minhas falas

quarta-feira, 29 de outubro de 2008






PCN’s e ensino de Leitura


por Pedro Fernandes de Oliveira Neto



Diante de tantas discussões que perpassam acerca do ensino de Língua Portuguesa uma delas é o tocante ao ensino de leitura. O objeto desse artigo é estabelecer algumas concepções e encaminhamentos em torno dessa questão.


Sobre a leitura, concordo com o pensamento teórico de Kato, uma das estudiosas da questão quando a autora aponta duas grandes posições e as relaciona com dois tipos básicos de processamento de informação: um deles o processamento “bottom up” ou ascendente, centrado na visão estruturalista da linguagem que entende o texto como sendo único portador de sentidos, de modo que o leitor não é concebido como sujeito ativo, cabendo a ele apenas a função de descobridor do significado do texto. Para essa concepção o sentido estaria preso às palavras e às frases, numa dependência direta da forma, tendo em vista que a concepção estruturalista vê a leitura como um processo instantâneo de decodificação de letras e sons e a associação destes com o significado, fazendo uso das palavras de Kato em sua obra “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística”.


Acerca do outro, interessante colocar aqui, o “top down”; este, fundamentado nos aportes teóricos da psicologia cognitiva opõe-se à concepção anterior: aqui, o sujeito leitor é aquele que, diante dos dados do texto, tem a capacidade de acionar seus conhecimentos de mundo para interpretá-lo. O processo é, pois, não-linear, é analítico, é dedutivo e percorre todo o corpo do texto, nos seus elementos pré e pós-textuais.


Associando as duas visões, “bottom up” e “top down”, Kato apresenta-nos numa outra obra sua, “O aprendizado da leitura”, o que para ela seria o leitor ideal ou o bom leitor. Este seria aquele que é capaz de confrontar os dados do texto apresentado percorrendo as marcas de seu autor, com conhecimentos prévios socialmente – os chamados conhecimentos de mundo – a título de conseguir constituir o sentido do texto num processo interativo texto-leitor-autor. Dessa forma o sujeito leitor é ativo porque é dele a tarefa descobrir o sentido do texto e não é só isso, mas também opinar, inferir, criticar, jogar com os sentidos.


Nos Parâmetros Curriculares Nacional de Língua Portuguesa – PCN’s – a concepção de leitura delineada é uma variante dessa visão interacionista tendo seus fundamentos ancorados na psicologia cognitiva – a ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento lingüístico –, na psicolingüística – disciplina que compreende o estudo do sistema lingüístico adquirido (a gramática), dos métodos de aquisição desse sistema, e dos modelos de percepção e locução – e na sociolingüística – que ancora os estudos lingüísticos, antropológicos e sociológicos que tratam dos aspectos sociais do uso da língua, especialmente das variações lingüísticas que se dão no interior de um grupo, conforme as diferentes posições, funções ou circunstâncias dos indivíduos ou dos subgrupos de que estes fazem parte. Remontemos, então, a definição de leitura proposta nos PCN’s a título de reforçar essa afirmação: “A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que se sabe sobre linguagem”. Este é um conceito do PCN de Língua Portuguesa do ensino fundamental menor, 6º a 9º ano. Mais adiante reforça, “Trata-se de uma atividade de que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, sem os quais não é possível proficiência." Difere da postura interacionista no por acrescentar o viés sócio-histórico, que considera a linguagem além do caráter interacionista, mas algo portador de historicidade, uma vertente dos estudos sociolingüísticos, a sociointeracionista.


O que podemos recuperar em toda essa circularidade discursiva é que toda essa nova forma de ver a leitura já significa um grande avanço no tocante ao seu ensino na sala de aula. O ensino de leitura pode até ainda não ter absorvido dessas discussões reais incursões e/ou transformações no tocante às diversas questões haja vista ser muito comum que a leitura na sala de aula ainda se constitua numa obrigação ou simples forma de passatempo. Mas quando essas discussões ultrapassam o ambiente acadêmico, como se pode perceber, não é mais somente a Kato ou outros teóricos ou um leitor de suas teorias que discutem a questão, mas quando esta tem se transformado em preocupação pública, pelo menos é o que se imagina quando se ver figurar num documento oficial conforme são os PCN’s, há algo de interessante acontecendo. Isso é positivo.


Para fundamentar essa discussão podemos abarcar isso num questionamento, o de que, “Quais as reais mudanças ocorrem após essas discussões ganharem esse caráter?”


As atividades de leitura sugeridas para trabalhar textos em sala de aula que reflitam o mundo dos sujeitos discentes já é uma nova possibilidade que se avulta no horizonte da questão e que podemos utilizar aqui como resposta a esse questionamento. A inserção do texto enquanto objeto de ensino de leitura sendo referendada como posição proposta pelos Parâmetros é algo de importância porque insere no universo do professor de língua materna essa preocupação ou pelo menos, quem sabe, o despertar para a questão.


O que, no entanto, preocupa ainda é perceber que as atividades de leitura como propostas pelos PCN’s sejam recebidas pelos professores como uma obrigação. E aí o estudo do texto acaba por ficar restrito ainda àquela visão unívoca e mecanicista da leitura enquanto prática de decodificação.


Basta que tomemos nosso contexto escolar onde é muito comum que o livro didático, por exemplo, constitua modelo único para a leitura em sala de aula. Sabendo-se como o livro didático é portado, o espaço de diversidade de sentidos buscados da quantidade ampla de textos como propõe os Parâmetros, acaba por ficar atrofiada; o livro didático atrelado às cogitações ideológicas do professor acaba, muitas vezes, por ganhar essa amplitude da produção de sentidos, transformando os alunos em leitores induzidos, racionais perante o texto. Aliás, professor e aluno acabam mesmo sendo leitores neutros, meros reprodutores do saber institucionalizado há tempos no discurso escolar.


Diante de todas essas discussões alunos e professores se sentem sujeitos anulados de suas práticas sociais. Admitindo que a leitura enquanto processo que envolve a linguagem e a linguagem enquanto fator social não é concebida no seu real sentido, que é a construção de sujeitos leitores capazes de divagar seguramente pelo mundo da leitura, o real objetivo como proposto nos PCN’s acaba por se transformar em utopia. E tudo acaba se transformando num mundo faz-de-conta, onde o professor faz de conta que ensina a ler e incute o gosto pela leitura e o aluno faz de conta que aprende.



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este artigo foi publicado no Caderno Domingo, do Jornal de Fato em 22 de junho de 2008.


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Os escritores

terça-feira, 28 de outubro de 2008

José Paulo Paes – Experiência Humanística E Cultura Literária 1

Por Antônio Fernandes de Medeiros Júnior

(UFRN)

José Paulo Paes foi um intelectual com muitas facetas, uma espécie de mestre sem título nem cátedra. Sem gravata nem suspensórios e à semelhança dos versos, “Não fez barulho na travessia terrestre./ Deixou apenas/ um rastro de música apuradíssima”2, que também não alardeou dogmas, tampouco sistematizou caminhos críticos radicais. A sua presença no cenário da cultura brasileira, na segunda metade do século XX, anuncia a experiência de um humanista notável. Oriundo de um universo em cujo epicentro estava o livro3, esse paulista de Taquaritinga – nasceu em 22 de julho de 1926 e faleceu na cidade de São Paulo no dia 9 de outubro de 1998, aos 72 anos – foi editorialista, poeta, tradutor e ensaísta. Produziu uma obra extensa, a qual inclui gêneros discursivos distintos, e toda ela sublinhada pela pujança de um espírito livre, com talento expressivo e aptidão singular para recolher ângulos insuspeitos em formulações poéticas, extraídas do cotidiano banal.

Quem deseje perseguir, como leitura sistemática, o conjunto da atividade literária de José Paulo Paes, primeiro, há de empreender um esforço suficiente para perceber que está diante de um autor que desenvolveu – como poucos e sem abrir mão de sólido rigor de pesquisa – um curioso método de trabalho deliberadamente periférico e à margem sistema produtivo acadêmico.4 Definiu seu método dialético na aposta da capacidade de assimilação de parcelas da realidade, faculdade submetida ao crivo de articulação reflexiva e de exposição de conteúdos abrangentes que, invariavelmente, ensejam a interlocução com o leitor comum (seu alvo preferencial), oferecendo, a esse público leitor, uma variedade de erudição desarmada, livre de excessos de condicionamentos teóricos e das linguagens cifradas, disponíveis somente a iniciados. Como pensador livre, José Paulo Paes qualificou-se através do farto exercício de pertinência crítico-poética, acumulada no decurso de mais de 50 anos de trabalho, intervalo no qual cumpriu intensa e ininterrupta vida literária, sob o signo da discrição.5 Assim, instruiu a sua posição singular de leitor e crítico propenso a coligir material qualificado para a leitura de um público plural. Como pensador bem-humorado demonstrou, pode-se constatar pela leitura de sua obra, ter compreendido que não confundia seriedade com sisudez, nem pertinência com demasia, conforme deixou expresso em sintético poema metalingüístico: “conciso? com siso/ prolixo? pro lixo”.6 No albergue silencioso de sua biblioteca, consolidou a prática de leitor arguto e mostrou-se perseverantemente infenso aos mimos superficiais e às vaidades estéreis da vida literária. Consta disseminado em seu ponto de vista o empenho francamente dialógico em demanda da compreensão dos fenômenos da realidade, essa, preservada pelo tom desassombrado e pouco afeito à mistificação:

“A vitalidade de uma literatura não se mede apenas pelo mérito daqueles autores que a critica passou em julgado e entronizou definitivamente como ‘maiores’. Mede-se também – e é forte a tentação de escrever sobretudo – pelo valor dos autores ditos ‘menores’ que, negligenciados pelos contemporâneos, só tardiamente, o mais das vezes depois de mortos, conseguem se impor. É então que ocorrem as chamadas ‘ressurreições’ literárias, atos de justiça tardia que, outra utilidade não tivessem, sempre serviriam para perturbar, com afloramentos sincrônicos, a digestão dos profissionais da diacronia.”

Tal fragmento transcrito de José Paulo Paes – movimento de abertura ao seu estudo Pavão parlenda paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa7 – permite entrever, como ponto de partida, a predisposicao analítica de um leitor irrequieto. De imediato, sugere a índole de um leitor crítico refratário ao gesto passivo de acatamento de créditos estagnados na bolsa de valores literária e disposto a debater, sem preconceito, a matéria de cunho literário. Oferece elementos sutis suficientes para anunciar a presença incisiva de uma espécie rara de homem de letras.

O trecho, perpassado por sugestões de vitalidade, a despeito do interesse específico preliminar, vinculado ao poeta Sosígenes Costa, salpica referências relevantes, porque recorrentes, as quais perfilaram os ângulos centrais reveladores da atividade de reflexão literária de José Paulo Paes. Deslocado de seu ambiente originário, exibe sumariamente uma série de procedimentos nucleares de escolhas ensaísta-poeta-tradutor paulista. De maneira significativa, o leitor de José Paulo Paes pode verificar que o duplo leitor/escritor José Paulo Paes articulou uma espécie de “rede organizada de obsessões”:8 sistematizou idéias, produziu ensaios, fez surgir e se ocupou em apresentar, via tradução, textos literários trazidos ao alcance do leitor comum contemporâneo de língua portuguesa, com a lucidez metodológica de que se aparelhou ara, pacientemente, executar o exame literário dos trânsitos auspiciosos entre os eixos da diacronia e da sincronia. Nesse sentido, estão facultados em catálogos, seus estudos acerca da Poesia Moderna Grega9, as suas incursões percucientes a respeito da tradição tentacular da poesia erótica no ocidente, e também as suas instigantes intervenções na tradução de poetas dinamarqueses contemporâneos. Não menos importantes, são as suas análises voltadas à verificação dos eventuais critérios formais necessários à consolidação de um estatuto capaz de definir a permanência atemporal dos textos literários, os quais oriundos da memória poética, continuam despertando a curiosidade das gerações sucessivas de leitores. Nesse passo, ganham relevo as colaborações de tradução dos Sonetos renascentistas de Aretino10 e as primeiras versões brasileiras dos densos romances Às avessas11, do decadentista francês J. -K. Huysmans, e A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy, 12 de Lawrence Sterne, do século XVIII inglês, essa narrativa tão útil ao estudo da literatura brasileira, sobretudo ao leitor das narrativas machadianas.

Dali também, pode-se inferir que esteve presente, em seu arco de preocupações a disposição firme de refletir sobre as dificuldades históricas da crítica em avaliar, para inserir no sistema literário, autores novos ou que se apresentem peculiares, e por isso, provocativos ao quadro geral de estagnação. José Paulo Paes atuou como um crítico que não se furtou à tarefa de estabelecer judiciosamente a ponte entre escritor novo e seu público potencial, ou de recordar a relevância sincrônica de uma figura surgida no passado.13 Como decorrência de sua colaboração regular aos cadernos de suplementos literários do jornalismo cultural, surgiram volumes de ensaios coligidos, como exemplificam, dentre outros, o Gregos e baianos, de 1985,14 o Aventura literária, de 1990, Os perigos da poesia, de 1997, ou ainda o da edição póstuma de O lugar do outro, de 1998. Todos organizados em seções capazes de incorporar comentários mesclados, inclusivos das produções contemporâneas ora de Glauco Mattoso, ora de Chico Buarque, ou ainda de Carlos Felipe Moisés, em paralelo a ponderações sobre a poesia de Paul Verlaine, ou a respeito das idéias de Simone Weil, sobre o soberbo texto homérico de a Ilíada. Mais do que isso, nesse material, o seu leitor pode usufruir em sua faceta não arvorada, contudo brandamente destilada em informalidade de uma entrevista: a do teórico literário.15 Isso porque, os volumes de ensaios reunidos comportam também as incursões pontuais acerca do valo pedagógico da metáfora, pleiteiam a defesa tipológica de uma literatura brasileira de entretenimento, recortam pontos de vista pertinentes ao romance de aventura e reivindicam a necessidade de sondagem crítica concernente à representação da outridade na prosa de ficção.

