Dom Quixote, de Miguel de Cervantes

Por Pedro Fernandes

Dom Quixote por Pablo Picasso (reprodução)


Alguém já disse que o livro de Miguel de Cervantes é oferece pelo menos duas possibilidades de estudo: uma compreendê-lo como um fenômeno editorial e outra uma leitura sobre a vida da personagem principal. Mas, além dessas, é preciso sublinhar que, um texto multissecular como o é, oferece quase uma infinita quantidade de leituras possíveis. Não fosse isso e esta não era uma das obras mais importantes da humanidade; não fosse isso e esta não teria avançado pelas fronteiras cavilosas do tempo e, até então, resistido a elas, lembrando-nos sempre duas coisas: há possibilidades do eterno e toda obra que atende pelo epígono de grande obra deve ansiar ser tal como é o Dom Quixote.

Mas, dentre as diversas possibilidades de leitura da obra publicada em duas partes e separada por algum tempo de diferença entre a primeira e segunda (uma de 1605 e a outra de 1615), marcaremos este texto pela demarcação assinalada entre as duas primeiras possibilidades de leitura, isto é, como a personagem criada por Cervantes é um elemento peculiar entre uma série de acontecimentos que inovaram a cultura da escrita no início da Idade Moderna. Outrossim, concordamos que este é, como outros textos de literaturas mais antigas (Ian Watt em Ascensão do romance considera, a partir da língua inglesa, que os textos de Daniel Defoe, Richardson e Henry Fielding, por exemplo, constituem-se em fundadores da moderna literatura) uma das obras que terá revolucionado o modo de fazer romance ou mesmo terá sido uma das que contribuíram para a apresentação e posterior consolidação do gênero.

Ressalva seja feita a Watt, mas a evidência da obra espanhola escrita pouco antes das obras de Defoe e Fielding está impresso na literatura dos dois ingleses; assim como se verifica sua influência na criação de personagens clássicas da literatura do século XIX, quais sejam as forjadas por Gustave Flaubert (Madame Bovary), Herman Melville (Moby Dick) ou mesmo Liev Tolstói (Anna Kariênina) e James Joyce (Ulysses). Além de influenciar toda uma verve de importantes nomes da literatura, tal como terão feito a literatura de Homero e outros clássicos, o Dom Quixote ainda tem sido escopo para peças de teatro, música, dança, ópera, o cinema, a HQ e toda a sorte de expressões das artes plásticas, de William Hogarth a Francisco Goya, de Honoré Daumier a Vasco Grado, de Salvador Dalí a Pablo Picasso.

É nessa esteira que, nomes como Milan Kundera, em A arte do romance, considera Miguel de Cervantes não apenas um introdutor da nova forma romanesca, mas um dos fundadores do tempo moderno ao lado de nomes como René Descartes; “se é verdade que a filosofia e as ciências esqueceram o ser do homem, parece mais evidente ainda que com Cervantes se formou uma grande arte europeia que é justamente a exploração desse ser esquecido”, lembra o romancista tcheco.

Bem, depois das primeiras edições, o Dom Quixote passou por várias reedições, algumas delas introduziram várias revisões ao texto original; a de 1780 ficou sendo quase uma versão definitiva. O trabalho a cargo de Joaquín Ibarra foi conduzido pelo patrocínio da Coroa Espanhola e levou treze anos até sua conclusão: ao invés dos dois tomos, foram impressos quatro volumes e uma tiragem muito restrita de apenas 1 600 exemplares. O trabalho de Ibarra mereceu a fabricação de um papel especial e a fundição de novos tipos gráficos.

Até o presente a hipótese mais aceita para a escrita da obra diz que, Cervantes teria sido motivado pela extensa circulação dos romances de cavalaria (então uma praga tal como os Best-Sellers da atualidade). Se ela é verdadeira ou não, talvez haja motivos ainda de investigação; mas, sendo verdadeira, tem-se um motivo de porquê ela também teria caído de imediato no gosto popular e servido de base para o plágio (numa época em que o termo não constituía crime autoral). O escritor espanhol sem querer cunhou também um Best-Seller. Quanto à cópia descabida de sua obra, ela está apresentada de maneira muito explícita na segunda parte do romance, escrito, muito provavelmente, com o intuito de colocar um ponto final na história do cavaleiro. Todos sabemos do desfecho negativo dado à vida do pacato leitor de novelas de cavalaria e a negativa de seus feitos.

