Lula de saias

Por Pedro Fernandes

Nunca fui motivado a estes assuntos de política. Entretanto, me responda o leitor, qual o sujeito inserido numa sociedade, dita democrática ou mesmo os que vivam em qualquer outro regime que em algum momento de suas vidas não se pôs a discutir sobre política. Triste ou não tão triste assim, essa é a nossa sina: somos seres políticos. Politizados, o que devia, nem tanto; a política, como diria um político seu amante, no sentido estrito dado a palavra amante, está no nosso sangue. E tanto está que esta não é a primeira vez que me pego escrevendo sobre. Já várias vezes escrevi sobre – também para este jornal. E, novamente hoje volto ao assunto.

Volto ao assunto sem muitas novidades, é verdade. Porque tirando os escândalos que quase todos os dias paginam os jornais não temos tido nada de muito bizarro acontecendo nesse cenário bizarro, sem ser redundante. Com os escândalos todo mundo já está acostumado e até se diverte com. Mas, vou tocar numa bizarrice e isto já tem se feito novidade desde que o presidente Lula apareceu certa vez fazendo piadinha para os jornalistas e de braços dados como coleguinhas de escola com a ministra casca-grossa Dilma Rousseff, que voltou agora a cena, depois de uma repaginada no visual. Não mudou nada. Deve ter gasto horrores de dinheiro, mas a cara de casca-grossa não se arranca assim tão fácil. Precisaria de vários Pitanguis para dar conta do recado e ainda assim talvez não desse jeito, fazendo, portanto, jus ao dito popular “Pau que nasce torto, nunca se endireita”.

Pois bem, falo de Dilma porque fiquei intrigado desde o dia em que abri minha caixa de e-mails – e certamente alguém que esteja a ler este texto agora também recebeu o que vou falar – e estava um e-mail com a imagem de uma ficha policial do DOPS, antigo departamento que funcionou durante os anos da Ditadura no Brasil em que se vê espichado no canto esquerdo do papel amarelo uma quadra com a cara casca-grossa ainda na juventude. As informações policiais e “criminosas” descritas na ficha de Dilma não me foram novidades. Todos sabem que ela juntamente com muitos outros que compunham e, lá por fora ainda compõem o governo Lula, foram em tempos de chumbo lutadores “viris” que acreditavam nas flores vencendo o canhão, fazendo relação com aquela música do Geraldo Vandré – “Vem vamos embora / que esperar não saber / Quem sabe faz a hora/ não espera acontecer” – que em outro tempo esteve a musicar uma das “belas” propagandas do governo Lula, ainda no tempo que aquele marqueteiro passeava tranquilamente pelos corredores do Palácio presidencial. Será que ele ainda passeia, às escusas, por lá?

Esse e-mail me fez ver que há duas correntes a se formar em torno da figura da ministra: uma pró encabeçada pelo Lulinha paz, amor e graça; outra contra encabeçada por alguns seguidores de outros partidos e coligações – que fizeram inclusive essa corrente na rede da internet. Não quero me firmar em nenhuma dessas duas correntes que um ano antes das eleições se forma em redor de Dilma e que dizem respeito a sua futura indicação à presidência da República (“É hora de o Brasil ter uma presidente mulher” – palavras de Lulinha; “É essa a candidata que queremos para o Brasil? A que ponto chegamos...” – palavras da corrente que está disseminada na rede), entretanto quero tomar partido acerca desta que circula na rede, para a partir daí tirar um denominador comum.

Vejo estas duas correntes como rumores ofensivos. A primeira porque parece ferir o que ainda se julga espírito democrático. Sair de braços dados cantando “tindô-lelê-aiaiá” como faz o presidente Lula enquanto inaugura suas benesses de governo é uma propagandagem papagaia. A segunda porque é uma coisa que não tem nada a ver com a outra. O que Dilma fez ou deixou de fazer nos tempos idos, ainda mais naqueles tempos raivosos, não é peça que se pregue contra uma futura candidatura à presidência. Não é necessário ter vivido os tais Anos de Chumbo para saber que a situação em que o país vivia era outra, totalmente propícia (e diria necessária) aos feitios descritos na ficha policial de Dilma. Era essa a maneira e, na verdade, não havia muitas outras, que muitos na época souberam fazer a fim de tentar retirar o país do estado de sítio em que estava. Cada um fez o que pôde e com os meios que podiam. Nesse ponto, aliás, a campanha contrária poderá até se tornar (e o trouxa que espalha não percebeu) favorável ao nome da ministra. Ora, se alguém teve pulso para peitar os poderosos no passado é de alguém desse tipo que o país, na atual conjuntura, necessitaria? Óbvio que sim!

Entretanto, uma Dilma no poder – disso não sabemos, apesar de os planos políticos já estarem sendo engendrados, porque de uns tempos para cá é só isso o que os políticos sabem fazer e fazem com categoria  só saberemos depois das eleições. Se eleita se justificará o apoio maciço dado e demonstrado pela população ao longo desses oito anos de governo Lula. Noutras palavras, Dilma no poder é a concretização de uma perpetuação do clamor de um povo que se mostrou o tempo todo imerso no rico discurso popular saído da boa goela de Lula. Se o modelo de governo que todos julgam como certo é este, o que esperar, então?


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