Intervalo

sexta-feira, 29 de maio de 2009



Estes cães de Saramago



Por Pedro Fernandes


Uivemos, disse o cão. Com essa citação José Saramago abre seu romance Ensaio sobre a lucidez. Quando estive lendo o romance A caverna, do mesmo escritor, marquei a presença constante que o cão faz nos textos do escritor português. Fiz uma cavoucada nas virtualidades da internete a título de encontrar alguma coisa sobre e dei de cara com um artigo; dado os dias que vi não me recordo agora o nome do texto, tampouco de seu autor. Mas, é algo simples de achar, caso o leitor nutra interesse por fazer a leitura desse texto, ao terminar esse post, cavoucarei novamente a internete e porei o linque a seguir. Em entrevistas várias o escritor tem falado da simpatia que nutre pelos bichos. Simpatia tamanha que o próprio Saramago é carne e unha com alguns deles em sua casa em Lanzarote e, não só isso, já mereceu até postagem sobre eles em seu blogue, O caderno de Saramago, - o linque para as postagens está também a seguir. Pois bem, tomo nota destes cães, digamos assim, literários, do escritor. O primeiro, que me recordo esteve a acompanhar as personagens na longa travessia da Península em A jangada de pedra. Depois teve aquele mais famoso, o transposto até para as telas da sétima arte, transposição que mereceu a devida alfinetada do escritor ao diretor Fernando Meireles, por este ter colocado um cão inversamente proporcional ao tamanho imaginado daquele nas páginas do Ensaio sobre a cegueira; falo evidentemente do Cão das Lágrimas, reaparecido em Ensaio sobre a lucidez. Em seguida, cito Telêmacus, do romance O homem duplicado e, por fim, este Achado, do romance A caverna. Há outros, mas dos romances que li são apenas estes. E o que todas estas personagens caninas têm em comum, é, à primeira vista, o caráter de companhia aos humanos em estágios difíceis ou nulos da sua humanidade. Apresentam uma espécie de capacidade para o reconforto, usando da imagem dos cães de Lázaro, espécies de deus do consolo em sua animalidade. E parecem contrapor o caráter da própria humanidade que nos define em oposição a animalidade desses seres. Enquanto os humanos são apresentados numa verdadeira via crucis que por vezes os levam a fugir do senso de humanidade de são possuidores, os cães de Saramago, à semelhança daquela cadela, outra famosa nas páginas de literatura, só que brasileira, a Baleia, de Vidas secas, de Graciliano Ramos, são eles, poços ricos do senso de humanidade e espécies de peças recondutoras, em sua animalidade, ao senso de humanidade que perdemos, escapando dessa observação o Cão das Lágrimas, em Ensaio sobre a lucidez, que antes de ocupar o espaço de recondutor do senso de humanidade aos humanos passa a ocupar o espaço de vítima da perda de humanidade desses humanos.



Leia o artigo sobre “os cães literários” de Saramago;
Leia os posts sobre os cães de Saramago.

Intervalo

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Griots (II)



Na terça-feira, 26 de maio de 2009, estive por ocasião do I Colóquio de Culturas Africanas, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, numa mesa de sessões de comunicação intitulada Navio Negreiros e coordenada pela professora Dra. Ilza Matias. Fiz uma fala em torno de uma questão, até então, creio ser inédita no campo da crítica em derredor da obra literária do escritor português José Saramago, que foi tratar a questão do negro e da África na prosa do autor. A comunicação intitulada Do negro e das africanidades em José Saramago, o silêncio de uma prosa de inqueitação veio por lenha na fogueira num evento cujo fulcro estava centrado nas re-afirmações de uma identidade secularmente segregada que é a do negro. Prova disso é que a maioria das sessões de comunicação que se voltava a uma literatura que trate das questões estava ela fixada em torno da obra do escritor moçambicano Mia Couto - que não entendo até agora (mesmo depois de tantas falas) atrelar especificamente a sua literatura como tratar exclusivamente das questões africanas; a mim me parece que Mia trata muito mais das questões existenciais que varre todos nós humanos, negros ou brancos, africanos ou não, nessa contemporaneidade, do que levantar bandeira acerca das volições em África. E vejo que ele é aceito nas rodas literárias européias e mundo afora, muito mais até que no Moçambique, por tais questões; a prova está aí, os moçabicanos não veem Mia com os olhos que daqui vemos. Acho que ainda devemos tomar cuidado com as rotulagens. Não sei... A verdade é que estudar Mia Couto está em voga, mas senti falta daquele sujeito que se diz não melancólico como os portugueses, mas que tem tecido críticas meio desajeitadas a alguns outros escritores, falo do angolano Agualusa. Não vi nada sobre. Mas voltando ao fogo da fogueira, o fato se deu porque o olhar que deitei ao silêncio de Saramago para com a questão do negro e da África não foi o olhar do que Portugal e a Europa foram ao longo de tantos anos para com o continente e também para com o Brasil, isto é, o olhar de colonizador, mas li o silêncio de Saramago para com a questão como algo que se dá pela ausência em sua biografia de relações diretas para com o negro e aquele continente, tirando o seu bisavô, relembrado num fragmento de memória exposto na crônica Retrato de Antepassados, de A bagagem d viajante - foi este o fragmento que li para este texto -, até então não tinha visto mais nada sobre. Entretanto, a discussão caminhou tão bem em torno disso, que certamente na ocasião de outro evento semelhante voltarei a tocar novamente na questão. Vejo certos discursos dos que circularam por este evento como meio taxativos: o colonizador como vilão da história. Não quero defender os processos de colonização, todos eles são devastadores, certamente, isso não é possível ir contra, mas acho que a questão precisa ser vista com os olhos da época; não dá para encarar aquele momento histórico com o olhar de hoje - talvez a questão de África sim, a questão da segregação racial estadunidense sim, deva ser vista pelos olhos de hoje, foram tudo muito recente, agora aquela questão da escravidão, não; é necessário pensar com mais calma sobre. Quando redigi Do negro e das africandidades em José Saramago, o silêncio de uma prosa de inquietação redigi com a perspectiva de que esse seria um ensaio isolado dentro dos vários textos de abordagens diversas que tenho escrito sobre o escritor, entretanto, o resultado das questões colocadas pela apresentação deixou-me em débito e vendo a necessidade de mexer mais nessa panela, ainda mais quando dou de cara no blogue pessoal do escritor, O caderno de Saramago, com três textos que mais do que aquele lampejo de memória em Retrato de antepassados vem tratar diretamente acerca da questão do negro: o primeiro é 106 anos, um texto acerca de Ann Nixon Cooper, mulher negra apresentada como símbolo da resistência a segregação racial estadunidense, citada no discurso de posse do presidente Barack Obama; o segundo é Rosa Parks, um texto acerca de uma negra que se recusa a dar assento ao um branco numa lotação com assentos separados para brancos e negros das que foi muito em voga nos Estados Unidos nos já referidos tempos de segregação racial; e o terceiro texto é Receita para matar um homem, uma crônica publicada entre os anos de 1968-69 e transcrita na íntegra no blogue do escritor, que trata do líder Martin Luther King. Acho que não podia deitar outro olhar para com a questão que não o biográfico até então e ainda devo insistir na questão. Não é o fato de ser José Saramago de origem de um país colonizador que olhar dele deva ser única e exclusivamente de colonizador. Há que se pensar nisso também.



