas. Ela marca o encerramento esse ano do Dossiê James Joyce que reuniu peças acerca da biografia e obra do autor, no ano em que celebra-se o centenário do Bloomsday, o dia do Juízo Final.

Esta exposição fica disponível em primeira página de 05 a 10 de agosto de 2008, sendo depois anexada ao corpo permanente do Blog. Conta com mais 50 imagens, entre fotos e gravuras divididas em cinco salas, assim classificadas:

SALA 1:JAMES JOYCE - REUNINDO FOTOS DO AUTOR IRLANDÊS;
SALA 2: A FAMÍLIA DOS JOYCE - REUNINDO FOTOS DA FAMÍLIA DO AUTOR IRLANDÊS;
SALA 3: JOYCE, AMIGOS E PRÓXIMOS - REUNINDO FOTOS DO AUTOR COM AMIGOS E OUTROS QUE ESTIVERAM PRÓXIMO AO ESCRITOR;
SALA 4: JOYCE E SEUS LUGARES - REUNINDO IMAGENS DOS PRINCIPAIS LUGARES ONDE O ESCRITOR PASSOU EM VIDA;
SALA 5: JOYCIANOS - REUNINDO FORMAS ICÔNICAS DO AUTOR.

Todas as imagens reunidas nesta exposição foram importadas do sítio The Libyrinth Authors e preserva as mesmas refências postas no sítio citado.

Boa Exposição!

















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SALA 1: JAMES JOYCE
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Joyce aos dois anos de idade
(From the Southern Illinois University Library, Carbondale.)


Joyce aos seis anos de idade em Bray, 1888. Os Jyces viveram lá de 1887 a 1892
(From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)

Joyce no University College, Dublin, 1902.
(Photo: Southern Illinois University Library, Carbondale.)



Paris, 1902. Joyce pousa neste foto-postal para o seu amigo J F Byrne.
(From the Beinecke Rare Book and Manuscript Library at Yale University)


Dublin, 1904.
(From the University College Dublin Library, C.P. Curran papers.)


Zurich, 1915. Joyce pousa faz esta foto para Michael Healy, tio de Nora (From the Beinecke Rare Book and Manuscript Library at Yale University)


Trieste, 1915. Fotografado por Ottacara Weiss, o amigo que estava encantado por ver Joyce tocando. O violão encontra-se disponível agora no Museu James Joyce na torre do Martello.

(From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo. Information by Bob Cato and Allen Ruch.)


Joyce, o revolucionário, foto em Zurich, 1919 (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)

França, 1922. Joyce depois de uma cirurgia no olho. (Photo from the Rosenbach Museum and Library)


Sussex, 1923. Joyce depois de terminado Finnegans Wake (From the Beinecke Rare Book and Manuscript Library at Yale University)

Joyce fotografado por Man Ray (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)

Joyce depois de uma outra cirurgia no olho. Fotografado por Berenice Abbot (Photo: Commerce Graphics Ltd.)


fotografado por Berenice Abbott.
(Photo: Commerce Graphics Ltd.)


fotografado por Liphtski
(Photo via
Joyce Images, where it appears courtesy of Roger-Viollet)

idem 14.
(Photo via Joyce Images, where it appears courtesy of Roger-Viollet)

idem fotos 14 e 15
(Photo via Joyce Images, where it appears courtesy of Roger-Viollet)

na celébre pose, foto de Berenice Abbott
(Photo: Commerce Graphics Ltd.)


Noutra pose clássica (Photo copyright Library of Congress)

Joyce introspectivo


Paris, 1939, Joyce ao piano. (Photo by Gisèle Freund.)


Zurich, 1938. Fotografado por Carola Giedion-Wecker (Photo from the Zurich James Joyce Foundation.)



SALA 2: A FAMÍLIA DOS JOYCE
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O pai de Joyce, John Stanislaus Joyce.
(From the Web site "In Bloom," maintained by Jough Dempsey.)


O irmão de Joyce, Stanislaus Joyce.
(From the Web site "In Bloom," maintained by Jough Dempsey.)


