João do Rio



No dia 24 de junho de 1921, o Rio de Janeiro acordou diante da seguinte notícia, glosada pelos principais jornais da cidade: "Uma notícia desoladoramente triste veiu surprehender, hotem, à noite, quantos trabalhavam nesta casa - o passamento de João Paulo Barreto, ou melhor 'João do Rio'" (A Razão, 24 jun 1921).

Quasi á meia-noite, uma telephonada annunciava-nos que Paulo Barreto, em caminho para casa, em um automóvel, se sentira mal e que fora conduzido a sede do 6º. districto policial, de onde já haviam chamado uma ambulância da Assistência Pública para socorrer o illustre enfermo; e três minutos depois, quando um de nossos companheiros descia  já as escadas para ir, de nossa parte, levar-lhe uma palavra de affetuoso conforto, outra telephonada tiniu a notícia de sua morte (O Paiz, 24 jun 1921)

Dois dias depois, outro evento superava em espetáculo e comoção a própria morte o conhecido jornalista - seu sepultamento:

Das janelas da redação de A Pátria, a massa poplar conglomerada na avenida, á espera do saimento fúnebre, apprecia impotente.

Quantos milheiros de pessoas se comprimiam ali, ao sol, de pé? O vozeio da multidão subiu em ondas, de som, como marulho de águas revoltas. O trânsito de vehiculos interrompera-se. Mais tarde, das janelas superiores do palácio Monroe, o espetáculo era ainda mais bello: toda a curva immensa da Avenida á Beira Mar, desde a sua conjucção com a Rio Branco, até o extremo da Gloria e ao Russel, ondeava-se, agitava-se, em formigamento de gente. Homens, mulheres, gente modesta vestindo roupas de todo o dia, cavalheiros de lucto, senhoras trajando sedas negras, dir-se-hia que toda a população da cidade se fora portar nas ruas por que passaria o préstito, para prestar a Paulo Barreto as homenagens do seu carinho e da sua admiração... (O Paiz, 27 jun 1921)

*

João do Rio é o pseudônimo pelo qual ficou conhecido Paulo Barreto. Nascido em 5 de agosto de 1881, esse carioca de origem, nome e instinto foi um dos mais proeminentes jornalistas de seu tempo, deixando uma obra vasta e de difusas fronteiras com a literatura. Autodidata, Paulo Barreto teve apenas uma breve passagem pela escola. Sua escrita, inovadora na forma e no conteúdo dentro do campo literário brasileiro, fazia-se a partir da sua larga erudição, que incluía desde autores de tradição naturalista européia até nomes da filosofia grega passando por uma especial afeição ao decadentismo de Oscar Wilde. João do Rio tinha no jornalismo sua profissão, o que o diferenciava da esmagadora maioria de seus predecessores (como Machado de Assis, Aloísio Azevedo, Olavo Bilac e tantos outros) que viam as redações como um complemento financeiro às suas atividades principais de funcionários públicos, advogados etc. Ao todo foram 22 anos dedicados à publicação de artigos que, geralmente, na forma de crônicas, registravam suas atividades como correspondente internacional, observador do cotidiano da cidade e crítico teatral e literário.

Mulato, calvo, gordo e homossexual, a personagem João do Rio descolou-se de sua matriz biográfica (Paulo Barreto) e garantiu espaço no inventário de seu tempo. Com seus fraques verdes, sua presença era indisfarçável e seu público jamais era neutro. Odiados ou amados, respeitados ou desprezados, João do Rio e sua obra devem ser analisados sempre nos termos de sua simbiose.

Paulo Barreto morreu da mesma forma como viveu e escreveu. Rodeado dos aparatos materiais, ideológicos e sociais da vida nas grandes cidades, o autor fez do urbano seu mote único e inesgotável, e sua própria imagem pública era uma alegoria do ethos da metrópole. Em sua obra, em sua biografia e, como vimos, também em sua morte, o urbano extrapolava em muito a condição de adjetivo, constituindo a própria visão de mundo do cronista e do habitat que registrava. O ritmo, a sensorialidade, as técnicas e as sociabilidades que regiam a vida da capital da República nas primeiras décadas do século XX são o Rio de Janeiro que Paulo Barreto deixou à posteridade.

Paulo Barreto, o João do Rio, deixou uma vastíssima obra de cerca de 2.500 textos, entre peças teatrais, críticas literárias, contos, traduções e crônicas (essas compõem a maior parte de seus escritos). Deste montante, apenas um terço encontra-se publicado e, dentre reedições e coletâneas, veio a público somente o material que o próprio autor havia publicado em vida. É curioso notar como grande parte destas reedições foi lançada nos últimos dois anos, quando foi observado um verdadeiro boom de interesse no autor. Figura famosíssima em seu tempo - que chegou a ser um Best-Seller com o seu As religiões do Rio -, João do Rio passou quase um século sem ser lembrado.

Da data de sua morte até 1971, quando foi lançada uma antologia de sua obra, seu nome deu título a apenas três capítulos de livros dedicados à literatura brasileira. Somada a esta compilação, nessa mesma década o cronista teve mais dois livros dedicados à sua vida e obra (Vida vertiginosa, de Raimundo Magalhães Júnior; e Morte e prazer em João do Rio, de Carmen Lucia Seco). Antes disso, nos anos 1930, um estudo peculiar (para não dizer excêntrico) estudava-se à luz da psiquiatria, como exemplo e pathos neurológico, e foi o único volume sobre o autor ao longo de 50 anos (A arte e a neurose em João do Rio, de Neves-Manta). A década de 1980 assistiu a espasmos mais recorrentes de atenção ao cronista, como mostra a publicação do artigo "Radicais de ocasião", de Antonio Candido. À parte de dois outros artigos, na mesma década foi lançada uma nova compilação de crônicas (Histórias de gente alegre). Nos anos 1990, o mercado editorial se mostrou um pouco mais simpático ao autor, com a reedição de Correspondências de uma estação de cura (seu único romance) e A mulher e os espelhos (peça teatral). Além de dois outros capítulos a respeito de João do Rio, foram publicados também nessa época uma nova biografia e um (utilíssimo) catálogo bibliográfico (ambos de João Carlos Rodrigues), que constituíram a pesquisa de maior fôlego até hoje empreendida sobre o autor. Mas somente nos anos 2000, com a reedição de seus maiores clássicos (A alma encantadora das ruas, Vida vertiginosa e As religiões do Rio), o jornalista voltar a figurar constantemente nas prateleiras das livrarias. 

* Este texto é composto de fragmentos de De olho na rua: a cidade de João do Rio, de Julia O'Donnell, publicado em 2008 pela Editora Zahar.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239