Intervalo

quarta-feira, 27 de maio de 2009



Evento


Terá lugar nos dias 02, 03 e 04 de maio de 2009, no Hotel Praia Mar, em Natal, o XIII Seminário Nacional Mulher e Literatura e o IV Seminário Internacional Mulher e Literatura. Nesta edição, o evento homenageia os nomes Diva Cunha e Maria Tereza Horta. Memórias, representações, trajetórias é o tema do evento.

Todas as informações estão disponíveis Aqui.

Minhas falas



Diário Pedagógico – página 04


A estrutura


A Escola Municipal foi fundada em 1985. Registra-se a última reforma feita em 1996.


Das impressões do primeiro dia de aula a que mais marcou depois daquela da aluna de rosto inerte de que falei no texto anterior foi certamente esta da estrutura. Quando escrevi no artigo Um genocídio outro, um genocídio só que havia escolas que funcionavam como verdadeiras máquinas de matar gente no sentido de serem elas campos de concentração eu me referia diretamente a esta escola em que fui professor de inglês. Estendi a metáfora a outras escolas porque sei que não se é necessário ser feito em estruturas escolares para dar conta do entendimento de que não é apenas nessa escola que se encontra a situação estrutural tal, do contrário, há certamente estruturas até piores que as que vi e vivenciei dia desses. Mas, se estou tratando da escola como campo de concentração, a sugestão que dou ao problema é hitlerista. A meu ver naquela estrutura não há nada de proveito, há mesmo de ser derrubada e no lugar dela erguer-se outra estrutura.


A sala de aula que entrei primeiro, a do 9º ano como falei, reduzia-se a um cubículo com dois ventiladores em fim de carreira, carteiras de madeira, piso esburacado, quadro negro e giz. Amontoados os alunos têm de conviver com o calor terrível que faz no período da tarde. Além de que o professor deve aturar alunos fora de sala e outros alunos transeuntes de janela em janela.


As salas outras que entrei se repete boa parte da situação de que falei acima. Algumas até possuem um pouco de ventilação, entretanto, são extremamente lotadas. Há salas com mais 50 alunos. Se Direitos Humanos valem eles certamente ainda não chegaram por esse território de selvagerias. E este crime contra os alunos se acentua pela rigidez da escola em não permitir que alunos assistam aula de bermuda, apenas de calça do tipo jeans; se acentua pela qualidade da merenda servida às crianças, de terceira, cardápio mal-elaborado, que aqueles viventes só se alimentam dela por dois motivos, ou porque em casa comem pior ou porque nem desse tipo tem em casa para comer.


A escola não dispõe de sala de computação, há duas administrações prometidas. Não dispõe de sala de projeção. Não dispõe de sala para os professores, que se amontoam com aquela barrela de funcionários cara-pra-cima na sala da secretaria. Os banheiros, quatro no total, são em péssimas condições. A cozinha segue-se com básico. Biblioteca passa longe dessa escola. Os livros ficam amontoados nos corredores da esc0la. Fiquemos por aqui no caudal das desgraças estruturais.



