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Mostrando postagens de Fevereiro, 2009

Luis Fernando Verissimo

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Semana dessas, Luis Fernando Verissimo apresentou seu mais novo romance em território espanhol. O livro Borges e os orangotangos eternos, homenagem ao autor argentino Jorge Luis Borges, agora foi traduzido, depois de já está nas prateleiras de outras línguas estrangeiras. Pela ocasião citou o seu novo romance, Os espiões, cuja trama se passa no interior do Rio Grande do Sul; para o escritor é este o primeiro livro que auto-encomendou - até então, diz, só escreveu aquilo que os outros lhe encomendaram.

E quantas encomendas! Já são mais de 50 obras publicadas e criação de personagens famosos no imaginário literário do Brasil como o Analista de Bagé ou a Velhinha de Taubaté. O escritor diz que já realizou todos os sonhos da sua vida, inclusive o mais desejado: ter um neto. Nascido em Porto Alegre, o escritor é filho de outro escritor, Erico Verissimo; e a fama desde o primeiro livro foi tanta que se tornou um daqueles casos em que o filho dá nome ao pai: Erico Verissimo o pai de Luis Fe…

Trecho censurado de Macunaíma

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Manuel Bandeira teceu muitos elogios quando leu Macunaíma, sobretudo pela protuberância de cenas picantes da obra. Mas, com medo da censura, Mário de Andrade fez um recorte do romance em que é narrado cenas, que ao seu ver, poderiam ser acusadas de pornografia. Nele, o romancista descreve transas de Macunaíma e Ci. Os cortes foram da versão original para a segunda edição da obra. Leia o trecho que reproduzo aqui a partir da edição crítica da obra preparada por Telê Porto Ancona Lopez e publicada em 1988 pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina.
*
Um geito engraçado era enrolar a rede bem e no rolo elástico sentados frente a frente brincarem se equilibrando no ar. O medo de cair condimentava o prazer e as mais das vezes quando o equilíbrio faltava os dois despencavam no chão ás gargalhadas desenlaçados pra rir.
Outras feitas Ci balançava sozinha na rede, estendida de atravessado. Macunaíma convexando o corpo entre dois galhos baixos em frente buscava acertar no alvo o ua…

“Eu não viajarei para Auschwitz”*

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Por Pedro Fernandes



Bem, leitor, confesso que minha consciência novamente me obriga a render matéria sobre um assunto que só pensei escrever sobre apenas um artigo. Mas, o caso é forte. É um caso daqueles, como diria uns, de rasgar a goela. Não desce de forma alguma. E calar-se parece consentir. Trata-se da novela Williamson, que discorri aquinoutro dia. Ele mesmo. O dito cujo mesmo que anda pregando aos quatro ventos que o Holocausto não existiu.

Pois bem, esse mesmo volta à telinha de novo e de novo com a mesma história. Nesse vale a pena ver de novo, depois de uns imprensões fuleras de Ratzinger, que só convenceram a meio mundo de fanáticos de que ele está realmente preocupado com o caso, porque se realmente estivesse já teria feito o que João Paulo II fez, ou melhor, se se preocupasse com o caso sequer teria reabilitado o louco, Williamson afirmou, segundo o jornal Folha de São Paulo, à revista alemã “Der Spiegel” que está disposto a rever as evidências históricas, mas que não vai …

O poder da escrita

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Pedro Fernandes



(Estas notas agora publicadas datam de 13 de novembro de 2003. Pelo menos este foi o registro que encontrei quando dei de cara com o texto ao revirar alguns papéis adormecidos na poeira destes anos. Depois desta post outras seguirão, provenientes do mesmo baú. Trago-os a estes espaço como resgate e como registro).


No princípio era o verbo

Uma folha branca. Ela é um desafio para escritor de qualquer nível. Vencido a cada momento em que novas palavras e idéias surgem para preenchê-la. Vejo a escrita como um processo delicado. Delicado e interessante. Que nos coloca em situações a ser resolvidas. Isso é o que chamo pensar com palavras. Comparo escrever com entrar num mundo negro e desconhecido. É um problema que nos traz satisfação e conhecimento.

