Dez filmes que ganharam o Prêmio Nobel

A ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, a alemã Herta Müller, não dispõe de uma obra lida pelo cinema (ainda), mas, sabedores de que vários outros escritores ganhadores da honraria tiveram o privilégio (ou o desgosto) de ter alguma ou grande parte de sua obra levada para as grandes telas, resolvemos listar dez títulos que consideramos essenciais, isto é, aqueles que só deram privilégio aos seus autores. Não é um ranking, nem é uma lista que busque esgotar o número de adaptações, capazes de preencher outras quantas listas, mas é um indicativo de que boas obras podem render boas leituras pela sétima arte. 



1. As vinhas da ira (1940). De Jonh Ford. Nunnally Johnson escreveu e produziu esta maravilhosa adaptação do clássico de John Steinbeck sobre um ex-presidiário que decide ir à Califórnia com sua família. Uma adaptação exemplar de Ford que faz com que a época da Grande Depressão seja refletida como nunca antes, nem depois, foi refletida pelo cinema. O diretor, a estupenda Jane Darwell e Henry Fonda, no papel de sua vida (e isso é dizer muito) acabaram ganhando Oscar.

2. Doutor Jivago (1965). De David Lean. Um dos grandes do cinema criou uma superprodução sobre o célebre romance do russo Boris Pasternak. Aqui tudo é espetacular e grandioso. Desde a trilha sonora de Maurice Jarre. O resultado foi ser contemplado com cinco prêmios no Oscar.

3. La colmena (1982). De Mario Camus. Um dos mais importantes cineastas espanhóis adapta para o cinema o romance de um seu conterrâneo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1989. A crítica lê esse filme como uma joia da qual custa ao espectador tirar os olhos. Um retrato com crueldade sobre o pós-guerra em Espanha marcado por uma quantidade de sujeitos desemparados – a releitura mais fiel que traz o próprio Camilo José Cela, o escritor, numa participação memorável como inventor de palavras.



4. Ninguém escreve ao coronel (1999). De Arturo Ripstein. Adaptação do magnífico romance de Gabriel García Márquez, considerado sempre um autor difícil de se levar para a sétima arte; mas aqui, até o galo contempla uma das atuações memoráveis no cinema. Ripstein sabe ser fiel ao texto do mestre inclusivo quando o trai, enquanto que os atores fazem seus as personagens, ao ponto de que já impossível reler o romance sem imaginar seus rostos. Fernando Luján arrasta com garbo a derrota diária do velho coronel, acompanhado por uma Marisa Paredes esplêndida. Já terão adaptado outros romances de García Márquez, mas essa é, sem dúvidas, a mais completa de todas.

5. Pantaleão e as visitadoras (1999). De Francisco J. Lombardi. O curioso nesse filme é ter sido rodado no mesmo ano da adaptação de García Márquez. Lombardi conseguiu o que não havia conseguido nem o próprio Mario Vargas Llosa, autor do romance original, que levou ao cinema em 1975 (com José Sacristán como Pantelão) sem grande êxito. Com a experiência do brilhante A cidade e os cães, o diretor peruano soube captar toda a ironia sobressalente no texto, com a ajuda de um elenco idôneo. Especialmente brilhante resulta a aposta pelo casal intrigante formado por Salvador del Solar e Angie Cepeda nos papéis principais.

6. Quo vadis? (1951) De Mervyn Le Roy. Apesar de sua ilustre origem (o romance do polaco Henryk Sienkiewicz), a de Mervyn Le Roy é a típica dos romanos, que tinham sido jurado aos cristãos e-ou sentiam um carinho excessivo por seus leões, alimentados com um zelo desmesurado. O filme se destaca pelo elenco e pela boa atuação da técnica. Sophia Loren estreava num minúsculo papel como escrava.

7. O senhor das moscas (1990). De Harry Hook. Interessante adaptação do romance de William Goldman sobre um grupo de jovens capturados numa ilha. Sem a supervisão de seus pais, seu comportamento não diz nada de bom da natureza humana. Falta brilho ao trabalho de Hook, mas sobre inteligência para não sair muito do texto original.



8. O tambor (1979). Excelente adaptação do romance de mesmo título de Günter Grass sobre um menino com ao menos um par de peculiaridades: se nega a crescer e possui uma voz capaz de romper os tímpanos de um elefante. A só tempo original, divertido e dramático, o filme mostra o auge do nazismo através dos olhos do pequeno protagonista, uma forma apaixonante de contar a história. Os mais puristas se queixaram da inevitável simplificação do romance, mas o filme foi um dos maiores êxitos do cinema alemão das últimas décadas.

9. El callejón de los milagros (1995). Jorge Fons. Grande aposta do cineasta que se atreveu a adaptar o romance do egípcio Naguib Mahfuz. A história transcorre em pleno centro da Cidade do México, onde as vidas das mais diversas personagens se cruzam. Em seu país, o filme levou onze prêmios Ariel.

10. Ensaio sobre a cegueira (2008). De Fernando Meirelles. Até essa data, Saramago ainda não era um autor muito adaptado para cinema; apenas A jangada de pedra, um estranho filme conduzido por George Sluizer com Federico Luppi, Icíar Bollaín e Gabino Diego. Fernando Meirelles, entretanto, reescreve de maneira ambiciosa um dos livros mais conceituais do escritor português.


* As indicações são de Federico Marín Belón

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