Minhas falas

terça-feira, 26 de maio de 2009



Há alguns dias postei aqui uma reminescência, posso assim dizer, já que não acho outra palavra melhor que possa adjetivar aquele texto que eu publicara no jornal potiguar De Fato, quando ainda a mídia expunha nos noticiários vinte e quatro horas a morte de um menino de nove anos no Rio de Janeiro,chamado de João Hélio. Logo em seguida a morte da criança iniciou-se um debate, desses que viram poeira do dia para noite, acerca da redução da maioridade penal no Brasil. E sobre isso escrevi outro texto que não chegou a ter lugar em nenhum jornal porque não quis publicá-lo. Seguindo a justificativa do outro, trago ele para este espaço, onde outras coisas, faço reunir reminescências.




Algumas reflexões acerca dos momentos pós-permanentes trágicos da sociedade brasileira: (momento ii) a redução da maioridade penal


Por Pedro Fernandes de O. Neto



O alarido provocado pelo sensacionalismo midiático em torno da morte do garoto João Hélio foi tamanho que, logo em seguida, a sociedade brasileira acordou com outra discussão, a redução da maioridade penal. Não sei o porquê. Não haveria nenhum momento para essa discussão pós o fato João Hélio porque ao que me consta não havia nenhum menor no volante do carro envolvido na tragédia, apenas um jovem de dezessete anos no banco traseiro. O fato é que a carência por assuntos do tipo sensacionalista, e esse pode se tornar se não discuti-lo com cautela, fez com que a mídia focalizasse no lado mais fraco dos envolvidos no assassinato, o menor.


Falar em redução da maioridade penal no Brasil é algo que foge completamente da racionalidade nossa; o sistema penal brasileiro é bom, parece-me, pelo pouco conhecimento que tenho acerca, avançado em várias questões. O foco que deveríamos estar preocupados agora em discutir abertamente não seria reduzir para dezesseis anos a responsabilidade criminal dos sujeitos e sim o uso de estratégias para cumprir com o que já foi feito em termos de legislação. A impunidade talvez seja o maior erro de tudo o que já fizemos: a lei é muito rígida para alguns, enquanto para outros branda o suficiente para ser criminosos à vontade.


A desculpa de um adolescente de dezesseis anos ser responsável pelos crimes porque já tem capacidade de voto é falha, espalhafatosa, sensacionalista e infundada; primeiro, o voto aos dezesseis anos é facultativo, segundo, a grande maioria dos adolescentes dessa faixa etária não vivem por aí praticando crimes a torto e a direito, muitos entram no crime porque esse é ainda o mais fácil caminho para adquirir status e dinheiro numa sociedade voltada para esses valores. Assim fracassa a idéia de que reduzindo a maioridade estaríamos reduzindo a criminalidade: o jovem de dezesseis anos não entra no mundo do crime porque quer ser criminoso, deveríamos assim punir as demais faixas etárias que vêm antes dessa, a ponto de a criminalidade passar a ser algo de genética.


Outro argumento: os países que fizeram a redução da maioridade não perceberam ainda, e olhe que já faz certo tempo, esta diferença vertiginosa e significativa da criminalidade como parece pintar a mídia. E, levando-se em consideração nosso "Brasilis" chego a concordar que poderia sim, inicialmente, haver uma insignificante redução nos números do crime, mas a continuar com um código penal passível de interpretações das mais absurdas como é o nosso, flexível e cheio de mordomias, com leis fabricadas pelo dinheiro e pela cara do bandido era estar formando criminosos especialistas na arte de matar, o que futuramente configuraria num alarmante aumento dessa estatística.


Levaríamos em condição certo tipo de discussão acerca em qualquer outra época futura, menos agora. Ainda não é o momento adequado, somos, parece e ainda temos muito a amadurecer para concretizar idéias como essa. Aprová-la agora seria estarmos mais uma vez querendo parecer moderninhos perante os outros países e criando mais uma daquelas medidas paliativas, não pensadas e que não levam a lugar nenhum. A necessidade que urge é apenas a do fazer valer: falar nisso, cadê os ladrões do dinheiro público, ein? E os ladrões de galinha, alguém sabe onde estão?




Alguns dos filmes brilhantes

segunda-feira, 25 de maio de 2009

13




Persona, Ingmar Bergman


Poema visual marcado pela psicanálise demonstra a ausência de limites definidos entre identidades


O diretor sueco Ingmar Bergman sempre colocou muito da vida pessoal nos seus filmes. Persona nasceu quando o cineasta foi internado com pneumonia e aproveitou o período para refletir sobre seu trabalho como encenador, à frente do Teatro Nacional de Estocolmo. Após alguns delírios e pesadelos, teve a idéia de escrever uma história sobre sua condição como artista, que inicialmente se chamaria “Cinematografia”. Ao notar, contudo, certa semelhança entre duas de suas atrizes-fetiche, Liv Ullmann e Bibi Andersson, expandiu o enredo (no hospital mesmo) para o questionamento das identidades – o título vem do grego “máscara”. Elisabeth (Ullmann) é uma importante atriz que sofre um colapso mental e pára de falar. A enfermeira Alma (Andersson) é contratada para tratar dela, e a dupla se isola em uma ilha. A relação entre elas é conflituosa desde o início, por causa do silêncio de Elisabeth. Aos poucos, a convivência contínua faz com que as personalidades se confundam, mesclando desejos, paixões, temores, dores, traumas e remorsos. Bergman utiliza a visão psicanalista e contrapõe sonho e realidade, mergulha no inconsciente das personagens e faz com os diferentes aspectos de cada uma submerja, a ponto de não identificarmos quem é a enfermeira e quem é a paciente. Sua idéia era mostrar o lado menos evidente e aceitável dessas personalidades. O elemento sexual, por exemplo, é fortíssimo, assim como a culpa. Não se trata de uma abordagem otimista: saímos da projeção com a certeza de que estamos condenados a assistir à dissolução ou à fragmentação de nossas personas, se, sabermos quem somos ou que desejamos. Ou qual de nossos eus é o verdadeiro.