Mas, há elementos inerentes à própria obra, que terão servido para, ao contrário dos livros de cavalaria comuns ao seu tempo, ter impulsionado o romance a romper as barreiras do tempo. Vargas Llosa (“Um romance para o século XXI”) compreende que entre esses elementos, o principal talvez seja a capacidade de Cervantes em que dar forma a natureza humana através de personagens e situações a um só tempo singulares e universais. O escritor peruano identifica entre as qualidades da obra espanhola a forma como reatualiza a esperança de realização do mito ou transformação da ficção (aquilo projetado pela consciência de Dom Quixote) em história viva. Outro tema, destaca, é o da liberdade que surge da inteligência, da vontade e da luta; mil vezes vencido o Quixote é o que não se rende, nem à ausência de liberdade, à injustiça, nem ao amor, nem ao futuro.

Martín de Riquer (“Cervantes e o Quixote”) compreende que o livro de Cervantes ratifica uma crítica à sociedade de seu tempo com um estilo irônico e humorístico, o que terá produzido a identificação imediata dos leitores do século XVII, ainda muito ligados à literatura como forma de entretenimento. E a personagem criada pelo escritor espanhol, curiosamente, se funda num traço de oposição ao estilo construído no romance, é um ser melancólico que se move pela sinceridade (tão extrema e desajustada ao tempo de desencanto vivido por ela) que causa esse gesto de desajustado – o motor do riso. Essa constatação de Riquer ganha maior respaldo por José Manuel Blecua (“A língua de Cervantes e o Quixote”): Cervantes imprime novas forças a um estilo nascido no século XVI, conhecido como natural, em contraposição com a afetação que se manifesta em condutas humanas e no uso da língua; isto é, une o erudito ao popular, expressado na quantidade variada de histórias, nas cantigas, textos paralelos enxertados ao longo do enredo principal cujo interesse tem um caráter quase-pedagógico de ensinar ao leitor sobre as condutas num mundo em decomposição e assinalado pelo levante da ciência e da técnica sobre os moldes da religião e do mito. Essa mescla entre o erudito e o popular se verifica na própria composição das personagens: um fidalgo (Alonso) e um simples camponês
(Sancho).

Nesse exercício de criação, Cervantes introduziu – ao modo do que fizeram grandes obras da literatura brasileiro (e pensamos logo no Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa) – uma renovação não apenas no modo de narrar, construído pela intersecção de pelo menos três temporalidades distintas (a história, as narrativas perpendiculares, e a metanarração, efeito igualmente criado pelo espanhol), mas da própria linguagem. Dom Quixote teria inserido entre criações ou apropriações da língua popular e de outros dialetos uma quantidade significativa de vocábulos suficientes para o exercício de oxigenação da língua materna.

Uma observação pertinente, levantada por Milan Kundera no já referido texto de A arte do romance (“A herança depreciada de Cervantes”), e com ela concluímos este texto, é que o trabalho do escritor espanhol foi de representar um mundo como ambiguidade, isto é, o Quixote enfrenta um mundo de uma só vez marcado pela verdade absoluta é pelas muitas verdades relativas que se contradizem.

“Quando Deus deixava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e sua ordem de valores, separara o bem do mal e dera sentido a cada coisa, Dom Quixote saiu de sua casa e não teve mais condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do Juiz supremo, surgiu subitamente numa temível ambiguidade; a única Verdade divina se decompôs em centenas de verdades relativas que os homens dividiram entre si. Assim, o mundo dos tempos modernos nasceu e, com ele, o romance, sua imagem e modelo”, assinala Kundera.

Há, é lógico, muitas outras questões de igual ou maior importância capazes de justificar o valor inestimável dessa obra de Cervantes. Cabe aos leitores se debruçarem pelo mundo criado por Dom Quixote e seu fiel amigo Sancho Pança e descobrirem por sua conta quais são as que mais lhe significam. É assim, com todo clássico. Tal como disse Ítalo Calvino nas muitas aferições sobre esse termo, o Dom Quixote é um clássico porque vem antes de outros clássicos (no texto citamos alguns deles), mas quem leu antes os outros e depois o lê a obra de Cervantes reconhece logo o seu lugar na genealogia. Por fim, o romance de Cervantes é aquele que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível. 




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