Já parou para imaginar o mundo tal qual este que hoje vivemos sem a escrita? Será que o haveria... Seríamos, muito provavelmente, um elo perdido como é o antepassado a ela, em que pouca coisa conhecemos e o pouco que conhecemos …

Chinatown, de Roman Polanski

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Em vez do preto-e-branco típico do noir, a fotografia em tons alaranjados não esconde a cinzenta visão de mundo do diretor

O detetive J.J. Gittes (Jack Nicholson) é colocado no centro de uma trama gigantesca envolvendo boa parte dos homens poderosos de Los Angeles nos anos de 1930. Na trama, seu bom humor e sua malandragem contratam com a maldade assumida dos demais personagens, bem ao estilo do pessimismo moral que caracteriza o universo cinematográfico do polonês Roman Polanski. Conforme a história é esclarecida, percebe-se que o crime investigado é apenas mais um de tantos desvios de conduta de todos os envolvidos e que nenhum dos suspeitos parece realmente inocente.
Com seus antecessores na tradição do cinema noir, o detetive é um solitário que esbarra num mundo podre e normalmente sem solução. Gittes parece lidar bem com isso. Quando perguntado se ele está sozinho, responde com uma pergunta: "Esta não é a situação de todos?" Não só sobrevive no centro da podridão, como …

Oscar 2009

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As premiações do Oscar 2009 parecem inaugurar novos rumos para as produções cinematográficas em Hollywood. O favoritismo da mega produção de O curioso caso de Benjamin Button desbancado pela simplicidade da produção de Quem quer ser um milionário reflete várias questões na indústria do cinema. Uma, parece ser a respeito do modo de fazer cinema, apesar de que essa questão que vou apontar já ser tônica noutras premiações da Academia: não é necessário ser dono de uma pompa gorda conta para se produzir bons filmes. E, outra, que está para além da forma de fazer cinema, que é o reconhecimento, enfim, da Academia da real maior indústria do cinematográfica do mundo - a indiana. Reconhecimento ou provocação. Fica a critério de quem julgar. E, em linhas gerais, e talvez seja este o fator verdadeiro, a expansão do olhar hollywoodiano para além das fronteiras a que este sempre esteve preso. Afinal de contas, o Oscar 2009 agraciou mais aos que de fora vieram para compor a colcha de retalhos da i…

o tempo

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matamos o tempo e o tempo nos enterra. (Machado de Assis)
martelava o tempo

tique-taque
tique-taque
tique-taque

exerguei-me escravo do tempo

tique-taque
tique-taque
tique-taque

quase tive um ataque!

tique-taque
tique-taque
tique-taque

matamos o tempo

tique-taque
tique-taque
tique-taque

o tempo nos enterra

tique-taque
tique-taque
tique- taque
tique-taque
tique-taque

* Acesse o e-book Palavras de pedra e cal e leia outros poemas de Pedro Fernandes.

A eternidade de um enigma (notinhas)

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1. Hoje, depois de ir a livraria tive contato com um belíssimo trabalho impresso. É um catálogo de imagens da minissérie Capitu, do mesmo diretor de Os Maias e A pedra do reino, Luiz Fernando de Carvalho. Estão lá sua metodologia de trabalho que inclui uma imersão dos atores e técnicos nas obras literárias.

2. O livro é dividido em duas partes, e se apresenta o processo de preparação dos atores e a história filmada de um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Dom Casmurro, também vem regado de imagens com tratamento especial da fotografia típica do seriado.

3. Durante dois meses os atores e a equipe técnica se reuniram semanalmente e assistiram palestras sobre a obra de Machado de Assis - Sergio Paulo Rouanet, Daniel Piza, Maria Rita Kehl, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, Carlos Byington, Edmilson Martins Rodrigues e Gustavo Bernardo. Os textos dessas palestras é o que compõe a primeira parte do livro e ajudam o leitor a entender todas as nuances desse fabuloso romance.