De outro modo – autêntica variação sobre o mesmo tema – a intervenção de José Paulo Paes como funcionário editorialista da Cultrix a partir de 1961, em contrato que perdurou durante quase duas décadas, corroborou para a fixação da sua imagem possante de home de letras inescapável. Como atesta o seu desempenho satisfatório da função, o editorialista (raposa fabular responsável pelo galinheiro bibliográfico) contribuiu para selecionar e difundir alguns dos títulos da crítica, da teoria e da produção literárias estrangeiras mais representativas daquele contexto, material que veio a ser vertido para a língua portuguesa, entre eles os fundamentais Lingüística e comunicação, de Roman Jakobson, em 1969; os Curso de lingüística geral, de Ferdinand Saussure, em 1970; o Introdução aos estudos literários, de Erich Auerbach, em 1970; os Abc da literatura e A arte da poesia, de Ezra Pound, em 1970 e 1976, respectivamente, e O castelo de Axel, de Edmund Wilson, em 1991, em traduções individuais ou conjuntas, mas sempre sob a sua orientação crítica. De acordo com o testemunho de Izidoro Blikstein,

“Houve um caráter pioneiro de tradução desenvolvida por José Paulo Paes, mesmo porque havia uma chave de braço, uma briga constante, no bom sentido, entre o José Paulo e o dono da Cultrix, o saudoso Diaulas Riedel, porque o Diaulas, como dono da editora, preocupava-se com o retorno financeiro dos livros. Isso é perfeitamente natural, mas nem todos os livros tinham uma grande saída. O José Paulo incentivava a tradução desses clássicos da literatura, da lingüística e semiótica. Eu acredito que o exemplo foi seguido depois por várias editoras e aí está o papel pioneiro.”16

Mérito também reconhecido por Luiz Schwarcz.17 Como se vê, o tradutor do clássico A desobediência civil tratou de valorizar o espaço humilde dos bastidores, incitando uma bibliografia atualizada, vertida à língua portuguesa e disponível ao público de várias disciplinas da área de humanística.

A partir desses apontamentos preliminares, parece plausível supor que José Paulo Paes praticou coerentemente uma arte reflexiva, suficiente para não sucumbir à palidez das “negligências” por ele criticadas, em função da necessidade de sua leitura de Sosígenes Costa, tornando-se, a contrapelo, o primeiro beneficiário de sua própria anotação. A sua defesa intransigente relativa ao valor da literatura, enquanto discurso de preservação, faz resvalar compromissos éticos, em última instância compromissos definitivos com os princípios das artes e ciências humanas. Certamente, tal ordem de consciência discursiva decorreu de desenvolvimento gradual de sua percepção crítica.

José Paulo Paes optou cedo, e de maneira obliqua, pela estrada erma do autodidatismo, tendo, contudo, o selo expedito de proteger essa condição com a sua capacidade de uso do discurso irônico, em prática corrosiva. O início da trajetória do homem de letras ocorre pela recusa – paradoxalmente consciente – à escolaridade e está patenteada por decisão tomada ainda na juventude:

“Concluído o ginásio, eu tinha de decidir o que fazer dali por diante. Um curso universitário exigiria mais oito anos de estudo. Era demais para quem queria se livrar o quanto antes de dependência financeira para com o pai e cuidar de sua própria vida. ainda que atraído pela literatura, nem de longe me passou pela cabeça cursar Letras, de onde sairia professor de português. Eu gostava de ler para me distrair e aprender, mas não gostava de escola. Achei então que um curso técnico de química seria uma boa opção. Seriam só mais quatro anos, sem necessidade de colegial. Consegui o programa dos exames de ingresso e me preparei sozinho para eles.”18

Aqui, estabelecida a preferência do autodidata, não há espaço para heroísmo. Reprovado no exame do Colégio Mackenzie, em São Paulo, freqüentou, como ouvinte, o colegial de Araçatuba, oportunidade que aproveitou para constatar, em exercício sarcástico, que “além das pernas da professora de desenho, nada mais me interessou no curso”.19 Mudou-se para Curitiba, em 1944, onde permaneceu até meados de 1949; cursou o programa do Instituto de Química do Paraná, ampliou o seu espectro de leitura e ciclo de amizades, sedimentou outros tantos contatos decisivos e participou do II Congresso Brasileiro de Escritores, realizado no Rio de Janeiro. Publicou poemas na Revista Joaquim. Advieram desse contexto de efervescência, as suas amizades com os pintores Carlos Scliar e Cândido Portinari, com o desenhista Poty, com os contistas Dalton Trevisan, Murilo Rubião e Haroldo Maranhão, com os escritores Jorge e James Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Graciliano Ramos, com os poetas Glauco Flores de Sá Brito e Carlos Drummond de Andrade, com os críticos Antonio Candido, Wilson Martins, Armando Ribeiro Pinto, Otto Maria Carpeuax e Sérgio Millet, e também com o anárquico Aparício Torelli, o Barão de Itararé.

Filiou-se ao Partido Comunista, posteriormente, desiludiu-se com os excessos doutrinários stalinistas do realismo socialista, quando aprendeu que o diálogo de discursos relevantes exigiria “um tipo de conciliação entre arte e ideologia que superasse o rebaixamento propagandístico”.20 Essa compreensão, conforme o seu leitor pode constatar, revelou-se emblemática e indício do equilíbrio reflexivo que perpassa os seus textos críticos, tendo-se preservado, desde então e em toda a sua longa experiência literária, como valor de referência almejada.

Esse aprendizado inicial, debulhado em tom de irreverência branda e compatível com o melhor das recomendações de Oswald de Andrade – “ver com os olhos livres” –, concatena a expressão do pensador sensato e já imprime a marca d’água da sua personalidade literária, em sintonia plena com depoimento de ratificação, oferecido em entrevista, poucos meses antes de seu falecimento: “Meu ideal poético é a desafetação, a concisão e a intensidade postas todas a serviço da minha própria visão de mundo.”21 Concluído o curso de química, consolida-se a tendência arredia da figura avessa à pompa: “Embora eu tivesse sido eleito orador da turma, desisti de comparecer à festa de formatura, quando meus colegas resolveram colar grau de smoking alugado. Achei palhaçada demais para um militante do partido operário.”22 A qualidade do argumento e a consciência do mal-estar espraiaram-se vida literária afora, na expressão urdida por um polígrafo requintado.

José Paulo Paes sobreviveu de seu trabalho, primeiro como técnico em química, depois como editorialista da Cultrix e, em concomitância, fermentou a sua laboriosa obra poética, de crítica e de tradução literárias. O primeiro livro publicado, O aluno (1947), é circunscrito ainda ao período curitibano. Dado o caráter de síntese válido para perfilar todo o volume, destaco o poema-título:

São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância
Circulam as memórias e as substâncias
De palavras, de gestos isolados.

São meus também, os líricos sapatos
De Rimbaud, e o fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode,
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.

O soneto revistado com o timbre da geração de 45 – nomeação genérica relevante como referência cronológica, contudo anódina para indicar inerências discursivas: o próprio José Paulo Paes teceu comentários a respeito do assunto, os quais não deixam dúvidas sobre a sua crença no poder individual da criação, acima da subserviência a argumentos de autoridade23 – deixa vazar aspectos peculiares do poeta emergente. Chama à atenção o empenho declarado de um eu-lírico apresentado no papel de um leitor exigente que, beneficiário das conquistas conseqüentes do Modernismo de 1922, mescla o arrojo de uma linguagem só aparentemente contida com a atualização de seu verbo exposto, aberto às trocas, às infusões discursivas, ciente do legado recebido. De acordo com Jorge Luis Borges, todo poeta conseqüente inventa, arranca de sua sensibilidade a linhagem dos seus precursores, torna possível a porção de alquimia definidora de sua trança poética. As referências nominais, concentradas nos dois tercetos, a Carlos Drummond de Andrade, a Manuel Bandeira, a Pablo Neruda e a Arthur Rimbaud, justificam a ocorrência do verso inicial “São meus todos os versos já cantados”.

Em súmula poética, percutem os ecos de A rosa do povo (1945), os fragmentos do mundo pós-guerra, a bricolagem de cacos bélicos, o bigode sarcástico de Charles Chaplin, aderido à face perplexa e à dicção empostada de Carlos Drummond de Andrade.







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Notas de fim:

1 Este texto é parte integrante do Projeto de Pesquisa José Paulo Paes – um homem de letras, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para Linha de Pesquisa Literatura e Memória Cultural, da área de concentração Literatura Comparada, em cumprimento às exigências parciais para a seleção de doutorado em março de 2003. Pesquisa orientada pelo prof. Dr. Marcos Falchero Falleiros.

2 ANDRADE, Carlos Drummond de. “Frutuoso Viana”. Em seu Poesia e prosa Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988, p. 810.

3 “Não acredito que o futuro de quem quer que seja possa estar escrito com antecedência na configuração das linhas da mão ou dos astros do céu. Mas não posso deixar inteiramente de lado a idéia de o local de meu nascimento ter influído nos rumos da minha vida. Pois nasci numa livraria. Melhor dizendo, num quarto bem ao lado da Livraria, Papelaria e Tipografia J. V. Guimarães. É o que diz a placa da loja do meu avô materno, em cuja casa da Taquaritinga vim ao mundo...” PAES, José Paulo. Quem, eu? Um poeta como outro qualquer. 2 ed. São Paulo: Atual, 1996, p. 3.

4 “Não consigo imaginar ninguém menos vocacionado a homenagens do que o Zé Paulo. Ele era uma pessoa extremamente discreta, embora irônica, correta e também – por que não dizê-lo? – safada [...] O que considero extremamente significativo em sua figura pública – um traço meio paradoxal numa pessoa tão discreta – foi o fato de ele ter provado através de sua produção e de seu comportamento que era possível para um homem comum participar da vida cultural e da vida artística do país de maneira produtiva, sem que para isso fosse necessário uma inscrição institucional forte, seja universitária, acadêmica ou de qualquer outra ordem”. NAVES, Rodrigo. Cult: Revista Brasileira de Literatura. “DOSSIÊ – José Paulo Paes: o poeta da brevidade”, n. 22. São Paulo: Lemos Editorial, ano III, maio de 1999, p. 59.

5 “José Paulo Paes foi um dos homens de letras mais completos que nós tivemos no Brasil. Isto é notável, tratando-se de alguém com uma formação bastante informal. Mas se pensarmos na fisionomia de um homem de letras, do que pode ser um homem de letras entre nós, isso estava encarnado em José Paulo Paes no final de sua vida. Ele foi um cidadão, digno que se dedicou às letras de corpo e alma, embora tenha feito tantas outras coisas pela vida.” Davi Arrigucci Jr., Cult: Revista Brasileira de Literatura, n. 22. São Paulo: Lemos Editorial, ano III, maio de 1999, p. 60.

6 PAES, José Paulo. “Poética”. Em seu A poesia está morta mas juro que não fui eu. São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 11 (Claro Engima).

7 PAES, José Paulo. Pavão, parlenda, paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa. São Paulo: Cultrix, 1977, p. 11.

8 BARTHES, Roland. In: Michelet. Tradução Paulo Naves. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 9.

9 Com esta tradução, o autor foi distinguido com a Cruz de Ouro da Ordem de Honra pelo Presidente da Grécia, em 1989 (Poesia Moderna Grega. Rio de Janeiro, Guanabara, 1986).

10 Através desse trabalho, o autor foi reconhecido com o Prêmio de Tradução da Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, em 1981 (Sonetos luxuriosos, 2 ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1987.

11 HUYSMANS, J.-K. Às avessas. Tradução e estudo crítico de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

12 STERNE, Lawrence. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristam Shandy. Tradução, introdução e notas de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

13 Conforme deixou recomendado aos novos: “Enfrente o ofício a palo seco, com base em você, na sua obra mesmo. Apenas tente diminuir a distância entre você e os grandes de literatura”. Folha de São Paulo, MAIS! 22.06.1997, p. 12.

14 Conjunto com o qual o autor recebeu o Prêmio Jabuti de Estudos Literários (ensaios) da Câmara do Livro do Brasil, em 1986.

15 “Estou mesmo pensando em escrever um livro de como fazer para que o jovem goste de poesia, uma espécie de propedêutica da poesia, no melhor sentido, no sentido não-sistemático, não-escolar, mas no sentido de uma espécie de ioga poética, para que o sujeito se sinta motivado a ler e curtir poesia. É possível despertar quem tem algum gosto através de um elenco, por exemplo, de como a linguagem da poesia funciona, qual o caminho para entender certas coisas aparentemente inexplicáveis e que, entretanto, são verdadeiros ovos de Colombo”. Apud A aventura literária de José Paulo Paes, entrevista concedida a Heitor Ferraz, publicada em Cult: Revista Brasileira de Literatura, n. 22. São Paulo: Lemos Editorial, ano III, maio de 1999, p. 49.

16 Apud Cult: Revista Brasileira de Literatura, n. 22. São Paulo: Lemos Editorial, ano III, maio de 1999, p. 55.

17 “O José Paulo acompanhou a editora [Companhia das Letras] desde o nascimento. Ele também foi autor do primeiro trabalho da Companhia das Letrinhas. Não existe ninguém no mercado editorial do porte dele. Foi ensaísta, tradutor, poeta... Ele mudou muitas das faces do mercado editorial brasileiro”. “Repercussão”. Folha de São Paulo, Ilustrada, 10.10.1998, p.1.

18 PAES, José Paulo. Quem, eu? Um poeta como outro qualquer, p. 29

19 Id., ibid., p. 30.

20 Id., ibid., p. 40.

21Entrevista com José Paulo Paes” concedida a Rodrigo de Souza Leão em 27/06/98. Apud. Jornal de Poesia. http://www.revista.agulha.non.br/r2souza08c.rml. Acessado em 21.11.2002.

22 PAES, José Paulo. Quem, eu? Um poeta como outro qualquer, p. 40

23 “Rótulos geracionais são uma comodidade da história literária e como tal só aos historiadores é que podem servir e satisfazer. Todo poeta digno do nome é um mundo à parte, cujas peculiaridades, cuja eventual cota de originalidade tendem a ter obliteradas quando insistem em metê-lo num compartimento classificatório. Cronologicamente, pertenço à geração de 45 porque meu livro de estréia é de 47. Mas estou longe de perfilhar uma certa estética programática que leve esse nome e em cujo âmbito não creio que a minha poesia, no todo ou em parte, possa ser incluída sem violentar-lhe a especificidade”. José Paulo Paes artesão da sobriedade. Disponível em: http://sites.uol.com.br/medei/penazul/geral/entrevis/paes.htm. Acesso em 22.11.2002.

Para ler este ensaio na íntegra, aqui este texto é apenas um fragmento ver FÁVERO, Afonso Henrique e PATRINI, Maria de Lourdes. Scriptoria III: ensaios de literatura. Natal: EDUFRN, 2008, p. 39-68










minhas falas

segunda-feira, 27 de outubro de 2008


Viva a diferença!


