Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto

Por Pedro Fernandes



Morte e vida severina é, de toda a obra poética de João Cabral de Melo Neto, certamente, o seu texto mais conhecido. A afirmativa um tanto óbvia tem por objetivo, antes de ser a abertura de algumas notas (estas também um tanto óbvias sobre esta obra, mas fundamentais pelo compromisso de chamar à leitura do texto novos leitores), tenta seguir outro rumo, fora daquelas coordenadas que sempre hão de apontar outros mais ingênuos que eu, de que esta popularidade do poema se deu pela adaptação para a TV Globo em 1977, depois do sucesso obtido no teatro. Além disso, este texto teve importante inserção no contexto escolar, ao menos de quando foi estudante do ensino básico (quando conheci a obra) e, claro, trata de uma temática comum a pelo menos boa parte dos brasileiros: o êxodo do sertão nordestino em busca de melhores condições de vida nos grandes centros urbanos.

O poema foi escrita entre os anos de 1954 e 1955 e tendo ficado conhecido apenas pelo título ora evocado, na época trazia um subtítulo que enunciava sua forma textual: "(Auto de Natal Pernambucano)". Maria Clara Machado, então à frente do Teatro Tablado pediu que o poeta escrevesse um auto de natal. Para alguém que desacreditava na ideia de inspiração, ao menos aquela sobre a qual se imagina o escritor sentado ante o papel em branco à espera que lhe venha a ideia (como faz parte da imaginação de alguns incautos), João Cabral certamente deve ter sentido no convite, a forma necessária para o nascimento do poema: uma incitação para a gênese da obra.

Como um auto natalino, trata-se de um texto centro da narrativa deve ser a história mais famosa de todas: a da concepção e nascimento do menino Jesus. Mas, e aqui está a grandiosidade do texto, o pernambucano vê nesta oportunidade, a possibilidade de, ao invés de repetir de outra maneira a história conhecida de todos, refazê-la ao seu modo, operando um extenso jogo de inversões e subversões para falar sobre um tema igualmente sabido por todos e ignorado por ampla maioria: a vida desses nordestinos entregues à toada da própria sorte, enquanto quem poderia, de fato, resolver a situação produzida pelo descaso, davam a mínima para o caso ou sempre o tinham como uma reserva para alimentar sua própria riqueza.

É aqui que se mostra o João Cabral mais engajado, muito embora, tenha negado desde sempre o exercício da obra de arte em serviço das questões sociais. Trata-se de uma narrativa contada não pela voz de um aedo, mas da próprio sertanejo imigrante, o que tem conhecimento de causa sobre o drama vivido que, numa espécie de périplo do herói clássico, narra o seu percurso de imigração tomando como rota, tal como fizeram os colonizadores que chegaram pelo litoral e conseguiram avançar até o sertão nordestino, seguindo o curso dos rios ou, quando água escasseia, o próprio leito seco. Todo o itinerário é assinalado pela presença da morte. E o poeta não se expõe para denunciar apenas o mal da seca no sertão, mas o drama vivido por toda gente das margens, ao ponto de o persistência da imagem do fim se tornar em obsessão do próprio retirante que, andado meio caminho, tem certeza de que a melhor sina seria dar fim à própria vida.



Além das questões aqui assinaladas, outras tecem forte diálogo com a formação temática do texto: a fome, o fosso entre ricos e pobres, a mortalidade causada pela violência do homem contra o próprio homem, o latifundiarismo e ausência de políticas agrárias, a luta camponesa pela terra, do trabalhador pelo trabalho e pela dignidade. O texto só adquire a forma explícita do que enuncia (e da encomenda feita por Clara Machado) quando, nos instantes finais, a personagem já instalada na periferia da grande cidade, ainda renitente entre a vida e a morte, recebe a notícia sobre o nascimento do filho, assumindo Severino o lugar de pai de um desvalido numa metáfora ora de continuidade da miséria, ora de que não há que impeça a vida de realizar-se como vida.

Mas, não é apenas a inserção da denúncia social que afasta, por assim dizer, ou texto da sacralidade esperada de um auto de Natal. Digo, afasta, mas é possível também fazer a leitura de uma cobrança crítica do poeta para com o discurso religioso, numa lembrança de que o menino Jesus nasceu também da mesma pobreza e no entanto foi tornado cria do capital e já tão distante dos pobres no discurso invocado pela religião. Por esse ângulo, João Cabral cobra pelo sentido original da data, que é a de tão somente celebração da vida.

O que também fará do texto uma subversão à forma esperado do auto religioso é a inserção de uma série de elementos da cultura popular, absorvidos muito provavelmente dos folguedos ibéricos tornados parte da cultura nordestina; lembre o leitor na leitura de Morte e vida severina na inserção da figura das ciganas que predizem a sorte futura do recém-nascido. E lógico, a própria forma narrativa do auto dialoga com uma recuperação da estrutura do festejo popular, sempre alinhava com uma série de outras reminiscências da cultura universal, quais seja o teatro de Gil Vicente, de William Shakespeare, seja, como evocamos os textos clássicos da literatura grega.

E, não faltará sublinhar o trabalho linguístico conduzido por João Cabral de Melo Neto: a criação de um feminino a partir do substantivo próprio Severino (severina) como significação sobre uma vida rude, minguada e periférica. Ou ainda a destituição do poder de individuação do nome próprio ao tornar, tal como o José de Carlos Drummond de Andrade, o Severino é figura comum, qualquer coisa. Um título como este, as subversões assinaladas na temática, e o exercício sutil com as palavras, fizeram Clara Machado ver o texto totalmente fora do padrão pensado para o que havia sido encomendado. Por isso, Morte e vida severina quarou certo tempo na gaveta.

Só foi parar no teatro em 1965, no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (e olhe quanta ironia!). Chico Buarque compôs a música a partir da obra de João Cabral que confessou anos mais tardes ter sido uma das maiores surpresas de sua carreira: avesso à música e à musicalidade do verso, jamais imaginou que alguém poderia compor alguma coisa a partir de uma obra sua. No ano seguinte, a peça foi premiada no Festival de Teatro da Universidade de Nancy e com turnê pela Europa. Quanto a musicalidade da poesia de João Cabral, bem, Morte e vida severina também foi adaptada para a ópera em Barcelona, provando os deslimites da obra.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Água viva, de Clarice Lispector

Quando Borges era Giorgie

Boletim Letras 360º #231

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Jane Austen: casamento e dinheiro

Boletim Letras 360º #232

Onze filmes que tratam sobre a vida de pintores