A forma do filme acompanha o conteúdo: a narrativa é não-linear, onírica, de forte carga teatral e sem uma aparente sequência de acontecimentos – embora o cineasta tenha afirmado que o roteiro foi “rigorosamente concebido”. Há closes extensos em cada detalhe da fisionomia das duas atrizes. A fotografia impressionante de Sven Nykvist, calcada no jogo de contrastes em preto-e-branco, ajuda a confundir seus rostos. A definição mais exata de um filme tão indefinível talvez seja do próprio Bergman: “um poema visual”.






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Revista Bravo!, 2007,p. 34

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nota. Esta lista foi publicada ano passado pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.




Intervalo


Pedro Bandeira, do contato que tive


No ano de 2007, paralelo a Bienal do Livro em Fortaleza (CE) houve em Aracati (interior do estado), cidade conhecida pelo rico patrimônio histórico, cultural e literário e pelas belezas naturais da Praia de Canoa Quebrada, não se pode deixar de falar, uma edição do que na época se chamou de Festa do Livro de Aracati. No ano subsequente, em 2008, ao que me parece, não mais foi realizado o evento. Uma pena. Foi minha primeira viagem a dita cidade e também meu contato fora do Rio Grande do Norte com esse tipo de evento. Até então só participara da Feira do Livro de Mossoró. Tive ainda o privilégio de me hospedar na casa da mãe do professor e poeta Leontino Filho, onde fui muito bem recebido e tive, posso dizer, dias de excelentes, modéstia parte. Pela ocasião do evento tive o privilégio de assistir a palestra do escritor infanto-juvenil, sem querer por rótulos e ao mesmo tempo já rotulando, Pedro Bandeira, febre nacional entre os adolescentes por reunir no corpo de seus textos problemáticas e temas comuns a essa faixa etária. Lembrei-me, enquanto, ele falava de um de seus livros mais editados, A droga da obediência, de que já, na minha adolescência, tivera a oportunidade de lê-lo na biblioteca de minha escola. Naquela época ainda se conservava certo acervo bibliográfico nas escolas públicas. Deixo a lembrança aqui registrada daquela magnânime tarde, em que eu infiltrado no meio de tantos adolescentes, adolesci com eles pela capacidade genial de comunicação do escritor. O resultado foram as fotos que posto a seguir e um autógrafo na agenda que ainda guardo nos meus pertences.


Intervalo

domingo, 24 de maio de 2009

Griots



Terá lugar a partir das 17h de amanhã, segunda-feira, 25 de maio de 2009, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Griots - I Cóloquio Cultura Africanas. O evento deverá reunir uma vasta programação onde a pauta será a África e as africanidades nas fronteiras da literatura, da memória, da oralidade, da cultura, da linguagem. Estarei na mesa Navio Negreiros, 140 anos, da terça-feira, 26 de maio de 2009, a partir das 8h, na sala G4 do setor II do CCHLA, coordenada pela professora Dra. Ilza Matias de Souza, com a fala Do negro e das africanidades em José Saramago, o silêncio de uma prosa de inquietação.


Para ler a programação do evento, clica aqui.

Intervalo

sábado, 23 de maio de 2009



Novos espaços para 7faces



Por estes dias tem lugar em mais dois endereços as regulagens para participação no caderno de poesia 7faces; interessados podem conferi-las no blogue Jornal dos blogues e no site Blogueiros Amigos. Fica aqui o registro e o agradecimento a ambas as páginas pela divulgação e acreditar na ideia.

Os Escritores

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Dossiê – parte IV

Camões, um gênio do lirismo amoroso (uma nova visão de amor)


É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrario a si é mesmo o Amor?



[Diotima*] Eis, com efeito, em que consiste o ceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar o que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo. Nesse ponto da vida, meu caro, Sócrates, se é que em outro mais, poderia o homem viver, a contemplar o próprio belo. Se algum dia o vires, não é como ouro ou como roupa que ele te parecerá ser, ou como os belos jovens adolescentes, a cuja vista ficas agora aturdido e disposto, tu como outros muitos, contanto que vejam seus amados e sempre estejam com eles, a nem comer nem beber, se de algum modo fosse possível, mas a só contemplar e estar ao seu lado.

Que pensamos então que aconteceria, disse ela, se a alguém ocorresse contemplar o próprio belo, o nítido, puro, simples, e não repleto de carnes humanas, de cores e outras muitas ninharias mortais, mas o próprio divino belo pudesse ele em sua forma única contemplar? Porventura pensas, disse, que é vida vã a de um homem a olhar naquela direção e aquele objeto, como aquilo com que deve, quando o contempla e com ele convive? Ou não consideras, disse ela, que somente então, quando vir o belo com aquilo com que este pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir não sombras de virtude, porque não é sombra que estará tocando, mas reais virtudes, porque é no real que estará tocando? E que, a quem produziu autêntica virtude e alimentou cabe tornar-se amigo da divindade, e se algum outro homem cabe tornar-se imortal, é sobretudo a este?