4. Na s…

Garganta da serpente

Há no universo virtual brasileiro poucas opções de qualidade, sérias, cujo interesse seja único e exclusivamente o da literatura. Há desses poucos, poucos que eu realmente conheço e acompanho. Hoje quero comentar sobre um desses meios que venho há uns cinco anos acompanhando o trabalho de perto. Trata-se de um site chamado Garganta da serpente, que hoje está comemorando seus 10 bem vividos anos. Foi neste site que entrei pela primeira vez no ainda tenebroso meio da virtualidade, com os meus primeiros acanhados poemas. Não há como esquecer isso, levando em consideração que todo começo, isso todo mundo sabe, é difícil. Este site que ajudou-me a destemer o universo virtual, este site que viu como autor prestável para alguma coisa merece ser preservado, merece ser sempre lembrado em datas especiais como esta. Nesses dez anos de internet o site dispõe ao leitor de um rico acervo em poemas, contos, crônicas, cordéis, fábulas, citações, artigos, ensaios e, por aí vai. São cerca de 2 166 hab…

Holocausto

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Por Pedro Fernandes

O vocábulo holocausto só entrou para o léxico da língua portuguesa por volta do século XIV - conforme o Aurélio veio do grego holókauston, sacrifício em que a vítima era queimada inteira, pelo latim, holocaustu. Entretanto, seu sentido original permanece apenas como registro, porque depois do genocídio dos judeus empreendido pelo regime nazista de Adolf Hitler, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, tornou-se espécie de nome próprio para tal fato.

Mas, já em referência a massacres a palavra fora utilizada por Winston Churchill quando num discurso seu em que descrevia o assassinato de cerca de um milhão de armênios pelo governo turco. Noutro entretanto, a inédita escala de extermínio de judeus pelos nazistas, em que o número extrapola à casa de milhões de pessoas, exigiu um nome específico, um nome próprio - com iniciais maiúsculas, como sentido do caráter único de tamanha barbárie, afinal, se o número de judeus vai a casa dos milhões mais haverá de ir se incluirmos…

Bocage

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Meu ser evaporei na lida insana Do tropel das paixões que me arrastava, Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava Em mim, quase imortal, a essência humana!
De que inúmeros sóis a mente ufana A existência falaz me não doirava! Mas eis sucumbe a Natureza escrava Ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos, Esta alma que sedenta em si não coube, No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus... Ó Deus! quando a morte à luz me roube, Ganhe um momento o que perderam anos, Saiba morrer o que viver não soube!
Estes versos tão conhecidos na literatura de língua portuguesa, assente nos vários livros didáticos brasileiros, são versos do poeta português Manoel Maria Barbosa Du Bocage. Tido pela crítica como um dos maiores poetas do Arcadismo em Portugal, movimento que se inicia quando da fundação da Arcádia Lusitana, em 1756.
Bocage é nascido em Setúbal no ano de 1765. E morreu na capital lusitana, Lisboa, em 1805. Filho de intelectuais portugueses, manifestou desde pequeno temperamento…

A carroça, o bonde e o poeta modernista

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Por Pedro Fernandes



(Anotações sobre "A carroça, o bonde e o poeta modernista", de Roberto Schwarz)


1.No ensaio "A carroça, o bonde e o poeta modernista" Roberto Schwarz discute a partir da poética de Oswald de Andrade – mais especificamente o poema oswaldino "Pobre alimária"– acerca do poeta e da poesia modernista no Brasil. Alude o autor à conciliação de três elementos característicos na poesia de Oswald: uma fórmula fácil e eficaz para ver o Brasil pelas janelas do poema; o ser poeta sem o esteticismo apregoado pelos poetas doutras escolas literárias semelhante ao modo leninista de fazer política – “o Estado uma vez revolucionado, se poderia administrar com os conhecimentos de uma cozinheira”; o uso de um reduzido vocabulário – reduzido, no sentido de ser comum a todos – o qual Schwarz compara à poética de Bertolt Brecht que se dispunha a redução vocabular do Basic English

2. Para o autor, somam a isso na poesia de Oswald, uma fórmula de duas operações…

Tony Silva

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Por Pedro Fernandes



1. A primeira vez que vi Tony Silva em cena foi num espetáculo que a cidade de Mossoró anualmente promove nos meses de junho aos moradores e visitantes, o Chuva de bala no país de Mossoró, que conta a história da resistência dos mossoroenses ao bando de Lampião. O texto original é do professor e escritor Tarcísio Gurgel.

2. Desde então estabeleci uma relação de admiração pelo trabalho da atriz. A vi noutros trabalhos, como o Auto da liberdade, outro espetáculo também promovido ao ar livre e livre para o público, também anualmente.

