Intervalo

segunda-feira, 30 de março de 2009

Viagens a Mossoró, reencontros: O poeta Gustavo Luz a reedição Das máquinas e o poeta Leontino Filho

Estive por quase duas semanas consecutivas, não inteiras, porque meu roteiro oficial era Pau dos Ferros, na cidade de Mossoró. No roteiro dessa viagem a revisita e revista de pessoas e lugares que povoaram meus quatro anos de estadia na cidade.

Na primeira viagem, um pequeno desgosto, porque não pude acompanhar na noite de 19 de março, o lançamento da 3ª edição do Jornal Trabuco e o lançamento do Projeto Caderno Sarau. O que rolou foi apenas uma curta conversa com o poeta mossoroense Gustavo Luz. Na pauta desse encontro não programado estavam assuntos pessoais e assuntos que dizem respeito à organização do Caderno de Poesia Sarau – projeto para lançamento junto à quarta edição do Jornal Trabuco, prevista para maio – e ao seu livro de poesia, agora em segunda edição, sem data para relançamento, o Das máquinas. Livro este que teve as orelhas escritas por mim; em breve as recortarei para este blogue, assim me permita o tempo. Desta conversa a novidade que vem para público é que as publicações da editora do poeta – a Queima-Bucha, mestra nacional em divulgação do cordel nordestino – estão à disposição dos leitores nas livrarias Siciliano de todo o Estado. E por aqui em Natal já vi mesmo o Cartas da Europa, que reúne cartas do escritor Jaime Hipólito e o Veredas de sombra, do poeta e cordelista Antônio Francisco.

Na segunda viagem, um segundo pequeno desgosto, não ter podido ir ao lançamento do livro Travessias na Livraria Potylivros, no dia 27 de março, livro que consta a reunião de um corpo de artigos acadêmicos dos da Faculdade de Letras, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Pude apenas rever em rápida conversa o poeta Leontino Filho para a troca de ideias acerca do Caderno de Poesia Sarau.


Os Escritores

quinta-feira, 26 de março de 2009

O indianismo de José de Alencar


Em 1856 saía publicado A confederação dos Tamoios, poema do escritor Gonçalves de Magalhães. Quase que paralelo saía uma crítica de um desconhecido. Assinava-se Ig.

“[...] se algum dia fosse poeta, e quisesse cantar a minha terra e as suas belezas, se quisesse compor um poema nacional, pediria a Deus que me fizesse esquecer por um momento as minhas idéias de homem civilizado.

Filho da natureza embrenhar-me-ia por essas matas seculares; contemplaria as maravilhas de Deus, veria o sol erguer-se no seu mar de ouro, a lua deslizar-se no azul do céu; ouviria o murmúrio das ondas e o eco profundo e solene das florestas.

E se tudo isso não me inspirasse uma poesia nova, se não desse ao meu pensamento outros vôos que não esses adejos de uma musa clássica ou romântica, quebraria a minha pena com desespero mas não a mancharia numa poesia menos digna de meu nobre país.”


Ig era José de Alencar. E esse texto daria início a uma das mais acaloradas polêmicas da ainda nascente Literatura brasileira. Criticava a Magalhães o seu tom classicizante e sua incapacidade de retratar de forma fiel a natureza brasileira.

O autor é cearense de Mecejana. Nascido em 1829. Não se notabilizou como poeta, mas como romancista. Nos romances tentou mostrar as suas possibilidades de retratista fiel da natureza brasileira conforme assinalou na crítica. E conseguiu. Mas antes de se tornar o notável romancista que foi e ainda o é, Alencar formou-se em Direito depois de estudar em Olinda e em São Paulo. Também trabalhou como redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro. Fez carreira política como deputado pelo estado do Ceará e como ministro da Justiça. E, entre outras coisas, produziu um dos mais importantes conjuntos de obras da Literatura brasileira com destaque para O guarani, de 1857, Cinco minutos, do mesmo ano, A viuvinha, de 1860, Lucíola, de 1862, Diva, de 1864, Iracema, de 1865, O gaúcho, do mesmo ano, A pata da gazela, de 1870, O sertanejo, de 1875. Com o gênero teatro destaca-se nas obras O demônio familiar, de 1858, Mãe, de 1862, O jesuíta, de 1875. Além de ensaios, crônicas e outros textos.


Mas o que mais chama a atenção da crítica contemporânea em derredor da obra alencariana diz respeito ao seu projeto literário. Se o nome é tão receptivo a escrita doutros grandes escritores, em Alencar receptivo pode até não ser, visto que toda grande escrita não é possível cercar-se de categorias, no entanto, é notável que romancista tenha se empenhado num projeto de escrita. As bases para confirmar tal assertiva não se resumem apenas a críticas como aquela ao poeta Magalhães, mas no próprio conjunto da sua obra. Ele, o conjunto da sua obra, é a primorosa elaboração de um painel significativo da história e da cultura nacional, tomada em todos os seus aspectos e dimensões, passado e presente, urbano e rural, litoral e sertão; todos devidamente representados duma forma em que vigoram não somente a recém independência cultural porque passava o País, mas também a apresentação aos outros povos os traços constitutivos daquilo que viria ser a identidade do povo brasileiro. Uma crítica sua é representativa do que Alencar propôs-se ao perfilar vinte um romances com faces diversas:




“O período orgânico desta literatura [a brasileira] conta já três fases.
A primitiva que se pode chamar aborígene, são as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; são as tradições que embalaram a infância do povo, que ele escutava como o filho a quem a mãe acalenta no berço com as canções da pátria, que abandonou. [...]
O segundo período é histórico: representa o consórcio do povo invasor com a terra americana, que dele recebia a cultura, e lhe retribuía nos eflúvios de sua natureza virgem e nas reverberações de um solo esplêndido. [...]
É a gestação lenta do povo americano, que devia sair da estirpe lusa, para continuar no novo mundo as gloriosas tradições de seu progenitor. Esse período terminou com a Independência. [...]
A terceira fase, a infância de nossa literatura, começada com a independência política, ainda não terminou; espera escritores que lhe dêem os últimos traços e formem o verdadeiro gosto nacional [...].”




José de Alencar faleceu em 1877.




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Fonte. Texto-base e fragmentos de José de Alencar em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português: língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.









minhas falas

quarta-feira, 25 de março de 2009

Este ensaio que posto hoje no Letras in Verso e [Re] verso compus em novembro de 2002. Também este faz parte daquele feixe de textos que encontrei nalguns arquivos adormecidos e que agora trago para este espaço, cujo interesse está para além de vê-los reunidos num mesmo espaço, é o de encontrar com minhas reminiscências de leitura e de escrita, que vem paulatinamente em processo de construção.