Dublin, setembro de 1888. A família Joyce. Da esquerda para a direita: o Avô materno John Murray, o James Joyce ainda criança, a mãe Mary Jane e o pai John Joyce. Nesta época Joyce havia entrado no Clongowes Wood College. A casa é a 41 da Brighton Square, Rathgar, a casa onde Joyce nasceu.

(From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)


Zurich, 1918. Nora Barnacle Joyce com as crianças Giorgio e Lucia. (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries)


Paris, 1924. A família Joyce, James, Nora, Giorgio e Lucia (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)


1926. Lucia Joyce, fotografada por Berenice Abbott. Mais tarde seria diagnosticada esquizofrênica e o pai se inspiraria para compor Milly Bloom em Ulisses. (Photo: Commerce Graphics, Ltd.)


Outra vez Lucia em foto por Berenice Abbott.
(Photo: Commerce Graphics, Ltd.)


Londres, 4 de Julho de 1931. James and Nora casam-se em Londres. (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries,
State University of New York at Buffalo.)


1930. Giorgio eHelen Joyce, fotografados por Man Ray.
(From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)


Nora Joyce, em foto por Berenice Abbott. (Photo: Commerce Graphics, Ltd.)

Quatro gerações dos homens Joyce: Porta-retrato de John Joyce; James, Giorgio e o jovem Stephen. Fotografados por Gisèle Freund.
(Photo via
Joyce Images, where it appears courtesy of Gisèle Freund.)


Stephen James Joyce, fotografado por Hugo Jehle. (Photo via Joyce Images, where it appears courtesy of Stephen J. Joyce.)

Stephen J. Joyce e a esposa Solange Raythchine Joyce.
(Photo via Joyce Images, where it appears courtesy of Stephen J. Joyce.)



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SALA 3: JOYCE, AMIGOS E PRÓXIMOS
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Clongowes Wood College, 1888. A sala de aula e os alunos. Joyce é o da frente ao centro na grama. (Photo: From David Pierce's James Joyce's Ireland, where it appears courtesy of Father Bruce Bradley, S.J.)

University College, 1990. Joyce e seus colegas de sala. Joyce é o segundo da esquerda na parte de trás; seu amigo Constantini P Curran está de frente no canto direito. Apoiando-se na árvore à direita está Robert Kenahan, que aparece no Retrato como Moynihan. (Photo: National Library R. 15,521.)



Paris, 1920: Joyce e Sylvia Beach do lado de fora à porta da Livraria Shakespaere and Company (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)


idem 3, noutro ângulo. (From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)



Paris, 1923. Da esquerda para a direita: Ford Madox Ford, quem publicou e revisou sua obra clássica na América, James Joyce, Ezra Pound e John Quinn o advogado de Nova Iorque que defendeu a Pequena Revisão quando eles foram publicar Ulisses em 1921. (Photo: John Quinn Memorial Collection, Rare Books and Manuscripts Division, The New York Public Library.)


Paris, 1923. Da esquerda para direita. James Joyce, Ezra Pound, Jonh Quinn e Ford Madox Ford.
(Photo: John Quinn Memorial Collection, Rare Books and Manuscripts Division, The New York Public Library.)

James Joyce Martello Tower, Sandycove, Dublin, 1962. Sylvia Beach visita obras do Museu James Joyce.


Paris, 1929. O próprio Joyce capturado nesta foto "Três belezas Irlandesas".
Da esquerda para a direita: o autor James Stephen, James Joyce, o tenor John Sullivan.

(From the Poetry/Rare Books Collection, University Libraries, State University of New York at Buffalo.)


Zurich. Ezra Pound visita a estátua de James Joyce. Fotografado por Horst Trappe.

(Photo via Joyce Images, where it appears courtesy of Horst Trappe.)



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SALA 4: JOYCE E SEUS LUGARES

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Clane, County Kildare, Clongowes Wood College. Quando jovem Joyce estudou aqui de 1888 até quando saiu por dificuldades financeiras da família em 1891. A escola foi originariamente um Castelo Medieval.



