Intervalo

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Dia da poesia em Natal



Bem, pêsames aos poetas do Estado do Rio Grande do Norte. Segundo notícia publicada em 20 de fevereiro passado no site do Jornal Diário de Natal, a Prefeitura do Natal, através da Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte) promete um dia da poesia mirrado. É essa a conclusão que tiro quando li a matéria. Aplaudo apenas a decisão da organizadora do projeto e chefe do Núcleo de Documentação e Literatura da Capitania das Artes, Cláudia Magalhães, com o seu "algumas novidades": “O Dia da Poesia esse ano será totalmente voltado para os poetas locais. Nós poderíamos trazer artistas de fora, mas resolvemos valorizar os que são daqui”. Concordo. Isso já deveria ser feito em todo e qualquer evento literário aqui no Estado. Valorizemos os de cá, depois... bem, depois os de lá. Temos tão poucos espaços para nos apresentar. Temos tão pouca atenção para a arte em geral. E quando as brechas aparecem sempre são preenchidas com autores que já têm seu nome. Isso está certo de valorizar os locais, agora, nem por isso devemos ter algo isolado e mirrado só porque os de fora não vêm. Bem, nos iludamos com um dia apenas de comemoração e outros 364 dias de luto.


Leia a matéria do Diário de Natal aqui.



Intervalo

V Bienal

Já começaram os preparativos para a V Bienal Nacional do Livro de Natal, que acontecerá entre os dias 02 e 10 de outubro. Este ano a organização do evento divulgou a realização de uma espécie de pré-bienal que visa divulgar o evento. Essa pré-bienal fará homenagem ao centenário de Os sertões, de Euclides da Cunha. Terá locação em vários shoppings da cidade com exposições semelhantes as do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Além desta novidade, o realizador do evento projeta dar ares de internacional à feira com a vinda de escritores portugueses e franceses ainda não divulgados. Tem mais outra novidade. Diferente dos anos anteriores a localização do evento esse ano será na Praça Cívica da UFRN. Esperemos, pois. Esperemos que venham livros de qualidade e de preços acessíveis ao público e não seja uma bienal elitista.



Os escritores

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Luís Fernando Verissímo

imagem do escritor Luís Fernando Veríssimo. fonte. Portal Literal



Todos os livros que escrevi até hoje foram encomendados. Agora estou fazendo o primeiro que eu mesmo me encomendei.
(Luís Fernando Veríssimo ao falar sobre seu novo livro previsto para ser lançado no final de 2009)

Semana dessas, Luís Fernando Veríssimo esteve lançando seu mais novo romance em território espanhol. O livro Borges e os orangotangos eternos, homenagem ao autor argentino Jorge Luis Borges, agora foi traduzido para o espanhol, depois de já está nas prateleiras doutras línguas estrangeiras. Pela ocasião pronunciou a frase que epigrafei este post, ao comentar acerca da sua nova obra, Os espiões, uma trama que se passa no interior do Rio Grande do Sul.

Com mais de 50 obras publicadas, autor de personagens famosos no Brasil como o Analista de Bagé ou a Velhinha de Taubaté, Luis Fernando Verissimo diz que já realizou todos os sonhos da sua vida, inclusive o mais desejado: ter um neto. Nascido em Porto Alegre, o escritor é filho doutro escritor, Érico Veríssimo. Quando criança teve de morar fora do Brasil, várias vezes. Na primeira ocasião, em 1943, o pai fora lecionar na Universidade Estadual, em Berkely e Los Angeles. Esse trajeto para os Estados Unidos faria novamente mais tarde, em 1953, quando seu pai assume o cargo de diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana.

Em 1962, trabalhando como tradutor e redator de publicações comerciais, Veríssimo vem morar o Rio de Janeiro, onde conhece Lucia Helena Massa com quem se casa dois anos depois. De então começa sua perigrinação por jornais e revistas do País. Foi colunista nos jornais Zero Hora, Folha da manhã, O pato macho (jornal alternativo criado juntamente com um grupo de amigos que passa a circular em Porto Alegre), caderno B, do Jornal do Brasil, na revista Domingo, também do Jornal do Brasil, Correio do povo, O globo, além de tornar-se colunista da Veja entre os anos de 1982 e 1989, retomando a função mais tarde e sendo ainda colunista por lá.

Essa obra com mais de 50 títulos começa a ser escrita em 1973, ano em que sai publicado pela José Olímpio, o seu primeiro livro, O popular. Dois aos mais tarde, sai seu segundo livro de crônicas, A grande mulher. De então vem uma sucessão de lançamentos, dentre os mais importantes estão: 1977, Amor brasileiro; 1978, A mesa voadora; 1979, Ed Mort e outras histórias; 1980, Sexo na cabeça; 1980, Traçando Nova York (livro primeiro de uma série de livros sobre viagem); 1981, O analista de Bagé; 1982, O gigolô de palavras; 1983, A velhinha de Taubaté; 1984, A mulher do Silva e O rei do povo; 1985, A mãe de Freud e Ed Mort, procurando Silva; 1987, O marido do dr. Pompeu e O jardim do diabo (seu primeiro romance); 1990, Peças íntimas; 1992, O suicida e o computador; 1994, Comédias da vida privada; 1997, A versão dos afogados; 2000, Borges e os orangotangos eternos e As mentiras que os homens contam.


Para ler a matéria com o escritor sobre o lançamento de seu livro em Espanha, clica aqui.

Para acessar ao site pessoal do autor, clica aqui.


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fontes. o texto para o post foi construído com informações do site pessoal do escritor e com texto do jornal Folha de São Paulo.

Intervalo

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009



Fundação José Saramago


fachada da Casa dos Bicos - sede da Fundação José Saramago, Lisboa, Portugal, edifício que Brás de Albuquerque, filho do vice-rei da Índia Afonso de Albuqueque, mandou construir em 1523, após uma viagem a Itália, e que teve como modelo o Palácio dos Diamantes, em Ferrara. fonte. Blogue da Fundação José Saramago.


Ontem, 25 de fevereiro de 2009, comemorou-se o primeiro ano da Fundação José Saramago, em Portugal. O projeto/fundação é resultado de um trabalho belíssimo e exemplo a outros países que carreguem ou não em si estrelas do porte do escritor português. Vendo o portal da Fundação fico a pensar em como seria no Brasil um projeto de igual interesse, coisa que desconheço. Procura-se tanto o sentido da literatura e sua real função para com a sociedade e atitudes como a da Fundação José Saramago não tão distantes de nós parece responder mais que claramente as indagações. Basta que se cite que em ano de atuação, a Fundação portuguesa desenvolveu e desenvolve vários projetos que vão desde a preservação da memória cultural do país ou do escritor Nobel a projetos de preocupação para com o social, como a educação dos menos favorecidos, a projeções de falas em torno da obra de outros intelectuais ou de fatos de importância mundial, como o evento realizado em comemoração a Declaração dos Direitos Humanos. O foco do projeto/fundação, portato, parece residir no interesse local e mundial, em questões que dizem respeito às inquietações sócio-políticas do escritor e da sociedade contemporânea. Estão os portugueses de parabéns pela fundação e pelo escrior José Saramago.


Para ver a página da Fundação José Saramago, clica aqui.

minhas falas

“Eu não viajarei para Auschwitz”


Pedro Fernandes de O. Neto


Bem, leitor, confesso que minha consciência novamente me obriga a render matéria sobre um assunto que só pensei escrever sobre, apenas um artigo. Mas, o caso é forte. É um caso daqueles, como diria uns, de rasgar a goela. Não desce de forma alguma. E calar-se parece consentir. Trata-se da novela Williamson, que discorri aqui noutro dia. Ele mesmo. O dito cujo mesmo que anda pregando aos quatro ventos que o Holocausto não existiu.

Pois bem, esse mesmo volta à telinha de novo e de novo com a mesma história. Nesse vale a pena ver de novo, depois de uns imprensões fuleras de Ratzinger, que só convenceram a meio mundo de fanáticos de que ele está realmente preocupado com o caso, porque se realmente estivesse já teria feito o que João Paulo II fez, ou melhor, se se preocupasse com o caso sequer teria reabilitado o louco, Williamson afirmou, segundo o jornal Folha de São Paulo, à revista alemã “Der Spiegel” que está disposto a rever as evidências históricas, mas que não vai visitar Auschwitz, grupo de campos de concentração localizados ao sul da Polônia e considerado símbolo do Holocausto: “Não, eu não viajarei para Auschwitz. Eu encomendei o livro de autoria de Jean-Claude Pressac. Ele se chama ‘Auschwitz: Technique and Operation of the Gas Chambers’ (Auschwitz: técnica e operação das câmaras de gás). Uma cópia está sendo enviada para mim e eu lerei e estudarei” – palavras de Williamson. [Palmas! O homem está mesmo disposto a re-escrever a História.] E re-afirmou: “não existiram câmaras de gás, e [...] entre 200 mil e 300 mil judeus sofreram nos campos de concentração.” [Leitor, onde estão as autoridades? Prenda esse homem, ele é o novo Hitler.]

Como pode haver, pergunto eu, mente doentia a ponto de afirmar tanta barbárie? E ninguém diz nada. Ninguém faz nada. Assistem. Só assistem. E vibram. Pensei que depois da Segunda Guerra tivéssemos construído uma certa imagem do horror, do que é o horror. Mas não. Parece que não. Parece que o conflito deixou ainda fiapos de raízes em terras muito férteis. E capazes de procriarem-se. Não duvido nada da capacidade de um sujeito desses. Hitler, contam as biografias, começou assim, com um simples ódio pelos judeus e no final conseguiu reunir toda uma massa em torno de um único objetivo, o de exterminar os judeus da face da terra.

E a papelada de Williamson não para por aqui. Também ele é ciente que Deus não queria que as mulheres estudassem e que o 11 de setembro foi uma conspiração dos Estados Unidos. Desse último fato, o dos atentados, até me calo e ponho mesmo minhas barbas de molho, porque com aquele outro louco que saiu do poder, tudo era possível. E parece que um louco entende bem o outro. Agora do das mulheres...