O hábito da leitura


por Pedro Fernandes de O. Neto


Ser culto é não ser curto


Imaginemos viver um só dia apenas como analfabeto. Sem ler. Será que conseguiríamos? Num mundo como este em que a leitura é-nos fundamental, seria possível passar por tal experiência? Bom, creio que não há como ou necessidade de passarmos por tal experiência. Sabemos nós que é algo impossível. Entretanto, há pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de aprender a ler. Estas pessoas vivem essa experiência fixa.

Não saber ler é como ser deficiente. Vive preso apenas a um mundo. Escuro. Ou melhor, mais que deficientes. Deficientes, portanto, vivem mais libertos de seus mundos se fazem o uso da leitura.

Agora, o nosso país padece de uma deficiência outra. Os que sabem ler não sabem o que leem. Não tiram proveito da leitura. Nesse grupo reúnem-se aqueles que quando leem alguma obra literária, por exemplo, não sabem ou não conseguem captar sua “essência”. Através da leitura aprendemos. Através da leitura guardamos aprendizados para toda uma vida. E para os que pensam que só os músculos precisam de exercícios, a leitura é o santo remédio ao exercício da mente.

Também padecemos doutra estatística. Não lemos o quanto deveríamos ler. As pesquisas estão aí sempre reforçando que os franceses leem mais, que num sei quem ler mais e, nós, os brasileiros, sempre aparecemos na lanterna destas listas ou no fim do gráfico destas estatísticas. Tudo isso porque por aqui ainda perdura o mito de que a leitura é, na verdade, uma perda de tempo. Lemos para ver o tempo passar. Lemos quando não temos nada a fazer.

Ler nunca será uma perda de tempo. Ler pode até ser um passar de tempo, mas necessariamente, se pela leitura entendo que posso enriquecer mais em termos de conhecimento linguísticos e em termos de conhecimento de mundo.

Ficamos ricos cada vez que lemos algum livro interessante. Disso sabemos. Ler é, pois, um hábito inteligente. Ler é não prender-se num só mundinho. Ler é conhecer o mundo, ainda que não saiamos de onde estamos. Conheço muita gente que conhece a Europa, sem de casa ter saído.

Enquanto não abandonarmos a preguiça de ler e entender o que lemos seremos essa sociedade analfabeta. Seremos sempre presos nas rédeas que os outros adoram pôr na gente.

Ser culto é não ser curto.

alguns dos filmes brilhantes

segunda-feira, 23 de março de 2009


Na primeira temporada do quadro ALGUNS DOS FILMES BRILHANTES estamos exibindo a lista publicada ano passado pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.


09


O encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein


Criador propôs reinvenção da linguagem, por meio da montagem, para transmitir valores revolucionários


Para um conteúdo revolucionário, uma forma revolucionaria. Sob este lema o diretor russo Sergei Eisenstein entrou definitivamente para a história do cinema em razão da expressão inovadora de sua obra e também pela reflexão sobre a produção de significados na linguagem cinematográfica, feita numa extensa lista de ensaios escritos.



O encouraçado Potemkin (1925) é seu segundo trabalho. Mas desde sua estréia, com A greve, no ano anterior, o cineasta já propunha uma narrativa em total ruptura com as formas tradicionais, ainda marcadas pela linearidade dos fatos e pela teatralidade dos gestos e atuações.

Não é possível, contudo, compreender a importância da proposta estética de Eisenstein sem o contexto em que ela foi criada. A Rússia havia sido sacudida por uma revolução em 1917, e o estabelecimento gradual das reformas foi acompanhada por um grande número de experimentações no campo das expressões artísticas, com vanguardas ocupando terreno na pintura, no teatro, na literatura e na cinematografia.


No caso do cinema, Eisenstein enxerga a montagem, o modo como se associam duas imagens no cinema, um elemento substancial na construção de novos significados. Contra a linearidade, o artista russo escolheu o simbolismo, a alteração abrupta de direções de olhares e de ritmos, o choque de valores plásticos opostos, o conflito, naquilo que ele definiu como “montagem dialética”. Com isso, pretendia que o espectador compreendesse o conteúdo não apenas pelo que é narrado, mas também pelo modo como é narrado.


O resultado desse projeto encontra-se representado na cena mais clássica de O encouraçado Potemkin, a do massacre da população na escadaria de Odessa. Alegre e receptivo à tripulação rebelada do navio, o povo ocupa uma escada quando a festa é interrompida pela polícia, que marcha atirando para pôr fim à manifestação. O modo como o diretor constrói essa cena revela todo o significado do filme, na oposição entre a ordem inflexível do poder e a desordem libertária das massas.


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Revista Bravo!, 2007,p. 28


minhas falas

sábado, 21 de março de 2009

"Não Matarás"

por Pedro Fernandes de O Neto


Estava depois dos últimos acontecidos por entre os terrenos da igreja católica - enumero alguns para os de mente esquecida ou que padecem da mesma esquizofrenia sobre a qual se erige os muros das religiões: Inquisição, moléstia sexual de crianças, negação do Holocausto, e, entre estes, um bem recente, cá entre nós, que esteve a povoar a mídia, a excomunhão de uma equipe médica e dos envolvidos num aborto legal de gêmeos feito numa criança de nove anos grávida depois de molestada sexualmente pelo padrasto - e junto com esse painel de horrores fico lembrando-me de meu tempo de catecismo, quando a professora punha os alunos, entre eles eu, para ditar a tábua dos Dez Mandamentos da Lei de Deus. Dentre os mandamentos que ditávamos estava um, que não me lembro bem ao certo agora qual é, mas lembro-me claramente o conteúdo, "Não matarás". Associado a isso estive a lembrar também dos tantos discursos que a Igreja tem mostrado a favor da vida humana.

Por estas questões, principalmente esta última acontecida recentemente, penso que devo eu está doente das faculdades mentais porque fico refletindo sobre elas e não consigo encontrar o sentido/a concordância que estas fazem com o tal mandamento divino "Não matarás" e esses tais discursos ditos a favor da vida. Entretanto, se estou bem de minhas faculdades mentais - e ainda acho está porque até hoje não dei para rasgar dinheiro - vejo que estamos mesmo num trem descarrilado.

