Tomás Antônio Gonzaga




Tomás Antônio Gonzaga


Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou ainda da minada serra.


Quem já leu Marília de Dirceu certamente há de se lembrar desses versos, talvez uma dos mais conhecidos da literatura brasileira. Os versos foram escritos no período em que o poeta Tomás Antônio Gonzaga encontrava-se encarcerado. Semelhante a Cláudio Manuel da Costa ele também foi preso e mandado para o degredo em Moçambique, quando do estouro do movimento da inconfidência. Foi em África que o poeta teve de reconstituir sua vida. Foi no degredo que poeta faleceu em 1810. Também como Cláudio Manuel da Costa formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Chegou a exercer em Vila Rica o cargo de ouvidor.

Os versos de Marília de Dirceu seguem os preceitos árcades. As Liras que compõe a obra reconstituem a paixão do poeta pela jovem Maria Dorotéia e Seixas, moça de dezesseis anos de quem Gonzaga chegou a ficar noivo. Ao lado dos versos em que Dirceu – pseudônimo para Gonzaga – exalta a beleza de Marília – claro está, pseudônimo para Maria Dorotéia –, Gonzaga cria, de modo inovador, a presença marcante de um eu-lírico que, mesmo apresentando-se como pastor, caracteriza-se como um intelectual.

Além de Marília de Dirceu, Gonzaga escreveu Cartas Chilenas, um texto de caráter satírico em que os desmandos morais e administrativos do governador da Capitania de Minas, chamado de o “Fanfarrão Minésio”, são duramente criticados.

A seguir um fragmento de Marília de Dirceu (1) e em seguida fragmento do Cartas Chilenas (2).


(1)
Tu não verás, Marília, cem cativos
tirarem o cascalho e a rica terra,
ou dos cercos dos rios caudalosos,
ou ainda da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro
do pesado esmeril a grossa areia,
e já brilharem os granetes de oiro
no fundo da bateia.

[...]

Verás em cima da espaçosa mesa
altos volumes de enredados feitos;
ver-me-ás folhear os grandes livros,
e decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultas,
tu me farás gostosa companhia,
lendo os fastos da sábia, mestra História,
e os cantos da poesia.
Lerás em voz alta, a imagem bela;
eu, vendo que lhe dás o justo apreço,
gostoso tornarei a ler de novo
o cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
que tens quem leve à mais remota idade
a tua formosura.


(2)
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas e olhadura feia;
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete;
Sem ser velho, já sem cabelo ruço,
E cobre este defeito e fria calva

À força de polvilho que lhe deita
Ainda me parece que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado
As longas calças pelo umbigo atadas,
Amarelo colete, e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda.

A força do poema Marília de Dirceu levou Antonio Candido em A formação da Literatura Brasileira compreender que Gonzaga é um dos raros poetas brasileiros e o único entre os árcades cuja vida amorosa tem algum interesse para a compreensão da obra. "Primeiro, porque os seus versos invocam quase todos a pastora Marília, nome poético da namorada e depois noiva; segundo, porque eles criaram com isto um mito feminino, dos poucos em nossa literatura."

Ao mesmo tempo, o estudioso reforça da coincidência feliz que foi o encontro do homem de meia idade com a menina de pouca idade. "O quarentão é o amoroso refinado, capaz de sentir poesia onde o adolescente só vê o embaraçoso quotidiano; e a proximidade da velhice intensifica, em relação à moça em flor, um encantamento que mais se apura pela fuga do tempo e a previsão da morte."

"Daí, em sua poesia, a substituição da antiga pena de amor como impaciência sensual, pela aspiração ao convívio doméstico, que coroa e consolida os amores da mocidade. As suas liras são copiosas na celebração do lar, nos sonhos de vida conjugal. Por isso dignificam os sentimentos quotidianos, superando os disfarces alegóricos que o Arcadismo herdou da poesia seiscentista e quinhentista. Marília aparece então realmente como noiva e esposa, desimpedida de toda a tralha mitológica, livre da idealização exaustiva com que aparece noutros poemas".

Notas:

Durante esta semana, na coluna Os escritores, o blog faz um apanhado dos principais nomes da literatura brasileira da época da Inconfidência Mineira (em grande parte intelectuais e ligados às letras). Um marco na história nacional é o 21 de abril, hoje, dedicado a lembrar esse período conturbado do início de uma nação.

Ligações a esta post:
>>> Para ler a primeira post, sobre o escritor Claudio Manuel da Costa, clica aqui.
>>> Para ler a segundo post, sobre o escritor Tomás Antônio Gonzaga, clica aqui.
>>> Para ler a terceira post, sobre os escritores Alvarenga Peixoto, Santa Rita Durão e Silva Alvarenga, clica aqui
>>> Para ler a quarta post, sobre o escritor Basílio da Gama, clica aqui.


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