(Platão, O banquete - fragmento)



Na última parte do dossiê Camões, cantor de seu povo e voz de seu tempo, observaremos a forma nova com que o eu-lírico emprega para tratar acerca da temática amorosa. Foi o poeta bastante influenciado em sua lírica mais conhecida – como a das contradições apresentadas no famoso poema, cujos fragmentos abriram as seções II, III e esta desse dossiê – pela perspectiva filosófica denominada de neoplatonismo.

As obras filosóficas de Platão e Aristóteles foram muito estudadas durante a Idade Média. Na passagem para o Renascimento, a influência de Platão manteve-se bastante forte e alguns filósofos da época, como Leon Hebreu, chegaram a realizar atualizações em algumas de suas teorias. A definição platônica de amor, que interessa mais de perto, foi objeto de uma dessas atualizações, de modo a ser conciliada com uma visão cristã de mundo.

É em O banquete que Platão define o amor como sentimento capaz de purificar o ser humano. Para que tal purificação ocorra, porém, é necessário que o amante siga alguns passos que o afastarão cada vez mais das coisas terrestres – aparentes, características do mundo sensível – e o levarão em direção à essência – característica do mundo inteligível. Como foi visto no fragmento que rege este texto, o amor, segundo Platão, leva o ser humano a um processo ascencional, permitindo que se desprenda das coisas ilusórias da vida e contemple o “belo em si”, a verdadeira essência de tudo.

A perspectiva neoplatônica que inspira os poemas camonianos é em tudo semelhante à apresentada por Diotima a Sócrates, com uma única exceção: como resultado final, em lugar da contemplação do “belo em si”, o processo de purificação amorosa passa a aproximar o ser humano das coisas divinas. Como valores a serem alcançados através desse exercício de purificação pessoal, os neoplatonistas conservam aqueles identificados por Platão: o Bem, o Belo e a Verdade.

Camões demonstra, em seus sonetos, uma luta constante entre um amor material, manifestação da carnalidade e do desejo, e o amor visto como idéia, puro, espiritualizado, capaz de conduzir o ser humano à realização plena. É natural que, segundo esta última perspectiva, a mulher seja retratada como exemplo da perfeição, já que ela inspira a superação do amor carnal e a realização do amor puro. São inúmeros os sonetos em que o amor neoplatônico é trabalhado.


Transforma-se o amador em cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.


Noutros sonetos – e aqui reside sua inovação em torno da temática amorosa – Camões apresenta um amor mais materializado, terreno e carnal, fonte de sofrimento constante. A impossibilidade de explicar racionalmente o sentimento amoroso e de conciliar desejo carnal e purificação espiritual levam a poesia camoniana a manifestar frequentes contradições, que se explicitam no uso intenso de antíteses e paradoxos. Assim é o soneto seu mais conhecido, Amor é fogo que arde sem se ver, o qual recito a seguir.


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrario a si é mesmo o Amor?


Foi com versos como esses que a obra lírica de Camões se tornou imortal. Seus versos permanecem vivos até hoje, fertilizando a obra de inúmeros poetas que vão buscar no mestre português, inspiração aos seus textos.









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As idéias e expressões que compõem este texto-dossiê estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.


Os escritores

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Dossiê – parte III


Camões, um gênio do lirismo amoroso


É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;

É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;


Na terceira parte do Dossiê Camões, cantor de seu povo e voz de seu tempo, vamos conhecer que a lírica camoniana não se prendeu apenas em questões antigas. Seus sonetos versaram sobre uma ampla temática.


Parte de seus sonetos preocupou-se em versar acerca do desconcerto do mundo. Com essa temática, o poeta procura mostrar que há um excesso de contradições e falsidade nas coisas do mundo. Aquilo que é observado pode nos levar ao equívoco e, consequentemente, ao sofrimento, uma vez que a razão não parece compreender o desconcerto do que está a sua volta.



Correm turvas as águas deste rio,

Que as do céu e as do monte as enturbaram.

Os campos florescidos se secaram,

Intratável se fez o vale, e frio.


Passou o verão, passou o ardente estio,

Umas coisas por outra se trocaram.

Os fementidos fados já deixaram

Do mundo o regimento, ou desvairio.


Tem o tempo sua ordem já sabida;

O mundo, não; mas anda tão confuso,

Que parece que dele Deus se esquece.


Casos, opinião, natura e uso

Fazem que nos pareça desta vida

Que não há nela mais que o que parece.



O mundo apresentado por Camões em sua lírica é dinâmico. Assim, o ser humano e bem como a natureza estão sujeitos a mudanças constantes. O importante, porém, é que, enquanto as mudanças da natureza seguem um ritmo previsível – a sucessão das estações do ano, por exemplo, as alterações sofridas pelas pessoas são causa de inevitável sofrimento, porque vêm associadas à passagem do tempo. Seu mais conhecido soneto sobre tal tema, a da mutabilidade das coisas, dá conta disso.



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.


Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.


O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já coberto foi de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.