Foi com esses discursos a favor da vida que nos meus tempos de catecismo tinha a inocência de que a Igreja era boa. Tinha a inocência de que aquilo que eu já lia nos livros de História acerca da Inquisição eram somente histórias. Tinha a inocência quando ia às missas aos domingos de que aquilo que o padre falava era verdade incontestável. Hoje posso perceber que não. Não eram tudo verdades o que padre falava, não eram histórias a História que eu lia, como não é boa a Igreja. Ela está em toda parte contaminada por loucos que há tempos presos num manicômio chamado fanatismo religioso - não há outro nome para certas atitudes tomadas pelos ditos superiores - ocupam com suas roupagens cargos que ao invés de contribuírem para um desenvolvimento da sociedade servem apenas para congelá-la, colocando os indivíduos que nela estão numa estagnação mental em torno de determinadas questões que à luz da ciência já se encontram há anos resolvidas.

Não é possível passar em branco a atitude de excomunhão dada aos envolvidos nesse aborto, quando mais que provado estava que a mãe, que sequer sabe o sentido da maternidade, não podia conduzir uma gravidez que punha em risco mãe e crianças. Atitudes desse tipo, que parece ser doutro mundo, doutra era, só vêm confirmar que o interesse das igrejas - e agora não me refiro apenas à católica - não tem sido na vida, tampouco na alma dos fiéis. Tenho impressão de que elas sequer sabem o que é vida e o que é alma e se utilizam de conceitos forjados sobre as duas coisas no intuito apenas de congregarem o maior número de fiéis em torno das suas causas próprias - a alienação dos indivíduos e a expropriação de recursos materiais em torno de um enriquecimento ilícito e da ampliação dos horizontes de dominação ferrenha, ditatorial e retrógada.

A meu ver estão todos padecendo duma esquizofrenia que veda o olhar para o sentido daquilo que de mais belo o discurso religioso deturpou: os ensinamentos de Cristo. A meu ver não pode existir reflexão sobre a vida em quem a extermina, seja pelos negros anos da Inquisição, seja pelos negros anos de moléstia contra crianças e adolescentes em corredores de igreja ou fora dela por seus representantes legais - e estes anos ainda perduram até hoje. Não pode existir reflexão sobre a vida em quem defende a inexistência do extermínio dela. Não pode existir reflexão sobre a vida em quem defende - e nisso eu nem tinha tocado - o não uso do preservativo, única forma mais segura de se evitar o vírus da AIDS. Enfim, não pode existir reflexão sobre a vida em quem defende contra as leis da ciência e até as do senso comum a morte.


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artigo publicado no Correio da Tarde, 16 de março de 2009

LETRAS&LIVROS

sexta-feira, 20 de março de 2009

Literatta ou doce sorriso do macho satisfeito, de R. Roldan-Roldan

por Pedro Fernandes



John William Waterhouse - Hilas e as Ninfas, 1896

Esse sentir, esse tocar, esse beijar, esse chupar, esse morder, esse penetrar, esse gozar... Esse quero mais. Insaciável. Esse quero mais infindável. Antes que tudo acabe. Pois tudo acaba. Essa é a única verdade. É o que rege o escritor e sua escrita, o leitor e sua leitura.

(fragmento de Literatta ou doce sorriso do macho satisfeito, de R. Roldan-Roldan)


Recebi de Roldan-Roldan pelas mãos do poeta Leontino Filho seu trabalho Literatta ou doce sorriso do macho satisfeito. Já lera - como comentei em post neste blogue - um livro seu de poesia (que ganhei por ocasião do I Sarau realizado na Faculdade que terminei ano passado), Os úberes do infinito - é este o livro. E Ao sul do desejo. E Carta a uma mulher separada. E Azeviche ou nossa senhora do sagrado sexo. Pois bem, recebi Literatta numa das últimas viagens que fiz a Mossoró, no fim de 2008. Este fim de ano de tantas conturbações. E de tantas decisões que se colocaram à minha frente e algumas até insistem em lá permanecerem. Este fim de ano só me permitiu ler as orelhas do livro, poeticamente escritas por Leontino e também dá uma rápida corrida de olhos por sobre o prefácio da obra, também de Leontino Filho. Foi no recesso do carnaval, quando todos se vão para suas folias - e eu já cansado delas! - que eu, ainda sem teto (este foi um dos problemas que se colocaram à minha frente), volto depois de quinze dias de um recesso forçado no mês de janeiro ao interior. Para meu retiro levo na bagagem o romance de Roldan-Roldan.

São, pois, nestas circunstâncias que me pus a ler Literatta ou doce sorriso do macho satisfeito. São, pois, nestas circunstâncias que escrevo minha visão, espécie de resenha dessa obra para este blogue. Li o romance. Li-o freneticamente. Em momentos estive em carne e unha com um narrador-lírico (para fundir aqui categorias da prosa e da poesia), por se tratar a prosa roldaniana do que comumente chamamos de prosa poética em vários momentos do romance, sem querer rotular, porque não há como definir onde começa ou termina um e outro gênero na Literatura e consequentemente em toda grande obra de todo grande escritor. Noutros momentos pude sentir através da pele das palavras o gozo - também frenético - com que o narrador se pôs/se põem a compor a trama desse romance.

Literatta ou doce sorriso do macho satisfeito é um tipo de romance sem tipo, mas que meu instinto de crítico me leva a chamá-lo, de novo sem querer rotular, de romance acadêmico. Não que haja em Roldan-Roldan um Joyce com seu Ulisses. Mas é que este romance não se trata de romance simples para leitores comuns - quando digo comuns, me refiro àqueles leitores que estão adaptados a linearidade do discurso. Pode até ser que esse tipo de leitor venha a lê-lo, mas separando as duas histórias que compõem a trama do romance. Há de ser o leitor muito bem iniciado em leituras do tipo romanesco e poético a fim de extrair do magma do romance o seu sentido, no entendimento comum de que, qualquer leitura literária parte em si de um sentido próprio, único que se chega ao fim da leitura e se contrói ao longo da leitura e das leituras. Tanto que, passo desde já a preparar uma leitura mais apurada deste romance que não irei expor neste espaço, mas num espaço que se permita reflexões acadêmicas.

Literatta ou doce sorriso do macho satisfeito é um romance que ergue seu tecido na encruzilhada de duas histórias: uma, que é a própria história, poderia assim dizer, é a própria história da relação do escritor com a literatura e sua matéria posta com as imagens de Literatta - espécie de musa daquelas que costumavam/costumam invadir cabeças e poemas de poetas - e de Heize, escritor invadido/envolvido numa trama perene de sedução e de erotismo; trama esta que dará suporte à composição de uma trama outra, a de Elisa e um mordomo com ares de Literatta, misterioso. Aliás, todos são personagens envoltos numa penumbra de mistério que, ao longo do correr da trama vão se mostrando aos olhos do leitor. São muitos deles personagens que se deslocam num "submundo", a margem de um mundo comum.

Ao dar conta de duas histórias e no interstícios de ambas compor sua obra, Roldan-Roldan traz para o leitor uma trama que é a própria composição do romancista e seu romance. Merece uma releitura. Merece uma atenção depurada do leitor nesse gozo frêmito, nesse jogo sexual que é a metalinguagem e que é esse romance. As impressões outras que já estão postas em notas à parte discutirei noutros espaços. Fiquemos por aqui.


Para ler o primeiro post sobre R. Roldan-Roldan, clica aqui.








minhas falas

quinta-feira, 19 de março de 2009

Crise, crises (parte II)


Pedro Fernandes de O. Neto


Por esses dias saiu neste espaço uma fala minha sobre uma crise que anda a assolar o mundo inteiro, conhecidamente de todos, porque tem sido sobre que a maior parte dos jornais e telejornais tem falado ultimamente, a crise econômica. Haveremos de concordar que esta é uma das muitas crises que vem atormentando a tão frágil organização humana. Mas junto com ela vem ou já estavam várias outras crises. Há a crise financeira. Há a crise política, a crise religiosa, a crise energética, a crise ambiental, a crise... Há crise para todos os gostos. Devo ter enumerado parte significativa delas. Ou senão as mais faladas ao lado da econômica. Umas não tão recentes assim, outras tão velhas quanto à existência humana nesse planeta. Houve crises, há crises e crises ainda haverá. Crises. A história humana é, pelas crises, permeada. Mas, tenhamos calma, isso ainda não é o fim dos tempos, como muitos fanáticos religiosos querem – uns até mesmo pedem em suas orações pela volta do Salvador. Tenho receio de que é o Apocalipse now, mas crises brabas já passaram e ainda estamos de pé. Aos poucos percebo mesmo que começamos já a superar aquelas catástrofes – tão belas, bélicas e belicistas – do Apocalipse. Mas se aquelas profecias tão esperadas já estamos a superá-las, onde está o fim? O fim está só pode está noutra crise.

Depois de rever minha fala, “Crise, crises”, e com ela os fatos que têm sido postados na imprensa ultimamente, começo a perceber que há uma crise maior e mais antiga que todas as que enumerei e as que ainda estão fora por enumerar. Essa outra crise é talvez a responsável por todas as outras e pertence ao rol daquelas tão antigas quanto à própria história do homem. Talvez seja ela a que nos destruirá de vez, porque se trata de uma crise na qual estamos mergulhados, cegos, e não nos damos conta. Estamos sendo assolados por ela e enquanto dela não nos livrarmos não conseguiremos entender as causas das outras crises e tampouco resolvê-las. Trata-se de uma crise que os jornais e telejornais não divulgam, porque eles também estão nela submersos e aqueles que a vê fazem de conta que não a viu, porque acham que essa crise não é fato noticiável ou não apresenta perigo à raça humana.

Analisemos comigo alguns fatos aleatórios para ver se podemos enxergar neles a tal crise de que falo: (1) a crise política porque passam judeus e palestinos e que faz o governo israelita fechar os olhos para a crueldade a milhões de civis em Gaza; (2) a crise energética que faz os governos da Ucrânia e da Rússia deixar meio continente da Europa a padecer no frio; (3) a própria crise econômica que permite com que governos abram seus cofres e despejem toneladas de dinheiro aos banqueiros que foram até certo ponto irresponsáveis com o dinheiro alheio e agora somam esforços em engordar um discurso de que não conhecem, não sabem ou não previam os fatos que se desenrolam na corda bamba de um capitalismo delinquente; (4) a crise ética num Brasil incapaz de elaborar e por em ação uma justiça que puna os principais responsáveis pelos escândalos dentro e fora do governo e que tanto tem beneficiado aos corruptores; (5) a crise na Arábia Saudita que permite ao mufti, autoridade religiosa e máxima do país, impor o casamento de meninas na idade de dez anos, expondo ao mundo tanto melindre, escancarando debaixo da lei a pederastia legalizada; (6) a crise no Irã onde dois homens foram apedrejados por adultério, ou no Paquistão onde cinco mulheres foram enterradas vivas por quererem casar-se no civil com homens da sua escolha; (7) a crise que permite rios de gente ludibriada encher igrejas para serem assaltadas com compra de milagres e salvação; (8) a crise que permite a fome, enquanto outros se resvalam no luxo.

São apenas alguns exemplos, muitos outros ainda mereciam ser enumerados, mas deixo que faça o leitor cada qual sua própria listagem e todos os exemplos que citarem pode estar certo que esta crise a que me refiro estará por detrás ou por entre o enumerado. Os exemplos que enumerei, entretanto, já são capazes de mostrar ou entender a crise principal a que me refiro, a crise que sabiamente soube vê-la Saramago, escritor português Nobel de Literatura na sua obra-prima “Ensaio sobre a cegueira”, que recentemente foi posto às telas dos cinemas no Brasil inteiro. Refiro-me à crise moral. E falar de moral na época em que se diz que o mundo é dos mais espertos, para não dizer dos cínicos e dos oportunistas, é se passar por besta. Pois dou minha cara a bofete e cada leitor faça a reflexão que achar.

Intervalo

terça-feira, 17 de março de 2009

III SEPEL

A Faculdade de Letras e Artes (FALA) divulga o caderno de resumos e a programação do III Seminário de Pesquisa em Letras - III SEPEL - que ocorrerá nesta semana, nos dias 19 e 20 de março. O evento tem como objetivo proporcionar a qualificação das pesquisas em andamento e ou concluídas, no âmbito da linguagem e áreas afins, nos níveis de graduação e pós-graduação.

O III Sepel é promovido pela FALA e pelo Departamento de Letras Vernáculas (DLV) e conta com o apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPEG), da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) e da Editora Queima-Bucha. O evento acontecerá nos turnos matutino e noturno, no mini-auditório da FALA, no campus central da UERN.

Durante o evento será feito o lançamento do Jornal Trabuco e sua 3a edição. Pela ocasião também será lançado o projeto caderno literário Sarau.


Caderno de Resumo e Programação

Os escritores


Alexandre Herculano, entre o romance e a História



Num texto da autora Leyla Perrone-Moisés ela associa o escritor português José Saramago a um conjunto expressivo de escritores da literatura portuguesa. Entre a leva de escritores figura o nome de Alexandre Herculano, dada a sua capacidade de apropriação da História a fim de extrair material literário para compor seus escritos. Característica comum também ao escritor Prêmio Nobel, quando lembramo-nos de romances como Levantado do chão, Memorial do convento, O ano e a morte de Ricardo Reis, entre outros. Hoje, o blogue Letras in Verso e [Re]verso, neste espaço Os escritores fala deste escritor que, ao lado de Almeida Garrett foi responsável pelo desenvolvimento de um programa estético que objetivava a reconstrução da cultura portuguesa.

Consciente da crise de identidade por que passava Portugal desde 1580, ano da trágica perda da soberania para o território de Espanha, Alexandre Herculano cria ser aquele o momento de investir na reconstrução dos valores nacionais. Toda sua obra a isso estará dedicada.

Autor de novelas e contos, a maioria publicada em periódicos, Herculano valia-se de pesquisas históricas para a construção do enredo de suas narrativas. Foi com ele que a primeira geração do Romantismo português conheceu o desenvolvimento máximo de uma das características principais ao movimento: a reconstituição do passado como base para a construção de uma identidade nacional. Publicou dois romances muito importantes que, por tratarem do problema do celibato clerical, foram reunidos pelo o autor sob o título de O monasticon: Eurico, o presbítero, publicado em volume em 1844 e O monge de cister, em 1848.

O autor também se destacou no cenário português não apenas como autor de ficção, mas também como historiador. Escreveu quatro volumes da História de Portugal nos quais reconta a história do país, desde suas origens até o reinado de D. Afonso III. Como historiador, Herculano inovou na concepção de História ao valorizar as lutas sociais em lugar de privilegiar os feitos individuais.

Alexandre Herculano nasceu em 1810, na capital portuguesa, e morreu em 1877. Sua obra não se resume apenas ao romance e às chamadas historiografias. Também desenvolveu poesias e contos.

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Fonte. Parte das idéias comuns a este texto estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português: língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.



Alguns dos filmes brilhantes

segunda-feira, 16 de março de 2009

Quem quer ser um milionário?

por Pedro Fernandes

Estive sábado, 7 de março, assistindo Quem quer ser um milionário?, a surpresa do Oscar 2009, frente ao Curioso caso de Benjamim Button. Bem, não sou bom entendedor de cinema. Aliás, não sou bom entendedor de nada. Acho mesmo que ninguém é. Muitos dizem que são e fica por isso. Bem, mas como ia dizendo, não sou nenhum especialista em sétima arte – é isso que queria ter dito antes e acho que o leitor entendeu já, porque segundo a máxima popular “para bom entendedor, meia palavra basta”, que tomo liberdade de desvirtuá-la para “para bom leitor, meia leitura basta”. Pois, o julgamento ou o parecer crítico – o leitor que julgue o que achar necessário – que dou ao filme é meramente um julgamento do senso comum, de que alguém que diz gostar de cinema o tanto/quase como gosta de Literatura. O leitor não especializado também poderá se sentir do meu lado ao ler meu posicionamento acerca do filme, porque meu julgamento não é o de uma crítica especializada e com orgulho de ser assim, porque se for para ser como algumas críticas que circulam por aí em jornais, revistas e endereços da rede, me perdoe, da expressão, não valem mais que um julgamento do senso comum. Não gosto da opinião crítica que se coloca superior ao objeto de arte, e que descaradamente faz uso do objeto de arte para se auto-promover. Veja bem que me refiro a objeto de arte, porque também, venhamos e convenhamos, há alguns besteiróis em circulação no mercado que merece mesmo a esculhambação por parte da crítica.

Voltando a Quem quer ser um milionário? Achei o filme belíssimo, emocionante, divertido e por alguns momentos dotado duma imprevisibilidade prevista. Digo isso porque dificilmente hoje se produz filmes dotados de um suspense no real sentido que cabe à palavra. E isso não se constitui defeito num filme que não pretende ser de suspense como é este. O filme conta a história que toma como retalho do pano de fundo o programa “Quem quer ser um milionário?” – versão indiana à espécie daquele “Show do Milhão”, que Silvio Santos trouxe para o Brasil a partir de um modelo americano, se não estou enganado agora. Um jovem ao disputar o prêmio milionário oferecido pela sensação da TV indiana é acusado de fraude, pelo fato de não acharem-no capaz de responder as questões feitas. Mas claro está a apresentação de uma máxima de que nem tudo o que devemos deve-se ao conhecimento adquirido no espaço escolar ou acadêmico. Maior que este é a experiência de vida, é o conhecimento de mundo. É a larga experiência de mundo de Jamal, menino da periferia que perde a mãe ainda na criancice, que tem de se virar sozinho pelos becos das vielas da favela indiana que faz sê-lo jogador num programa que, antes de ter conhecimento formal, tem-se a necessidade da capacidade de se esquivar de determinadas situações postas em cena em Quem quer ser um milionário? que em muito se aproximam com as situações vividas na própria biografia da personagem.

No mais pude ver o filme como representação de um grande sentimento do senso comum que cai muito bem ao refrão daquela música póstuma de Renato Russo – Quem acredita sempre alcança. Basta que sejam estabelecidas metas e com elas determinações para alcançá-las. E como estamos cercados de senso comum neste texto, uma outra máxima popular que cairia bem ao filme seria aquela de que o amor é capaz de mover moinhos. Digo isso porque vejo no filme, antes de ser a história de um jovem pobre de uma favela da Índia que sai para estrelar, meio que por acaso, num programa de TV e se tornar milionário, é a história de um amor, entre Jamal – o personagem principal – e sua Latika. É o que movimenta e alinhava toda a trama do filme. É o que parece dar movimento e alinhavar as histórias humanas. As grandes histórias do cinema e da Literatura – que se citem os mais comuns, no sentido de popular, Titanic; o clássico já arranhado de passar na Globo, A lagoa azul; O segredo de Brokebac Montain; o próprio O curioso caso de Benjamim Bottun, entre outros. É o que parece ter sido a grande sacada do diretor para tocar a sensibilidade da Academia de cinema. Entretanto, não foi só isso, é verdade o material suficiente para sair como a estrela da noite no Kodak Theater em 22 de fevereiro de 2009.

Além desse compósito maior que alinhava a trama do filme, Quem quer ser um milionário? traz em si as marcas do fazer cinema na contemporaneidade, sem a necessidade de recorrer a textos outros já prontos. Digo isso ao me referir ao Curioso caso de Benjamin Bottun que apesar de reunir os traços do cinema contemporâneo não foi inventivo o suficiente para compor esses traços, tendo de recorrer ao terreno literário duma narrativa posta às avessas – o que não é mais novidade nas telas – para compor a trama do filme. Logo, as marcas de que falo são as que dizem respeito a construção da trama, que contemporaneamente tem sido apresentada fragmentada, sem um começo específico, um meio e fim determinados e um texto perpassado por inúmeros outros fios narrativos. Além de que trazer em seu bojo traços de um neorealismo ao mostrar uma espécie de denúncia acerca do estrato humano, coisa comum noutras produções célebres como O jardineiro fiel, Cidade de Deus, Ensaio sobre a cegueira– que apesar de se fundarem em textos da literatura, reúnem uma matéria inventiva por parte da produção cinematográfica – e trazem em si essa marca de denúncia, como se arte sétima encarasse uma espécie de “missão” para o público que extrapolasse os limites dela própria.

Apenas meus poemas

sábado, 14 de março de 2009






Adultecimentos


Talvez das escusas de meu corpo
Pelas frinchas da alma
Ainda ingênua de amar
Deixei-te escapar
Fria e nua na calma da noite

Fomos, ela e eu, em dormidas
Cabeceira-pés, pés-cabeceira
Rodopiando por entre astros, os céus
Em brincadeiras ativas, curiosas
Que o corpo já adultescendo reclama
Tocando o que existe para ser tocado
Por entre os lençóis

Em mim ficaram inapagáveis lembranças
Daqui estou a vê-la deslizando nua
No espelho da memória
No corpo das palavras
Num mover-se erótico
Debaixo do lençol.

Daqui estou a ver
Encobertos pela noite, às escusas,
Uma exploração tátil dos nossos corpos
No corpo das palavras sussurrantes
Ou mesmo no silêncio da respiração ofegante
Uma vivacidade de almas palpitantes
Aceleradas na caixa do peito

E dormíamos como anjos
Em falso sono adultecíamos.


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publicado inicialmente em Jornal Trabuco, ano II, n. 3. jan. fev. março de 2009.

Intervalo

quinta-feira, 12 de março de 2009

Por do sol do Potengi


Poesia e história juntas no Rio Potengi, suavemente iluminado pela fascinante mistura de cores do crepúsculo. É essa a proposta do projeto 'Pôr-do-sol do Potengi', encabeçado pela Star Produções, em parceria com a Fundação Helio Galvão e o Iate Clube de Natal. Contemplação poética do fim do dia e resgate da história de Natal ao mesmo tempo, aguçando o imaginário simbólico dos natalenses e turistas. Do Iate Clube, o bairro da Ribeira e o Rio Potengi transformam-se no paraíso particular de cada um. A Ribeira, cais, porto e intinerário de grandes embarcações, acolhe os visitantes como acolheu os primeiros moradores da cidade do Natal. O rio Potengi e o Canto do Mangue assumem o papel de rotas históricas, agora imaginárias. O recanto dos pescadores e estivadores, amigos mais íntimos do pôr-do-sol torna-se infinito como o oceano que dele pode ser visto. O dia cai ao som de Royal Cinema, de Tonheca Dantas, poeta dos rincões nordestinos. A noite começa, com a renovação das expectativas. A Ave Maria de Gounod recebe a lua que surge. E a Serenata dos Pescadores (Praeira), poema de Othoniel Menezes que decanta esses peculiares homens do mar, celebra a cidade e a vida que recomeça depois do pôr-do-sol. No mais "O trenzinho do caipira" de Heitor Villa-Lobos embala os velhos e atuais trens da história potiguar.


Este projeto ocorre nas terças quartas e quintas, sempre as 17h no Iate Clube de Natal, desde outubro do ano passado - quando foi lançado.


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fonte. texto do fôlder de divulgação do evento.

Intervalo

quarta-feira, 11 de março de 2009

3a edição do Jornal Trabuco

imagem da capa da 3 edição do jornal

Acontece na sexta-feira, dia 13 de março de 2009, na Faculdade de Letras e Artes - FALA -, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN -, o lançamento da terceira edição do Jornal Trabuco, periódico literário produzido pelos alunos do curso de Letras. Desde já aproveito o post para a anunciar que em breve estarei junto com restante da equipe do Trabuco lançando o caderno de poesia Sarau. Por aqui irei postar mais sobre em posts posteriores. Aguardemos.

Para conhecer o blogue do jornal clique aqui.

Alguns dos filmes brilhantes

Na primeira temporada do quadro ALGUNS DOS FILMES BRILHANTES estamos exibindo a lista publicada ano passado pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.



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A regra do jogo, Jean Renoir

“Drama alegre” traz a modernização no modo de narrar e influencia a geração que criou a nouvelle

Com tal sobrenome de peso (ele era filho do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir), Jean Renoir não teria passado despercebido pela história do cinema. Além disso, como o pai, ele trouxe para os filmes um frescor de imagens e de expressão, uma abordagem encantadora da natureza e despudorada do comportamento humano.


Na época, Renoir definiu seu trabalho como um “drama alegre”. A trama se concentra numa festa num castelo, onde os nobres se divertem num andar, e a criadagem se ocupa nos afazeres em torno da cozinha, no subsolo. Entre os integrantes desses grupos circula uma versão maliciosa de cupido, que promove seduções, traições e recombinações de pares. Uma cena de caça a coelhos funciona como anúncio de tragédia iminente e como prenúncio de uma crise da civilização (pouco depois explodiria a Segunda Guerra Mundial na Europa).


O que torna A regra do jogo tão importante do ponto vista histórico é o modo como o diretor explora o efeito fotográfico da profundidade de campo para criar uma unidade dramática e estabelecer os nexos entre os personagens nos espaços onde eles transitam.


Posicionando-se em um corredor, por exemplo, a câmera nos mostra um diálogo em primeiro plano enquanto vemos outras ações ao fundo, os personagens entrando e saindo dos quartos, e a cena é feita sem cortes, mantendo a unidade espacial e temporal.


Além disso, sua peculiaridade é melhor definida nas palavras de um dos diretores que mais sofreram sua influência. “A regra do jogo é, certamente, ao lado de Cidadão Kane, o filme que suscitou o maior número de vocações de cineastas; assistimos a ele com um sentimento muito forte de cumplicidade, isto é, em vez de vermos um produto concluído, entregue à nossa curiosidade, experimentamos a impressão de assistir a uma história sendo filmada, acreditamos, ver Renoir organizar tudo aquilo ao mesmo tempo em que a obra está sendo projetado”, escreveu François Truffaut. Tal lição foi levada adiante por todos os seus discípulos reunidos sob o guarda-chuva da Nouvelle Vague.




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Revista Bravo!, 2007, p. 27



Intervalo

terça-feira, 10 de março de 2009

Babaquices da igreja


É parece que a igreja resolveu dá a cara e se assumir que está esquizofrênica, doida varrida desde que veio ao mundo a congregar fiés. Depois do caso assombroso de negar o Holocausto, vem agora a excomunhão de uma equipe médica e de uma família por ter estes se envolvido no aborto de uma criança de 9 anos grávida devido aos abusos sexuais sofridos pelo padastro. E ficam ainda a lorotear que são defensores da vida...

LETRAS & LIVROS

Obra imatura, Mario de Andrade


Mario de Andrade se dedicou à ficção - em suas mais variadas formas -, à crítica de arte e de literatura e à pesquisa de manifestações da cultura popular brasileira. Morreu em 1945, deixando mais de vinte livros, dentre eles o clássico do modernismo brasileiro Macunaíma e Amar, verbo intransitivo.

Obra imatura relançado em fevereiro de 2009 pela Editora Agir reúne três obras essenciais para entender o múltiplo Mario de Andrade, um dos precursores do Modernismo no Brasil. Há uma gota de sangue em cada poema é o primeiro livro do autor, de 1917. Primeiro andar é uma seleção de contos escritos entre 1914 e 1922. O ensaio A escrava que não é Isaura mostra o pensador Mario de Andrade, estudando as vanguardas e propondo uma arte moderna brasileira. Obra imatura, consoante as críticas, é um rico complexo de arte, de um escritor para quem a literatura era feita a cada dia, no diálogo com outras culturas e com a realidade.


Intervalo

sexta-feira, 6 de março de 2009

LETRAS FALA PROMOVE III SEPEL - SEMINÁRIO DE PESQUISA EM LETRAS


A Faculdade de Letras e Artes (FALA) e o Departamento de Letras Vernáculas (DLV) promovem o III Seminário de Pesquisa em Letras, cujo objetivo é proporcionar a qualificação das pesquisas em andamento e ou concluídas, no âmbito da linguagem e áreas afins, nos níveis de graduação e pós-graduação.

O evento, em sua terceira edição, é uma iniciativa da disciplina Seminário de Monografia I e conta com o apoio da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PROPEG), da Pró-Reitoria de Extensão (PROEX) e da Editora Queima-Bucha. Compõem a Comissão Organizadora as professoras Ms. Ady Canário de Souza, Ms. Lucimar Bezerra Dantas da Silva, Esp. Josefa Francisca Henrique de Jesus e as alunas do 7º período de Letras / matutino, Érika Vanessa Silva Santos, Ionara Fonseca da Silva, Dayse Litza da Costa Oliveira e Antonia Margarete dos Santos.
O III Sepel acontecerá nos dias 19 e 20 de março de 2009, nos turnos matutino e noturno, no mini-auditório da FALA, no campus central da UERN. Na ocasião os participantes farão suas comunicações orais e haverá também o lançamento do livro “Travessias do sentido e outras questões de linguagem”, organizado pelo professor Francisco Paulo da Silva.

As inscrições cumprem as modalidades: Com apresentação de trabalho: até 13/03/09. Enviar o resumo do trabalho para o email: falasepel@gmail.com Sem apresentação de trabalho: até 18/03/09. Valor da inscrição: R$ 5,00 para todos os alunos, com direito a certificado.

O Caderno de Resumo e Programação será divulgado após o dia 13/03/09, nos murais da FALA e no portal da UERN.

Mais informações: Fala (84) 3315-2214.

Alguns dos filmes brilhantes

quinta-feira, 5 de março de 2009

Na primeira temporada do quadro ALGUNS DOS FILMES BRILHANTES estamos exibindo a lista publicada em 2007 pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.

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Lawrence da Arábia, David Lean

Épico ambientado o deserto explora, na forma de espetáculo, os limites do indivíduo alçado à estatura de herói

Se há um sinônimo para cinemão, este foi durante anos identificado com os filmes de David Lean. O aumentativo se justifica por seu completo domínio nas narrativas de dramas épicos, no uso recorrente do formato cinemascope, pelo apuro visual de tirar o fôlego (era capaz de esperar dias por um pôr-do-sol perfeito) e pela longa duração de seus filmes.


Lean já era um veterano de histórias fascinantes (como Desencanto, de 1945, e as duas adaptações de clássicos de Charles Dickens – Grandes esperanças, de 1946, e Oliver twist, de 1948) quando, na década seguinte, só confirmou sua habilidade em produzir espetáculos, como A ponte do rio Kwai, de 1957.


Ao longo dos cinco anos seguintes, o diretor entregou-se à difícil tarefa de traduzir em imagens as reflexões existenciais e políticas do escritor T. E. Lawrence, oficial que liderou as forças britânicas em combate contra a Turquia durante a Primeira Guerra Mundial e deixou suas memórias da experiência registrada em Os sete pilares da sabedoria.


Desde sua publicação, em 1922, o relato interessou cineastas, que viam nele um heroísmo singular cujas dimensões o cinema poderia amplificar. Ciente disso, Lean filmou a história sem perder de vista nem o indivíduo nem a magnificência das paisagens do deserto, dosando na medida o volume de ação e o de reflexão e entregando ao público uma experiência visual que só a arte cinematográfica é possível.


No início, conhecemos a personagem (interpretado por Peter O’Toole) ainda jovem, mas decaído fisicamente ao fim de uma dura campanha no deserto. No Cairo, ele recebe como missão partir ao encontro do rei Faissal (Alec Guinness) e verificar a situação de uma revolta tribal na Arábia. No caminho, ele é abordado por um rebelde, Sherif Ali (Omar Sharif), que, hostil em princípio, acaba se transformando em seu principal aliado na tarefa de reunificar os árabes.


Com uma estrutura em episódios, o diretor consegue transmitir as ambigüidades do heroísmo do protagonista, envolvido em lutas sangrentas nas quais emerge sua consciência do grau de interferência do colonialismo na autonomia de outros povos.


Indicado a dez categorias do Oscar em 1963, o filme terminou a cerimônia com sete (entre elas as de Melhor Filme, Fotografia e Direção).

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Revista Bravo!, 2007, p. 24


Minhas falas

quarta-feira, 4 de março de 2009

Na sessão Minhas falas postei outro dia um rabisco que compusera em 2003. Já disse que estive no meu período de férias a revirar alguns arquivos meus que estavam adormecidos na poeira dos anos. Hoje trago mais uma reminiscência. São ensaios de escrita, coisa que tenho feito desde me fui aprisionado pelos traços da leitura e da escrita.