O pior dessa crise não é nada, é o sentimento de impunidade diante de casos desse tipo. O Vaticano e suas vaticanices fazem o papel de Pilatos diante dos fatos ao dizer que as declarações feitas por Williamson não era de conhecimento do papa Bento XVI no momento em que suspendeu a excomunhão dele e de mais outros três bispos conservadores, membros da seita São Pio X. Acreditamos. E como acreditamos! Leitor, cá entre nós, Sua Santidade reza demais! Tem muito rosários para debulhar durante o dia. Muitas missas a rezar. Tanto que não sabe nem dos fuxicos que rolam por entre as saias episcopais. E faz as coisas sem pensar... “É que me escapuliu... Foi sem querer querendo...”

E já perto das cenas finais desse capítulo da novela Williamson, mais uma vez a voz ao “mocinho”: “Nós apenas queremos ser católicos, nada mais. Nós não desenvolvemos nossos próprios ensinamentos, mas estamos apenas preservando as coisas que a Igreja sempre ensinou e praticou [...] tudo foi mudado com o Concílio Vaticano Segundo e repentinamente [os ensinamentos católicos] se tornaram um escândalo. [...] Como resultado, nós fomos jogados à margem da Igreja, e agora as igrejas vazias e o envelhecimento do clero deixa claro que as mudanças foram um erro, nós estamos retornando ao centro. É assim que funciona para nós conservadores: é provado que estamos certos, desde que consigamos esperar o suficiente”. Ufa! Discurso salvador. Leitor, meta a mão na consciência e faça seu próprio julgamento. Eu prefiro ficar por aqui.




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artigo publicado no jornal Correio da Tarde, de 19 de fevereiro de 2009.

Minhas falas

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Este ensaio que posto hoje no Letras in Verso e [Re] verso compus em 13 de novembro de 2003. Pelo menos este foi o registro que encontrei quando dei de cara com o texto ao revirar alguns papéis adormecidos na poeira destes anos. Depois deste post outros seguirão, provenientes do mesmo baú. Trago-os a estes espaço como resgate e como registro.


O poder da escrita


Por Pedro Fernandes de O Neto


No princípio era verbo


Uma folha branca. Ela é um desafio para escritor de qualquer nível. Vencido a cada momento em que surgem novas palavras e idéias para preenchê-la. É uma batalha árdua que nos dá prazer ao vencê-la toda vez que somos levados a escrever coisas, mesmo se às vezes não temos nada para escrever. Vejo a escrita como um processo delicado. Delicado e interessante. Que nos coloca em situações a ser resolvidas. Comparo escrever com entrar num mundo negro e desconhecido. É um problema que nos traz satisfação e conhecimento. Um conhecimento que como o adquirido através da leitura ninguém é capaz de roubar-nos.

Já parou para imaginar o mundo tal qual este que hoje vivemos sem a escrita? Será que o haveria... Seríamos, muito provavelmente, um elo perdido como é o antepassado a ela, em que pouca coisa conhecemos e o pouco que conhecemos não passam de suposições. Vejo a escrita como capaz de construir e erguer o universo que somos e que habitamos. A escrita é ainda porto seguro para os que têm necessidade de desabafar. Toda vez que sentamos para escrever desenvolvemos uma relação de intimidade, até mesmo simbiótica com o papel e a própria escrita.

Escrever, pois, seja lá o que for, nunca será perda de tempo. Agora mesmo estou prestes a concluir este texto. As palavras que estavam escondidas jorram e com a escrita posso derramá-las neste espaço, que antes limpo corria o risco de limpo ficar para sempre. Escrever é criar elos no emaranhado das palavras fazendo com que nossa própria história não se perca. Pela escrita permaneço vivo. A escrita me é a ressurreição.

Alguns dos filmes brilhantes

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Na primeira temporada do quadro ALGUNS DOS FILMES BRILHANTES estamos exibindo a lista publicada em 2007 pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.


06

Al

cena do filme 8 1/2, de Frederico Fellini. fonte. Msn Encarta.



8 ½, Frederico Fellini


Crise criativa conduz artista a romper amarras e a se lançar numa viagem estética sem bússola


Em 1963, Frederico Fellini levou, com 8 ½, seu cinema a novos patamares. Se seus filmes “realistas” dos aos de 1950 já possuíam forte carga onírica e pessoal (a protagonista de Noites de Cabíria, de 1957, era uma referência às mulheres de rua que o diretor conhecera), a partir de A doce vida (1960) a subjetividade do diretor só se acentuou. Em 8 ½, seu filme assumidamente mais autobiográfico e delirante, funde fantasias pessoais no universo do protagonista, Guido Anselmi (Marcello Mastroianni).


Guido é um cineasta quarentão que vive um vazio criativo (tal como Fellini, vítima da mesma situação) e parte para uma instancia hidromineral a fim de encontrar o sentido de sua vida. Vários flashbacks traçam momentos importantes de sua vida, como a repressão católica (outro dado tirado da biografia felliniana) e suas aventuras com mulheres. Estas, por sua vez, empurram-no às suas fantasias, onde as fêmeas seriam perfeitas (sonho ilustrado na mais famosa sequencia do filme, quando Guido chicoteia um rebelde que reclama contra o seu machismo). Por outro lado, 8 ½ reverencia a mulher na figura iluminada da atriz Claudia Cardinale.


O filme marca uma virada de percurso na carreira de Fellini, que alçaria voo próprio além das exigências comerciais. A mudança é indicada quando Guido, a certo momento, cansado da equipe que o persegue para ele logo iniciar as filmagens de um grande longa-metragem, mata simbolicamente o grande produtor.


Esteticamente, trata-se do longa mais inventivo de Fellini, em que imagens quase surrealistas entrecortam a história. Tamanha foi a ousadia para aqueles anos 1960 que 8 ½, filmado em preto-e-branco, foi exibido no interior da Itália em cópias cujas sequencias de delírio eram em sépia, a fim de não embaralhar a compreensão do público. É, também, o trabalho mais ousado do fiel músico dos filmes do diretor, Nino Rota, que usa a batida musical para dar ritmo ao frenesi de Guido.


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Revista Bravo!, 2007, p. 23

Intervalo

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Oscar 2009 (iii)



As premiações do Oscar 2009 parecem inaugurar novos rumos às produções cinematográficas em Hollywood. O favoritismo da mega produção de O curioso caso de Benjamin Button desbancado pela simplicidade da produção de Quem quer ser um milionário reflete várias questões na indústria do cinema. Uma, parece ser a respeito do modo de fazer cinema, apesar de que essa questão que vou apontar já ser tônica noutras premiações da Academia: não é necessário ser dono de uma pompa gorda conta para se produzir bons filmes. E, outra, que está para além da forma de fazer cinema, que é o reconhecimento, enfim, da Academia da real maior indústria do cinematográfica do mundo - a indiana. Reconhecimento ou provocação. Fica a critério de quem julgar. E, em linhas gerais, e talvez seja este o fator verdadeiro, a expansão do olhar hollywoodiano para além das fronteiras a que este sempre esteve preso. Afinal de contas, o Oscar 2009 agraciou mais aos que de foram vieram para compor a colcha de retalhos da indústria do cinema, que é Hollywood.


Veja a lista dos ganhadores.


Apenas meus poemas

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

imagem fatos do verbo blogspot

o tempo

matamos o tempo e o tempo nos enterra.
(Machado de Assis)

martelava o tempo

tique-taque
tique-taque
tique-taque

exerguei-me escravo do tempo

tique-taque
tique-taque
tique-taque

quase tive um ataque!

tique-taque
tique-taque
tique-taque

matamos o tempo

tique-taque
tique-taque
tique-taque

o tempo nos enterra

tique-taque
tique-taque
tique- taque
tique-taque
tique-taque

Intervalo

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009



A eternidade de um enigma (ii)


imagem portal G1

Hoje indo a livraria tive contato com um belíssimo trabalho impresso. É a mini-série Capitu, do mesmo diretor de Os Maias e A pedra do reino, Luiz Fernando de Carvalho. Estão lá sua metodologia de trabalho que inclui uma imersão dos atores e técnicos nas obras literárias. Dividido em duas partes, o livro apresenta o processo de preparação dos atores e a história filmada de um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Dom Casmurro. Durante dois meses os atores e a equipe técnica se reuniram semanalmente e assistiram palestras sobre a obra de Machado de Assis - Sergio Paulo Rouanet, Daniel Piza, Maria Rita Kehl, Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, Carlos Byington, Edmilson Martins Rodrigues e Gustavo Bernardo. Os textos dessas palestras é o que compõe a primeira parte do livro e ajudam o leitor a entender todas as nuances desse fabuloso romance. Na segunda parte, depois de uma introdução do diretor, as imagens da minissérie e o texto do próprio Machado formam quase que uma fotonovela e contam visualmente a famosa história de amor e ciúme de Bento e Capitu. É uma edição de colecionador. Entranto, o leito não pode deixar de ler o Dom Casmurro, do próprio Machado. Digamos, que o Capitu-livro seja um complemento ao trabalho já brilhante da narrativa machadiana.


Intervalo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Garganta da serpente



Há no universo virtual brasileiro poucas opções de qualidade, sérias, cujo interesse seja único e exclusivamente o da literatura. Há desses poucos, poucos que eu realmente conheço e acompanho. Hoje quero comentar sobre um desses meios que venho há uns cinco anos acompanhando o trabalho de perto. Trata-se de um site chamado Garganta da serpente, que hoje está comemorando seus 10 bem vividos anos. Foi neste site que entrei pela primeira vez no ainda tenebroso meio da virtualidade, com os meus primeiros acanhados poemas. Não há como esquecer isso, levando em consideração que todo começo, isso todo mundo sabe, é difícil. Este site que ajudou-me a destemer o universo virtual, este site que viu como autor prestável para alguma coisa merece ser preservado, merece ser sempre lembrado em datas especiais como esta. Nesses dez anos de internet o site dispõe ao leitor de um rico acervo em poemas, contos, crônicas, cordéis, fábulas, citações, artigos, ensaios e, por aí vai. São cerca de 2 166 habitantes, como são chamados os autores no seu espaço. E 136 nomes importantes da literatura catalogados. Além de dispor de informações acerca de concursos literários, eventos literários, entre outros eventos casos e acasos do meio literário. Vigor a serpente!


Para acessar o site clica aqui.



minhas falas


Holocausto



Pedro Fernandes de O. Neto


O vocábulo holocausto só entrou para o léxico da língua portuguesa por volta do século XIV - conforme o Aurélio veio do grego holókauston, sacrifício em que a vítima era queimada inteira, pelo latim, holocaustu. Entretanto, seu sentido original permanece apenas como registro, porque depois do genocídio dos judeus empreendido pelo regime nazista de Adolf Hitler, no decorrer da Segunda Guerra Mundial, tornou-se espécie de nome próprio para tal fato.

Mas, já em referência a massacres a palavra fora utilizada por Winston Churchill quando num discurso seu em que descrevia o assassinato de cerca de um milhão de armênios pelo governo turco. Noutro entretanto, a inédita escala de extermínio de judeus pelos nazistas, em que o número extrapola à casa de milhões de pessoas, exigiu um nome específico, um nome próprio - com iniciais maiúsculas, como sentido do caráter único de tamanha barbárie, afinal, se o número de judeus vai a casa dos milhões mais haverá de ir se incluirmos na lista do horror que qualquer tipo de sujeito de raça impura - que não a ariana - foi, perseguido, muitos torturados e mortos. Foram homossexuais, ciganos, deficientes etc.

A palavra holocausto com tradução em hebraico Shoah - catástrofe -, já em 1940 era usado para denominar o massacre de judeus. Alguns mesmo preferem Shoah a holocausto, dada a conotação religiosa original da palavra. Se formos a Bíblia encontraremos a palavra sendo empregada, por exemplo, com o sentido que falei no início deste texto, de sacrifício. Já os hebreus faziam rituais de queima de animais para expiação dos pecados.

O que toda essa discussão em torno do vocábulo holocausto vem nos trazer é sobre o recente caso, quer dizer, não tão recente porque já se vão vinte anos aproximadamente, que o bispo britânico Richard Williamson foi excomungado pela igreja no então papado de João Paulo II, o papa pop. Mas, o caso torna-se, no entanto, recente, porque não acabou aí nessa excomunhão. Foi pelas mãos de Bento XVI, um papa não tão pop assim, que decidiu desfazer o que o outro havia deixado feito e crente de que não mais seria mexido, reabilitar Williamson.

A notícia de tamanha burrada, para não dizer idiotice papal, caiu feito uma bomba na já tão conturbada relação entre cristãos e judeus. Deixa, além tudo, as páginas da própria história numa saia justa, porque o tal Williamson, talvez um louco varrido, foi excomungado por João Paulo II, o papa pop, justamente porque havia negado numa de suas luas que o Holocausto não existiu.

Bem, esse gesto de Ratzinger parece ser a prova definitiva de que o Espírito Santo não anda tão bem de escolhas ao eleger um papa cujos interesses tão retrógrados vão abalando a tão fraca relação que a igreja tem mantido com seus fiéis. O gesto de reabilitar Williamson, que além das luas de louco é membro de uma seita ultraconservadora da igreja, é a tradução clara do comportamento de um papa também ultraconservador, que ainda não acordou para o cargo para o qual foi eleito. E, não apenas isso, ao tentar se retratar diante de tal burrada, Sua Santidade, foi ainda burro o suficiente para dizer que, esteve em Auschwitz e sabe perfeitamente o que foi o genocídio empreendido na época. Nem haveria necessidade de ter lá estado. Bastava olhar para as páginas da própria biografia e ver o que lá escreveu acerca da morte de seu irmão que tinha Síndrome de Down e foi levado pelo o exército do Terceiro Reich e nunca mais voltou. Eu nunca lá estive e sequer perdi parentes assim tão próximos, entretanto, sei perfeitamente da empreitada louca que o regime do Nazismo fez durante a Segunda Guerra. Não se é necessário, além de tudo, ser um Eric Robisbown para entender o que foi o Holocausto. Agora, eu pensei que durante a penca de anos de seminário, além de estudar a Bíblia também se estudasse um pouquinho de História, porque, venhamos e convenhamos, são dois atos, o de Williamson e o de Bento XVI, covardes, porque ao negar o Holocausto, fato específico da História, é uma tentativa criminosa, semelhante a de um criminoso qualquer que tenta apagar as pistas do crime que cometeu. Esperemos agora a retratação. Que é o mais simples. Basta passar óleo de peroba na cara e falar a imprensa.




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artigo publicado no Jornal Correio da Tarde, em 16 de fevereiro de 2009, p.2.

Os escritores

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009


Bocage



Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel das paixões que me arrastava,

Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava

Em mim, quase imortal, a essência humana!


De que inúmeros sóis a mente ufana

A existência falaz me não doirava!

Mas eis sucumbe a Natureza escrava

Ao mal, que a vida em sua origem dana.


Prazeres, sócios meus e meus tiranos,

Esta alma que sedenta em si não coube,

No abismo vos sumiu dos desenganos.


Deus... Ó Deus! quando a morte à luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube!


Estes versos tão conhecidos na literatura de língua portuguesa, assente nos vários livros didáticos brasileiros, são versos do poeta português Manoel Maria Barbosa Du Bocage. Tido pela crítica como um dos maiores poetas do Arcadismo em Portugal, movimento que se inicia quando da fundação da Arcádia Lusitana, em 1756.


Bocage é nascido em Setúbal no ano de 1765. E morreu na capital lusitana, Lisboa, em 1805. Filho de intelectuais portugueses, manifestou desde pequeno temperamento irrequieto. Sua admiração pelo avô materno, o almirante francês Gilles Le Doux Du Bocage, levou-o, aos 18 anos, alistar-se na Real Companhia de Guardas-Marinha.


Terminado o curso náutico, Bocage embarcou para a Índia, onde serviu, em Goa, até 1789. Foi promovido a tenente. Transferido para Damão e em seguida desertou da Marinha. Viajou para Macau, na China. Lá, reabilitou-se. Voltando a Portugal em 1790. Uma vez em Portugal Bocage sofre uma grande desilusão amorosa: sua “Gertúria” – pseudônimo de Gertrudes da Cunha Eça – estava casada com seu irmão mais velho, Gil Francisco.


Desiludido, Bocage caiu na via boêmia. Trocou versos por alojamento, comida e bebida. Convidado a ingressar na Nova Arcádia, adotou o pseudônimo de Elmano Sadino. Elmano, como se pode notar, é um anagrama de Manoel, seu primeiro nome; Sadino, como era costume dos árcades, fazia referência ao rio Sado, que banha Setúbal, cidade natal do poeta. Mas Bocage não era homem de academias. Logo desgostou-se em discussão com Pe José Agostinho de Macedo.


A publicação do primeiro volume de suas Rimas tornou Bocage respeitado pela poesia lírica e conhecido pela poesia satírica. Sua irreverência acabou por custar-lhe a própria liberdade. Em 1797, por ordem do intendente Pina Manique, Bocage foi enviado para o presídio de Limoeiro, acusado de produzir “papéis ímpios, sediciosos e críticos”.


Tornou-se um novo Bocage quando saiu da prisão dois anos mais tarde. Abandonou a vida boêmia. Passou a sobreviver das traduções que fazia das obras de Ovídio, Racine, Voltaire e Rousseau. Morreu em 1805, vítima dum aneurisma.


Acerca de sua obra, podemos facilmente identificar, na fase inicial da poesia de Bocage, uma acomodação de clichês árcades: pastores, pastoras, ovelhinhas, ribeiros, prados tranquilos. O convencionalismo árcade.


Já se afastou de nós o Inverno agreste

Envolto nos seus úmidos vapores;

A fértil Primavera, a mãe das flores

O prado ameno de boninas veste:


Varrendo os ares o sutil nordeste

Os torna azuis; as aves de mil cores

Adejam entre Zéfiros, e Amores,

E toma o fresco Tejo a cor celeste:


Vem, ó Marília, vem lograr comigo

Destes alegres campos a beleza,

Destas copadas árvores o abrigo:


Deixa louvar da corte a vã grandeza:

Quanto me agrada mais estar contigo

Notando as perfeições da Natureza!


O que se assiste no conjunto de imagens assente ao poema dá conta do que a crítica dita acerca do movimento arcadista, como locus amoenus, marcado pela natureza idílica pronta a receber os amantes.


Mas Bocage não se prendeu a estes locais comuns a poesia da época. E é isto o que o define como grande poeta. Uma vez já é sabido de todos que todo grande escritor não se prende a rótulos, mas faz seu trabalho fora das órbitas convencionais, inaugurando muitas vezes outros movimentos estéticos, ou inovando os atuais, ou ainda criando movimentos que fogem a própria classificação pedagógica da crítica. Assim, a poesia de Bocage floresce. Ela passa a carregar um lirismo carregado de subjetividade e sentimento, caracteres já comuns à estética subsequente, denominada Romantismo. Esse caráter leva a crítica a adotá-lo no ciclo dos chamados escritores pré-românticos. Os temas que esse novo poetar bocagiano dão conta dizem respeito ao amor, a morte, ao destino; o locus amoenus árcade logo substitui-se pelo locus horrendus, com a natureza espelhando a dor e o sofrimento.


Fiei-me nos sorrisos da ventura,

Em mimos feminis, como fui louco!

Vi raiar o prazer; porém tão pouco

Momentâneo relâmpago não dura:


No meio agora desta selva escura,

Dentro deste penedo úmido e oco,

Pareço, até no tom lúgubre, e rouco

Triste sombra a carpir na sepultura:


Que estância para mim tão própria é esta!

Causais-me um doce, fúnebre transporte,

Áridos matos, lôbrega floresta!


Ah! não me roubou tudo a negra sorte:

Inda tenho este abrigo, inda me resta

O pranto, a queixa, a solidão e a morte.




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Fonte. O texto base e os poemas de Bocage para o post estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.



minhas falas

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A carroça, o bonde e o poeta modernista


por Pedro Fernandes de O. Neto





No ensaio A carroça, o bonde e o poeta modernista, que integra o livro Que horas são? Roberto Schwarz discute a partir da poética de Oswald de Andrade – mais especificamente o poema oswaldino pobre animália – acerca do poeta e da poesia modernista no Brasil. Alude o autor à conciliação de três elementos característicos na poesia de Oswald: uma fórmula fácil e eficaz para ver o Brasil pelas janelas do poema; o ser poeta sem o esteticismo apregoado pelos poetas doutras escolas literárias semelhante ao modo leninista de fazer política – “o Estado uma vez revolucionado, se poderia administrar com os conhecimentos de uma cozinheira”; o uso de um reduzido vocabulário – reduzido, no sentido de ser comum a todos – o qual Schwarz compara à poética de Bertolt Brecht que se dispunha a redução vocabular do Basic English. Para o autor, somam a isso na poesia de Oswald, uma fórmula de duas operações: a justaposição de elementos próprios ao Brasil-Colônia e ao Brasil burguês, e a elevação do produto à dignidade de alegoria do país. Elementos estes que, nos utilizando do pensamento de Adorno, apontam para um movimento de tensão no interior do poema. Isto é, o pensamento de Schwarz parece ir de encontro a essa concepção, por ter no poema a visão dum espaço em que se apresentam uma dada realidade em choque com outra. Noutras palavras, vê o autor, a poesia modernista como espaço de confluências do tradicional com o moderno. Essa dualidade, no entanto, obedece à própria realidade sociológica que não parava de colocar lado a lado os traços burguês e pré-burguês. Enquanto representante desse movimento, Oswald – pela irreverência e liberdade apresentadas em seu poema, que mais o poderiam levar a ser visto como piadista – adquire o caráter de inovador, justamente, porque soube, no interior do poema, associar esses pólos à primeira vista dissonantes e, não apenas isso, traz o poeta outro elemento importante para a poesia dessa época de então: que é o de fazer do poema enquanto espaço cônscio do social, levando-nos a associar esse observação do Schwarz ao pensamento de José Belchior, cujo qual, todo a lírica contemporânea – e isso não exclui, é lógico, o poema – tende essa abertura para o social. E isso será muito bem visto neste ensaio quando Schwarz debruça-se na leitura do poema pobre animália. Reside nesse poema elementos simples numa linguagem também simples, ao mesmo tempo em que uma tensão: convivem e passam pela mesma janela do poema o tradicional e o moderno, citem-se o cavalo, a carroça e o carroceiro, o bonde, os advogados e os escritórios, que Schwarz ler como mundos, tempos e classes sociais contrastantes, postos em oposição. Longe de constituirmos uma ampla visão crítica para as reflexões apresentadas neste ensaio, o que a visão do ensaísta parece nos dá é a de que a poesia e o poeta modernista apresentam em si um certo antagonismo, em que a realidade apreendida pelo poeta é antitética, constituindo o poema num espaço para um movimento dialético perene, cuja a liberdade de escrita, dada por poema duma linguagem e duma estrutura simples, associada a tensão entre o tradicional e o moderno – tudo isso num fundo cônscio do poema enquanto espaço que se abre para o social, compõe a estética do poema modernista. Ou seja, não representa a poética moderna uma ruptura com o tradicional, antes a incorporação de novos traços que tomam a constituir uma nova feição. Metaforicamente, à carroça soma-se o bonde, igual a poesia modernista.




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resenha do texto A carroça, o bonde e o poeta modernista. In: SCHWARZ, Roberto. Que horas são? São Paulo: Cia das Letras, 1999, p. 11-28.

Intervalo

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Globalices


Estreou mais um Big Brother Brasil. O não sei quanto. Desta vez com robozinho e tudo - soube aí que uma empresa gastou horrores para construir aquele bicho feio, que parece uma câmera, mas não é, é um misto de olho com câmera e pingüim de patins. E há alguns anos nas brigas entre emissoras, a Globo conseguiu num arranca-rabo arrancar a exibição do Oscar, antes transmitido pelo SBT e com comentários de Gabi, Gabriela. E há alguns anos Big Brother e Oscar não se batem. Está sempre um no caminho do outro e como o que dá mais audiência é o BBB, Oscar pra quê? A exibição só começa com um básico atraso. Este ano, entretanto, mais um porém, a Academia esqueceu que no Brasil tem carnaval e a cerimônia não terá exibição por aqui na TV aberta. Quem quiser assisitr que se junte com seu amigo rico e vá assitir na TV a cabo. A Globo decidiu transmitir os desfiles da Sapucaí , como já faz, mesmo antes de transmitir o Oscar. Se há um espaço onde a democracia não reina no Brasil, esse lugar se chama TV aberta. Tomar de conta de um produto estrangeiro e não exibir, não tem outro nome que não, antidemocracia. "Não é mole não, viu, isso é globalização."

Intervalo

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Blindness (II)

Chegou em DVD o filme mais superestimado do ano passado, no Brasil: Ensaio sobre a cegueira, com direção de Fernando Meirelles. Anunciava um desses sites de crítica. O filme é baseado na obra homônima do escritor português José Saramago. Não teve, como já é de se esperar, críticas unânimes de bom filme. Inclusive do referido site em que coletei essa manchete, atesta suas faíscas ao diretor basileiro e ao escritor português. Mas venhamos e convenhamos. Há críticas e críticas. O fato, entretanto, é que o filme está aí e o escritor português gostou do que viu da adaptação. Acho que é ele a única crítica que mais interessou ao Fernando Meirelles, levando em consideração que o diretor manteve a preocupação em obter êxito perante o Nobel de Literatura. Além do que questões de gosto estão aí para serem postas em debate. Também Saramago recebeu/recebe críticas não mensuráveis por ter ganho o Nobel de 1998, quando outros escritores como Borges, Fernando Pessoa ou o nosso brasileiro Carlos Drummond não receberam. Bem, Saramago já o recebeu e recebido está. Acho também que não há brechas e nem possibilidades, os chamados "e se", para se discutir. Afinal de contas, não há como refazer o passado. Aproveitemos para re-assistir Blindness.


Leia a crítica ao filme por Carlos Alberto Matos.



Veja vídeo com a reação do escritor José Saramago ao ver o Ensaio sobre a cegueira



Intervalo

Prévias

No momento em que o país está com a temperatura quebrando os termômetros para a maior folia do calendário, o carnaval, o Estado recebe hoje, outra prévia, diferente um pouco da primeira. Trata-se da visita do presidente Luís Inácio Lula da Silva. Foi um passeio lindo! Teve colheita de mamão. Pesca de tilápia. Isso tudo ao lado da já costumeira corjinha política do Estado. E como é mal do presidente, ele prometeu. E como ele promete! Diz que o tão sonhado gigantesco aeroporto que querem construir na zona metropolitana da Capital vai sim sair. Dinheiro para obra? São PAC deve ter alguma resposta. O bonito é que o dinheiro das enchentes, ainda do ano passado - porque agora a seca já tá de torar - ainda não saiu... Mas, vem um aeroporto. Outra coisa que o presidente, e todo político gosta: números. Não se preocupem que teve números também. Não sei quanto se benefia disso, não sei quanto daquilo e... mais não sei quanto tem isso, não sei quanto que não tem, passará a ter. Logo já se vê que as romarias presidenciais cheiram a essa prévia que se arrasta paralela à carnavalesca: a prévia política que sonha em por no poder a presidenciável Dilma. E como por aqui de tudo rola. Há ainda outra prévia. A da Capital do Estado receber algum jogo da copa em 2014, que será neste Brasil. Os concorrentes? Alguns: Floripa e BH. Sonha potiguares! Sonha, que é lindo sonhar. E as águas vão rolar. Deixa as águas rolar.


Intervalo

eu e atriz Tony Silva. foto de meu arquivo pessoal


Tony Silva


A primeira vez que vi Tony Silva em cena foi num espetáculo que a cidade de Mossoró anualmente promove nos meses de junho aos moradores e visitantes, o Chuva de bala no país de Mossoró, que conta a história da resistência dos mossoroenses ao bando de Lampião. Desde então estabeleci uma relação de admiração pelo trabalho da atriz. A vi noutros trabalhos, como o Auto da liberdade, outro espetáculo também promovido ao ar livre e livre para o público, também anualmente. Depois noutro trabalho a vi ainda mais brilhante ao fazer a tragédia grega Medéia. Numa entrevista que a atriz deu ao jornal mossoroense Gazeta do Oeste ela fala da vivência no teatro e como que este passou a fazer parte de sua vida. Segundo Tony Silva durante a infância não teve contato algum com o teatro, "Vivi todas as épocas, bricando no meio da rua, de brincar de lama, e nunca tive nada com o teatro"; reforçando o caráter de que o talento de todo e qualquer grande artista advém de outra dimensão que não apenas a do dinheiro. O talento parece ser algo nato que se faz através das oportunidades. Tony Silva, na mesma entrevista fala que os contatos primeiros que fez com a matéria do teatro foi apenas quando no curso de técnica agrícola, no então colégio Eliseu Viana, a convite de Aécio Cândido e Crispiniano Neto. Era o seu primeiro espetáculo, Circo, alegria do povo, que contava a história na reforma agráfia no Brasil. Tony Silva é sensível ao falar da profissão, "Passei dez anos para que eu pudesse dizer que era atriz." A este grande nome do teatro no Rio Grande do Norte deixo registrada minha admiração.


Para ler a entrevista da atriz na íntegra, clica aqui.




Alguns dos filmes brilhantes

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Na primeira temporada do quadro ALGUNS DOS FILMES BRILHANTES estamos exibindo a lista publicada em 2007 pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.



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Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em cena do filme Casablanca. fonte. G1




Casablanca, Michel Curtiz



História de amor em tempos de guerra é um dos títulos mais cultuados de todos os tempos



Se existe um filme que se tornou peça do imaginário coletivo, é Casablanca. Dirigido pelo húngaro naturalizado americano Michael Curtiz, entre 1941 e 1942, quando os Estados Unidos aliaram-se a um grupo de nações para combater o eixo formado por Alemanha, Itália e Japão, na Segunda Guerra Mundial, o clássico toca em tema sagrado.


Menos pelos fatos históricos, a aclamação universal dessa película nasceu do assunto abordado, um romance em tempos de guerra, cujo apelo ultrapassa qualquer fronteira ou cultura. A aura mágica de Casablanca fez dele referência para inúmeros cineastas, como Woody Allen (Sonhos de um sedutor, de 1972, no qual ele é ator e roteirista) e Sydney Pollack (que filmou sua versão caribenha em Havana, de 1990), novelas radiofônicas e paródias, como um desenho do coelho Pernalonga.


Humphrey Bogart, como durão, justo e apaixonado Rick Blane, ajudou na consolidação do mito. Na história, ele é o dono de bar numa Casablanca (Marrocos) ocupada por nazistas, onde refugiados franceses tentam ir para a América por lá. Até que, ao acaso, ressurge uma antiga paixão, Ilsa (Ingrid Bergman), acompanhada de seu marido (Paul Henreid). Rick terá um dilema a ser resolvido, e pede, a certo momento, a seu amigo Sam para tocar As time goes by, canção que se tornou um ícone da cultura ocidental graças ao longa.


Casablanca não é só um mito na história do cinema. Como qualquer producao industrial de Hollywood naquela época, a película gerou uma novela à parte. A escolha quase ocasional do elenco (Bogart se tornaria astro absoluto e um dos atores mais bem pagos dos Estados Unidos a partir dali), cenas escritas antes de serem filmadas, explosões furiosas de Curtiz (cujo sotaque confundia a equipe), jogo de forças entre vários artistas, como o musico Max Steiner e os renomados roteiristas Howard Koch e Julius e Philip Epstein foram alguns dos problemas. Mas o resultado impecável, segundo os padrões industriais de Hoolywood, pode ser conferido no genial início do filme, que apresenta freneticamente a trama. Casablanca ganhou o Oscar de melhor filme, direção e roteiro.



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fonte: Revista Bravo!, 2007, p. 20


Intervalo

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009



Revistas


O mercado editorial brasileiro é muito pobre em publicações de qualidade. Quando estreou por cá a publicação de uma revista preocupada apenas com livros e literatura, vibrei. Era a Revista Entrelivros, da Duetto Editorial. O que houve não sei, que as edições findaram depois de três anos e de 32 números. Ficaram as outras. Mas, haveremos de concordar, que o conteúdo não é tão completo como era o da Entrelivros. Queixas à parte, fiquemos com o que podemos ter. Agora podemos dispor gratuitamente do material on-line - e isso é novidade! - do acervo de uma das mais importantes revistas, que não chega ao padrão Entrelivros, mas merece a divulgação, porque, a meu entender, é o que dipomos de melhor em circulação no mercado brasileiro. Digo uma das mais importantes porque deveria ser uma revista mais completa,;ela, no entanto, ainda assim traz um diferencial das que tem no mercado atualmente.
É um riquíssimo acervo de textos sobre cultura e ciências humanas disponível gatuitamente. Estão digitalizados o conteúdo integral desde o ano de 1997 de todos os Dossiês que são publicados na revista. Para facilitação e credibilidade da pesquisa, o nome dos autores e o número da edição correspondente são apresentados no início de cada texto. Falo, evidentemente, da Revista Cult, publicada mensamente, pela Editora Bregantini. Vale a pena conferir. Ah, se a Duetto Editorial tomasse essa atitude um dia.



Clique aqui para fazer o cadastro gratuitamente no site

Caso encontre dificuldades, por favor, envie uma mensagem para site@revistacult.com.br.

minhas falas

A expressão Aluísio Azevedo 90 anos depois



Por Pedro Fernandes



ao tingir com tintas fortes e pinceladas rudes, por vezes, mas duma poeticidade única, Aluisio Azevedo entrava em definitivo para o rol da história literária como o Zola brasileiro


Há pouco mais de um século o escritor francês Émile Zola publica O romance experimental. Essa obra inaugura novas vertentes no campo da Literatura, que a crítica literária logo tratou de conceituar como Naturalismo. Esse movimento estético literário foi como uma espécie de desdobramento da estética realista. Tal como defendido por Zola, o romance naturalista seria aquele que se preocuparia em apresentar e discutir temas comuns ao homem como patologias sociais, sem pudor, de modo semelhante a um cientista cético que tem o interesse de tocar e remexer numa ferida a título de discernir o cerne da doença. Já quanto ao Realismo, usando de um recurso visual do crítico brasileiro Massaud Moisés, enquanto movimento literário nutria já o interesse pela realidade social só que a maneira como que o escritor a “examinava” era com luvas de pelica. Isto é, no Realismo parece haver entre o escritor e o “problema” social um véu que o impede de atingir o que seria a especificidade da questão. Diferente, então, pelo que eu vinha dizendo acerca da estética naturalista.

Tal estética, entretanto, foi algo bem mais amplo e assim como as outras estéticas literárias é, certamente, fruto de um extenso e emaranhado conjunto de idéias e questões que não se resumiu apenas ao campo da literatura. É visto, por exemplo, que essa nova tendência do romance toma como influências o que já vinha sendo discutido noutros territórios, como as idéias do naturalista inglês Charles Darwin, as do positivista Auguste Comte, além, é claro, da publicação na Alemanha do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. Idéias que são observadas pela primeira vez na Literatura pelo termo determinismo quando Hippolyte Taine, filósofo e historiador francês, investigava em seus trabalhos sobre a literatura inglesa fatores que a seu ver deveriam ser considerados durante a apreciação de uma obra literária de um determinado povo. Tais fatores eram inerentes ao indivíduo social: raça, meio (geográfico e social) e momento histórico. O determinismo, então, entende-se como a visão do ser humano como produto do meio em que se encontra; da herança – cultural, social etc. – recebida e das condições históricas características do momento em que vive.

Pois bem, o principal autor da literatura brasileira que inaugura cá entre nós a face do que seria o Naturalismo foi o escritor maranhense Aluísio de Azevedo, conhecido, certamente, entre a maioria, pela célebre obra O cortiço. No dia 21 de janeiro passado, fez noventa anos que o escritor faleceu na Argentina. Mais do que este singular momento da literatura brasileira o que convém lembrar pela passagem desta data biográfica é a importância e o significado que carrega a obra de Azevedo.

Antes, recobremos os traços de sua biografia. Seus registros dão conta de um sujeito, como se é comum aos artistas, inquieto ou destoante de seu tempo. Ainda nos bancos da escola primária iremos encontrar o escritor entre os rabiscos de desenhos, o que apontava, segundo sua família, ainda presa às concepções duma psicologia do dom, para os rabiscos de um grande artista plástico. Isso levou sua família a matriculá-lo num curso de artes plásticas. Mas, o caminho que o nascente artista trilharia seria o de outra arte. Largaria o colorido das tintas e os pincéis pela constante da tinta negra e o lápis com que comporia o seu primeiro romance que publica com o título de Uma lágrima de mulher, em 1880. Vale salientar, entretanto, que o talento de artista plástico não foi de um todo desprezado, não no começo de tudo. Azevedo antes deste primeiro romance chegou a compor várias charges para jornais como O Mequetrefe e Zig-zag. Isso no Rio, porque quando ele conclui o curso de artes plásticas seguiu o rastilho de sucesso que seu irmão Arthur Azevedo já tinha na Corte. Apenas quando volta ao Maranhão, quando da morte de seu pai, é que surge esse primeiro romance e quando Azevedo passa a se dedicar ao traçado da escrita, escrevendo crônicas e comentários para a imprensa local. Entretanto, não seria esse romance, ainda vazado nos moldes de um romantismo piegas, nem os desenhos ou seus escritos para o jornal o que lhe vão dá o nome com que sonhara. Continua a viver sua modéstia vida de jovem provinciano, quando lhe vem a idéia já calcinada pelas questões da sociedade em que vive para compor O mulato, em 1881, obra que inaugura os traços da estética naturalista na literatura brasileira. É por este romance que Azevedo se projeta. E é, certamente, por causa deste romance que Azevedo vai morar no Rio. A fama, agora sua, é o que lhe abre as portas dos jornais onde passa a colaborar intensamente por anos e anos de atividades ininterruptas e das quais ele se queixa continuamente dizendo-se um sacrificado, um escravo das letras, que não lhe davam nada, apenas o bastante para morrer de fome. Este trabalho, entretanto, foi o que proporcionou a constituição de sua carreira enquanto romancista. Assim como Uma lágrima de mulher, em 1880, publicaria uma série de romances ainda presos a estética romântica, tais como, Mistério da Tijuca ou Girândola de Amores, em 1882, Memórias de um condenado ou A condessa Vésper, em 1881, Filomena Borges, em 1884, e os considerados naturalistas, além d’O mulato, Casa de pensão, em 1884, O Homem, em 1887, o já falado O cortiço, em 1890, e O coruja, do mesmo ano do anterior, entre outras obras. Além de contos e peças para teatro.

Toda esta obra é importante porque vem compor um conjunto de quadros típicos de espaços e tipos sociais de uma camada outra da sociedade brasileira. É a primeira vez que um escritor se desprende do academismo e dos arquétipos burguês para focar numa nascente marginalidade do País. Símbolo maior desse interesse e de sua escrita é, certamente, O cortiço; e esse é, também, sem dúvidas, o mais bem acabado romance naturalista, uma vez que nesse livro o que se assiste é um autor que não está mais preocupado com as personagens em si, mas concentra-se em demonstrar de que o ser humano é fruto do meio em que vive, compondo, desse modo, a face mais elaborada do Naturalismo. As personagens são completamente envolvidas pelo meio, que, de certa forma, devora-as. O próprio cortiço, cenário da trama que vai se expandindo e multiplicando a cada dia, adquire, por esse caráter antropofágico, a condição de personagem central do romance. É nesse cenário promíscuo e insalubre que o leitor testemunha o cruzamento das raças, a explosão da sexualidade, a violência e a exploração do ser humano. Isto é, o romance é a composição de um painel significativo do que há de mais bicho no ser humano. E é isto que seduz o leitor, porque vendo o que há de mais bicho no ser humano, Azevedo nos expõe ao que há de realmente humano no bicho que somos; não restam dúvidas, pois, de que é a exposição pelas vias do grotesco, o que de mais belo há n’O cortiço. É também o que faz Aluízio Azevedo dono de uma obra significativa, visto que, diferente de outros escritores que criaram tipos humanos, criou ele tipos sociais: é assim n’O cortiço, que como dizia, o cortiço é a personagem central do romance; é assim n’O mulato, em que São Luís e não o mulato Raimundo, é a personagem principal do romance; e é assim em Casa de pensão, em que é a casa de pensão e não Seu Amorim, a personagem-prima do romance. Foi, sem dúvidas, o mestre de narrar a vida coletiva. Depois dele, certamente, não houve ainda outro semelhante.

Apesar de reconhecermos o seu caráter enquanto escritor de uma obra-prima, ele nunca se viu como tal. A profissão de escritor, dizia, era um jugo. Tanto que se tornou cônsul, através de concurso e como tal serviu em Vigo, Nápoles, Japão e por fim em Buenos Aires, aonde veio falecer em 21 de janeiro de 1919. Assumiu seu primeiro posto aos 37 anos e a morte o levou 18 anos depois, e nesse interregno Aluísio Azevedo nunca mais cuidou da literatura. Nunca mais publicou um livro. Deu às costas completamente a Arte.


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este artigo foi publicado em o2 de fevereiro de 2009, no Caderno Domindo do Jornal de Fato. Mossoró, p. 2

minhas falas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Crise, crises*

por Pedro Fernandes de O. Neto





Saiu o presidente Bush, talvez a pior das espécies que já ocupou a Casa Branca. Fica depois de sua saída um rastro de coisas por consertar. Espera-se agora pela change que ocupou sua cadeira. Uma dessas coisas por consertar que talvez mais tenha chamado atenção, porque depois de atingir as grandes economias agora começa a dar sinais de incômodos por cá, pelas economias emergentes, certamente é a crise econômica que se instalou nos Estados Unidos. Já se mostram em números o que a tal crise começa a aprontar; crise tida pelos especialistas do mundo econômico como a maior desde o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Bem, seria a tal crise fruto do descuido do ex-presidente estadudinense que olhou com olho gordo para além das suas fronteiras, a título de enriquecer seu império e esqueceu-se de casa, onde um monstro se formava silenciosamente? Isso é uma suposição com um bom fundo de verdade. Não podemos, pois, descartá-la de um todo. Ainda mais, sabendo que o pivô dessa crise dá-se a partir da crise imobiliária nos Estados Unidos aliada aos desastres de alguns bancos que tinha suas fontes econômicas a custo de lavagens de dinheiro. E aí, onde estava o Estado que não se preocupou em ver de onde corriam os rios de fortuna que se formavam em torno de trabalhadores fantasmas? Críticas à parte, a verdade é que esta crise econômica pode ser interpretada por através de três linhas de pensamento. Enumero-as:

I. Pode está por fim as grandes fortunas. O próprio sistema capitalista dá sinais de que não é capaz de suportar altas fortunas nas mãos de poucos, enquanto outros morrem a trabalhar e não conseguem erguer em toda vida sequer um milésimo da parte do que aqueles conseguem num clique. Tem isso no ar certa raiz dum socialismo. E isso apontaria para a formação de um outro sistema capitalista? Um sistema a meio termo, meio capitalismo, meio socialismo? Esperemos.

II. Junto com a crise o que se assiste são suspiros de um capitalismo em falência. Não quero aqui dizer que está o capitalismo no fim. Isso ainda não é visível, tendo em vista que ao longo de tantos anos tem este sistema econômico se reciclado e se apresentado em novas e imprevisíveis facetas, como a do neoliberalismo. Como disse acima, talvez estejamos mais para assistir a mais uma fase camaleônica sua, que seu fim. Entretanto, claro está que este sistema tal como tem funcionado ao longo desses anos não é, sem dúvidas, o ideal e tão sonhado responsável por um "crescimento sustentável" - grupo de palavras predileto do presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva. Do contrário. O sistema capitalista tem sua base no consumismo desenfreado. Mas desenfreado mesmo. Sem limites. Prova disso é que uma economia como a dos Estados Unidos, presa a um ciclo de crescimento de 13% ao ano ainda briga por números mais expressivos. Seria, pois, uma contradição e tanta dizer que isto é crescimento sustentável, tendo em vista que para superar índices cada vez mais alarmantes de crescimento um maior consumismo tenha de haver. Essa crise, portanto, reflete isso: um esgotamento do próprio sistema econômico. Talvez todas as medidas socorristas, os chamados pacotes econômicos, não surtirão o efeito desejado. Talvez tenhamos que pensar numa nova forma de controle da economia. Afinal, nada é estanque e todos os sistemas são falíveis. Disso, novamente esperemos.

III. Por último, o que essa crise deixa entrever é que se não há espaço para grandes fortunas, também não serão os detentores delas os grandes prejudicados. A crise só tem a contribuir com o aumento do fosso existente entre os das grandes fortunas e os trabalhadores comuns. É em tudo um atentado à dignidade humana se entendo que há para qualquer pessoa a necessidade básica de um emprego a título de surtir as necessidades humanas, como a própria de se alimentar. Quem poderia me convencer do contrário? Entretanto, esperemos.

Isso é o que apenas podemos fazer. Apenas o que podemos é esperar. Esperar e ver como que, principalmente o Estado brasileiro deverá agir diante dos problemas que nos começam a afligir. As reclamações já são muitas, as mobilizações, entretanto, poucas.



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artigo publicado no Jornal Correio da Tarde de 09 de fevereiro de 2009, p. 02.

Intervalo

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Centenário Carmem Miranda


imagem do filme Banana is my business. fonte. futura


Se estivesse viva estaria completando cem anos hoje. Nascida em 1909 em Marco de Canaveses, Portugal, Carmem Miranda marcou uma época da música e do cinema nacional. Teve início a sua carreira artística ainda na década de 1930. Sagrou-se enquanto artista brasileira fora do país que escolheu para viver. Carmem Miranda foi sem dúvidas o ícone de uma nova era que se formava para o mercado artístico. Teve, como algumas estrelas contemporâneas, uma meteórica subida rumo à fama e à riqueza. Também não foi diferente seu destino dos muitos destinos da fama traçados. O sucesso estrondoso que obteve em menos de dois anos que levou a atriz ao patamar de estrela mais bem paga de Hollywood deixou-lhe, certamente, profundas sequelas na vida pessoal da atriz, seja pela imagem caricata sua - do tradicional turbante de bananas na cabeça, como ficou conhecida dentro e fora do Brasil -, seja pelo vício das drogas. A imagem de Carmem foi crucial e importante para a projeção da cultura brasileira. Ainda que uma cultura caricata como a das bananas na cabeça. Mas a projeção do samba - ritmo na época inteiramente popular - pelos passos e músicas suas foi peça-chave na constituição da identidade brasileira.




Acesse o portal Carmem Miranda.

Escritores e escrituras potiguares

Os versos de Antônio Francisco

por Pedro Fernandes


o cordelista Antônio Francisco. fonte. apodibaixodopano.blogspot.com


Deus é sol, sal e farinha


O sol cochilava no meio do céu,
Jogando seus raios na cara do chão.
A gaita estridente de uma cigarra
Tocava sem graça a triste canção
Daqueles que vivem nos braços da secas
Tirando da fé um pouco de pão.


Enquanto os soluços do vento da seca
Passavam tocando seu sax tenor,
De uma cabana coberta de palha
Subiam os gemidos de um armador
Debaixo dos gritos de uma mulher,
Tingidos de mágoas, medo e rancor.


“José, oh, José, onde é que tu ta?
Responda, infeliz, acabou-se o feijão!
Se o menino acorda pedindo comida?
Só resta farinha e sal no caixão.
Maldita hora, José, que te vi.
Que vida, meu Deus, que vida de cão!”


E lá no aceiro do fim do quintal,
Sentado na sombra de um marizeiro,
Um homem responde: “Maria, Maria,
Estou concertando o seu galinheiro.
Pra que tanta guerra? Pra que tanta grito?
Acredite, Maria, no Deus verdadeiro!”


E de novo a mulher atira a voz:
“José, oh, José o que foi que te deu?
Concertar galinheiro? Pra que galinheiro,
Se a última galinha a raposa comeu?...
E com tantas igrejas pidonas no mundo,
Se Deus vai lembrar de alguém como eu?”


E alheio aos gritos daquela mulher,
No mato um carão começa a cantar.
Maria escuta, e grita: José,
Carregue a espingarda e vá devagar!
Atire, José, atire pensando
Que atira na fome que quer nos matar!”


José entra em casa, carrega a espingarda,
E sai se arrastando para o tabuleiro...
Espingarda no ombro, chapéu na cabeça,
O rosto cortado pelo desespero:
Um pouco de gente, um pouco espantalho,
Um pouco de Cristo levando o madeiro.


Maria se escora no punho da rede
E olhando a criança e falando sozinha:
“Tão inocente, tão sofredora,
Tão sofredora, tão criancinha...
Gerada por nós debaixo do sol,
Nutrida com fé, com sal e farinha.”


Enquanto Maria consola a criança,
Jose se encontra de arma na mão
Poe entre os espinhos dos pés de jurema,
Com a boca da arma caçando o carão...
O carão só um pingo de sombra no mato;
José uma cruz balançando no chão.


Quando o sol se despede na linha do nada,
Que a noite se deita no colo do chão,
José chega em casa de volta da caça:
Espingarda no ombro, sem nada na mão.
Maria, chorando, pergunta: “José,
Me diga por que não mataste o carão?”


José bebe água e responde: “Maria
O pássaro cantou quando eu ia atirar.
Cantou tão bonito, senti tanta pena...
Perdoe-me, Maria, não pude matar.
Balance a criança e dê graças a Deus
Ter sal e farinha pra gente jantar.”


Maria, chorando, balança a criança
E diz soluçando num fio de voz:
“Você não matou o pássaro com pena,
Me diga, José, quem tem pena de nós?
Obrigada, meu Deus, obrigada, meu Deus.
Me diga, José, quem tem pena de nós?”


Este poema tive contato há uns quatro anos. Foi quando da minha primeira viagem a Mossoró – cidade do interior do estado. Na época estava acertando meus trâmites para os quatro anos subsequentes, os da faculdade. Na interminável espera na rodoviária de Mossoró, que foi o que foi esta primeira viagem a cidade, adquiri um jornal local. Era O Mossoroense, se cá não me falha a memória agora. Estes versos que agora os transcrevo para este espaço estavam primeiramente lá escritos. De imediato achei estes versos tão belos, que os copiei numa folha quando cheguei em casa. Constava abaixo do título, Deus é sol, sal e farinha, o nome Antônio Francisco. Em rodapé, Antônio Francisco é poeta e menestrel de Mossoró – RN.

Bem, passaram-se os anos. Conheci Antônio Francisco numa de suas falas no Circo da Luz por ocasião de uma das feiras do livro de Mossoró, se cá novamente não me falha a memória era a primeira edição do evento, realizada no meu primeiro ano na cidade. O revi numa outra fala sua no desfecho de um minicurso na Faculdade. Mais tarde noutra feira do livro de Mossoró. E noutra feira. E mais noutra feira. Mais tarde estive pessoalmente com o poeta quando do lançamento do jornal literário do qual faço parte, o Trabuco. Encantado com todas essas vezes em que o vi jamais associei o nome Antônio Francisco a este poema que eu lera e transcrevera daquele jornal. Semana dessas, nas minhas férias no interior, revirando uma das pastas de papéis que ainda sobrevivem a poeira e ao tempo por lá, reencontrei-me com estes versos e com o nome Antônio Francisco. E, enfim, pude associar os versos ao nome e o nome e os versos à figura Antônio Francisco. É sobre esta figura que quero comentar neste post de hoje.

eu com o poeta Antônio Francisco (ao centro), durante o encerramento de um minicurso na Faculdade de Letras da UERN, em Mossoró, 2008. foto de meu arquivo pessoal.

Antônio Francisco nasceu em 21 de outubro de 1949, na cidade de Mossoró - RN. Poeta de cordel, xilográfo. Graduado em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, não exerce a profissão. Certamente preferiu confeccionar placas - seu primeiro ofício - e confeccionar cordel. Em 15 de maio de 2006, tomou posse na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira que pertenceu ao poeta cearense Patativa do Assaré. Sua obra está publicada sob formas de folhetos e de livros, como Dez cordéis num cordel só e Veredas de sombra, pulicados pela Editora Queima-Bucha, do também poeta Gustavo Luz.



Alguns dos filmes brilhantes

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Israel e Palestina, imagens para entender o problema


Não é de hoje que os conflitos entre israelense e palestinos têm tomado parte das páginas da História mundial. O conflito é antigo como tão antigos são os povos daquela região. Dois filmes são importantes para entender o que levam Israel e Palestina às farpas. São dois documentários. Ambos além de ser uma aula sobre o assunto, apontam as possíveis soluções para os problemas na região.


cena do documentário que tem como uma dos diretores a brasileira Julia Bacha. fonte. site do futura.


1 - Ponto de Encontro. O filme é inédito no Brasil e a dica é assisti-lo hoje às 20h30 no Canal Futura. Prudzido pela Ong americana Jus Vision, o filme tem como uma de suas diretoras a brasileira Julia Bacha. Nele, civis de ambos os povos protagonizam juntos uma possível paz. O documentário retrata a vida de pessoas que, apesar de afetadas pelas guerras, lançam mão de um ideal político específico para defender o entendimento definitivo. Em uma viagem que percorreu cidades israelenses, a Faixa de Gaz e diversos pontos do território palestino, o grupo de diretores conversa com ex-prisioneiros, mutilados e membros de organizações que reúnem parentes de vítimas das guerras.


imagem do documentário. fonte. internet livre.


2 - Promessas de um novo mundo. Documentário norte-americano ganhador do Emmy e candidato ao Oscar em 2002, o filme mostra a vivência conjunta de crianças e israelenses moradores de Jerusalém e suas vizinhas palestinas na Cisjordânia a partir do relato de sete crianças de treze anos, que, apesar de morarem tão próximas, vivem em mundos completamente distintos, separados por diferenças religiosas.




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fonte. a sinopse dos filmes estão no site do Canal Futura.


Intervalo

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Oscar 2009, indicações (ii)



imagem do filme O curioso cajo de Benjamin Button. fonte. internet livre.



O curioso caso de Benjamin Button, ou-vi sobre num programa desses de TV. Depois, ouvi pessoalmente de um cinéfilo - o filme era interessante. Vi o trailler hoje ao assistir Sete Vidas. O filme lidera o número de estatuetas do Oscar: são 13 indicações no total. Baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald publicado na Revista Collier's Weekly, em 1922, que narra a bizarra a história de Benjamin Button, que ao contrário da natureza comum, nasceu velho e foi ficando jovem com o passar dos anos, o filme também me lembrou de um pensamento do saudoso Chaplin de que o homem deveria nascer velho e morrer jovem para poder aproveitar a vida. Se isso acontece com Button, só vendo o filme para saber, o que mesmo visível pelas imagens do trailler, é que Button, ainda assim, é um homem como qualquer outro, que não pode parar o tempo e, como pessoa comum, passa por problemas comuns, precisa percorrer seu caminho, viver sua história ao lado das pessoas que conhece e os lugares que freqüenta durante a sua jornada. Dirigido por David Fincher (o mesmo diretor de Seven, o polêmico Clube da luta e Quarto do pânico). No elenco Brad Pitt e Cate Blanchett. Esperemos o julgamento da Academia no dia 22 de fevereiro.


Leia a crítica do crítico de cinema Pablo Vilaça ao filme


Intervalo

Oscar 2009, indicações





Bem é sabido de todos, de todos que entendam o mínimo de cinema, que a indústria Hollywood há tempos que não anda bem das pernas em termos de produção cinematográfica que mereça o honroso título de cinema-arte. É assim com tudo que o dinheiro toca. Parece mesmo uma maldição. Apesar de todos acharem que o preço está atrelado ao valor da arte, isso é coisa de capitalista com mania de consumo. A verdadeira arte nasce do simples e não da exuberância monetária. Isso qualquer um que entenda o mínimo (olha a repetição!) de arte, entede o que estou falando. Mas, discussões à parte, o fato é que a Academia acaba de divulgar no último dia 22 de janeiro a lista com os indicados aos prêmios de 2009. Cinéfilos de plantão já se põe a fazer seus bolões. Só não vale apostar no Coringa (Heath Ledger) que concorre ao Oscar Póstumo de Melhor Ator Coadjuvante pela atuação em Batman, o cavaleiro das trevas.


Confira a lista completa dos indicados.

Apenas meus poemas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


A série Apenas meus poemas dedicada a postagem da minha produção poética surgiu da necessidade que tive de reunir num só espaço todos os meus poemas postados em sites de divulgação ou em publicações avulsas em jornais.

Agora sinto que é necessário ampliar isso. Ando a digitalizar o meu livro Sertanices, que tem previsão para sair no corrente ano e vi que muita coisa ainda tenho de organizar. Ao todo já pude catalogar um série de mais de 400 poemas. Tenho - por pura audácia - necessidade de divulgá-los. Por isso, planejo para os meses vindouros - penso mesmo que só quando lançar Sertanices - abrir um outro blogue para postar apenas meus poemas. A série, entretanto, ainda permanece em aberto. Outros poemas virão, certamente.

LETRAS & LIVROS

imagem da capa da edição da Editora Bertrand Brasil, de 2003


Memorial do convento, José Saramago


Por Pedro Fernandes de O. Neto


Acabei de reler e tenho obrigação de postar minhas reimpressões acerca desta obra da literatura em língua portuguesa. Falo de Memorial do convento, do escritor português José Saramago. O texto está em sua 33ª edição publicado em 2007 pela editora Bertrand Brasil.


O que salta aos olhos do leitor saramaguiano de Memorial do convento é um narrador brilhante, polido no caráter da observação, sarcástico e irônico para com os fatos que vão se desenrolando ao longo das 345 páginas. O livro conta a história da construção de um convento em Mafra, erguido depois duma promessa do rei português para conseguir um herdeiro ao trono – coisa que desde que se casara vinha tentando. Nas entrecruzadas do fato o que se assiste é o desenlace doutras histórias: a da própria construção do convento; a de Baltazar, um ex-combatente maneta, e Blimunda, capaz de ver o interior das pessoas, ele Sete-Sóis, ela Sete-Luas – como os Mau-Tempo no outro romance de Saramago, Levantado do chão; e a do padre Gusmão que queria voar e construiu seu voo numa passarola, mas morreu doido.


Trata-se de um texto memorável como já se é de esperar do escritor de Ensaio sobre a cegueira. Portando sua linguagem escorreita que margeia os quatro pontos cardeais das páginas do livro, Memorial do convento é o retrato outro – apesar de um texto ficcional – da formação portuguesa. Por ele, além de se entrever um re-engendrar da história oficial portuguesa, vista sob outro viés, assiste-se também as raízes que viriam fundar outros grandes romances do escritor, como O evangelho segundo Jesus Cristo, outro texto memorável do autor.



Alguns dos filmes brilhantes

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Na primeira temporada do quadro ALGUNS DOS FILMES BRILHANTES estamos exibindo a lista publicada em 2007 pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.


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Stwart com Kim Novak, pivô de um mistério. fonte. Camera Escura




UM CORPO QUE CAI, Alfred Hitchcock

Trama evolui para se tornar um tratado a respeito da imagem e da sedução que ela exerce sobre o espectador

Hitchcock, o mestre do suspense. A alcunha caiu tão bem ao diretor britânico que pouca gente se dá conta de que ele foi, de fato, um mestre do cinema. Até o nício dos anos de 1950, sua carreira havia sido marcada por thrillers psicológicos, pela habilidade em manipular medos da platéia e por sofisticação na encenação, enriquecida por uma visão de mundo amarga, feita de sentimentos de culpa e de pecado, tingida com uma ironia britânica.

O público sempre o adorou, mas a crítica considerava seus filmes sem substância. Até que um grupo de redatores da revista Cahiers du Cinèma, tendo em frente os futuros cineastas François Truffat, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Claude Chabrol, revelou que desde as origens a obra do diretor havia sido construída com inteligência e estilo inconfudíveis. Seus integrantes cunharam, a partir daí, uma teoria que identificava o diretor inglês como autor, da mesma maneira que artistas de outros campos, como escritores e pintores, são considerados autores de seus trabalhos.