Por Pedro Fernandes de Oliveira Neto



Duramente justapostas e sobrepostas, todas as formas e modos de viver, todas as civilizações do passado desembocam em nós “almas modernas”, graças a esta mistura, os nossos instintos refluem em todas as direções, nós mesmos somos uma espécie de caos.
(Friedrich Nietzsche)


VIVA A DIFERENÇA! Estava lá escrito com letras garrafais num cartaz afixado na entrada, pela parte interna duma agência bancária. Ao da faixa, numa cadeira de cor laranja, estilo bem moderno, uma senhora bem humilde, de aproximadamente setenta anos, parcimoniosamente à espera. Na TV, clipes com propagandas de alguns produtos oferecidos pelo banco do tipo empréstimos, financiamentos, poder de compra em geral.

A cena descrita é a descrição duma cena que na ausência de uma câmera fotográfica resolvi fotografá-la em letras. Foi uma cena real. E agora o registro numa fotografia três por quatro literária com o interesse de lê-la em um dos muitos aspectos possíveis de leitura: o da necessidade desenfreada e vulgar da sociedade capitalista contemporânea pelo consumo e do falso encantamento pelo novo.

Esta cena me chamou atenção porque vejo a senhora da descrição como um elemento solto, alheio a tudo que está ao seu redor – às pessoas, às músicas que eram exibidas na TV, às imagens dos banners, alheia inclusive à cadeira laranja em que estava sentada. Sua posição nessa pintura contemporânea obedece a uma espécie de colagem, ou montagem fotográfica, é apenas “uma alheia à”. Ainda assim ela está lá.

Essa sede capitalista pelo TER tornou-se algo tamanho que a figura da senhora humilde, ainda que destratada – porque são destratadas, humilhadas, compradas em empréstimos (tenho presenciado muitas cenas tristes em lugares como este) – funcionam com verdadeiras mães-propaganda, mães-sustentáculo – seria bem esse o nome – aos tubarões financeiros. A gama pelo novo, vejo na sua posição lá na cadeirinha laranja, posta distante dos outros que serão atendidos como se isso fosse fazer juz à lei que não permite que idosos permaneçam à mercê de filas. Ela é posta isolada das outras pessoas para não enfeiar a instituição enfeitadas de cartazes com pessoas jovens de sorriso largo.

Essa cena me faz refletir acerca do que vem se compondo o cenário humano hoje. A necessidade pelo fútil, pelo passageiro faz a humanidade passar por um processo de liquefação. A fluidez, a rapidez, a vulgaridade em torno da própria matéria humana nos transforma em produtos de vitrine, usáveis e descartáveis. A senilidade, por exemplo, outro aspecto que salta aos olhos diante dessa cena, é vista como algo que deve ser varrida para os cantos da parede, a menos que os idosos sejam rejuvenescidos o suficiente.

VIVA A DIFERENÇA um carpe diem contemporâneo. A cadeia de sentidos que se apresentam é tamanha que, é bem verdade, ultrapassam as barreiras da diferença entre bancos, como parece ser a proposta, mas ao meu ver porta-se como um slogan cheio de discriminações – joga humanos contra humanos. Numa leitura ampla da cena e do cenário onde esse fato se passou, leio o VIVA A DIFERENÇA, o slogan daquele banco, como uma forma de acentuar, de delimitar firmemente as barreiras que existem fixas entre a juventude e velhice. O que é falso. Não conseguimos precisar onde que começa cada fase dessas ou onde elas terminam.

Chegando aqui eu me pergunto quantas cenas significativas como estas acontecem afora? Corremos tão tresloucadamente que não reparamos o sentido que estas cenas carregam. Talvez um dia toda humanidade se sente para um descanso parcimonioso na suas cadeiras laranjas e descubra o quanto que seus corpos são usados e abusados e o que eram mesmo aquelas colunas gregas senão aquilo que ela vê como carcaça num canto de parede.


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Intervalo

quinta-feira, 23 de outubro de 2008


Blindness


Era a tela nua. Branca. Esticada a minha frente. Um mar de leite espichado retangularmente que marcava seus contornos algumas filas depois de onde me sentara. No meio da platéia. Gosto do meio.Quando as imagens começarem a se deslocar elas melhor me envolvem. No meio.


Confesso que, apesar de minha paixão pelo cinema andar ancorada à da pela literatura, nunca me senti ansioso para estréias em cinema. Até quando da primeira vez que tive oportunidade de ver um filme no cinema. Não muito distante – foi quando da estréia do Titanic – filme que não sei o porquê cheguei a assisti-lo cinco vezes (talvez porque o primeiro que vi no cinema, talvez). Mas dessa vez tive sim ânsia. E das muitas. Cheguei a reler o romance do José Saramago para ir com a cabeça ainda inebriada pela sua narrativa densa.


14h55. A tela veste-se. Propagandas. Traillers. Até que um disco vermelho estampou-se tão próximo, que sequer daria para precisar ser o de um semáforo. A primeira cena. E o desenrolar estonteante da mesma densidade da narrativa saramaguiana inundando o nu da tela por duas horas.


Saí do cinema com os mesmos sentimentos que a obra literária me casou: uma angústia que se instalou desde a internação daqueles sujeitos no manicômio; um enclausuramento que se instalou desde que o mar de leite toma a luz do primeiro sujeito a cegar; a mesma visão acerca do homem, o de quanto somos nojentos; enfim, o sentimento de que ainda nem tudo está perdido. Há uma luz. Feminina. Uma luz.




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apenas meus poemas

quarta-feira, 22 de outubro de 2008


Dos fins do dia em que a lua sobe mais cedo

Sempre voltei para casa assim como sol

E deixei me embalar nas linhas tênues

Ou oblongas dum verso


Como colecionador de sua humildade

Julgo-me na ausência da trama

De fama deserta

Esquecido no meio dum inverno

De olhos preto-e-branco

Jogado à distância

Da ânsia do tempo


Os olhos de insônia a me vigiar

Olhos de menino assim

Voam de lance em lance no relance do tempo

Cicatrizado naquelas sacolas de plástico velhas

Presas nos fios da memória

De ruas estreitas descalças descobertas ao sol


Na minha genealogia secreta

Crianças empoeiradas do sertão

Riscam meu pensamento e

Jogam no chão nu seco

As palavras de pedras que erguem meu poema


Ancorados na minha memória

Pendurados no tempo

Encontram-se uma grande família

Guiada pela imaturidade infantil

Encantada com o sal doutras terras tenras

Desfeita na meninice delas na juventude minha

Perdida na mesma rua de sacolas


Com essas mesmas memórias velhas

E já apodrecendo num indiscernível enredo

O que se tem de jovem em mim

Perde-se na fatalidade de vidas reais e falsas

Numa repetição infinita doutros eus

No cenário estrangeiro dum poema


Sem falar com ninguém

Agarrando-se e alimentando-se

Na mesma alma-teta

Na mesma calma pasma

Das linhas longas dum verso

LETRAS&LIVROS

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Terminei de ler uma obra chamada No país dos homens. Incrivelmente belíssima. Muito de se aproxima do texto de Fahrenheit-451. A seguir posto uma resenha de Lorraine Adams sobre essa obra.

No país dos homens, Hisham Matar. trad. Rubens Figueiredo. Cia das Letras.

O que uma criança pode entender do totalitalismo? No excelente romance de estréia de hisham Matar, essa pergunta transcendo o campo do psicológico para alcançar algo de raro na ficção contemporânea: uma trama sofisticada, dominada por arquétipos, narrada pela lógica de um menino de 9 anos e escria com ênfase e o lirismo característicos da poesia.

Esse maravilhoso livro foi alvo de diversas campanhas de marketing, mas não deixe que alguém te fale, como os publicitários fizeram na Inglaterra logo que No país dos homens apareceu, que esse é um Caçador de pipas líbio. A criação de Matar poderia estar ambientada em qualquer região do mundo: a Líbia, terra natal do escritor, fica livre de suas idiossincrasias, tornando-se simplesmente um virtual país totalitário. E, ao contrário do best-seller de Khaled Hosseini sobre dois garotos no Afeganistão, o romance de Matar é livre tanto nos lugares-comuns quanto de enfeites. O cerne do livro vai além de alguns temas isolados. Matar produziu um retrato atemporal do infantilismo do mal.

No país dos homens lembra 1984, Fahrenheit 451 e as outras grandes ficções científicas na medida em que cria um universo sem sentido e de uma simplicidade cruel. O garoto, que é narrador, só às vezes é capaz de enxergar alguma coerência no mundo. Por que sua mãe toma um "remédio" e mesmo assim fica doente? Seu melhor amigo lhe diz que as mulheres são todas doentes. Como pode ser isso? O menino tem suas dúvidas. Por que insistem em lhe dizer que seu pai viajou a negócios se ele o viu andando no centro da cidade? Por que, sendo seu pai um amante de livros, de repente sua mãe os queima? Por que sua mãe fica tão nervosa quando o vê conversando com o homem com a cara cheia de marcas de varíola, que fica parado na frente da sua casa em um carro branco, o mesmo que lhe traz doces e pergunta o nome dos amigos de seu pai?

O narrador passa o livro inteiro se questionando. Este é um dos mais poderosos temas de Matar: as intricadas raízes da traição vagarosamente tomam forma. O garoto trai seu melhor amigo, sua mãe e um amigo do pai - e trairia seu pai, se as coisas tivessem encaminhado nessa direção. Enquanto vai perdendo a fé, sua capacidade de sadismo se particulariza. Ele joga uma pedra e, ainda que negue que quisesse acertar um amigo fragilizado, um menino que ele respeita, acaba ferindo-o gravemente. O narrador tenta salvar um mendigo da vizinhança de um afogamento, mas acaba, ele mesmo, batendo no rosto do homem.

O garoto se questiona depois de cada acontecimento, fraco e cheio de vergonha. Mas então o dia passa, o que ele viveu desaparece, e não há nenhum aprendizado. Gradualmente, começamos a perceber que os atos de um sistema despódico são semelhantes à vida interior de qualquer garoto. Com a base afetiva fraturada, mimado, impressionado com multidões que se comportam como robôs, cheio de vícios ocultos, o garoto e o sistema compartilham uma confusa puerilidade. Como a famosa frase de Orwell - "A guerra pacifica, a liberdade escraviza, a ignorância revigora" -, o mundo erdeu suas basses, ou, na formulaçao de Matar, ele aprendeu quais são elas.

O leitor adulto percebe, naturalmente, o que o menino não consegue. A mãe doente, sobre quem ele tanto fantasia, é vítima do álcool. O amigo de seu pai, um cavalheiro, que se recusa a qualquer traição e deixa entrever que em sua nobreza tem íntima relação com seu conhecimento histórico. O tão famoso Guia, cujo retrato está pendurado por todo lado, é, com certeza, Muammar el-Kadafi. A vizinha do outro lado da rua, apelidada de "Antena" porque é informante do serviço de inteligência, é capaz de colocar as pessoas atrás das grades". Os sobreviventes que se escondem, os moralistas, o Guia, são todos personagens da sociedade totalitária.

Talvez Matar tenha uma compreensão tão refinada disso tudo por causa de uma longa reflexão sobre suas próprias experiências. Como narrador, ele nasceu em 1970 e deixou a Líbia, pela última vez, em 1979. Seu pai, um ex-diplomata dissidente exilado no Egito, foi seqüestrado em 1990, preso e torturado em Trípoli. Ele ouviu falar do pai pela última vez em 1995. O regime de Kadafi prendeu ou enforcou três primos, um tio e vários dos amigos de Matar. Quando dá entrevista ou redige artigos, ele se mantém publicamente calmo. Como romancista, seu autocontrole é impressionante.

Isso também ajuda na criação da prosa poética. Logo na primeira página, o garoto descreve uma árvore da janela do quarto de sua mãe, "ela é timidamente verde na luz matinal". Os óculos de sol que seu pai usa são "duas lentes escuras curvadas como cascos de tartaruga em cima dos olhos". A voz de sua mãe parece "um pequenino peixe nervoso e solitário no fundo do mar". As unhas dos dedos do mendigo "se parecem com os bicos dos pássaros".

O auge do livro é também sua mais terrível imagem: o momento em que o menino, sua mãe e um amigo da família assistem a uma execução televisionada, muito comum na Líbia de Kadafi, que no livro acontece em uma quadra de basquete. O menino vê um vizinho subir uma "larga e rígida escada de alumínio" e percebe "a cada degrau ele pára e implora por clemência".

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fonte. Revista Entrelivros, mai de 2007, p. 72

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Itinerários da poesia de Zila Mamede

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Encerramos hoje o texto do professor Paulo de Tarso sobre a poesia de Zila Mamede.


Corpo a corpo


Pasto branco

potro bravo

corpo a corpo

corre o certo

tempo incerto

de um corisco


Pasto e cobra

rosto franco

na empreitada:

febre e fogo

nesse jogo

de encontrar-se


Pasto e potro

rasto e sono

em breve trato:

rosto acorda

laço e corda

desatados


Pasto grave

tenso rosto:

cobra-cobra

se consome

na empreitada

re-presada


Pasto franco

rosto breve

fogo e risco

fome e riso

no improviso

desse jogo


Pasto bravo

potro branco

corpo a corpo:

na campina

o potro: a crina

engalanada


(Zila Mamede In Corpo a corpo)


Zila Mamede – itinerário e exercício da poesia (parte V): Corpo a corpo – paisagem dos cinqüent’anos ou uma volta em mágoa


por Paulo de Tarso Correia de Melo*



“[...] a beleza é tão grande

mas ninguém a enxerga.”

(Marinha ou Paisagem dos cinquent’anos)


Embora a autora defina Corpo a corpo como “uma volta sem mágoa” a cada um dos lugares que marcam o seu itinerário poético, a novidade desses poemas inéditos está, outra vez, muito mais na forma, se tomada em relação ao livro imediatamente anterior, que no retorno temático.

Quanto a esse pretenso retorno, Zila retoma alguma coisa de Exercício da Palavra, decidida a fazer enxergar a beleza de visões amargas como o motel, na dupla de poemas “O telefone/O bar”, o serão do poema “Retrato de minha mãe costurando” ou os bairros pobres de “Marinha”. Assim sendo, a maioria temática desse novo livro se faz para uma preocupação que poderíamos classificar de urbano-provinciana.


Um ângulo de visão curiosamente oposto à maior parte dos demais poemas está presente em “Procissão”. Este poema não trata de demonstrar a beleza que ninguém enxerga na vida amarga e sim a amargura humana que se desprende da visão fisicamente sublime.