E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto,

Que não se muda já como soía.



No soneto assiste-se um eu-lírico que fala da sucessão das estações como esperada: ao inverno segue a primavera – “O tempo cobre o chão de verde mando/ que já coberto foi de neve fria” –, ao passo que sofre com as saudades provocadas pelas lembranças boas e com o sofrimento causado pelas más – “do mal ficam as mágoas na lembrança,/ e do bem, se algum houve, as saudades” –, de tal forma que a passagem do tempo sempre lhe traz dor e sofrimento.



Mas talvez o que mais marque a lírica de camoniana é nova visão que o poeta português incute ao amor.



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As idéias e expressões que compõem este texto-dossiê estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.

minhas falas

quarta-feira, 20 de maio de 2009


Diário pedagógico – página 03



O primeiro dia aula, constatações



Perguntei: What is your name? E o que dominou foi o silêncio. A aluna sentada no canto da sala, olhava para mim com o rosto nu de expressões.



O ano letivo ficou acordado na reunião pedagógica para dar início em 02 de março de 2009. 02 de março de 2009 viajei ao município. A distância de aproximadamente 45 km da capital me permite em 1h30 de viagem está no local de trabalho. Cheguei à escola às pressas. Mochila com planos de aula, livros e anotações para o que seria meu primeiro dia de aula numa escola que, como fiquei sabendo na reunião pedagógica, os alunos em sua maioria são quase ou são analfabetos e que os índices de evasão gritam. Esqueci de dizer no texto passado, quando falei desses índices, dos números de uma turma de 6º ano, mas aproveitando que toco novamente no assunto, falo agora: nesta turma de 6º ano, disseram-me, em 2008 havia 65 alunos e o ano letivo findou na média de 8 a 10 alunos apenas.


Pois bem, cheguei com esses e outros números na cabeça. Para surpresa minha, o portão da escola estava fechado. Nem sinal de vida. Dobrei os passos e fui a Secretaria Municipal de Educação. Uma única funcionária com a maior cara de tranquilidade disse-me que as aulas só dia 12 de março. Olhei logo no calendário do celular: era uma quinta-feira. Quinta-feira eu não tenho aula nessa escola. Depois de me informar a data, prontamente a funcionária emendou: E talvez só comece mesmo no dia 17, como dia 12 é uma quinta-feira dificilmente os professores e alunos vem. O leitor pode ler por estas linhas minha cara de surpresa misturada com indignação. Sequer ligaram-me ou mandaram-me avisar da mudança de datas. Senti-me com cara de besta. Mas, tudo bem. O primeiro dia de aula, 17 de março de 2009. Teria cinco aulas nesse dia. Primeira turma, 9º ano. Na sala do 9º ano ainda figurava aquela imagem que colei como epígrafe do texto A equipe.


A impressão que ficou desse primeiro dia de aula foi a das mais variadas: estrutura, equipe, alunos. Detenho-me nos dois últimos, equipe e alunos. O primeiro porque é de certa um elo para com o texto anterior e o segundo porque são esses sujeitos os que deixam no primeiro dia de aula as impressões mais fortes. O outro elemento, estrutura, deixarei para o texto seguinte.



Da equipe. Não sei quem são as merendeiras, as zeladoras, o porteiro, o diretor, o secretário, o supervisor ou qualquer outro cargo necessário ao bom funcionamento duma escola. Sei apenas quem são os professores porque com eles mantive contato na reunião pedagógica. O que sei é que a secretaria estava e esteve, pelos poucos dias que lá passei, repleta de funcionários que entre outras funções, desempenhavam o papel de “faladores-da-vida-alheia”. São os agregados políticos que se espremem em cargos farjutos criados pela secretaria de educação que se liga diretamente com a prefeitura. São esses agregados os que se não fazem nada, simplesmente atrapalham o serviço de quem quer fazer alguma coisa. Nunca me misturei a eles, nem a eles e nem a laia de professores que se reúnem nas horas vagas, antes da aula e durante o intervalo, para falarem dos alunos. Pelas escolas que passei, nesta e noutras pelas quais ainda hei de passar elegi como meus preferidos para conversa os alunos; o papo deles são muito mais cabeça do que o dos professores. Pensei que no primeiro dia de aula a escola se reunisse com alunos e familiares para apresentarem-se uns aos outros, para discutirem os rumos do ano letivo.



Dos alunos. Pelas listagens afixadas na porta das salas de aula, dei de cara com turmas numerosas. A menor tinha 30 alunos. As demais chegavam à casa dos 60. Dos alunos, recorto duas imagens. A primeira acontecida na primeira turma que entrei, o 9º ano, quando já próximo do fim da aula, depois de uma dinâmica, um aluno me indagou se eu não escrevia nada. A segunda acontecida numa turma de 7º ano, a terceira que entrei no primeiro dia de aula, em que repeti a dinâmica da primeira turma e uma aluna não conseguiu dizer absolutamente nada por mais que eu insistisse. Das cenas que recortei desse primeiro dia de aula ficam as conclusões: os professores são adeptos ferrenhos do escreve-escreve que faz força no espaço escolar tradicional, símbolo, portanto, do professor que não domina o conteúdo, que não planeja a aula. O escreve-escreve funciona, antes de tudo, como um jogo de intimidar o aluno, além do que, o rosto paralisado dessa aluna do 7º ano é a imagem forte da ausência de diálogo franco entre professores e alunos.