Sandycove, Dublin. The Martello Tower, agora o Museu James Joyce

(Photo: Copyright 1993 by Alain Le Garsmeur.)


Sandycove, Dublin. A sala de um comôdo Martello Tower, agora o Museu James Joyce.

(Photo: Copyright 1993 by Alain Le Garsmeur.)


7 Eccles Street, Dublin. Home de J. F. Byrne, amigo de Joyce,este foi o espaço fictício da casa de Leopold e Molly Bloom iem Ulisses.



86 St. Stephen's Green: University College, Dublin, 1900. Joyce cursou Línguas Modernas aqui de 1898 to 1902. Por ser uma escola católica de jesuítas, a colação de grau teve de ser emitida pela Royal University como que provindo dos exames aí aplicados.


Dublin, fachada do Finn's Hotel. Nora Barnacle trabalhou aqui como camareira.


Fluntern Cemetary, Zurich, Estátua de Joyce. O local fica próximo do Jardim Zoológico,e a estátua foi feita por Milton Hebald.


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SALA 5: JOYCIANOS

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Gravura de César Albin para o cinquentenário de Joyce

(Copyright César Albin. The Harley Croessman Collection of James Joyce, Special Collection, Morris Library, Southern Illinois University at Carbondale.)


Esquete de Mina Loy, para o Vanity Fair em Paris, 1922.

(From Carolyn Burke's Becoming Modern: The Life of Mina Loy.)

James Joyce.Ilustração de Bob Cato.

(Cover of Joyce Images)



James Joyce

(By Raymond Betancourt, used with permission of the artist)


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todos os direitos reservados ao site The Libyrinth Authors

organização e apresentação Blog Letras in Verso e [Re] Verso


Os Escritores

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

JOÃO UBALDO RIBEIRO


"Em primeiro lugar desaconselharia o jovem candidato a escritor a continuar; sugeriria que desistisse enquanto é tempo. Mas se isso for mesmo impossível, eu diria: então está bem, persista, vá em frente, leia muito, todas essas coisas que são lugares-comuns. E principalmente: seja humilde, mas combine essa humildade com certa obstinação. O resto, não é com você, amigo. É um mistério."

(João Ubaldo Ribeiro)

foto do escritor João Ubaldo Ribeiro. fonte: http://www.klickescritores.com.br/jubaldo_.htm

No último dia 26 de julho, o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro teve mais um motivo em que o mistério de ser escritor, ainda que se dilate, não se explica. Estou falando dele ter sido mais um escritor brasileiro a ser galardoado pelo conjunto da sua obra com o que podemos chamar de Nobel das Literaturas de Língua Portuguesa, o Prêmio Camões, criado em 1988, em sua vigésima edição, portanto. Ano passado havia sido entregue ao escritor português Antonio Lobo Antunes. Também o Nobel José Saramago já recebeu o prêmio. Com este prêmio passa o escritor a integrar a galeria destes lusos e doutros brasileiros que já tiveram a honra de trazer o prêmio para cá, como o poeta João Cabral de Melo Neto, em 1990, a romancista Rachel de Queiroz em 1993, o romancista Jorge Amado em 1994, Lygia Fagundes Telles em 2005, entre outros. Mas quem é João Ubaldo Ribeiro? O Blog Letras in Verso e [Re] Verso, aproveita o momento e o apresenta aos seus leitores.

Traços biográficos

Nasceu em 1941 em Itaparica, Bahia. Iniciou no jornalismo trabalhando como repórter no Jornal da Bahia e, tempos depois, tornou-se editor-chefe do Jornal A Tribuna da Bahia.

Participou de algumas coletâneas antes de publicar seu primeiro livro, intitulado Setembro Não Tem Sentido, em 1968. Com seu segundo livro, Sargento Getúlio, de 1971, ganhou o Prêmio Jabuti.

Morou nos EUA, em Portugal e na Alemanha. Participou de adaptações de textos seus e de terceiros para televisão e cinema e foi premiado e homenageado em várias partes do mundo. Atualmente assina textos semanais nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo.

