A regra do jogo, de Jean Renoir




“Drama alegre” traz a modernização no modo de narrar e influencia a geração que criou a nouvelle


Com tal sobrenome de peso (ele era filho do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir), Jean Renoir não teria passado despercebido pela história do cinema. Além disso, como o pai, ele trouxe para os filmes um frescor de imagens e de expressão, uma abordagem encantadora da natureza e despudorada do comportamento humano.

Na época, Renoir definiu seu trabalho como um “drama alegre”. A trama se concentra numa festa num castelo, onde os nobres se divertem num andar, e a criadagem se ocupa nos afazeres em torno da cozinha, no subsolo. Entre os integrantes desses grupos circula uma versão maliciosa de cupido, que promove seduções, traições e recombinações de pares. Uma cena de caça a coelhos funciona como anúncio de tragédia iminente e como prenúncio de uma crise da civilização (pouco depois explodiria a Segunda Guerra Mundial na Europa).

O que torna A regra do jogo tão importante do ponto vista histórico é o modo como o diretor explora o efeito fotográfico da profundidade de campo para criar uma unidade dramática e estabelecer os nexos entre os personagens nos espaços onde eles transitam.

Posicionando-se em um corredor, por exemplo, a câmera nos mostra um diálogo em primeiro plano enquanto vemos outras ações ao fundo, os personagens entrando e saindo dos quartos, e a cena é feita sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal.

Além disso, sua peculiaridade é melhor definida nas palavras de um dos diretores que mais sofreram sua influência. “A regra do jogo é, certamente, ao lado de Cidadão Kane, o filme que suscitou o maior número de vocações de cineastas; assistimos a ele com um sentimento muito forte de cumplicidade, isto é, em vez de vermos um produto concluído, entregue à nossa curiosidade, experimentamos a impressão de assistir a uma história sendo filmada, acreditamos, ver Renoir organizar tudo aquilo ao mesmo tempo em que a obra está sendo projetado”, escreveu François Truffaut. Tal lição foi levada adiante por todos os seus discípulos reunidos sob o guarda-chuva da Nouvelle Vague.


* Revista Bravo!, 2007, p. 27


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

O Bovarismo como pedra de toque na obra de Lima Barreto

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Fama e preconceito

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)