Nota. Para ler os outros textos da série clica a lado esquerdo, para os destros, em Diário Pedagógico

Os Escritores

terça-feira, 19 de maio de 2009

Dossiê – parte II

Camões, um gênio do lirismo amoroso


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;


Camões, como poeta lírico, dominou com excelência tanto as formas da medida velha como as da medida nova. Versos redondilhos ou decassílabos, sonetos, sextilhas, odes, éclogas, elegias, oitavas; em todas as formas poéticas por que se aventurou, o poeta português deixou a marca de sua genialidade. Esta segunda parte do dossiê Camões, cantor de seu povo e voz de seu tempo pretende mergulhar nesse universo da lírica camoniana.

Os poemas compostos pelos trovadores medievais e pelos poetas palacianos eram, como se sabe, caracterizados por utilizar os versos redondilhos – de cinco e sete sílabas métricas –, de mais fácil memorização. Também camões escreveu inúmeras redondilhas, compostas geralmente de um mote e de uma ou mais estrofes que constituíam glosas – ou voltas – a ele. Não raro lhe ofereciam motes para que glosasse.


Volta a cantiga alheia
Na fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando,
Às amigas perguntando:
– Vistes lá o meu amor?
Voltas
Posto o pensamento nele,
Porque a tudo o amor obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando,
Às amigas perguntando:
– Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre uma mão,
Os olhos no chão pregados,
Que, do chorar já cansados,
Algum descanso lhe dão,
Desta sorte Lianor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e, em si tornando,
Mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
Que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em magoa grande,
Seca as lágrimas a mágoa.
De[s]pois que de seu amor
Soube novas perguntando,
De improviso a vi chorando
Olhai que extremas de dor!


Este poema é uma conhecida de suas redondilhas. O poeta desenvolve a idéia presente numa cantiga alheia – como uma espécie de epígrafe – resgatando, dessa forma, uma estrutura poética típica do Humanismo.

Um aspecto determinante dos versos compostos em medida velha é o tratamento que neles é dado ao tema do amor. Como se observa, na redondilha acima, Camões resgata não só uma estrutura mais antiga, como toma emprestada a visão feminina quase medieval sobre as dores do amor, deixando entrever ecos das cantigas de amigo, nas quais a mulher pergunta às amigas notícias do seu amado, por quem sofre de saudades. Nos sonetos, como a seguir veremos, o tema do sofrimento amoroso é apresentado a partir da visão masculina.

São os sonetos, certamente, a parte mais conhecida da lírica camoniana. Com estrutura tipicamente silogística, normalmente apresentam duas premissas e uma conclusão, que costuma ser revelada no último terceto, fechando, desse modo, um raciocínio.


Todo animal da calma repousava,
Só Liso o ardor dela não sentia;
Que o repouso do fogo em que ardia
Consistia na ninfa que buscava.

Os montes parecia que abalava
O triste som das mágoas que dizia;
Mas nada o duro peito comovia,
Que na vontade de outrem posto estava.

Cansado já de andar pela espessura,
No tronco de uma faia, por lembrança,
Escreve estas palavras de tristeza:

“Nunca ponha ninguém sua esperança
Em peito feminil, que de natura
Somente em ser saudável tem firmeza”.


Observe-se pela leitura dois quartetos a identificação de duas premissas: 1 – a esperança só existe com a constância; 2 – a mulher não tem constância. A conclusão é explicitada no terceto final: não se deve pôr esperanças nas mulheres. O silogismo poderia, então, ser assim apresentado: se a esperança só existe na constância, então não se deve pôr esperanças nas mulheres.


Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contendo-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa a servir outros sete anos,
Dizendo: - Mas servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta vida!


Ao retomar uma antiga passagem do Antigo Testamento, novamente pode-se perceber o encaminhamento de um raciocínio lógico acerca da problemática amorosa. O raciocínio é, portanto, evidente. Se Jacó trabalha durante sete anos para obter a permissão de ficar com Raquel e, findo o período, obteve Lia, a outra filha de Labão, então o pastor precisa trabalhar mais sete anos para que lhe seja concedida a sua amada Raquel. Essa análise racional permite que se considere a abordagem da questão amorosa feita nesse soneto como tipicamente clássica.

Só que, além da estrutura silogística, outra característica a ser observada na lírica camoniana é o constante desenvolvimento de alguns temas específicos, tais como o desconcerto do mundo, a mutabilidade das coisas, uma nova visão de amor, o neoplatonismo amoroso.
Findo o post, recitando aquele clássico que está fragmentado na epígrafe deste post.



Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?






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As idéias e expressões que compõem este texto-dossiê estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.

Os escritores

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Dossiê – parte I

Camões, cantor de seu povo e voz de seu tempo



Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta


Será difícil encontrar, em toda a história da literatura em língua portuguesa, um poeta tão magistral quanto Camões. Para que possamos conhecer melhor sua obra, preparamos esse dossiê dividido em duas partes. Veremos, em primeiro lugar, o que a crítica denomina poesia épica e, na sequência, seus poemas líricos.


Camões não foi o primeiro poeta a ter a idéia de escrever um poema épico sobre a expansão portuguesa – o humanista italiano Angelo Policiano já se havia oferecido a D João II para fazê-lo –, mas foi da sua pena que nasceram os inesquecíveis versos sobre as conquistas ultramarinas de Portugal.


