Algumas reflexões acerca dos momentos pós-permanente trágicos da sociedade brasileira: sobre a morte do menino João Hélio

Por Pedro Fernandes 

Nota: Em janeiro de 2007, quando este blog ainda não existia (só foi posto na rede em meados de novembro daquele ano) eu escrevi um artigo acerca de um fato que vazou a mídia ponta a ponta, que foi a morte do menino João Hélio, na onda corrente de violência que cerca o Rio de Janeiro e todos os grandes centros do país. O artigo foi ter publicação no jornal De Fato, mas não com o título que trago para este blog e sim com o título "A morte do menino João Hélio". O leitor deverá entender o encurtamento do título; as mídias, sejam elas quais forem, prima pelo enxugamento e pela objetividade. Trago o texto para este espaço como via de registro.

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Faço questão de iniciar o presente artigo com o nome estampado JOÃO HÉLIO no subtítulo para mostrar um pouco de atitude de respeito para com a família e o menino, especificamente, uma vez que a mídia televisiva a cada telejornal faz questão de usar O MENINO QUE FOI ARRASTADO (em negrito para dar ênfase) POR 7 KM como aposto para o nome João Hélio ou até substantivo próprio; ganhar nome com a tragédia e desgraça alheia parece que tem sido o pretexto (e um desrespeito) específico da mídia nossa que, me desculpem, é também uma tragédia, uma desgraça.

Mas o fato é que o acontecimento em si tem gerado diversas opiniões entre os sujeitos brasileiros, componentes, sendo redundante, de uma sociedade brasileira, que se diz moralmente pacífica:

(i) o sentimento de indignação. em sã consciência confesso que não fiquei chocado com o fato (parece que escuto alguém falando "isso é um doido, num tem coração!"). Pois se não tenho coração é porque já "me" sou um brasileiro genuinamente brasileiro e abrasileirado, sendo novamente redundante; por que com tanto apelo e sensacionalismo da mídia acerca do fato e as pessoas ainda permanecem em casa apenas chamando por Deus ou esculhambando o diabo, o presidente, os políticos, a justiça (senhores, filhos da p...), eu vou ser chamado de "sem coração"? Não foi o fato de não ter ficado chocado que fará de mim um sem coração, mas o comodismo deslavado que habita as entranhas da sociedade brasileira, isso sim, faz do Brasil um país degenerado.

(ii) a mãe aparece em telejornais. na telenovela. em sã consciência, sendo repetitivo, confesso que, sequer tenho pena dela (parece que escuto alguém rasgando o jornal). Dizer individualmente quantos João Hélio precisam morrer para que a Justiça tome as providências, parece a mim sensacionalismo descarado; eu pergunto, quantas crianças envolvidas no tráfico de drogas, por exemplo, não são executadas? Nem por isso a mídia está lá entrevistando suas mães ou jogando elas para darem depoimentos em telenovela. Isso só acontece porque um crime desse porte feriu de alguma forma o comodismo dos ricos. Acredito que mais que usar o discurso a favor de uns e contra outros usando a imagem de uma família de classe média abalada e decepada, a mídia poderia "faze"r. Mostrar e ganhar audiência com isso é muito fácil, mostrar outras realidades que não as da elite, debater a questão com a sociedade parece mais complicado que assobiar e chupar cana.

(iii) a tragédia em si. em sã consciência, repito, confesso que os bandidos não deveriam ser presos (faz até medo usar essa palavra, bandido, vai que alguém que seja seu defensor me pega falando assim...), mas permanecerem soltos em perfeita harmonia com a sociedade (parece que, agora, escuto passos de alguém correndo à minha procura). Isso é tão comum. Por que haveríamos de estranhar? Os engravatados senhores políticos corruptos não estão soltos? - Rapaz, mas pere aí, você quer comparar um roubozinho de milhões a morte de uma criancinha inocente? Parece que ouço o leitor, pós remendar o jornal, perguntando isso. Sim podemos comparar a traição e roubalheira descarada desse covil Brasil a um assassinato desses, sim! A tragédia do João Hélio é símbolo da impunidade que emerge da esfera superior: bom, se político passa por cima de tudo e fica impune, por que prender assassinos? Os assassinos são reflexos cruéis dos assassinos do dinheiro público.

(iv) o que absorvemos ou aprendemos com o fato. em sã consciência confesso que ainda existe cura para isto, assassinos são normais! (o jornal é re-rasgado, ouço sendo-o jogado no lixo). Pois bem, retomo, quantos morreram antes do João Hélio? Quantos morreram depois de João Hélio? A tragédia João Hélio já foi apenas mais uma, a perda é dos pais. Os culpados? Do assassinato de João Hélio todos têm a sua parcela de culpa, afinal apenas a família com três pessoas pingadas fizeram uma passeata pedindo por Justiça; uma parte da sociedade estava em casa assistindo TV, outra já havia esquecido, só mesmo lembrou porque na abertura de um telejornal ouviram "PARENTES DO MENINO QUE FOI ARRASTADO POR 7 KM, joão hélio, FIZERAM CAMINHADA DE PROTESTO HOJE PELA TARDE." É, parece mesmo que o homem brasilis adapta-se às condições mais inóspitas de vida; nesse país, pós-permanente Estado de tragédia, ele ainda fica em casa à Raul Seixas, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, talvez faça isso parte de seu espírito de pacífico.




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