Os grandes conseguimentos do livro estão nos poemas “Pregão – A cadei(r)a” e “Bilhar”. No primeiro, o metassignificativo é tão definitivamente entretecido como em “A ponte”: o plurificado auditório televisivo, fantasmal e onipresente. No segundo, a súbita consciência do “sem rumo jogo-de-amar” é toda uma definição da condição humana.


Os dois poemas referidos são também os representantes melhores da aludida renovação formal: a economia verbal está presente evitando o que poderia ser acessório, mas não chega a influir na duração dos poemas de Corpo a corpo.


Na maioria destes, entretanto, o melhor controle retórico, que é uma das grandes características de Exercício da palavra faz-se presente. Nota-se também um seguro encontro do ritmo certo para cada forma: o mecânico ritmo do “Retrato de minha mãe costurando”, a informação rápida dos quartetos de “Pregão – A cadei(r)a”, a concentração lacônica do “Bilhar”, o absolutamente vitorioso desafio à facilidade das quadras e rimas, imprescindível à criação de “Tango”e o passo cadenciado da “Procissão”, que somente poderia ser escrito-descrito como o foi, em dísticos relativamente breves.


ANEXOS

O telefone/O bar


(fragmento)


1. Concerne ao telefone

resolver nada e tudo

um tudo que em ser nada

gira num disco mudo

som e voz de projeto

voz em negro e sem fio

fio anônimo e suspeito

cantiga de desafio


Decide o telefone

banquete e funeral

explosão de quartetos

desordem mineral

no avesso testemunho

do uísque em combustão

do concerto barroco

e da explícita fusão

homem-mulher-cadeira

em tons neutros de epox

as tabelas de preços

o acrílico do box

(Zila Mamede In Corpo a corpo)

A cadeira. Vicente Van Gogh


Pregão – A cadei(r)a


Olhe a cadei(r)a

flor anatômica

plurificada

no pensamento:

no transparente

da forma parabólica

projeta o corpo

do seu terraço;

desenha focos

onda de vídeos

no movimento

dose seus canais

Olhe a cadei(r)a

nos antiquários

junco e palhinha

paz no entremeio –

cantar do tempo

de herança austríaca:

salas-salões

pulverizados

Olhe as cadei(r)as

fluídas do mundo

neutro auditório

sono profundo:

anfiteatros

coro eletrônico

da sinfonia

do tempo atômico.

(Zila Mamede In Corpo a Corpo)


Retrato de minha mãe costurando


(fragmento)


A máquina move

bobina fios

a máquina fixa

flor de atavios

Corra essa correia

de couro curtido

de roda ao pedal

como um desafio

Dance a inquieta agulha

em louco vai-e-vem

cutelo e fagulha

de calor, de bem

A máquina e

o veio:

aranha a tecer

varizes inchadas

longo anoitecer

A máquina

e o tempo:

luz de lampião

pedal madrugada

cheiro quente:o pão

(Zila Mamede In Corpo a Corpo)


Tango


a Leonardo Bezerra


Imagem dessa hora mansa

em que, distante, descansa

aquela veste encarnada,

aquela veste encarnada.

Era um doce manequim

moreno-rubro em cetim,

um manequim que pensava

muitos nãos e pouco sim.

Havia a vitrine oblonga

– a casa do manequim

de veste encarnada e longa,

cílios de longo nanquim.

Os sorrisos coloridos

e os dentes (leite e jasmim)

imóveis nas formas vítreas

na prisão do manequim.

As contas de musgo e vidro

dos olhos do manequim

rolaram dentro do abismo

de um amor, num botequim.

.....................................................

Escapam falas, detalhes

do sofrido manequim

nessa hora cansada e mansa

que bate dentro de mim.

(Zila Mamede In Corpo a corpo)

Bilhar

a Ludi e Oswaldo Lamartine

Na medida exata

em que a noite corre

não fico: me ausento

como quem morre

Entre lousa e livro

- único disfarce

que concede o tempo –

mudo-me a face

que, no entanto, vária,

inábil, reprimida,

perde-se no encontro

tátil da vida

Bola sete em rude

pano de bilhar

marco meu sem rumo

jogo-de-amar.

(Zila Mamede In Corpo a corpo)

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Paulo de Tarso Correia de Melo é professor do Departamento de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (URFN). Texto do autor publicado em MAMEDE, Zila. Navegos; A herança. Natal, 2003, p. 32 e 33.


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Itinerários da poesia de Zila Mamede

sexta-feira, 17 de outubro de 2008







O cavalo e menino

a Pablo Picasso


Era o cavalo em pêlo
em pêlo era o menino, e os dois
- mais sua solidão, mais seu destino.

Ninguém sabe se o cavalo angustiava
a tarde,
se do menino era a angústia
que o cavalo tocava.

Os dois passavam sempre abstraídos
(na tarde que continham)
da campina de cinzas que os cercava.

Se de um, se de outro, súbito
chegava o grave canto,
já se sabia – era a tarde dos dois:
que a do menino,
contida numa estrela aparecia,
e a do cavalo,
sobre montões de feno se dobrava.

(Zila Mamede In Exercício da Palavra)


Este é o quarto livro de Zila Mamede, onde toda sua poesia foi reunida, codificada, projeto que delimita fases, mas quer sobretudo, encontrar a linguagem despojada, assumindo um processo que alcança o grande valor de procurar/tentar novas soluções para o verso.

[...]

Um livro que pode ter uma virtude: não peca, pela unicidade, pela virtude bem comportada de um equilíbrio de fórmulas, vez e tema. Para aqui, confluem as várias vozes do poeta, sua pesquisa incessante, sua hora de ir e voltar, de conhecer e desconhecer, do uso deliberado de formas que correspondem à necessidade de uma poesia mudar e equipar-se para uma viagem moderníssima, ou o retorno a formas que eram as da geração poética antes mesmo dos anos 50.

(Sanderson Negreiros)



Zila Mamede – itinerário e exercício da poesia (parte IV): Exercício da palavra – exercício da palavra urbana e exercício da palavra em Zila Mamede


por Paulo de Tarso Correia de Melo*


“Deste giro de olho
precisão recolho”

(Moça na janela – Exercício da palavra)


O primeiro dístico do poema “Moça na janela”, citado acima, se não resume, pelo menos chama a atenção para o que de mais imediato se percebe quanto ao conteúdo e estrutura de Exercício da palavra, editado em Natal, pela Fundação José Augusto, em 1975.

O “giro do olho” evoca uma mudança de ângulo de visão temática, no caso desse volume, antes de tudo urbana. A “precisão” parece ser a grande obsessão formal do livro. Mesmo a balada, a cantiga, e o mais alentado “Romance de Lua-Lua” são mais contidos e despojados. Zila Mamede tenta e consegue, na maior parte dos poemas, dar uma forma especial às preocupações visuais perceptíveis em seu trabalho, desde algumas imagens de Rosa de pedra.

O título também é revelador. Em Exercício da palavra, Zila consegue tomar a linguagem como princípio e fim. Segundo a poeta, “este título não é gratuito, ele resulta de todo um exercício de retomada de uma profissão – e eu digo profissão consciente”, contempla em seguida. Apesar de grande parte da crítica brasileira, Antônio Olinto e Nelson Werneck de Sodré, entre outros (OLINTO, Antônio. O Arado. O Globo, Rio de Janeiro, 15 de janeiro 1961, Porta de Livraria e SODRÉ, Nelson Werneck. Poesia. O Semanário, Rio de Janeiro, 13 de maio 1960) esperaram e mesmo cobraram um sucedâneo a O Arado, Exercício da palavra somente apareceu quinze anos depois. Durante o intervalo, Zila não deixou de escrever, deixou apenas de publicar poesia. Grande parte desse tempo foi também consumido pela preparação e publicação (em 1970) do levantamento bibliográfico Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918-1968. Após a “saturação intelectual” decorrente de trabalho de tal porte, Zila começa a trabalhar na Coordenação do Livro Literário do Instituto Nacional do Livro, em Brasília, e recomeça a escrever poesia pensando em publicar.

Considerados os intervalos duradouros entre alguns dos poemas que compõem Exercício da palavra, o seu conjunto não perdeu uma certa unidade essencial. Garantem-na a temática quase toda urbana e atual e, mais ainda, a forma da maioria dos poemas que tratam de assuntos inusitados, nunca antes (ou raramente) tratados em poesia: a manicure, a promissória, o fusca, o flamengo, o câncer, a encíclica e o fim de semana.

Em alguns desses poemas e com o mínimo de palavras, Zila realiza aquele repentino acento metafísico, entrevista no segundo dos dois quartetos de Salinas, transcritos nesse trabalho. É o que acontece, por exemplo, em “A Ponte”:

Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
da pedra e de aço
onde não permaneço
- passo.


O “salto esculpido sobre o vão do espaço” é também um súbito salto metafísico garantido por uma única palavra – “passo” ao final do poema.

A palavra nos evoca um sentido de transitoriedade e o faz de maneira insólita e poeticamente rica, sobretudo se se atenta para o contraste intencionalmente oposto entre a transitoriedade do “passo” e as sugestões de perenidade em “pedra” e “aço”, permitindo outras sugestões metassignificantes para as palavras “vão”, “espaço” e “chão”, presentes no poema em definitiva textura.

Em outros poemas do livro, a descarnada metafísica de “A ponte” está presente. De forma sutil, na sugestão de câncer ao final do poema sobre a maternidade; perpassando os poemas “O edifício” e “Salmo 39”. Devem-se notar ainda as súbitas sugestões metalingüísticas ao final dos poemas “A manicure”, e “A mudança”, além do corte cinematograficamente ampliativo na 3ª parte do poema “O ferreiro”, o que lhe dá uma dimensão quase cósmica, ou, no mínimo o urbaniza, integrando-o mais a Exercício da palavra, esta “queda de pássaro no asfalto”.

À altura de Exercício da palavra vale tentar algumas considerações sobre o uso das palavras na poesia de Zila Mamede, perspectiva que de longe, se tem a pretensão de esgotar em todos os seus aspectos nesta introdução.

Um inventário vocabular da poesia de Zila Mamede, desde Rosa de pedra, descobre de imediato a preocupação da poeta com três grupos particulares de palavras, fato que vai ter consideráveis implicações no seu discurso poético total:

1. Palavras de emprego poético inusitado;
2. Palavras que tentam reproduzir e incorporar ao poema o vocabulário nordestino;
3. Palavras que tentam ou conseguem ser verdadeiras criações léxico-semânticas.

O primeiro grupo está melhor representado em Rosa de pedra e Exercício da palavra, o segundo em Salinas e O arado e o terceiro em O arado. Em momentos mais remotos da poesia de Zila, esta preocupação com a palavra chegava mesmo a comprometer alguns poemas, sugerindo facilidade ou incapacidade artesanal ao leitor menos avisado.


ANEXOS



Manicure - óleo sobre tela, Eurico Borges. Fonte: Espacoloios


Manicure


Longes nome e fala
no rosto:
na sala
mundo-mãos-em-fila

Instrumentação
ágil de acetona
Pela mesa o jogo
da cutelaria
Rosalã-verniz
nessa multifária
química dos dedos
que nas mãos diária
dez punhais recria.

(Zila Mamede In Exercício da palavra)


O edifício

Visão: campo em vertical
o morto sem raiz
dorme: concreto e cal.

Estrutura em que
o morto numeral repousa
nem nome (nem lousa).

Morte que sobe o morto
e o delimita:
morto seu rés-de-chão desabita.

(Zila Mamede In Exercício da palavra)




A mudança

a meu Pai

O caminhão: na boléia
a mulher e o cão

A vitrola
o vaso de gerâneos
o par de botas
sobre a capota

A mó a concertina
os matolões os faróis
(a querosene) juntos na mesma vida

Num berço de vime
o terço (que redime)
a espingarda (que mata)
Refletidos no armário de espelho
a chibata
o pássaro de gaiola
o relho

Tange a mudança o homem com seu rosto:
engenho que o desgosto
desgasta de uma rua a outra.

(Zila Mamede In Exercício da palavra)



Ferreiro. José Sobrinho (óleo sobre tela). Fonte: Josesobrinho.planetaclix.


Ferreiro


a meu avô Miguel

1. Ferramenta na mão
o homem dobra a carne do ferro
as vísceras do ferro
a alma do ferro

Funde no fogo primitivo
dentaduras e mecanismos
que submete a seus dedos de azeite
Uma dor (a que é sua)
gira que gira na
vorá (velo) cidade do esmeril
onde o atrito proclama sóis-contraste
(na escuridão da veste).

2. E o homem:
a forja
o ferro
a linhagem
tatuando-lhe olhos e unhas
Hálitos de suor e sono
dão a têmpera do ofício-pão
do homem:

os sóis de ferro
a vida em ferro
da brasa ao berro.

3. (Um satélite lá fora come o espaço:
“A terra é azul e o infinito é negro”,
diz Gagarin.
A televisão explode lua em luas)

(Zila Mamede In Exercício da palavra)





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Paulo de Tarso Correia de Melo é professor do Departamento de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (URFN). Texto do autor publicado em MAMEDE, Zila. Navegos; A herança. Natal, 2003, p. 27-32

minhas falas

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ontem foi dia do professor. Nos jornais Tribuna do Norte e Correio da Tarde estava publicado um texto meu sobre essa data. Posto hoje aqui o referido texto.



ilustração. portal cronópios.


Profissão: Professor, Função: Escritores da Liberdade*

Por Pedro Fernandes de O. Neto

Aluno do curso de Letras (UERN)


Depois de muito tempo longe de conhecer gente interessante, estive num congresso em Campina Grande sobre literatura infantil, em maio desse ano. Agora eu estava escrevendo — acabei de escrever —, uma fala minha sobre o dia 15 de outubro e a primeira coisa que cai em minhas mãos é um filme chamado "Escritores da liberdade" que eu conheci através de uma pessoa muito interessante no dito congresso paraibano.


Fiquei feliz por dois motivos, primeiro porque gosto muito de cinema, mas gosto de adorar mesmo, e, apesar de não ser do tipo que coleciona, me ligo à história e tal e por elas vou gostando de um monte outros de filmes e de um monte de lugares que espero conquistar a metade deles, ainda que no plano do imaginário.


Admiro iniciativas dos audaciosos que vez por outra nos proporciona um cineclube (e cito o da Biblioteca Ney Pontes em Mossoró e outros que aqui-acolá tenho a honra de participar) para a gente assistir uns filmes que não passam no cinema ou na TV, clássicos cinematográficos tão importantes quanto os clássicos da literatura.


