Jules e Jim - uma mulher para dois, de François Truffaut




Diretor celebra alegria de viver nos vínculos entre personagens que compõem triângulo amoroso


Se Jean-Luc Godard foi o cineasta mais inovador da Nouvelle vague, François Truffaut foi o mais amado. Dono de uma personalidade afetuosa e tranquila, ele nos legou uma obra delicada, que fala de sentimentos, relacionamentos, a alegria das pequenas coisas, e talvez essa ternura tenha ajudado no carinho do público pelo diretor. Alguns dos seus ideais estão sintetizados em Jules e Jim - uma mulher para dois, história de um triângulo amoroso que sobrevive a uma guerra e a muitos percalços. A trama é baseada em um romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché que Truffaut comprou em um sebo anos antes e ficou encantado com o que chamava de "perfeito hino ao amor e, talvez à vida". O então crítico prometeu que, caso um dia fizesse filmes, adaptaria Jules e Jim.

O austríaco Jules (Oskar Werner) é retraído e introspectivo, culto e inteligente. Torna-se amigo do francês Jim (Henri Serre), escritor como ele e quase o seu oposto em temperamento - bem humorado e extrovertido. De volta a Paris depois de uma viagem à Grécia, os dois conhecem Catherine (Jeanne Moureau), uma mulher livre, liberal e apaixonada pela vida. Ambos se apaixonam por ela, e os três dão início a uma sólida amizade e um amor platônico. Catherine e Jules se casam e têm uma filha, e Jim é enviado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Anos depois o trio se reencontra, ela se descobre apaixonada por Jim e eles se tornam amantes. E assim se passam décadas, sem que ela consiga se decidir entre um deles.

Jules e Jim é celebração do amor e da sinceridade em tempos em que valores como esses parecem extintos. Impossível não se encantar com Catherine e sua alegria, graça e independência, somados a honestidade com os próprios sentimentos. Tragédias humanas como a guerra chegam e vão, e ela se mantém coerente com o seu único objetivo - ser feliz. Jeanne Moureau nunca esteve tão bem, tão bela, tão senhora de si.

Este é o terceiro longa de Truffaut. Os primeiros são as memórias de infância em Os incompreendidos (1959) e a homenagem ao noir Atire no pianista (1960). Em 1971, o diretor viria adaptar mais um livros de Henri-Pierre Roché, Duas inglesas e o amor.


* Revista Bravo!, 2007, p.43.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Quando Borges era Giorgie

Boletim Letras 360º #231

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Jane Austen: casamento e dinheiro

Boletim Letras 360º #232