É um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, autor de clássicos como Viva o Povo Brasileiro, que já superou a marca dos 120 mil exemplares vendidos e é membro da Academia Brasileira de Letras. Escreveu mais de 15 livros, traduzidos em 16 países.

Traços literários

"Se não entendo tudo, devo ficar contente com o que entendo. E entendo que vejo estas árvores e que tenho direito a minha língua e que posso olhar nos olhos dos estranhos e dizer: não me desculpe por não gostar do que você gosta; não me olhe de cima para baixo; não me envergonhe de minha fala; não diga que minha fala é melhor do que a sua; não diga que eu sou bonito, porque sua mulher nunca ia ter casado comigo; não seja bom comigo, não me faça favor; seja homem, filho da puta, e reconheça que não deve comer o que eu não como, em vez de me falar concordâncias e me passar a mão pela cabeça; assim poderei matar você melhor, como você me mata há tantos anos."
(trecho de Vida Real, João Ubaldo Ribeiro)

O estilo literário de João Ubaldo Ribeiro é basicamente traçado pela ironia e pelo contexto social do Brasil, abrangendo também culturas portuguesa e africanas. Antonio Olinto, escritor, crítico literário, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, diz que Ubaldo Ribeiro constrói sua estrutura muitas vezes começando a história pelo meio, como se ela já houvesse existido antes. "Mas como falar deste país sem o lanho do humor? Em tudo insere João Ubaldo a visão do humorista, que vê o que não aparece, identifica a nudez das gentes, entende os pensamentos ocultos", diz Olinto. Segundo ele, o humor atinge seu auge em Vencecavalo e o Outro Povo.

Olinto também reforça que "no fundo, chega João Ubaldo à criação de um país e de um povo, país dele e povo dele, mas também país que existe fora das palavras e povo que ri fora e dentro das palavras. As duas realidades - a real, que envolve o caminho de cada brasileiro e a realidade não menos real, mas com outras vestiduras - mesclam-se na obra de João Ubaldo de tal maneira que ele acaba promovendo uma invenção do Brasil e uma invenção de cada um de nós. Nisso - e no modo como pega no país para o mostrar pelo avesso, e nas gentes desse país, para mostrá-las de cara lavada - provoca uma reação de espanto e incredulidade." Segundo Olinto, João Ubaldo é o "porta-voz" do Brasil, devido os inúmeros materiais produzidos por ele quanto às condições atuais sociais. Essas análises, não só encontradas em livros, podem ser descobertas também na grande gama de artigos escritos por Ubaldo em diversos jornais do país.

"Eu sumir, eu sumir? Como que eu posso sumir, se primeiro eu sou eu e fico aí me vendo sempre, não posso sumir de mim e eu estando aí sempre estou, nunca que eu posso sumir. Quem some é os outros, a gente nunca. (...) Depois o chefe me mandou buscar isso aí, e eu fui, peguei, truxe, amansei, e vou levar mesmo porque que o chefe agora não possa me sustentar, eu levei o homem, chego lá entrego. Entrego e digo: ordem cumprida. Depois o resto se agüenta-se como for, mas a entrega já foi feita, não sou homem de parar nomeio. (...) Nem que eu estupore. Quero ver esse bom em Aracaju que me diz que eu não posso, porque eu sou Getúlio Santos Bezerra e igual a mim ainda não nasceu. (...) Corro, berro, atiro melhor e sangro melhor e luto melhor e brigo melhor e bato melhor e tenho catorze balas no corpo e corto cabeça e mato qualquer coisa e ninguém me mata. E não tenho medo de alma, não tenho medo de papafigo, não tenho medo de lobisomem, não tenho medo de escuridão, não tenho medo de inferno, não tenho medo de zorra de peste nenhuma."

(trecho de Sargento Getúlio)

João Ubaldo é o sétimo ocupante da cadeira nº 34, eleito em 7 de outubro de 1993, na sucessão de Carlos Castello Branco na Academia Brasileira de Letras, recebido em 8 de junho de 1994 pelo Acadêmico Eduardo Portella.


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Fonte: Site Releituras, Klick Escritores, Academia Brasileira de Letras e Wikipédia.