Agora o segundo motivo está para além do todo mundo que já tinha assistido estava me recomendando, porque achava que de alguma forma eu iria me identificar com a história. Confesso que todos acertaram. Mas não é apenas isso é porque a história real que se passa na cidade de Los Angeles, no turbulento início dos anos 90 me aproximou e muito do universo dos alunos de quem já fui professor.


Este filme que é um filme legal mesmo porque se dobra sobre o ponto de vista da literatura sobre os jovens, e vice-versa, e ainda recobra o ponto de vista do preconceito que se faz ainda tão presente entre nós.


Ele me fez lembrar um monte de mestres que estão aí na periferia tentando educar a molecada que o Estado não faz questão de que não seja educada. As escolas são analfabetas e a culpa não é do professor; eu enquanto professor sou testemunha ocular desse crime.


Está diante de um computador como agora estou e a falar de professores, alunos e escolas é muito fácil, mas desloque-se desse conforto e vai ver isso todo dia... Iremos nos deparar com marmanjos dando na cara de professor. Quanta deselegância! E pensar que no meu tempo de escola nutria um respeito tão grande pela figura do professor...


O Professor é tipo meu herói! Aí, você pode falar: "é, mas tem uns...", mas, venhamos e convenhamos, tem "uns" em qualquer lugar, em qualquer tipo de profissão. Aliás, transmitir conhecimento não devia ser profissão, devia ser encantamento, e esses feiticeiros deveriam ter todo o ouro que precisassem, quando o diamante acabasse.


Não abro mão, professor devia ter capa e cinto de utilidade. Eu acho que Professor voa, tem super-poderes e visão de raios-X. Eu quando estou em perigo chamo um Professor, não quero nem saber se ele é da rua ou se é da escola, consulto sempre um mestre.


Bom, tirando meus efeitos especiais, acho que podemos dizer que eles são, antes de tudo, professores, mas mais que tudo, libertadores. Ao mestre com carinho e toda aula devia ser cinema, porque o professor é luz, é câmera, é ação. Pena é estarmos num país em que isso ainda pertence ao corpo do sonho.




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* este foi título que o artigo foi apresentado no Correio da Tarde; na Tribuna, saiu Escritores da Liberdade.


Para ver a publicação no Jornal Tribuna do Norte CLICA AQUI.

apenas meus poemas

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ilustração de Lynd Ward (1939): Death Of Beowulf.



Instante (poema. revolução)


calarei a todos com tiros de fuzil
para que me ouçam
no interior de minha fala poética
que se desdobra na trama frenética
as palavras no papel.

passarei por cima dos primeiros
com a ajuda de minha insane infâmia
no interior de meus gritos amarrados
à tinta na cadeia papel branco.

na história não há espaços para o sutil
para a felicidade como dizia hegel.
no meu poema há brechas para tanto
mas vigora mesmo um grito melancólico
no bucolismo nefasto e vadio
das palavras negras presas no papel.

do poder absoluto resta eu
desmanchado em palavras [balas]
atiradas com fuzil [minha caneta]
ou gritos preso(a)s [as palavras]
num poema de papel.




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poema publicado no site Garganta da Serpente e Overmundo.



Intervalo

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Foi há dez anos...

No dia 08 de outubro de 1998 o mundo assistia pela primeira vez o anúncio de um Prêmio Nobel de Literatura a um escritor de língua portuguesa. José Saramago, de nome, português, de nacionalidade. Vale a pena relembrar um momento tão significativo às Letras de língua portuguesa.


O Secretário permanente

Comunicado à imprensa
8 de Outubro de 1998

Prémio Nobel da Literatura 1998 José Saramago

“que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”

O português José Saramago faz 76 anos de idade em Novembro. É um prosador oriundo da classe trabalhadora que só atingiu a celebridade quando cumpriu os 60 anos. Desde então alcançou a notoriedade e tem visto a sua obra ser frequentemente traduzida. Vive presentemente nas ilhas Canárias.

“Manual de Pintura e Caligrafia: um romance”, que saiu em 1977, ajuda-nos a entender o que viria a acontecer mais tarde. No fundo, trata-se do nascimento de um artista, tanto o do pintor como o do escritor. O livro pode, em grande parte, ser lido como uma autobiografia mas, na sua intensidade, encerra também o tema do amor, assuntos de natureza ética, impressões de viagens e reflexões sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. A libertação alcançada com a queda do regime salazarista transforma-se numa imagem final portadora de abertura.

“Memorial do Convento”, de 1982, é o romance que o vai tornar célebre. É um texto multifacetado e plurissignificativo que tem, ao mesmo tempo, uma perspectiva histórica, social e individual. A inteligência e a riqueza de imaginação aqui expressadas caracterizam, de uma maneira geral, a obra saramaguiana. A ópera “Blimunda”, do compositor italiano Corghi, baseia-se neste romance.

“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, publicado em 1984, é um dos pontos altos da sua produção literária. A acção passa-se formalmente em Lisboa no ano de 1936, em plena ditadura, mas possui um ambiente de irrealidade superiormente evocado. Este ambiente de irrealidade é acentuado pelas repetidas visitas do falecido poeta Fernando Pessoa a casa da personagem principal (que é extraída da produção pessoana) e das suas conversas sobre os condicionalismos da existência humana. Juntos deixam o Mundo após o seu último encontro.

Em “A Jangada de Pedra”, publicada em 1986, o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direcção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.

Existem todas as razões para também mencionar “História do Cerco de Lisboa”, de 1989, um romance sobre um romance. A história nasce da obstinação de um revisor ao acrescentar um não, um estratagema que dá ao acontecimento histórico um percurso diferente e, ao mesmo tempo, oferece ao autor um campo livre à sua grande imaginação e alegria narrativa, sem o impedir de ir ao fundo das questões.

“O Evangelho segundo Jesus Cristo”, de 1991, romance sobre a vida de Jesus encerra, na sua franqueza, reflexões merecedoras de atenção sobre grandes questões. Deus e o Diabo negoceiam sobre o Mal. Jesus contesta o seu papel e desafia Deus.

Um dos romances destes últimos anos aumenta consideravelmente a estatura literária de Saramago. É publicado em 1995 e tem como título “Ensaio sobre a Cegueira”. O autor omnisciente leva-nos numa horrenda viagem através da interface que é formada pelas percepções do ser humano e pelas camadas espirituais da civilização. A riqueza efabulatória, excentricidades e agudeza de espírito encontram a sua expressão máxima, de uma forma absurda, nesta obra cativante. “Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.”

O último dos seus romances, “Todos os Nomes”, sairá este Outono, em tradução sueca.Trata-se de uma história sobre um pequeno funcionário público da Conservatória dos Registos Centrais de dimensões quase metafísicas. Ele fica obcecado por um dos nomes e segue a sua pista até ao seu trágico final.

A arte romanesca multifacetada e obstinadamente criada por Saramago, confere-lhe um alto estatuto. Em toda a sua independência Saramago invoca a tradição que, de algum modo, no contexto actual, pode ser classificada de radical. A sua obra literária apresenta-se como uma série de projectos onde um, mais ou menos, desaprova o outro mas onde todos representam novas tentativas de se aproximarem da realidade fugidia.

The Swedish Academy




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fonte: blogue Fundação José Saramago

Para conferir discurso de de recebimento do prêmio CLICA AQUI.


Itinerários da poesia de Zila Mamede

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

fonte: FotoSearch Banco de Imagens

Arado


Arado cultivadeira

rompe veios, morde chão

Ai uns olhos afiados

rasgando meu coração.


Arado dentes enxadas

lavancando capoeiras

Mil prometimentos,juras

faladas, reverdadeiras?


Arado ara picoteira

sega relha amanhamento

me desata desse amor

ternura torturamento.


(Zila Mamede In O Arado)



Zila Mamede sentiu a voz irresistível da Terra, chão de trabalho anônimo onde vivem os marujos sem mar dos campos semeados, e encheu-se de versos votivos em louvor do esforço antepassado.

[...]

A moça da cidade, do rio e do mar, foi seduzida pelo silencio das searas, a labuta do amanhecer, os bois adormecidos, o cavalo branco abandonado, as visões avoengas da casa-grande, plantada no meio do mundo vegetal e resistindo na perpetuação dos invernos e das esperanças.

Todos os poemas nasceram do chão sagrado, com chuva do céu e suor dos rostos vigilantes, surgidos na inspiração provocadora de uma inegável vivência emocional.


(Notas de Câmara Cascudo à edição de O Arado, de Zila Mamede)


Zila Mamede – itinerário e exercício da poesia (parte III): O arado – chegada à infância, à terra-mãe e à plenitude poética



por Paulo de Tarso Correia de Melo*


“Meu avô, minha avó, os milharais

não tendo mais infância, tenho-a mais”



Em resenha crítica sobre O Arado, publicado no Rio de Janeiro, pela Livraria São José, 1959, começa Osman Lins:


“É estranho como traz a criatura humana, bem dissimulado sob os mil acontecimentos da sua vida, exatamente o que possui de mais valioso e mais forte. O motivo maior dos seus poemas. Sua mais densa maneira de amar. ‘Ainda não mereces – é o que parece dizer tal dissimulação. Estás ainda verde, ainda ácido’ e vivemos então sem o sabermos – pois como viver se o soubéssemos? – de esperas e substituições.


A doçura do fruto, em que incerto lugar aguarda que ele amadureça, para fazer parte de seu sumo? Em que recanto do homem permanece, através de sua infância, adolescência, primeira juventude, uma doçura cujo misterioso acordo com as estações jamais penetramos – e que embora muitas vezes se anuncie, só na hora propícia se revela” (Op. Cit., p. 1)


Ninguém disse mais e melhor que o romancista pernambucano, a respeito do que ele considera “sem nenhuma dúvida o melhor, o mais vivo, e o mais belo dos livros de Zila Mamede, com poemas nos quais a terra se impõe com um vigor, um esplendor, uma verdade, que raramente encontramos na poesia brasileira, sobretudo em poesia de mulher” (idem, idem).


A respeito da última ressalva concordou Brito Broca, em sua coluna literária no Correio da Manhã: “Preferimos chamá-la poeta, porque nada distinguimos de caracteristicamente feminino na sua poesia” (BRITO BROCA [?] O Arado. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 6 de fevereiro 1960. Livros da semana).


Como explicar O Arado nas suas qualidades de testemunho de um amadurecimento poético inteiramente original, principalmente no que se refere à renovação sintática e a uma total integração de expressões e situações dos sertão nordestino, a um timbre pastoral, característico das vozes universais mais altas?


Desde a publicação de Rosa de Pedra, Manuel Bandeira assim se expressara para Zila Mamede: [...] “a Rosa de Pedra merece ficar nas estantes ao lado dos melhores livros de versos brasileiros: você é poeta até debaixo da água do Capiberibe. Mas olhe, deixe de bobagem e trate de estudar latim. Não se importe muito com a gramática, rosa, rosae, amo, amas, amat, etc. Compre os livros de tradução justalinear que chamam “burro” e leia os poetas latinos. Comece com Catulo, que uma delícia” [...] (Op. Cit., p. 1459, Carta 109).


O fato, além de ratificar a percepção e preocupação de Bandeira quanto às possibilidades da linguagem poética de Zila Mamede, talvez explique a “limpidez virgiliana” percebida por Osman Lins, nos “perfis de avós, paisagens, instrumentos de cultivo, cabras, bois dormindo, seiva e sangue, velha terra de infância” que surgem em O Arado (Op. Cit., p. 2)


Um dos poemas do livro, o primeiro soneto da dupla “Bois Dormindo”, é um instante de iluminação. O poema tem uma aparência de simplicidade vocabular e facilidade vocal, decorrentes de uma também aparente ausência de vigamentos de fatura; um tom que parece deslizar contínuo, sereno e pacífico, de uma maneira como só os mestres conseguem. Na verdade, muito se deve ter custado a absoluta integração entre a linguagem nordestina e a mais perfeita linguagem bucólica:


A paz dos bois dormindo era tamanha

(mas grave era a tristeza do seu sono)

e tanto era o silêncio da campina

que se ouviam nascer as açucenas.

No sono os bois seguiam tangerinos

que abandonando relhos e chicotes

tangiam-nos serenos com as cantigas

aboiadeiras e um bastão de lírios.

Os bois assim dormindo caminhavam

destino não de bois mas de meninos

libertos que vadiassem chão de feno;

e ausentes de limites e porteiras

arquitetassem sonhos (sem currais)

nessa paz outonal de bois dormindo.


Considere-se, no poema, a inclusão de palavras do falar sertanejo como relho, chicote, aboiadeiras, porteiras, além da belíssima palavra tangerinos, que no poema se integram perfeitamente a campina, cantiga, lírios, feno e outonal, que visam a criação do clima bucólico. E note-se que o poema não se sustenta em rimas, mas em uma única música interior aos versos brancos, digna da poesia clássica latina.


Em O Arado, Zila Mamede, poeta madura, consegue ao mesmo tempo expressar a infância, “este mistério humano: o das verdades que se escondem em nós até que nos tornemos dignos de sua grandeza” (LINS, Osman, Op. Cit., p. 2)



ANEXOS


O alto (o avô)


Dum anteavô tivera na colina

os alicerces, que de avô ganhara

açude, pastos, farinhada, chão.

Guardara na cacimba os aguaceiros

E de seu sono sacudira ovelhas,

Meninos, maravalhas, plantação.

Multiplicara à mesa concha e mel:

moinhos que teceram do amarelo

de tanta espiga, madrugada e pão.

Em campo arado repartira mudas

que mãos infantes modelaram sob

plantio manso e vesperal de grão.

De terra e de meninos comporia

(na velha bolandeira da tapera)

essa marca de suor numa canção.


(Zila Mamede In O Arado)



O alto (a avó)


A adolescer ainda novo teto

ganhara, conduzindo nos cabelos

abandonados, um tranqüilo sol.

Acrescentara ao dote a flauta azul

(com que saudara tardes e rebanhos)

e seu chinelo feito de flor de lã.

De fibras de algodão, por entre dedos,

no fuso aconchegara brancos fios

de que tecera rendas infantis

e varandal de redes. Camarinhas

cercaram-lhe mistérios maternais:

espera, medo, alumbramento, amor.

Mas seu cantar desfez-se no caminho

Sem chegar mais que aos nasciturnos filhos

- estrela, uma de agosto a viu morrer.

Herdei a deslembrança de seus olhos

e dessa flauta que tocara à noite

vertendo paz e sono a meu avô.

