Quatro nomes da Segunda Geração do Romantismo: Casimiro de Abreu



O saudosismo e a infância como temas românticos

Mas, nem só de amor e morte, do dor e sofrimento, de desregramento das vivências, se sustentou o romantismo brasileiro. Também nem só do impulso ardoroso da denúncia social. Restou-nos espaço para uma certa malemolência da saudade, um apego às memórias e encantos da infância. Nesse sentido, o nome de Casimiro de Abreu será sempre lembrado. A leveza ou a doçura, a singeleza ou simplicidade da poesia, que logo colocou entre o mais popular dos de sua geração, são elementos significativos para inteirar o arco-íris da época romântica.

"Nele, o lirismo é pura expressão da sensibilidade, desligada de qualquer pretensão mais afoita. Saudade, ternura, natureza e desejo são modulados numa frauta singela, sem a envergadura que assumem em Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, mesmo Bernardo Guimarães. Extremamente romântico na fuga à abstração, à generalização, sempre transpõe no poema um sentimento imediato (ou uma dada planta, um lugar determinado, uma certa hora do dia), banhando-o naquela magia desde então ligada ao seu nome. Ser casimiriano é ser suave e elegíaco, dar impressão de incomparável sinceridade, e, principalmente, nada supor no coração humano além de meia dúzia de sentimentos, comuns mas profundamente vividos. Por isso mesmo foi o predileto dos cestos de costura, levando a um fervoroso público feminino toda a gama permitida de variações em torno do enleio amoroso, negaceando os arrojos sensuais por meio de imagens elegantes", explica Antonio Candido.

Casimiro de Abreu

O poeta nasceu em 1839, em Barra de São João (Rio de Janeiro). Estudou em Friburgo e desde cedo dedicou-se não às letras, mas ao comércio; era o interesse do pai que, nunca viu com bons modos o gosto do filho pela literatura. O que terá feito sua vida ganhar novo rumo foi a ida para Portugal em 1853; durante a estadia de quatro anos no país, fez sua estreia literária com a representação dramática de Camões e Jau. No regresso ao Brasil, ficou entre as atividades de comerciante e o exercício da poesia, enquanto frequenta aulas de matemática na Escola Militar.

Tamanho esforço terá valido a pena. Em 1859 publicou seu primeiro livro Primaveras. Mas, este título e a pequena peça apresentada em Lisboa foram suas únicas obras. Casimiro padeceu da mesma sina dos de seu tempo, morreu jovem atacado de tuberculose. A brevidade da vida e da obra, de nenhuma maneira, reduziram seu papel no âmbito da cena literária brasileira desse período. Antonio Candido confessa que a obra do poeta tem a medida exata para amainar as forças do romântico desbragado. Preferiu dizer os temas da memória, os aspectos mais familiares, e justamente por essa razão "realizou poesia acessível ao sentimento médio os leitores e relativamente inteiriça na sua compenetração de matéria e forma"; e completa, "Sob este ponto de vista, não seria exagero repetir que foi, dos ultrarromânticos brasileiros, o único plenamente realizado, ao exprimir os intuitos que animaram o seu estro, por meio de uma forma perfeita na sua limitação."

CANÇÃO DO EXÍLIO

Se eu tenho que morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já:
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não val um só de beijos
Tão doces de uma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já:
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!


Ante estes versos, o leitor logo perceberá as relações com o de Gonçalves Dias (talvez o poema mais parodiado da literatura brasileira; basta lembrar os poemas de Carlos Drummond de Andrade ou de Murilo Mendes, por exemplo). Casimiro foi, ao que parece um leitor atento dos poetas da Primeira Geração Romântica e este poema de Gonçalves Dias deve ter-lhe impressionado muitíssimo porque, além deste texto, escreveu outros dois com clara alusão ao original: "Eu nasci além dos mares", escrito quando estava em Portugal (assim como os outros dois textos); e "Minha terra", poema que traz os versos de Dias como epígrafe.

E, para não dizer que Casimiro foi um romântico rude (avesso ao amor) é preciso sublinhar que a temática amorosa aparece despida da força imaginária ou carnal que assume nos outros românticos. Assim, como terá preferido os lugares e sua terra como fez nos vários redesenhos da "Canção do exílio", quando se refere ao tônus amoroso deixa envolver-se por certa emoção ingênua e inocente. É um poeta que escapa do amor como se esse lhe fosse uma armadilha medonha, embora, claro, padeça de certo fogo da volúpia.

Já sobre o saudosismo ou o encantamento pela infância é suficiente o poema (talvez um dos mais conhecidos da literatura brasileira, tanto quanto o "Canção do exílio"), "Meus oito anos".

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor,
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia.
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

(fragmento)

Ligações a esta post:
>>> Leia sobre Álvares de Azevedo
>>> Leia sobre Fagundes Varela
>>> Leia sobre Junqueira Freire

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A religiosidade clandestina de Hermann Hesse

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Água viva, de Clarice Lispector

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Boletim Letras 360º #231

Quando Borges era Giorgie

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro