Um ano depois

Por Pedro Fernandes






Não adiantemos falsas esperanças, Teria sido, sem dúvidas, uma boa e honesta manchete para o jornal do dia seguinte, mas o director, após consultar com seu redactor-chefe, considerou desaconselhável, também do ponto de vista empresarial, lançar este balde de água gelada sobre o entusiasmo popular, Ponha-lhe o mesmo de sempre, Ano Novo, Vida Nova, disse.

José Saramago, As intermitências da morte


Vai o ano correndo em dias e noites até que deságue para o fim que é o início de outro ano que novamente deverá correr em dias e noites e desaguará noutro ano e mais noutros, sucessivamente. É assim desde que criamos o tempo. Enquanto os anos vão correndo também corremos nós até desaguarmos para a morte, esta que é o fim de tudo. Não há para nós como o ano que tem outro ano para desaguar outra vida que possamos estar nela a desaguar e continuar a viver. É assim o curso natural da vida.

E neste momento em que comemoramos a chegada de mais um ano, permito-me pensar na premissa que representa esse curso supostamente cíclico a que estamos presos. Estes momentos de passagens, principalmente. Reporto-me a uma obra literária do escritor de “Ensaio sobre cegueira” – recém adaptado para o cinema – José Saramago. Escritor a quem admiro não só pela sua proficuidade literária, mas também pela capacidade reflexiva que deita em suas obras para como as questões que regem o homem e o espaço social. Falo de uma obra sua intitulada “As intermitências da morte”, de onde recortei o fragmento que epigrafa este texto, publicada aqui no Brasil em 2005, pela Companhia das Letras. Neste, que é mais um belíssimo texto do escritor português, o que se apresenta é uma pequena nação, como muitas das que por este imenso Globo habitam, com uma população de pouco mais de dez milhões de pessoas, que num dia como este, primeiro de um ano novo, descobre que ninguém morreu. A doença mais terminal deixou de matar. Daí em diante o que se assiste é um verdadeiro desespero não especificamente das pessoas que deixam de morrer, pelo menos em primeiro instante, mas das instituições nacionais – em principal a Igreja, os estabelecimentos filosóficos de auto-ajuda e as casas funerárias. Todos deixariam de lucrar e como a morte é lucrativa! A Igreja, no entanto, seria a mais afetada de todas, por não ter mortes a celebrar iria mesmo ao colapso não apenas por este fato, mas porque sem a morte não haveria mais salvação.

Fico por estas paragens a refletir. Se hoje o fato ficcional se tornasse realidade, a “greve” da morte, assim como no romance de Saramago que se instala um caos, certamente estabeleceria o caos e a desestruração da sociedade em que vivemos. Entretanto, acredito, a maneira irônica como Saramago procura postar neste romance para com o maior desejo da humanidade – a vida eterna – leva-nos a entender uma coisa: há necessidade de haver a morte para que haja a vida. Uma não existiria sem outra. E se existisse não haveria sentido. E associo aqui ao enredo de uma peça do teatrólogo Karel Capek – citada no artigo “O extraordinário e o sutil em Saramago”, de James Wood, publicado no “The New Yorker”. Na referida peça, Elina Makropulos no alto de seus 342 anos de idade deixa de beber o elixir da eterna juventude, coisa que ela fazia desde os seus 42 anos, optando por morrer. Parafraseio Wood, a vida precisa da morte para se ser, a morte é o período negro que define a sintaxe da vida.

Mas o que quero associar a este fato da morte é que sendo ela um mal necessário, assim também é o momento da passagem de ano. Ambos são ritos de passagem. Um para o nada; o segundo para o outro. Isso, entretanto, parece que não temos percebido tanto em meio a todos os festejos de ano novo. Desejamos um novo da boca para fora, porque não buscamos construí-lo naquele momento novo que no instante seguinte já se é velho. Desassociando-se da morte – que se constitui o fim de tudo – isto de cíclico, de passagens, de viragens, que vivenciamos a cada ano deveria se constituir para nós numa espécie de momento de passagem para outros momentos. Assim como o ano que deságua noutro ano, deveríamos desaguar noutro eu-ser a cada passagem de ano, pelo menos num outro eu que não cometesse as mesmas maldades que passamos o ano a cometer. Isso, entretanto, parece que não atentamos nem neste momento, nem no decorrer do ano, porque os ritos dos horrores humanos perpetuam-se ano após ano e assim tem sido desde que o homem olhou para o semelhante e assim definiu-se enquanto homem. Um ano depois éramos para fazer jus ao comum “ano novo, vida nova”.


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