(Zila Mamede In O Arado)


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Paulo de Tarso Correia de Melo é professor do Departamento de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Texto do autor publicado em MAMEDE, Zila. Navegos; A herança. Natal, 2003, p. 24 – 27

minhas falas

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

MACHADO DE ASSIS, A SEGUNDA VIDA




Por Pedro Fernandes de Oliveira Neto


Há cem anos, feitos exatos às 3h20min da madrugada deste dia 29 de setembro – não tão exatos porque não vivemos num tempo absoluto – o Rio de Janeiro e o País perdia seu filho mais ilustre, Joaquim Maria Machado de Assis, mais conhecido como Machado de Assis. Desde quando sua esposa morreu, quatro anos antes, que o escritor já não era mais o mesmo, ainda que freqüentasse diariamente a Academia Brasileira de Letras, que ajudara a fundar em 1896, e da qual fora eleito presidente primeiro e perpétuo, ainda que aparentasse o prazer de viver ao lado dos amigos, Machado já se esvaía por dentro. Vista fraca, infecção intestinal, uma úlcera na língua. Tudo culminaria com sua morte.

“Estou à beira do eterno aposento” – disse Machado pouco antes de morrer. No enterro, o cortejo fúnebre que acompanhou o corpo do escritor se compunha de figuras ilustres e do povo; atestava a fama que Machado havia alcançado. Anos mais tarde seus restos mortais eram levados para serem sepultados ao lado de sua esposa Carolina – “Querida, ao pé do leito derradeiro/Em que descansas dessa longa vida,/Aqui venho e virei, pobre querida,/Trazer-te o coração de companheiro.” (“À Carolina”)

Mas essa fama que o escritor brasileiro levava sob um Rio enlutado, dum Rio que tanto proseou nos seus romances, contos e crônicas, não foi conseguida a base de lances de sorte, sucesso imediato ou consagração instantânea. Machado, um mulato, foi uma criança pobre, neto de escravos alforriados – o Brasil só libertaria seus escravos em 1888, com a lei Áurea –, nascido no morro carioca e desde cedo já confessava sentir “umas coisas estranhas” – talvez as raízes da epilepsia e ainda, como atestam algumas biografias suas, também padecia duma gagueira. Logo, é ele marco também quando nos referirmos à sua trajetória de vida, tendo em vista que numa sociedade marcada por divisões sociais muito rígidas como a nossa – e como já era o Brasil por essa época – o sujeito já nasce com seu destino traçado, determinado pela raça, pela origem. E, no caso de Machado, marcado ainda pela possibilidade de freqüentar ou não o ambiente escolar.

Começa na literatura pelos jornais. Em 1855, o Jornal Marmota Fluminense publicava os versos de “A palmeira” – “Tenho a fronte amortecida/Do pesar acabrunhada!/Sigo os rigores da sorte,/Nesta vida amargurada”. Este jornal era na época editado numa livraria que era o ponto de escritores da época, como Paula Brito, dono da livraria e do jornal, e Manuel Antônio de Almeida, já romancista conhecido. Desse convívio, Machado acaba por tornar-se membro da redação, sendo a porta de entrada para outras publicações e para outros jornais. Antes o adolescente Machado apenas vivia encantado com as elegâncias da Rua do Ouvidor, onde certamente trabalhava como caixeiro e tipógrafo, antes de tornar-se cronista e passasse esses encantos e percepções através das crônicas, num estilo irônico, que logo mais tarde o consagraria enquanto romancista.

Da fase dos romances, Machado, produziu, inquestionavelmente, uma obra prima. Marco na literatura brasileira. “Memórias póstumas de Brás Cubas”, 1881, é a obra do auge da carreira literária do escritor; “Dom Casmurro”, dezoito anos depois, eternizaria um debate acerca do adultério – teria Capitu, traído Bentinho? E o que dizer dos seus indecifráveis olhos de ressaca? Além do debate em torno dos regimes políticos, religiosos e sociais, dos bons e maus costumes – estes últimos, principalmente – da sociedade carioca e brasileira, acerca das fraquezas, tiques maníacos, loucuras e razões humanas. Tudo em ritmo de uma escrita que tão importante quanto ela, o país só viria a ter bem mais tarde, com um Graciliano Ramos ou com um Guimarães Rosa. A tudo isso se soma o espírito cavernosamente crítico e pessimista em relação à face negativa do comportamento humano, do homem em si e da vida, esquecendo do que a hipocrisia social chama pelos sentimentos de bondade e de grandeza.

E tudo isso daria ainda muito que falar quando depois de sua morte. Na verdade a vida do escritor começa postumamente, porque aos olhos da crítica, seja ela especializada ou não na obra do escritor, muito do que já se tem dito acerca desse gênio foi postumamente. E, certamente, muito ainda se tem por dizer, haja vista ser, o objeto literário, fonte inesgotável de questionamentos e percepções. Tanto que, mesmo passado cem anos de sua morte e, mais de um século de seus escritos, estes ainda aparecem como tão vivos que, parece está o escritor a vivenciar essa sociedade. Isso se justifica em parte pelo olho perspicaz do escritor, em parte porque parece que nunca a humanidade evoluiu, antes tem aperfeiçoado sua hipocrisia.

Não há um último capítulo que se possa redigir acerca de Machado, antes uma vida que, em cem anos de estado póstumo, sempre se recicla e se ressuscita; ou talvez nunca se torne desgastada para ser reciclada, muito menos morta para que se ressuscite.




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Este artigo foi publicado no dia 29 de setembro de 2008 no Jornal Correio da Tarde, p. 2.

Os escritores

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Jorge de Lima




foto do autor. fonte: internete livre.



o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.

Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.

O sono está.
E um homem dorme.

(Jorge de Lima In Invenção de Orfeu, canto III, fragmento)


Caída a noite

A recepção da obra de Jorge de Lima é tão múltipla quanto a sua produção. Enquanto para os admiradores confessos se trata de um dos melhores poetas da literatura brasileira, para os não-iniciados o autor de Invenção de Orfeu ainda é um mistério a decifrar.

Quando o assunto é revirar a cumbuca onde fervem os textos de Jorge de Lima, descobre uma colossal possibilidade de leituras, já que na literatura do autor convivem o antigo e o moderno, o regional e o universal, a tradição e o novo, o banal e o sublime. A obra é também o reflexo de um artista em constante mutação, que experimentou estilos diversos, como o parnasianismo, o regional, o barroco, o religioso, e, por fim, a consagração épico-biográfica de Invenção de Orfeu, de 1952, lançada um ano antes de sua morte.

Jorge de Lima parecia ter oito braços. Além de poeta, romancista, biografo, ensaísta, foi médico, político e artista plástico. Quando se mudou de Alagoas para o Rio, em 1930, montou um consultório na Cinelândia para onde acorriam intelectuais e escritores da época, transformando o local numa arena de debates literários. Reunia-se lá gente como Murilo Mendes, Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

Se tivesse sido apenas poeta, teria deixado uma produção e tanto a ser apreciada e desvendada em diversos tempos. Há quem diga que se tivesse escrito uma única obra – a suprema Invenção de Orfeu – teria deixado trabalho suficiente para leitores e críticos se imbricarem num monumental quebra-cabeça.

“O molde da sua poesia é a perquirição da própria arte, a interrogação sobre o mistério de querer alcançar uma espécie de reino – o poético. Como um alquimista da modernidade, o autor busca elementos-palavras que se fundem, metamorfoseiam-se e se fazem num tempo contínuo, nascido da fusão da própria espaciotemporalidade.

[...] Começar a ler a obra de Jorge de Lima é entrar num jogo de espelhos. Espelhos de variados tamanhos, côncavos, convexos, dispostos de tal maneira que nos envolvem, mas sempre exibindo autonomia na composição dos modelos que se estruturam. Algo que nos leva a já não sabermos em que espelho nós somos, uma vez que as fragmentações e as distorções dos modelos projetados pressupõem a necessidade de vermos em todos e não nos aceitarmos em nenhum.”

(Sílvia Regina Pinto, professora de Teoria Literária da UERJ)

Invenção de Orfeu é, de fato, uma obra que merece atenção à parte. Ambicioso trabalho de “colagens”, no qual o autor parafraseia trechos de clássicos como A divina comédia, de Dante Alighieri, Paraíso perdido, de John Milton, Eneida, de Virgilio, e Os lusíadas, de Camões, poema em que é um enorme desafio para qualquer leitor.

“Nesse texto imenso, extremamente complexo e erudito, gerado como fotomontagem, isto é, pelo recorte e cruzamento de idéias, palavras, imagens, alegorias, sensações e toda sorte de manipulações com a palavra, com o espaço, com o tempo, como achar um fio de Ariadne que garanta não só a entrada no labirinto, mas também a saída minimamente honrosa? Invenção de Orfeu é esse desafio"
(Sílvia Regina Pinto, professora de Teoria Literária da UERJ)

“O verso de Jorge de Lima reúne uma espantosa galáxia de virtudes poéticas, como o ritmo, a inteligência métrica, a sensualidade cromática, a plasticidade visual da fanopéia, a magia verbal, a musicalidade, o assombro de imagens e metáforas de um permanente diálogo entre a tradição e a modernidade, o que faz dele um dos mais insólitos herdeiros do nosso Barroco, esse Barroco que reside nas entranhas da sensibilidade e da alma brasileiras.”
(Ivan Junqueira, poeta)

Apesar de tentar candidatura seis vezes à cadeira na Academia Brasileira de Letras, Jorge de Lima não conseguiu. O que para o poeta Ivan Junqueira foi um dos maiores erros cometidos pela Academia. Para ele a poesia de Jorge não pode ser considerada marginal, tampouco menor, haja vista que seu maior poema, o Invenção de Orfeu, foi excepcionalmente bem recebido pela crítica e pelo público e, até hoje, transcorridos mais de cinquenta anos de sua publicação, não há poeta brasileiro que dele não se lembre.

Quanto a não ter alcançado a mesma fama que desfrutam Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, isso explica em parte porque a obra de Lima, muitas vezes hermética e comprometida com o catolicismo, foi menos aberta do que a daqueles poetas.



De fato, a filiação religiosa do autor, expressa em Tempo e eternidade (1935), A túnica inconsútil (1938) e Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943), pode ter dificultado seu acesso à celebridade, já que uma boa parte da crítica costuma torcer o nariz quando Deus entra na literatura.

Há necessidade de tua vinda, Mira-Celi:
Milhares de ventres virginais te esperam
através de séculos e séculos de insônia!
Basta de te entremostrares:
Nós já te pressentimos demais
em certos momentos de mistério
ou sob algumas aparências obscuras.
Há lábios entreabertos esperando:
São os meus irmãos,
a quem anunciei que tu virias.
Há palavras de fogo, semi-apagadas;
há janelas desertas, já fechadas;
há ausências inexplicáveis, gestos mortos;
há lagos estagnados sob grifos de luto.
Quando vieres, as árvores ôcas darão flores,
e teu esplendor acenderá pela noite dormente
os olhos entreabertos dos semblantes amados.

(Jorge de Lima In Anunciação e encontro de Mira-Celi, fragmento 3)

Há quem discorde, porém, da hipótese de a questão religiosa ter atrapalhado sua visibilidade, acreditando que a consagração do escritor modernista se faz no espaço do Cult.

“Como poeta religioso Jorge de Lima nunca produziu nada com a qualidade de um Murilo Mendes em Poesia liberdade. O lugar canônico de Lima vem dos sonetos, da sua primeira poesia modernista e, sobretudo, de Invenção de Orfeu."
(Moriconi, poeta e professor de Literatura Brasileira da UERJ)

A multiplicidade de Jorge de Lima está ainda na questão temporal. O autor pertence a todas as épocas na medida em que, mesmo se reportando a um tema ou a um situação específica do século passado, consegue alcançar a perenidade ao tocar em injustiças sociais que mudaram pouco desde o início da civilização.

“Jorge de Lima escreve sobre as grandes dúvidas de todos nós, da miséria humana, da tentativa e superação de nossas amarras e de nossas limitações. Ele é o maior poeta brasileiro de todos os tempos.”
(Claufe Rodrigues, jornalista e poeta)

Éramos seis em torno de uma esfera
armilar. Um candeeiro antigo diante
de seus olhos. E de súbito se gera
o vácuo na memória bruxuleante.

Procuro relembrar-me: seu nome era...
não sei se Abigail se Violante.
Sei que nos seres houve longe espera:
que ela não fosse estrela distante

Passa-se o século, ignoro outros aspectos
do minuto que passa e do milênio.
Indo a uma feira vi num palco um gênio

Com uma esfera armilar cheia de insetos
cedê-la a cinco crianças em disfarce
e houve uma delas que se pôs a alar-se.







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Fontes: CLÁUDIA, Nina. Jorge de Lima não é para poucos. In: Revista Entrelivros, ano 3, n. 32, p. 60-63; Jornal de Poesia; LIMA, Jorge de. Obra poética. Edição completa, em um volume, org. Otto Maria Carpeaux. Rio de Janeiro: Getulio Costa, 1950. p. 467-72.

Para saber mais sobre Jorge de Lima: Leitura de Invenção de Orfeu, organizado pela professora Sílvia Regina Pinto, publicado pela Editora Brasília; site Jornal de Poesia.

Há uma coletânea da obra de Jorge sendo relançada: Pela Record – Poemas negros, Invenção de Orfeu, Anunciação e encontro de Mira-Celi, Poemas; Pela Civilização Brasileira – A mulher obscura, Guerra dentro do beco, Calunga, O anjo.

Os Escritores

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Cíntia Moscovich

foto da escritora gaúcha. fonte: internet livre


A série Os Escritores apresenta hoje a escritora gaúcha Cíntia Moscovich, que teve lançado seu novo livro, Por que sou gorda mamãe? em 2006.

"Poderia ter seus sessenta, no máximo sessenta e cinco anos. Beleza, não; ao menos não se diz de um homem daquela idade que é bonito.

Demonstrava, no entanto, a altivez de quem ocupa uma posição. Não era alto, mas o corpo tinha contornos de firmeza. Os óculos de hastes finas eram um halo a emoldurar os olhos cinzentos; os cabelos, raros; a testa alteada como a de um fidalgo. O vinco entre as sobrancelhas tornava-se um exaspero sobre o peso do rosto. "


(O tempo e a memória In Arquitetura do Arco-íris, fragmento)




Assim começa um dos contos dessa escritora gaúcha que escreve uma literatura dos que são deixados as margens sociais - podemos assim dizer. Os homossexuais, os gordos etc são sempre os sujeitos da vez em seus romances e contos.


