Memorial do convento, de José Saramago

Por Pedro Fernandes



Acabei de reler e tenho obrigação de postar minhas reimpressões acerca desta grande obra da literatura em língua portuguesa. Falo de Memorial do convento, do escritor português José Saramago. O texto está em sua 33ª edição, publicada em 2007, no Brasil, pela editora Bertrand Brasil. Este título e Levantado do chão, enquanto todos os demais estão sob a publicação da Companhia das Letras. Uma suposta impressão sobre o mercado editorial: parece que a Bertrand tinha interesse, mas a outra editora atravessou-se no caminho e fez, certamente, uma boa escolha. Se o Memorial encontra-se no Brasil na edição em que se encontra (e o nosso país é não raras vezes acusado de ser um país de maus leitores) é prova de Saramago é, além de bom escritor, alguém que vende muito.

De fato, este livro assinala uma ruptura com o esquecimento em torno da obra do português. Basta uma pesquisa simples em torno de quem era José Saramago desde a publicação de seu primeiro romance, o Terra do pecado ou mesmo de Manual de pintura e caligrafia e pouco se encontrará de crítica sobre sua obra. O primeiro êxito será alcançado, evidentemente, com a chegada de Levantado do chão, mas, ainda não será este o romance de projeção. Resta, portanto, o Memorial; texto de um alto investimento criativo do escritor, é o livro que leva ser reconhecido no seu país (embora haja controvérsias sobre esse reconhecimento, o que não é novidade, as pérolas de casa só brilham na casa do vizinho), mas internacionalmente. Este é talvez seu romance mais traduzido no mundo. 

Trata-se de um texto memorável como já se é de esperar do escritor de Ensaio sobre a cegueira. Portando sua linguagem escorreita que margeia através da escrita os quatro pontos cardeais das páginas do livro, Memorial do convento é o retrato outro – apesar de um texto ficcional – da formação histórico-social portuguesa. Integra, portanto, o rol dos romances em que essa é uma temática inerente  como Levantado do chão, História do cerco de Lisboa O ano da morte de Ricardo Reis. 

Nele, além de se entrever um reengendrar da história oficial portuguesa, assiste-se também as raízes que viriam fundar outros grandes romances do escritor; digo isso porque vejo muitos materiais que serão retrabalhados em textos posteriores a este, qual seja o tema da visão: Blimunda, uma das personagens principais do romance, é a que tem o misterioso poder de ver o que está por debaixo da pele das pessoas. O que salta aos olhos do leitor de Memorial do convento é o aprimoramento sobre a construção de um narrador brilhante, polido no caráter da observação, sarcástico e irônico para com os fatos que vão se desenrolando ao longo da diegese.

O romance que a princípio se propõe narrar sobre a construção de um convento em Mafra, erguido depois de uma promessa do rei português para conseguir um herdeiro ao trono – coisa que desde que se casara vinha tentando – se dedica mesmo é a narrar a história daqueles que o construíram, representados, não apenas pelo acompanhamento do trabalho e os desmandos da Coroa sobre sua população, mas pelo trabalho de Baltasar. Essa personagem é um ex-combatente que foi mandado embora do front da Guerra de Sucessão depois de perder a mão e ela é uma das que vão trabalhar nas obras de fundação do convento. 

Mas, o Memorial não é somente a história de trabalhadores. O tema já bem desenvolvido em Levantado do chão, por exemplo, alcança outra dimensão neste romance: o da história de amor. Não de um amor impossível como eram os romances de seu tempo, mas um amor, que em silêncio subverte a ordem dominante: o amor entre esse soldado maneta e Blimunda. Um amor que, junto com a capacidade criativa de um padre, o brasileiro Bartolomeu de Gusmão, é capaz de colocar em órbita a primeira máquina a voar: uma passarola, erguida, ironicamente, pelas vontades das pessoas, um combustível trazido por Blimunda e sua capacidade de ver interior das pessoas.

O exercício de visitação da história não é, portanto, apenas um recontar, mas um problematizar a história, um provocar a dizer aquilo que ela oculta; tem lugar aqui, por exemplo, o destronamento do oficial pelo que poderia ser como é percebido pela elevação dos da margem e o rebaixamento das figuras da corte. Só este exercício é já suficiente para dizer que estamos diante de um grande romance. Mas, há mais. Muito mais. Que o leitor atento deve descobrir na leitura acurada da obra.


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