Diálogo com o nada


Pedro Fernandes de O. Neto

O que vou escrever nesta folha branca? Estou fazendo essa pergunta, porque não faço a mínima idéia do que deva escrever. Talvez não escreva. Mas descreva a brancura da folha. Não sei. Talvez, sim, escreva. Escrevo o que estou sentindo agora. Mas, espere aí. Um pouco. Acho que o que sinto agora não interessa a ninguém. Quer dizer, interessa sim. Interessa a apenas uma pessoa. Quer saber? Vou contar. Mas, antes, pense um pouco. O nome dessa pessoa tem apenas duas letras. Nome pequeno, não? Aposto que já sabe a quem que interessa. Senão, deve, certamente, está morrendo de curiosidades. Isto é, se você for mesmo um curioso não está lendo esta baboseira. Passou logo a resposta. Quem será essa pessoa? Eu. A pessoa a quem interessa o que sinto agora. A pessoa sou eu. Garanto que chegou até a pensar que fosse inverter o dito: o que sinto só interessa a mim. Enganou-se.

Mas, aqui chegando, que tal falar da brancura desta folha que aos poucos se esvai ocupada por um texto insignificante? Ih! Deu um branco. De novo, deu um branco. Esta folha branca me deu um branco. Acho melhor então falar do branco que deu na minha mente. Mas, se deu um branco na minha mente como falar do branco que deu na minha mente? Por que então não falarmos sobre você? Legal, não acha? Mas se você não tem vida, não me fala, o que posso dizer de você? Se você é branco, semi-transparente, o que posso falar? Se você é uma simples folha branca nada me resta para falar. Agora, como falar do nada, se do nada, nada tenho para falar? Acho melhor falar nada. Talvez o silêncio se encarregue de criar palavras para preencher o vazio, a brancura da folha, a brancura da mente.

Os Escritores

terça-feira, 3 de março de 2009


Alberto de Oliveira




Pode-se perceber, em Meridionais (1884), segundo livro de Alberto de Oliveira, a devoção ao “culto da forma”, sem que isso contudo significasse uma impassibilidade declarada e almejada. A diferença entre os parnasianos e os românticos que os precederam é que a opção por abandonar um registro de natureza emotiva em prol de uma maior atenção para as sensações e impressões provocadas por algo real. Como diz o crítico Alfredo Bosi, o resultado é que os parnasianos deslocam “a tônica dos sentimentos vagos para a visão do real”. Um exagero nessa tendência levou alguns poetas a adotarem uma postura de verdadeira adoração por objetos (vasos, flautas gregas, taças de coral, ídolos de gesso etc.).

Alberto de Oliveira pode ser considerado dentre os parnasianos, um mestre na arte de compor poeticamente retratos, quadros, cenas, em que predomina uma combinação entre o perfeccionismo formal e o descritivismo. Mineiro de Ouro Preto o poeta nasceu em 1870 e faleceu em 1921. Formou-se em Direito. Foi jornalista. E deixou Centenário das dores de Nossa Senhora, publicado em 1889, Câmara ardente, do mesmo ano, Dona Mística, de 1899 e Kyriale, de 1902.




Amostra poética




Vaso chinês




Estranho mimo aquele vaso! Vi-o
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármore luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.


Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente de um calor sombrio.


Mas, também por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a
Sentiam um não sei que com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.






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Fonte. O texto base para o post e o poema de Alberto de Oliveira estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.


Letras&Livros – Clássicos

segunda-feira, 2 de março de 2009






Madame Bovary, Gustave Flaubert












Obra clássica da literatura mundial. Reciclada a cada século. Trata-se de Madame Bovary. O primeiro romance explicitamente realista publicado na França. O ano era 1857. Nesse romance conhecemos a história de Emma Bovary, mulher educada segundo os ideais burgueses românticos e que, enfadada com o próprio casamento, torna-se presa fácil do primeiro conquistador que lhe cruza o caminho. O destino de Emma? Apenas o leitor deve descobrir ao ler o romance. O que podemos apontar é que Madame Bovary é o painel crítico de um Flaubert que via com olhos impiedosos a hipocrisia da sociedade burguesa. Essa sua obra carrega toda uma intriga melodramática, aventurosa, sensacional, típica do Romantismo, substituída pelas descrições de uma vida cotidiana absolutamente monótona, uniforme e, não raro, vulgar. O efeito moral da arte é o seu objetivo mais importante, o que dá ao artista um papel educativo insubstituível.







Intervalo

domingo, 1 de março de 2009

Cobrador


Até quando vai a ganância dos empresários por lucrar às custas alheias, isso ninguém sabe. O que todos certamente sabem é que essa ganância não cumpre limites. O mundo inteiro está passando por uma crise financeira que teve seus meandros no Estados Unidos e como praga se alastrou corroendo economias no mundo inteiro. Pelo Brasil as empresas demitem em massa só de saberem que lá por fora as coisas não andam bem das pernas. O trabalhador que se lixe. Em Natal - em matéria publicada hoje, 1 de março de 2009, no jornal Tribuna do Norte, a crise se dá noutro setor, o do transporte público. A matéria dá conta do fim da profissão de cobrador nos ônibus da Capital. Com a bilhetagem eletrônica o motorista passará a fazer as vezes de recebedor do dinheiro do passageiro, motorista e informante. Trabalho triplo que parece fugir a regra expressa nos ônibus "Fale com o motorista somente o necessário". O resultado disso é uma soma de desempregados na rua, que, muitos, não tendo outra alternativa passam à informalidade, engrossando os corredores de camelôs na cidade. Enquanto isso outra fila engorda, a dos lucros dos empresários. Bandos de genocidas, isso é o que são.


Para ler a matéria no jornal Tribuna do Norte, clique aqui.




Intervalo


Educação




É todo ano a mesma novela. As escolas do estado celebram o doce número de carência de mais de 1000 professores para lecionar. E os concursados? Pra quê? Concurso virou moda pra se ganhar dinheiro. Apenas 200 chamados até agora. Previsão para algum próximo? Nada. A briga de novo se instala. Professores versus Estado. Greve anunciada. E as vergonhas que já começam a dar as caras. Na Secretaria do Estado ninguém sabe respostar acerca das necessidades de professorado. Em Mossoró - maior cidade do interior do Estado - secretário de educação promete cortar ponto dos professores já amotinados por causa da exigência do cumprimento de um direito seu: o piso salarial aprovado em lei pelo Barbudinho da Silva. Me pergunto, onde iremos parar, tendo no poder uma corja de políticos que só pensam em si e se esquecem que cá embaixo há pessoas que necessitam de ter seus direitos cumpridos. A meu ver, isso não passa de safadeza. Atitudes como a do tipo do secretário de Mossoró. Atitudes como a do tipo do Estado que entra ano e sai ano e ficamos todos a ver navios sobre um probelma mais conhecido do que as falcatruas que se alastram nos poderes públicos. Quando saem aqueles números vergonhosos, de IDEB e não sei mais o que, aí se põem a elaborar projetos e medidas mirabolantes para fabricar números que venham a esconder a sujeira para baixo do tapete. Faça-me o favor!