Em sua obra Por que sou gorda, mamãe? publicado em 2006 pela Record, Cíntia coloca-se como narradora em primeira pessoa criando um jogo de fundir-se da ficção com a realidade. O romance é na verdade uma carta à mãe, onde a narradora/protagonista - que não menciona seu nome - anuncia o início de um severo regime e o começo da escrita de suas memórias como forma de investigar as causas da obesidade. Menina judia de classe média, não deixa de mencionar a difícil chegada de seus antepassados ao país, as histórias das avós - a Gorda e a Magra - e o carinho que guarda por elas, as saudades do pai, já morto, a adolescência tresloucada mas, sobretudo, sempre, em cada página, em cada linha, o que relembra é a dificuldade de relacionamento com a mãe. É um livro de silêncios que se desloca em falas pelo tom confessional que está associado ao gênero carta.

“Entenda, a senhora: não tenho jeito ou paciência de fazer de meu amor substância, exceto por algo de meu tempo ao telefone. Fora isso, mamãe, fora do contato por um fio, a porta da rua vira mais do que serventia da sua casa, e o amor de uma filha por sua mãe é só pretexto para a ficção. Por isso, acho, virei escritora. Talvez por isso eu tenha virado uma escritora com corpo de prima-dona: a boca preenchida tem contato direto com o coração.”

“Vovó fora acusada de desamor anos a fio, eu já havia escutado aquela história antes. Mas parecia naquele momento algo mais severo e grave. A vó continuou com o rosto escorado pela mão olhando os bicos dos sapatos, como se tudo dependesse dos bicos dos sapatos – e eu me meti numa conversa de adultos, numa conversa que não era minha, me interpus entre vocês duas, e pedi que a senhora, mamãe, parasse com aquilo, a senhora estava maltratando a avó. (...) E foi só então que a senhora viu que eu estava na sala, e levantou a mão para mim, como quem vai desferir um tapa, e eu cobri o rosto com o braço, e o tapa não veio, felizmente não veio, e a senhora levantou o queixo, orgulhosa como quem diz a verdade de uma vida, e passou os dedos entre os cabelos, ajeitando o penteado desfeito à altura da nuca, e saiu dali com passos pesados de neurose, rejeição e trauma.”

(Por que sou gorda, mamãe? fragmentos)


A temática do relacionamento afetivo já estava presente na primeira narrativa longa de Cíntia, Duas Iguais, lançada em 1998, onde duas meninas lutam por um amor impossível. Dentre as inúmeras antologias da quais a escritora participou, também ela publicou, O reino das cebolas, seu primeiro livro solo, em 1996. Esta obra mereceu indicação ao Prêmio Jabuti pela Câmara Brasileira do Livro.
Em outubro de 2000, lançou o livro de contos Anotações durante o incêndio, com apresentação de Moacyr Scliar e reúne onze textos de temáticas diversas, com destaque ao judaísmo e à condição feminina, merecendo o Prêmio Açorianos de Literatura.


foto da escritora em 20 de jun de 1963. fonte: www.cintiamoscovich.com



Nascida em 15 de março de 1958 na cidade de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, Cíntia Moscovich é escritora, jornalista e mestre em Teoria Literária, tendo exercido atividades de professora, tradutora, consultora literária, revisora e assessora de imprensa.


Ainda quanto sua obra Cíntia publicou em 2004, a coletânea de contos Arquitetura do arco-íris, livro que lhe valeu o terceiro lugar em contos no prêmio Jabuti, além da indicação para o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira e para a primeira edição do Prêmio Bravo! Prime de Cultura.



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fontes: site da escritora, wikipédia e releituras.

Conheça mais a escritora em http://www.cintiamoscovich.com/ (site da própria escritora); veja entrevista com a escritora ao programa entrelinhas da Tv Cultura em www.tvcultura.com.br/entrelinhas/videos.asp

Itinerários da poesia de Zila Mamede

terça-feira, 7 de outubro de 2008

imagem: Blog Inacabamento

Partida

Quero abraçar, na fuga, o pensamento
da brisa, das areias, dos sargaços;
quero partir levando nos meus braços
a paisagem que bebo no momento.

Quero que os céus me levem; meu intento
é ganhar novas rotas; mas os traços
do vigem mar molhando-me de abraços
serão brancas as tristezas, meu tormento.

Legando-te meus mares e rochedos,
serei tranqüila. Rumarei sem medos
de arrancar dessas praias meu caminho.

Amando-as me verás nas puras vagas.
Eu te verei nos ventos de outras plagas:
Juntos – o mar em nós será caminho.

(Zila Mamede In Salinas)



Zila Mamede – itinerário e exercício da poesia (parte II): Salinas – do mar à terra da mãe
por Paulo de Tarso Correia de Melo*


“Pesada e real, diversa é a praia agora”
(Soneto das Variações – Rosa de Pedra)


Salinas foi editado em 1958, na “Coleção Aspectos”, do Ministério da Educação e Cultura, após receber o prêmio Vânia Souto de Carvalho, Recife, 1958. Embora Zila Mamede o tenha definido como um livro que mereceu maior cuidado que a pura intuição de Rosa de pedra e lhe reconheça maior atenção à técnica poética, à forma e ao bom uso dos temas, além de uma intenção telúrica, Salinas conseguiu tudo isso apenas em partes e se caracteriza, hoje, no conjunto da obra e Zila Mamede, como o livro de transição.

Salinas, apesar disso, apresenta um poeta de visão mais facilmente objetivada. O mar, o rio, a rua, a natureza são agora mais objetivamente vistos, mais palpáveis, embora não raro envolvidos pela forma rara e leve de poemas como “Noturno do Recife” (Prêmio dos Concursos Permanentes de Poesia do Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954) e “Santa Teresa”. No livro também se pode observar o início de um processo de depuração e contenção vocabular. O soneto “Partida”, por exemplo, é uma bem comportada visão e síntese da “Canção do Sonho Oceânico”, do volume anterior.

A intenção telúrica de Salinas é imediatamente perceptível nos dois longos poemas finais (“A cruz da menina” e “As enchentes”), mas é mais forte, embora menos manifesta, em três outros poemas que, além disso, marcam definitivamente Salinas como um livro de transição para o canto agrolírico de O Arado: “Chamado”, “Soneto da Iniciação” e “A (outra) face”.

Nota-se, por outro lado, que o itinerário para a terra-mãe, que começa a ser entrevisto nos três poemas acima, ainda é, vez por outra, desviado pelo mar como nos dois últimos quartetos do poema “Retrato”, onde os dois primeiros quartetos, estes sim, já denunciam a liberdade sintática, a linguagem inusitada e em muitas vezes repentino acento metafísico, responsáveis pela grandeza da poesia de Zila Mamede:

Me lembrava da menina
escavacando o chão agreste,
me lembrava do menino
carregando melancias.

Em que terras desembocam
esses talos de crianças
mas finos que as maravilhas
mais fortes que a ventania?


ANEXOS


imagem: Blog Amizarteveragomes. Urbano-Recife.

Noturno do Recife


Noturno do Recife me vestindo
o pensamento, leve como as acácias
que o vento distribui pelas calçadas
e as leva passeando a água dos rios.

Que paz derrama a lua na roupagem
das pontes, na magreza dos mocambos,
na distância afogante dos subúrbios
insinuando morte e carnaval.

Recife. Luz fugindo, se apagando.
Recife. Céu tão claro, céu tão perto
(a alma noturna bóia-me nos dedos)

Recife pendurado nos meus olhos
eu beijo a tua noite nos meus sonhos
e planto o meu destino nos teus mares.

(Zila Mamede In Salinas)

tela Santa Tereza. Pastel sobre canson. 48x36cm. j.c.victor. fonte: www.jvicttor.com.br/acervo/desenhos.htm

Santa Teresa

a Luíza e Augusto Ribeiro

O tom dos sinos
escorrendo nas ladeiras,
os ventos do Curvelo
e o cheiro morno do Silvestre.

Ponte dos arcos,
quantas brumas
meus sapatos te tocaram,
sós.

Santa Teresa:
as estrelas se mudaram para o chão.

(Zila Mamede In Salinas)



Canção do sonho oceânico

I

Empossei-me dos caminhos
convergentes para o mar.
Três dias nasci areias
depois, conchas esquecidas
na memória dos rochedos
que julgavam ser navios
carregados de luar.

Fui areia, agora búzios
chamando os ventos do mar.
Quando me senti sargaços
pedi às algas tranqüilas
que me emprestassem coroas,
e vestindo lenda e sal
arranjei sete concertos
na paisagem mineral.

Compus meus olhos marinhos
quando a fuga da maré,
carregando os pensamentos
dos corais e dos recifes,
conduziu-me em sete fontes
dormindo peixes e estrelas
no outro sono do mar.

Agora nascida estrela
algas, recife e coral,
não me contentam areias
nem me prende o litoral.
Pedindo o vôo das gaivotas
em rumos desconhecidos,
sonhando estradas marinhas
compondo sete oceanos
para neles navegar.

Sou como o sal das salinas,
Pois fui nascida no mar.

II

Que mundo não conhecidos?
beberei nos sete mares?
Que fantasmas soluçantes
terei de então consolar?
Ó brisas, ó tempestades,
cantai bem alto, cantai
para embalar leves sonhos
cometidos em alto mar.

Deixei meus olhos dormindo
nas mãos de musgos medrosos
enquanto em busca de estrelas
converti-me em brancas ilhas
beijadas por sóis distantes,
pelo ímpeto das ondas
vestindo-me tule e neve,
para a surpresa das bodas
da minha alma irrequieta
com a alma triste do mar.
Onde o meu sonho ancorado?
Onde a bandeira de paz?

Velhos navios perdidos,
sem rotas, a flutuar,
dormindo na madrugada,
fingindo portos ao sol,
ficai perdidos, ficai:
sois o meu presente aos tempos
por deixarem de contar.

Navego nas minhas asas,
de que me investi no mar.

Irei brincar com fantasmas,
os governantes do mar.
Falarei língua das ondas,
cantarei canções marujas,
escreverei meus poemas
nos lábios dos caramujos:
levá-los-ão as chuvas, ventos
aos peixes e caravelas
que brincarão de cirandas
nos recôncavos do mar.

Dormi o sono dos deuses
no ventre dos sete mares.
Despertei o sono dos deuses
no ventre dos sete mares.
Despertei boiando acácias
deixadas por navegantes
que tocaram meus caminhos
em naves feitas de sonhos.

Passai, marujos, passai,
que não voltarei do mar:
oceânica persisto;
sou produto desse mar
que compus nas minhas mãos
da verdura do meu sangue,
das águas dos olhos meus.

Como pois ser continente
se fui nascida no mar?

III

Renasço purificada
desse meu sonho de mar.
As virgens águas libertas
arrastam meus pensamentos
que, se investindo de abismos,
são liberdade também.

Sonho meu acorrentado,
voai ligeiro, voai
no galope azul das ondas,
nos soltos ventos do mar,
deixai de lado coxilhas,
esquecei-vos de planícies
para encurtar os caminhos
convergentes para o mar.

Ó marés de minha infância,
onde acabastes de ser?
Onde o feitiço dos olhos
das sereias de luar?
Onde piratas e medos
meus sonhos a povoarem?

Meus vividos oceanos,
minha infância, meu terror,
deixai liberto meu sonho,
não maculeis seu calor.
Quero esposá-lo tranqüilo
como o canto das estrelas,
quero-o acordes e sonatas
nos meus olhos de coral,
pois meu livre sonho verde
nem por sete continentes
deixaria de ser mar.

O meu noivado marinho
teve alianças de sal.
Mas, que mar satisfazendo
os meus anseios de mar?
Que liberdade habitando
minhas plagas, meus grilhões?

Vinde, amados oceanos,
beijai meus olhos, beijai,
soltai-me de vãos navios,
deixai-me pura, vagar:
eu só quero a liberdade
para nela me afogar.

Não sou livre continente
mas peço liberto mar.

IV

Não plantes os teus caminhos
nas vizinhanças do mar.

Sete veredas marítimas
te darei desde as nascentes,
abrir-te-ei enseadas
e ver-te-ei flutuar.
Navegarás meus caminhos
conduzido em sete fontes,
dormirás brancas estrelas
num outro sono de mar.

Depois, seremos regatas
em costas sempre esquecidas.
Serão teus meus oceanos,
meus rochedos, meus corais.
Os ventos e tempestades
falar-te-ão de acalantos
remando os teus verdes braços
as claras águas do mar.
Por que gerar mais estrelas
nesses caminhos do mar?

Das puras algas tranqüilas
hei de tecer-te um lençol:
hás de sonhar meus navios
desprendidos a chorar;
hás de sentir-me em teu sono
como nascida no mar.
De ti compus meus caminhos,
meus sete sonhos de mar.

(Zila Mamede In Rosa de Pedra)


A cruz da menina
[fragmento]

1. O fogo do céu lavando
paredes de serranias,
que a areia lavrada em sangue
brota dos poros da terra
queimada de tantos sóis
onde célula inocente
se desfez na ventania
implantou-se no grotão.

2. Oito luas contempladas
pelos olhos da menina
pouco depois eram morte
nos seus braços de cipó;
e a terra dos seus andares
e as aves do seu viver
deixou-as fixas no mato
que ela sempre capinou.

A cruz da menina existe
mas seu gemido, não sei.

3. Aquela gruta escondida
lhe causava espantação;
mas a madrasta queria
trinta ovos de guinés
que a menina colheria
(ao toque de ave-marias)
nas bandas lá da serra,
bem nas fundas do sertão.

4. O medo criava rugas
nas plantas dos pés infantes;
das mãos segurando um cesto
escorriam cachoeiras
de suor e assombração:
temia o som do chicote;
e na serra escurecendo,
a descambada do sol.

5. De vez em quando
parava observando o céu quieto
como a esperar que algum anjo
lhe trouxesse companhia
ou rogando ao sol distante
não deixasse anoitecer
- seu rancho já estava longe.
Na serra, negror de breu.

Os cabelos da menina
Viraram capim, no chão.

6. Pensava nas luas idas
quando Mamãe a embalava
de manha e ao pôr-do-sol
e lhe contava as histórias
de bruxas, de pastorinhas.
(Numa rede toda branca,
tão branca como seus dedos,
um dia subiu ao céu)

7. Agora a luz dos seus anos
tão pequeninos se fora.
A nova mulher, na lida,
sugava-lhe os braços tenros
e a criança já madura
lavava roupas no poço
e o sono de sua infância
decorria sem amor.

Uns olhinhos de inocente
às aves do céu jogou.

8. A gruta se aproximava
na ponta dos pés andando
não sabendo que o terror
precedia outro maior,
que a morte se antecipara:
seus cabelos alongados
seriam cabo seguro
para a rude imolação.

