Um corpo que cai, Alfred Hitchcock



Trama evolui para se tornar um tratado a respeito da imagem e da sedução que ela exerce sobre o espectador

Hitchcock, o mestre do suspense. A alcunha caiu tão bem ao diretor britânico que pouca gente se dá conta de que ele foi, de fato, um mestre do cinema. Até o início dos anos de 1950, sua carreira havia sido marcada por thrillers psicológicos, pela habilidade em manipular medos da platéia e por sofisticação na encenação, enriquecida por uma visão de mundo amarga, feita de sentimentos de culpa e de pecado, tingida com uma ironia britânica.

O público sempre o adorou, mas a crítica considerava seus filmes sem substância. Até que um grupo de redatores da revista Cahiers du Cinèma, tendo em frente os futuros cineastas François Truffat, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol, revelou que desde as origens a obra do diretor havia sido construída com inteligência e estilo inconfudíveis. Seus integrantes cunharam, a partir daí, uma teoria que identificava o diretor inglês como autor, da mesma maneira que artistas de outros campos, como escritores e pintores, são considerados autores de seus trabalhos.

Depois de títulos geniais, como Janela Indiscreta, feito em 1954, Hitchcock alcançou o ápice em Um corpo que cai. A trama segue o policial Scottie (James Stewart), afastado da profissão por ser vítima de acrofobia (medo de altura), que lhe impede o exercício do cargo. Convidado por um antigo colega, ele aceita a tarefa de seguir os passos da esposa deste, Madeleine (Kim Novak), que se supõe uma reencarnação de uma antepassada cujo comportamento estranho culminou em suicídio. Revelar a segunda parte da trama seria estragar o prazer.

Mas basta deixar claro o jogo que Hitchcock propõe ao espectador, de identificação por meio do olhar de Socttie, que espreita uma ação e se envolve emocionalmente nela, do mesmo modo que nós quando estamos sentados no cinema.

É um filme sobre a imagem e o poder dela na manipulação de nossas percepções, uma encenação de um drama e a maneira que nós o vivenciamos como se fizéssemos parte dele. Ou seja, aqui Hitchcock leva ao extremo a lógica que utilizou para produzir emoções, ao mesmo tempo em que expõe o mecanismo que o cinema recorre para obter tais efeitos.

*  Revista Bravo!, 2007, p. 19.

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