O valor de 1984, de George Orwell

Por Rafael Argullol



Outro dia vi na estante o número 1984, que correspondia ao título do romance de George Orwell, e logo reparei no fato de que já passamos um quarto de século daquela data tantas vezes tida como simbólica. Como senti curiosidade por averiguar a vigência das profecias contidas no texto, fui reler o livro. Já havia se passado muitos anos desde minha primeira leitura e recordava mais o que fora dito sobre o romance do que sua narrativa. Nossa sociedade se parecia com algo do que Orwell desenhou como sociedade do futuro?

Logo no início me surpreendeu certo tom ingênuo. Ficava claro que o autor, no momento de escrever o romance em 1949, estava completamente determinado pelas circunstâncias da época. Depois do trauma da Guerra Civil em Espanha, na qual havia participado ativamente, e da Segunda Guerra Mundial, Orwell se mostrava impressionado pelo clima apocalíptico que ia adquirindo a recém-estreada Guerra Fria. E assim, ao construir sua antiutopia, o romancista se servia da linguagem dos totalitaristas de seu tempo como forma para caracterizar os desse futuro que tentava desenhar.

Talvez em 1984 – antes da queda do muro de Berlim, portanto – estas formas de linguagem tinham uma certa força evocadora. Sem dúvidas, tantos anos depois, hoje, parecem extraordinariamente distantes, não porque a ameaça do totalitarismo já não exista, mas porque se manifesta com um estilo muito distinto que, seguramente, seria paradoxal para o próprio romancista. E, com razão, poderia haver ironia maior para o muito irônico Orwell – um seguidor de Swift e Defoe – que comprovar que seu Grande Irmão, o solene olho totalitário inspirado no nazismo e no stalinismo, é hoje o leitmotiv do mais brutal entretenimento televisivo?

Não é que não haja continuidade entre ambos Grande Irmão como fenomenais engrenagens de controle; sem dúvidas, o vigilante supremo de 1984 aparece inevitavelmente naïf em comparação com o sofisticado vampiro que suga as consciências dos telespectadores em nossos dias. Orwell havia analisado cuidadosamente o fenômeno da propaganda de massas na primeira metade do século XX, mas não estava em condições absolutas de prever o refinamento e a complexidade das engrenagens de manipulação coletiva em princípios do século XXI.

Orwell, desde então, não estava equivocado ao prevê o futuro em termos de poder visual.  Numa época de decadência da palavra, era a imagem o que permitiria domesticar a liberdade do ser humano. Em consequência, Orwell imagina uma sentinela cujo olho alcança todos os lugares. Não obstante, 25 depois de 1984, o olho orwelliano parece ao leitor do romance, ingenuamente míope, se colocar em contraste com esse Argos nosso a que acolhemos, monstro de 100 olhos com o qual perseguimos e com que somos perseguidos nessa grande cerimônia de controle que transcorre cotidianamente pelas telas do mundo.

O Grande Irmão concebido por Orwell para a sinistra república futura jamais haveria pensado entrar nas recônditas intimidades hoje apoderadas pelo Estado, a polícia, as empresas de publicidade, as entidades bancárias e qualquer indivíduo com a suficiente obscenidade de desejar reduzir a nada a vida privada dos demais.

O negro ideal do Grande Irmão em 1894 é a extinção do indivíduo, depois da qual começará outra espécie supostamente superior. O’Brien, um dos chefes do Partido, se comunica com Wiston, o último resistente: “E tu te consideras homem? Sim. Se és homem, Winston, és o último homem.” Em nossos dias, um quarto de século depois, exaltamos oficialmente o indivíduo, mas não dedicamos à extinção da intimidade, que é sem dúvida o caminho mais direto para a abolição da liberdade individual. Cada vez que nos submetemos à câmera que nos vigia – e nos submetemos continuamente – cada vez que ouvimos uma voz que anuncia que nossa conversa será gravada – algo que também ocorre com muita frequência – damos um passo a mais até a destruição de nossa vida íntima, a única que temos por certa.  

Dispense seu lastro conceitual, 1984 tem a grande virtude de provocar algo não muito frequente num romance político: medo. Isso foi o que sentiu seu primeiro editor, Fredic Warburg, que a descreveu como “estudo sobre o pessimismo constante, salvo pela ideia de que se um homem pode conceber 1984 também pode ter a vontade de evitá-lo”. E esse é o efeito que provocou em muitos dos que o leram sob uma ditadura. A obra de orwellianos como o polonês Czesław Miłosz ou o tcheco Vaclav Havel, testemunhas que desmentem a ideia do próprio Orwell de que a imaginação literária, como alguns animais selvagens, não se reproduz em cativeiro.

1984, cujo título provisório foi O último homem na Europa também conseguiu algo ao alcance de pouquíssimas obras: converter-se em semeador de metáforas inclusive para aqueles que nunca pensaram em lê-lo. Quem diz que o Ministério da Defesa – antes Ministério da Guerra – não terminará chamando-se, um dia, Ministério da Paz? Por fim, o valor de 1984, ainda que muitos de seus cenários pareçam obsoletos, é a capacidade de antecipação a respeito do perigo fundamental que cerca o homem contemporâneo. Claro que para muitos perder a liberdade individual não é nenhum perigo; isso, aos poucos tem se tornado até em algo desejável. Isso também antecipou Orwell no último instante do romance. Abandonada toda resistência, Winston acaba, também ele, amando o Grande Irmão.

* Este texto é uma versão livre para "1984 + 25" publicado no jornal El País e notas de "El peor sitio del mundo" de Javier Rodríguez Marcos", (também El País) numa revisão em 2013.


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