Das misérias humanas (II)

Por Pedro Fernandes

Há algum tempo escrevi neste espaço uma nota sobre uma camelô que preferiu tirar troco para cinquenta centavos de uma nota de dez reais, só porque as moedas que eu tinha somava quarenta e cinco centavos e, logo, não inteirava os cinquenta para compra de um copo d´água. Parece que isso que na época eu classifiquei de miséria humana, mas entendo ser este tipo encaixado no título de morta-fome, ter virado moda. Desculpe-me se estou sendo franco, mas acho, particularmente, essas mesquinhezas a extremidade do absurdo. Pois não é que, novamente, um desses morta-fome inventa de atravessar meu caminho. Desta vez o fato se deu num supermercado: entrei às pressas para comprar um iogurte. No costume de sempre comprar aquele produto que custa R$1,7, peguei-o e fui direto ao caixa. Ao contar minhas moedas dei de cara com R$1,6. Já sabem, então, o que aconteceu. Simplesmente a caixa não me despachou a compra. Passei a ver isso como algo mais absurdo ainda do que aquele episódio da camelô, se entendo que, o lucro que ela tinha talvez fosse apenas aqueles cinco centavos de que ela fez-me questão. Mas num supermercado, em que vigora aquelas contagens do nove (1,99; 2,99; 3,99 e por aí vai) e a que agora vigora, para variar a do oito, a do sete, a do seis, (1,88; 1,78; 1,68) que enchem o rabo dos comerciantes, que ao fim do dia, do mês, do ano, paga todas as promoções bestas que eles propagandeiam e ainda sobra um caixa-dois, eu pergunto, onde está a vantagem em não vender um produto apenas por causa de dez centavos? Deixo a pergunta ao leitor, mas o que acho é que esse triste país onde vivemos está assim porque estamos entregues à uma lerdeza dos infernos e, não fazemos o nosso papel de, por exemplo, cobrar os centavos que eles enfiam no cu cada vez que compramos um produto qualquer.


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Boletim Letras 360º #239