3. Depois, em outro trabalho a vi ainda mais brilhante: a adaptação da tragédia grega Medéia.

4. Numa entrevista da atriz  ao jornal mossoroense Gazeta do Oeste ela fala da vivência no teatro e como que este passou a fazer parte de sua vida. Segundo Tony Silva durante a infância não teve contato algum com o teatro, "Vivi todas as épocas, brincando no meio da rua, de brincar de lama, e nunca tive nada com o teatro"; reforçando o cará…

A doce vida, de Federico Fellini

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Na década de 1950, Federico Fellini começou a se afastar de seu passado neo-realista - participou como roteirista de Roma, cidade aberta (1945), e Paisà (1954), de Roberto Rossellini - com suas primeiras obras-primas, A estrada da vida (1954) e Noites da cabíria (1957). Recebeu, pela ousadia, ataques duros da esquerda e de outros setores que esperavam encontrar em sua obra elementos do antigo movimento. E acabou tornando-se persona non grata tanto entre os revolucionários quanto entre os moralistas e a Igreja Católica com A doce vida.
Ele pode até ter feito filmes melhores, mais nostálgicos, mais emocionantes e mais engraçados. Porém, nada o define com mais precisão do que este cáustico panorama da sociedade romana e do mundo da fama. O longa foi lançado no mesmo ano de A aventura, de Michelangelo Antonioni, e explora universos parecidos:o vazio da sociedade burguesa e a maneira hedonista pela qual tentam extravasar suas frustrações. Só que, enquanto Antonioni aborda o tema de maneir…

Revistas

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O mercado editorial brasileiro é muito pobre em publicações de qualidade. Quando estreou por cá a publicação de uma revista preocupada apenas com livros e literatura, vibrei. Era a Revista Entrelivros, da Duetto Editorial. O que houve não sei, mas as edições findaram depois de três anos e de 32 números. Ficaram as outras. Mas, havemos de concordar, que o conteúdo não é tão completo como era o da Entrelivros. Queixas à parte, fiquemos com o que podemos ter. 

Agora podemos dispor gratuitamente do material on-line - e isso é novidade! - do acervo de uma das mais importantes revistas, que não chega ao padrão Entrelivros, mas merece a divulgação, porque, a meu entender, é o que dispomos de melhor em circulação no mercado brasileiro. Digo uma das mais importantes porque deveria ser uma revista mais completa; ela, no entanto, ainda assim traz um diferencial das que tem no mercado atualmente. É um riquíssimo acervo de textos sobre cultura e ciências humanas disponível gratuitamente.

Estão dig…

A expressão Aluísio Azevedo 90 anos depois

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Por Pedro Fernandes



ao tingir com tintas fortes e pinceladas rudes, por vezes, mas duma poeticidade única, Aluisio Azevedo entrava em definitivo para o rol da história literária como o Zola brasileiro

Há pouco mais de um século o escritor francês Émile Zola publica O romance experimental. Essa obra inaugura novas vertentes no campo da Literatura, que a crítica literária logo tratou de conceituar como Naturalismo. Esse movimento estético literário foi como uma espécie de desdobramento da estética realista. Tal como defendido por Zola, o romance naturalista seria aquele que se preocuparia em apresentar e discutir temas comuns ao homem como patologias sociais, sem pudor, de modo semelhante a um cientista cético que tem o interesse de tocar e remexer numa ferida a título de discernir o cerne da doença. Já quanto ao Realismo, usando de um recurso visual do crítico brasileiro Massaud Moisés, enquanto movimento literário nutria já o interesse pela realidade social só que a maneira como que o …

Crise, crises

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Por Pedro Fernandes
Saiu o presidente Bush, talvez a pior das espécies que já ocupou a Casa Branca. Fica depois de sua saída um rastro de coisas por consertar. Espera-se agora pela change que ocupou sua cadeira. Uma dessas coisas por consertar que talvez mais tenha chamado atenção, porque depois de atingir as grandes economias agora começa a dar sinais de incômodos por cá, pelas economias emergentes, certamente é a crise econômica que se instalou nos Estados Unidos. Já se mostram em números o que a tal crise começa a aprontar; crise tida pelos especialistas do mundo econômico como a maior desde o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.
Bem, seria a tal crise fruto do descuido do ex-presidente estadunidense que olhou com olho gordo para além das suas fronteiras, a título de enriquecer seu império e esqueceu-se de casa, onde um monstro se formava silenciosamente? Isso é uma suposição com um bom fundo de verdade. Não podemos, pois, descartá-la de um todo. Ainda mais, sabendo que o pivô d…

O centenário de Carmem Miranda

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Hoje Carmem Miranda faz 100 anos. Nascida em 1909 em Marco de Canaveses, Portugal, a cantora e atriz marcou uma época da música e do cinema nacional. Iniciou sua carreira artística ainda na década de 1930. Sagrou-se fora do país, onde que escolheu para viver. Foi, sem dúvidas, o ícone de uma nova era que se formava para o mercado artístico. Teve, como algumas estrelas contemporâneas, uma meteórica subida rumo à fama e à riqueza. Também não foi diferente seu destino dos muitos destinos da fama. O sucesso estrondoso que obteve em menos de dois anos que levou a atriz ao patamar de estrela mais bem paga de Hollywood deixou-lhe, certamente, profundas sequelas na vida pessoal, seja pela imagem caricata sua - do tradicional turbante de bananas na cabeça, como ficou conhecida dentro e fora do Brasil -, seja pelo vício das drogas. A imagem de Carmem foi crucial e importante para a projeção da cultura brasileira. Ainda que uma cultura caricata como a das bananas na cabeça. Mas a projeção do sa…

Antônio Francisco

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Deus é sol, sal e farinha

O sol cochilava no meio do céu, Jogando seus raios na cara do chão. A gaita estridente de uma cigarra Tocava sem graça a triste canção Daqueles que vivem nos braços da secas Tirando da fé um pouco de pão.
Enquanto os soluços do vento da seca Passavam tocando seu sax tenor, De uma cabana coberta de palha Subiam os gemidos de um armador Debaixo dos gritos de uma mulher, Tingidos de mágoas, medo e rancor.
“José, oh, José, onde é que tu ta? Responda, infeliz, acabou-se o feijão! Se o menino acorda pedindo comida? Só resta farinha e sal no caixão. Maldita hora, José, que te vi. Que vida, meu Deus, que vida de cão!”
E lá no aceiro do fim do quintal, Sentado na sombra de um marizeiro, Um homem responde: “Maria, Maria, Estou concertando o seu galinheiro. Pra que tanta guerra? Pra que tanta grito? Acredite, Maria, no Deus verdadeiro!”
E de novo a mulher atira a voz: “José, oh, José o que foi que te deu? Concertar galinheiro? Pra que galinheiro, Se a última galinha a r…

Notas sobre o Oscar 2009

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1. O curioso caso de Benjamin Button, ouvi sobre num programa desses de TV. Depois, ouvi pessoalmente de um cinéfilo - o filme é interessante. Vi o trailer hoje ao assistir Sete Vidas. O filme lidera o número de estatuetas do Oscar: são 13 indicações no total. Baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald publicado na Revista Collier's Weekly, em 1922, que narra a bizarra a história de Benjamin Button, que ao contrário da natureza comum, nasceu velho e foi ficando jovem com o passar dos anos, o filme também me lembrou de um pensamento do saudoso Chaplin de que o homem deveria nascer velho e morrer jovem para poder aproveitar a vida. Se isso acontece com Button, só vendo o filme para saber, o que é mesmo visível pelas imagens do trailer, é que Button, ainda assim, é um homem como qualquer outro, que não pode parar o tempo e, como pessoa comum, passa por problemas comuns, precisa percorrer seu caminho, viver sua história ao lado das pessoas que conhece e os lugares que freqüenta durant…

Memorial do convento, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes


Acabei de reler e tenho obrigação de postar minhas reimpressões acerca desta grande obra da literatura em língua portuguesa. Falo de Memorial do convento, do escritor português José Saramago. O texto está em sua 33ª edição, publicada em 2007, no Brasil, pela editora Bertrand Brasil. Este título e Levantado do chão, enquanto todos os demais estão sob a publicação da Companhia das Letras. Uma suposta impressão sobre o mercado editorial: parece que a Bertrand tinha interesse, mas a outra editora atravessou-se no caminho e fez, certamente, uma boa escolha. Se o Memorial encontra-se no Brasil na edição em que se encontra (e o nosso país é não raras vezes acusado de ser um país de maus leitores) é prova de Saramago é, além de bom escritor, alguém que vende muito.

De fato, este livro assinala uma ruptura com o esquecimento em torno da obra do português. Basta uma pesquisa simples em torno de quem era José Saramago desde a publicação de seu primeiro romance, o Terra do pecad…