A madrasta de tocaia
a morte leva na mão.

9. O grito afundou na serra,
o gemido entrou no chão,
o sangue duma inocente
lavou a gruta e o capim.
Um pescoço delicado
caiu nas brenhas da terra,
rolou na pedra vermelha
de sangue e calor do sol.

A cruz da menina ao longe,
um caminhante a rezar.

(Zila Mamede In Salinas)


As enchentes

1. Cordões de chuvas caindo
escorrendo pela note
me lembram da aparição
das chuvadas no interior
engordando a chuva as nuvens
na cumeeira das serras
as águas se despregando
das platibandas do céu.

2. Menina bandoleira
no patamar da Matriz
- velho patamar de lajes
degraus de pedras de cor
pedra lisa de escrever
dos jogos de dama e de onça
dos ticas, das cabras-cegas
e dos cavalos-de-pau.

3. O escuro lombo da serra
que se chama de Santana
era sinal das enchentes
maduras para chegar.
Na frente vinha a zoada
das terras descaroçando
e na curva o braço d’água
já se fazia mostrar.

4. Torrente estoura rasgando
os beiços magros do rio
esguichando água barrenta
água suja galharia
cavalos em desespero
um papagaio a gritar
que na danação, o rio
arrancava o chão do chão.

5. Nesse caos renovador
enchente grande afogava
areal de muitas secas
de velhas desesperanças.
No mistério das deságuas
a plantação renascia
vazantes se enverdecendo
água doce de beber.

6. Enchentes de trinta e setembro
embocando ponte, açudes
gado roças caieiral.
Com seus olhos seus faróis
caminhões sapos moleques
mergulhavam rio escuro
pintando de girassóis
as águas da noite breu.

7. A trovoada tremendo
terra bruta arrepiada
varando clarão de raios
as campinas de pavor
pois raio dobra coqueiro
silencia lavrador.
Palhas bentas nas janelas
Salve-rainhas de dor.

8. Pudera saltar no rio
pudera as águas tocar
no paul fincar meus olhos
no barro me esculturar
na corda de salvar vidas
pássaro me improvisar
que as grandes faces do rio
eu nunca pude beijar.

9. O rio, tive-o longe
quando a chuva recolhia.
Sentava no patamar
toda noite, que de tarde
é que a chuva vem cair.
Meus lirismos de menina
minhas noites vaga-lumes
nos degraus os imprimi.

(Zila Mamede In Salinas)


Chamado

A terra de minha origem primitiva
me chama.
Circula-me nas veias o cansaço
de suas raízes.
A seus anos me devolvo
e a seus abismos me abandono.
O chamado da terra é um chamado
que não pode ser ouvido:
é um afago da terra
tendo cheiro de campina amanhecida,
que modela o meu sangue
como um soprar de vento
na tarde
dos canaviais.

(Zila Mamede In Salinas)


Soneto da iniciação

Essa pobre memória que te estendo
vem lavada por águas milenárias
que a depuram de lodos e cansaços
para o descobrimento do teu nome.
Meu rosto é uma bandeira, é um lenço em branco,
é oferenda aos mastros do teu sono,
que o amor descido desdobrou meu pranto
em trigo e lenda para que, ao sabê-lo,
teu gesto de ceifeiro me interrogue,
aos grãos imprima seu maduro enlevo,
a lenda volte ao primitivo abrigo;
e desfralde nas brisas da campina
as sementeiras, ordenando às águas
que fecundem meus olhos nos trigais.

(Zila Mamede In Salinas)



A (outra) face

Porque essa é a face (não a mais amada):
desnuda face, voz que te define
e te ama. Meus cabelos são campinas
de girassóis dormidos, são planuras
no poço da tristeza dos teus olhos.
O traço vertical que tu és – a força –
no caminho das longas esperanças.
Do trigo madurando a flor recolho
nesse amor meu tornando-a horizonte;
que eu te buscara antigo na jornada
e na palavra, exato; e te ganhara
(nos montes, nas searas, nas manhãs,
nos ventos, nas colheitas, nas estrelas,
nas hastes que sustentam girassóis)
a recolher o canto das espigas.

(Zila Mamede In Salinas)



_____

* Paulo de Tarso Correia de Melo é professor do Departamento de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (URFN). Texto do autor publicado em MAMEDE, Zila. Navegos; A herança. Natal, 2003, p. 23 e 24

Os Escritores

segunda-feira, 6 de outubro de 2008



A alma lírica, a alma passarinha de Mario Quintana

A obra de Mario Quintana é singular. Talvez a escolha pelo lirismo tenha feito a crítica afastar-se de sua poesia. Isso é hipótese. Mas é certo que Mario é popular e produziu uma obra de reconhecido valor, mas que não teve unanimidade no espaço da crítica literária, como tiveram João Cabral Melo Neto, Mário de Andrade, entre outros.

Do estilo

Fere de leve a frase... E esquece...
Nada
Convém que se repita...
Só a linguagem amorosa
agrada
A mesma coisa cem mil vezes ao dita.

Da preocupação de escrever

Escrever... Mas por quê? Por
vaidade, está visto...
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena... Olhai que graça
terá isto,
Se já sabe tudo o
que se vai dizer!...

(Mario Quintana In Espelho mágico)

É com essa leveza e esse lirismo que Quintana se iguala a tantos outros nomes da poesia brasileira, como o próprio Mário de Andrade e João Cabral.
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

(Mario Quintana, A coisa In Caderno H)






fonte:Agência O Globo



Mario nasceu em 30 de julho de 1906 em Alegrete (RS). Construiu toda sua obra literária sem deixar seu Estado. Trabalhou como atendente na Livraria Globo. Depois com o pai como prático de farmácia. Ainda adolescente foi estudar na capital, Porto Alegre no Colégio Militar, onde residiu em regime de internato. É aqui que Quintana publica seus primeiros textos literários, numa revista da Sociedade Cívica e Literária dos alunos do colégio – Hyloea.

Como todo escritor ou poeta, foi se tornando poeta aos poucos. Primeiro ganhou um concurso de contos promovido pelo Jornal Diário de Notícias, de Porto Alegre, com o trabalho “A sétima personagem. Em seguida teve um de seus poemas publicados na revista carioca Para Todos. Em 1930 passa a trabalhar na redação do jornal O Estado do Rio. E por essa época tem poemas publicados na Revista do Globo e no Correio do Povo. Como leitor de Marcel Proust, Quintana passa a traduzi-lo para o português.

Da vez primeira
que me assistiram
Perdi um jeito de sorrir que
eu tinha...
Depois, de cada vez que me
mataram,
Foram levando qualquer
coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres,
eu sou
O mais desnudo, o que não
tem mais...
Arde um toco de vela,
amarelada...
Como o único vem que me
ficou!
Vinde, corvos, chacais,
ladrões de estrada!
Ah! Desta mão,
avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me
a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do
Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula
E triste como um ai,
A luz do morto não
se apaga nunca!

(Mario Quintana, trecho de A rua dos cataventos)

Este livro, A rua dos cataventos é seu livro de estréia, publicado em 1940. Teve essa obra bastante repercussão e passou a fazer parte das antologias gaúchas e dos livros escolares.

“Quintana é um dos raros poetas muito lidos não só no Sul, onde é unanimidade, mas em diversas regiões do país, como se pôde constatar no ano de seu centenário. O que valoriza sua poesia não é o experimentalismo, mas a comunicabilidade. A experiência jornalística de Quintana no Correio do Povo ensinou-o a calibrar sua arte de modo a atingir não apenas leitores cultos, mas o grande público. Seu valor reside nisto: trocar uma imaginação potente em moeda simples, ao alcance dos não-especialistas. Não significa que ser recebido por várias camadas de público diminua o poder de poeticidade de sua produção. O que caracteriza a poesia de Quintana é a capacidade de produzir o estranho com as palavras de todo dia e, freqüentemente, divertir-se com aqueles que se tornam sérios demais. É um mestre da ironia, assim como nas comparações ou metáforas inesperadas, que estonteiam o leitor."

(Maria Glória Bordoni, professora de Teoria Literária, especialista em Mário Quintana, com quem conviveu)

Das belas frases

Frases felizes... Frases
encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito
bem ornadas...
Como há pacóvios bem
vestidos.

Do cuidado da forma
Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga,
enrija, pule...
Vês depois como brilha,
entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como
um bule!

(Mário Quintana, trechos de Espelho Mágico)






Casa de Cultura Mario Quintana, criada em 1983, no antigo Hotel Majestic em Porto Alegre onde o autor morou



Em mais de três décadas de produção literária, Quintana publicou, entre outras obras, Espelho Mágico: canções em 1946, Sapato florido, em 1948, O aprendiz de feiticeiro, em 1950, Caderno H, em 1973 – uma série de minitextos publicados no Correio do Povo. Antes, publicara Novo Antologia Poética, em 1966, com o qual recebe o Prêmio Fernando Chinaglia para o melhor livro do ano.


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Fonte: Revista Entrelivros, ano 3, n. 32

minhas falas

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Anexo à coluna minhas falas mais um artigo meu publicado no jornal Correio da Tarde. Boa Leitura!


Augusto Cury. O segredo. Sobre a fenomenologia nova na literatura [parte II]

25/09/2008 15h50

Pedro Fernandes de Oliveira Neto
Aluno do curso de Letras (UERN)

Em janeiro de 2007 eu falava aqui nesse espaço acerca de três escritores em moda no cenário literário - Dan Brown, J. K. Rowling e Paulo Coelho. Pois bem, volto ao subtítulo dado ao artigo desta época - "Sobre a fenomenologia nova na literatura". Agora para analisar outra vertente literária que cada dia mais cresce no mercado editorial: a literatura de auto-ajuda, sob o prisma de dois outros fenômenos literários, o brasileiro Augusto Cury e o livro "The Secret" ("O Segredo"). Há, é bem verdade, uma lista doutros nomes cabíveis aqui. Mas fiquemos com os dois, porque são antes de mais nada sucesso de vendas, verdadeiros Best-seller.
O fenômeno advém de uma necessidade desvairada que tomou conta do espírito dos Ocidentais e que tem raízes mais profundas do que possamos imaginar. Estamos numa sociedade que inventou um modelo de vida que, pelo que vemos, não tem em nada dado certo. Afastamos de nós a morte e criamos a salvação e a vida eterna como refúgio. Em contrapartida inventamos o pecado a título de dificultar ainda essa passagem do mundo que vivemos para um suposto mundo celeste. Criamos uma estrutura individualizada de viver que fere as próprias leis naturais, em que o reconhecimento vem somente a partir do sucesso. Criamos a competitividade no intuito de tornar mais acirrada as leis da atomização humana. Nisso, cito Edgar Morin, perdemos a idéia de poder pelo poder, da conquista pela conquista e tudo o que fazemos passou a ser restrito e regido por uma consciência dos limites.
Tudo isso nos fez chegar a um lugar - o tão sonhado topo de tudo. Aqui estamos no que se chama o vazio, uma espécie de nada absoluto; encontramo-nos perdidos, essa é a verdade - sem rumo, sem destino. Encontramo-nos no que podemos chamar de desatino. Cito Morin, na sua obra "Amor - Poesia - Sabedoria": "encontramo-nos numa época de transição e de tomada de consciência pela falta". Essa falta traduz na necessidade pelo Oriente. Uma necessidade resultada, principalmente, da criação desse modo de vida atomizado, que apesar de ter nos dado uma liberdade sem limites, uma autonomia sem limites, trouxe-nos uma angústia, um medo, uma solidão.
O recurso do qual se beneficia essa literatura reside numa necessidade, que é o de servir de acalanto às reclamações das conturbadas relações entre espírito e mente ou de refúgio - semelhante ao refúgio que dá a crença cristã na vida eterna - aos corpos em permanente atrito entre o si e o espaço onde habita ou ainda uma espécie de carinho, abraço ou consolo - os gestos mais rejeitados na sociedade contemporânea; isto é, ela busca subsídios no mundo dos misticismos ou das crenças orientais no intuito de dar respostas ao que achamos não ter respostas para dar.
Logo, a meu ver a literatura de auto-ajuda funciona como um plágio barato dos recursos das culturas milenares ou mesmo degradação delas, uma espécie de ocidentalização do Oriente. São fórmulas vagas que nada de novo nos têm a dizer. Isso porque já temos uma resposta formulada a dar a nós mesmos diante de determinadas situações. Só não havemos de perceber. E lemos os livros de auto-ajuda ao deleite porque a vida corrida que levamos nos impede de enxergar o óbvio. Optaria então pelo substantivo "degradação", que é o que todo plágio faz, porque as fórmulas que esses livros apresentam reduzem-se a basicamente duas coisas que têm regido o mundo Ocidental: a cronometragem e o capital. Recordo muito bem alguns trechos do "The Secret" em que a fama e o sucesso resumidos tudo isso no dinheiro, vem de um tempo determinado: o mais breve possível.
Noutra vertente, a literatura de auto-ajuda apresenta-se como uma espécie de substituta aos preceitos cristãos cujos dogmas das Igrejas tem feito com que a humanidade deles se afaste a cada dia. Finalmente o que poderemos aprender através deles, os livros de auto-ajuda? Nada. Do mesmo modo que a experiência cristã não tem surtido tanto efeito na humanidade, que por esse discurso da crença numa vida eterna como espécie de vitória sobre a morte, por exemplo, só tem levado ela a se frustrar ainda mais por não conseguir uma aquiescência do nada, as fórmulas baratas que os livros de auto-ajuda oferecem só têm a aumentar ainda mais a angústia e o distanciamento em relação a nós mesmos. Noutras palavras o que essa fenomenologia nova nos tem a trazer permanece no vão da impossibilidade que perdermos, se é que um dia tivemos, de enxergar o colapso de nossa civilização, perdurando a idéia de compreensão perante o caos que estamos inseridos, tratando-se dum esforço do interesse pela mentira para si próprio.




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fonte: http://www.correiodatarde.com.br/artigos/3480

O que restou do centenário de Machado

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Machado de Assis é sem dúvidas já personagem marcada na literatura mundial. Seu feito como romancista é algo, indubitávelmente, inquestionável. Muito já se falou de Machado durante esse um século. Muito certamente ainda terá de se falar. A literatura é, como dizia uma professora minha, atemporal. Prova aí o D. Quixote, do Cervantes há quatrocentos anos e sempre em voga. O blogue encerra hoje o especial do Centário Machado de Assis, com a última fala de Carlos Faraco acerca do gênio de Cosme Velho.