Depois de títulos geniais, como Janela Indiscreta, feito em 1954, Hitchcock alcançou o ápice em Um corpo que cai. A trama segue o policial Scottie (James Stewart), afastado da profissão por ser vítima de acrofobia (medo de altura), que lhe impede o exercício do cargo. Convidado por um antigo colega, ele aceita a tarefa de seguir os passos da esposa deste, Madeleine (Kim Novak), que se supõe uma reencarnação de uma antepassada cujo comportamento estranho culminou em suicídio. Revelar a segunda parte da trama seria estragar o prazer.

Mas basta deixar claro o jogo que Hitchcock propõe ao espectador, de identificação por meio do olhar de Socttie, que espreita uma ação e se envolve emocionalmente nela, do mesmo modo que nós quando estamos sentados no cinema.

É um filme sobre a imagem e o poder dela na manipulação de nossas percepções, uma encenação de um drama e a maneira que nós o vivenciamos como se fizéssemos parte dele. Ou seja, aqui Hitchcock leva ao extremo a lógica que utilizou para produzir emoções, ao mesmo tempo em que expõe o mecanismo que o cinema recorre para obter tais efeitos.




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fonte: Revista Bravo!, 2007, p. 19.



Os escritores

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009




“Ridendo castigat mores” – Gil Vicente, o pai do teatro português



Todo o Mundo – folgo muito d’enganar e mentir nasceu comigo.

Ninguém – Eu sempre verdade digo sem nunca me desviar.

(Berzebu para Dinato)

Berzebu – Ora escreve lá, compadre. Não sejas tu preguiçoso!
Dinato – Quê?

Berzebu – Que Todo o Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade.

(Gil Vicente, Auto da Lusitânia)



Não é redundante afirmar que o caráter da literatura, dentre vários outros, é o do desvelo para com as questões que regem a realidade empírica. Mas do que isso é o teatro de Gil Vicente. Ao passo que figura o desvelo, figura também certa “denúncia” da sociedade da qual fazia parte. Uma sociedade predominantemente voltada aos ricos e à marginalização dos pobres. Uma sociedade que até hoje permanece abarcada pela hipocrisia.


Mesmo sendo incertas as datas de seu nascimento e morte, é sabido que Gil Vicente viveu durante o reinado de D João II. Testemunhou a aventura portuguesa das grandes navegações e grandes descobertas ultramarinas. Muitos de seus autos e peças foram encenados na corte de D Manuel. O autor contava com a proteção da Rainha Velha, Dona Leonor. Aqui, reside a façanha de Gil Vicente: “falar mal” do espaço social, cujo principal responsável pelo caráter da hipocrisia era o palácio real. A forma singular com que Gil Vicente fez é o que garantia esse “protecionismo”. A Corte era mesma analfabeta. Não tinhas os olhos para a essência da arte, apenas para sua superfície.


Da leitura de suas obras, além deste caráter predominantemente desvelar, embora não se dê para extrair muitas informações sobre a vida que levou e sobre a educação que recebeu, percebe-se que Gil Vicente foi educado muito provavelmente no seio da cultura humanística.


Obra


Como se é praxe às obras literárias, muitos têm sido os que tentaram organizar a obra vicentina em fases ou em gêneros. O primeiro a tentar isso foi seu filho num texto Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente. Porém, adotemos nesse caso a classificação mais comum apresentada pela maioria dos críticos e estudiosos da sua obra. Por esta, depreende-se que a obra vicentina está composta por:


- autos pastoris – gênero em que se agrupam algumas obras do autor. As peças aqui geralmente têm caráter religioso e profano;


- autos de moralidade – gênero em que Gil celebrizou-se. É dessa leva a trilogia das barcas, conhecidamente pelo Auto da barca do inferno, Auto da barca do purgatório e Auto da barca da glória). O caráter desses textos de Gil Vicente é estritamente alegórico, representações dos vícios e virtudes humanas;


- farsas – gênero em que predominam tipos populares e desenvolvem-se questões em torno da problemática social. Dentre as farsas vicentinas, destaquem-se a Farsa de Inês Pereira que conta a história de uma jovem que vê no casamento a sua chance de ascensão social e a Farsa do velho da horta, em que o autor ridiculariza a paixão de um velho casado por uma jovem virgem.


Todos os textos que compõem o corpo de sua obra partem de situações modelares, comuns ao público que lhe assistia. Ainda que fortemente marcado pelo fosso das ideias religiosas, identificam-se estes textos com os da leva do Humanismo Português – período literário introduzido em Portugal ainda no reinado da Dinastia de Avis (1385 – 1580).


Sem fazer distinção entre as classes sociais, o teatro vicentino celebrizou-se por colocar no centro da cena críticas a ricos e pobres, nobres e plebeus. Em textos como Auto da barca do inferno, o autor denuncia os exploradores do povo em figuras com o fidalgo, o sapateiro e o agiota, além da Igreja – seu, digamos, “alvo” central não apenas neste texto, mas noutros da leva produzidos pelo autor. Via de regra seus textos compõem um painel animado da sociedade portuguesa da época, com o caráter de ao denunciar a hipocrisia aí reinante, recuperar o que considerava serem as virtudes humanas.


minhas falas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Estamos de volta. Devagar, porque as coisas só engrenam mesmo depois do carnaval. Mania de brasileiro. Deixo como post hoje na série minhas falas, artigo sobre a Reforma Ortográfica que tanto tem tido repercursão nos meios acadêmicos. Boa leitura!



Ortografia em reforma

por Pedro Fernandes de O. Neto


Bem, se nada em nossa vida pessoal está, pós-réveillon, a passar por alguma mudança, este fato não se estende a tudo que nos cerca. Algo sutil está a passar por alguma mudança pós-réveillon. Algo que até o presente não tem causado ainda tanta estranheza a nós. A mudança que está para acontecer, ou melhor, que já vigora, diz respeito ao mundo das letras portuguesas. A partir deste mês de janeiro entrou em vigor - finalmente! - as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O acordo que em papel já há muito que bolava pelas gavetas e que passou por umas quantas cabeças de vários lados foi enfim passado à caneta oficialmente - aqui no Brasil em setembro do ano passado.

Tudo começou em 1990, quando representantes dos oitos países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP -, que corresponde a Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste, decidiram simplificar a grafia e unificar a ortografia. A implementação, no entanto, foi visivelmente lenta: 18 anos! Isso porque foi necessário que os países envolvidos na questão ratificassem as mudanças apresentadas pelo Congresso Nacional Brasileiro. A maior resistência à reforma viera de Portugal, o país que terá as mudanças mais significativas - estima-se que 1,6% do sistema lingüístico de lá passe pelo crivo destas mudanças. Mas tendo a ratificação de Portugal - coisa que só se deu ano passado -, enfim a reforma deslanchou e agora chega-nos tendo um prazo ainda de mais três anos até que sejam realmente incorporadas.

Já era tempo que essas mudanças viessem a ocorrer. O português, que segundo a Organização das Nações Unidas - ONU - é a quinta língua mais falada no mundo, o que corresponde a pouco mais de 230 milhões de falantes não poderia permanecer sendo representada por duas frações: um português de cá e outro português de lá. As diferenças entre o português falado em Portugal e no Brasil, por exemplo, são oceânicas, entretanto, ainda se "portugueseia" por lá e por cá e ambos os países ainda se fazem entender pela língua que falam. E mais: uma língua que queira está presente nos trâmites internacionais - levando-se em consideração a avalanche das mudanças decorrente de uma globalização - não se pode está presa a esses detalhes de uma falsa preservação, que em casos como estes tratam-se de defesas a interesses muito mais pessoais. Apesar de que quem decide as tais mudanças serem os donos do poder, os donos da língua são seus falantes. E sendo seus falantes em maior número aqui no Brasil, desses 230 milhões correspondemos a 170 milhões, não é justo ainda estarmos tendo de conviver com duas grafias distintas. Aumentaria o fosso entre as línguas, o que de já justifica a reforma como necessária.

Agora se põe as editoras a revisarem e reeditarem os livros didáticos e dicionários. Por aqui as mudanças chegarão primeiro. E escritores revisando suas obras em andamento ou modificando a forma de escrever suas novas obras, ainda que para muitos, como Ruy Castro, admitam já ter passado da idade de reaprender a escrever. Entretanto, ao que me parece, dada a sutileza dessas alterações que serão operadas no sistema lingüístico brasileiro só terão a facilitar o ensino de língua portuguesa por cá. Uma língua mãe cujo seus falantes são os que mais reclamam dela, dada a orbe de regras que povoam a gramática nossa, ficará, digamos, mas leve, livre de algumas regrinhas e também de alguns adereços bem particulares. Você vai ao supermercado e agora pedirá "um quilo de linguiça". Isso mesmo, sem o trema, que ficará de vez desempregado. (O chato vai ser sempre pedir correção no computador). Não terá mais enjôo no vôo, mas enjoo no voo. E as mães poderão continuar tendo ideias (também tudo sem acento - as letras dobradas e os ditongos abertos ficam nus de acentos) para registrar seus filhos sem dor na consciência, sejam eles Wesley, Kennedy ou outro qualquer estrangeirismo. Isso porque volta a ser incorporado no alfabeto as letras k, w e y. Essas são algumas da mais, digamos, "sofisticadas", mudanças. Mas haverá ainda outras. E não pára - ops! - Não para por aqui. (Também sem acento. Cai o chamado acento diferencial nesses casos.) Quando cair de pára-quedas precisava de um auxílio; quando contra-rega também precisava de uma mãozinha, agora não mais precisarão. São apenas paraquedas e contraregras, sem o hífen - este só se manterá vivo nos casos de palavras compostas cuja segunda palavra começa com h como em pré-história. Mas desempregado daqui o hífen será agora empregado em substantivos compostos cuja última letra da primeira palavra e a primeira letra da palavra seguinte é a mesma, como em microondas que vira micro-ondas.

Enfim, muita roupa suja ainda haveremos de lavar nós, os professores de língua materna. Se bem que acho que, assim, nem tanto...


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artigo publicado no Jornal Correio da Tarde, em 20 de janeiro de 2009.