O gênero épico, para os autores do Classicismo, traduzia-se de forma perfeita nas obras de Homero (Ilíada e Odisséia) e Virgilio (Eneida). O modelo não variava muito: esperava-se que o poema apresentasse uma disputa entre os deuses em relação ao comportamento humano; divididos, eles passavam a acompanhar o desdobramento de determinada ação humana (uma guerra, uma viagem marítima...), que apresentava uma unidade de conjunto e um desfecho. Era imperativo que o poema contasse com um herói para simbolizar a força e a determinação humanas.


Camões encontrou o que parece ser a solução perfeita para a contradição de elaborar uma epopeia em pleno Renascimento. Em lugar de um herói semidivino – incoerente com o espírito mercantilista e a exaltação das conquistas humanas –, construiu uma personagem – Vasco da Gama – que representa a grandeza de um povo. Nasce assim a epopéia pátria, cujas raízes poder ser traçadas nos textos do cronista Zurara.


Os Lusíadas – obra prima do escritor português – trata-se de um poema dividido em 10 cantos que apresentam 1 102 estrofes e perfazem 8 816 versos. O título da obra trata-se de um neologismo inventado por André Resende, grande humanista português, para designar os portugueses descendentes de Luso – filho ou companheiro de deus Baco. Daí a obra abordar a história de Portugal – “a glória do navegador português” e a memória dos reis que “foram dilatando a Fé, o Império”.


A ação desenvolve-se em torno do herói declarado: o navegador Vasco da Gama. A leitura do poema, porém, obriga o leitor a reconsiderar a opção por um único herói e reconhecer que sobressai, em seu poema, a grandiosidade do povo lusitano, “a quem Netuno e Marte obedeceram”.


A crítica observa Os Lusíadas dotado de uma organização interna que permite a sua divisão em cinco partes: (a) proposição – que é a apresentação do poema, com a identificação do tema e do herói; (b) invocação – o eu-lírico pede as musas que lhe deem “um engenho ardente” e um “som alto e sublimado”, como manda a tradição clássica; (c) dedicatória – o eu-lírico dedica o poema a D Sebastião, rei de Portugal à época da publicação de Os Lusíadas; (d) narração – parte mais longa do poema, constitui a narrativa na qual é desenvolvido o tema, com o relato dos episódios da viagem de Vasco da Gama e com a reconstituição da história dos reis portugueses; (e) epílogo – encerramento do poema. Inicia-se com o pedido do eu-lírico as musas que lhe inspirem para que calem a voz de sua lira, pois encontra-se desiludido com uma pátria e um povo que já não considera merecedores das glórias de seu canto.


Camões, em Os Lusíadas, faz um crítica – típica de seu tempo – à cobiça e à tirania no episódio do Velho do Restelo (canto IV – momento de partida das naus capitaneadas por Vasco da Gama).


Mas um velho, de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantada,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:


– Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tromentas,
Que crueldades neles experimentas!

[...]

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhes destinas,
Deba[i]xo dalgum nome preminente?
Que promessa de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?


Assim, ao mesmo temo que glorificou os feitos heróicos portugueses, o poeta criticou a sede desmedida de poder. Na verdade, as palavras do Velho parecem proféticos sinais do que ocorreria com Portugal em pouco tempo. A derrota de D Sebastião e seus nobres na batalha do Alcácer deixaria o país sem rei e isso faria com que Portugal perdesse sua soberania para a Coroa espanhola.





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As ideias e expressões que compõem este texto-dossiê são exclusivamente de ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.

intervalo

sexta-feira, 15 de maio de 2009



Sertanices, 7faces e outras páginas na internete





Está na rede desde ontem, 14 de maio de 2009, a página para divulgação do meu livro, que está para sair, sertanices. Esta página apresenta apenas uma face do que será o livro. Também desde ontem está a página para divulgação do caderno-revista de poesia 7faces, constando o regulamento para conexão nessa rede outra. Os leitores desse blogue e transeuntes estejam convidados a conhecer esses dois novos espaços, cujos linques estão abaixo deste post. Aproveitando a deixa quero deixar também algumas dicas de páginas de literatura que vou encontrando e ficando quase que visitante assíduo. Trata-se do conhecido Portal Cronópios, da Revista eletrônica Bula, do Jornal paranaense Rascunho; todas elas reunem uma gama de informações e leituras proveitosas. Agora os linques para sertanices e para 7faces.



Apenas meus poemas

quinta-feira, 14 de maio de 2009


Auto-ajuda


Praticar meditação;
Escrever um diário;
Anotar os sonhos;
Anotar as alterações de humor:
Relato de vida em sentenças;
Ingressar em um grupo.

Depois disso, procure a vida
possivelmente ela não estará mais nesse plano.

Revista 7faces

Aos leitores e transeuntes desse blogue, apresento-lhes uma ideia que há dias - para ser sincero, desde que inicei essa aventura na rede internete, com este blogue, que segue dia após dias com alguma postagem, que ela já varava ponta a ponta minha cabeça. Trata-se da organização de uma rede outra, esta de poetas, de todas as tendêancias, raças, cores, nacionalidades, temáticas, enfim do que poder caber nas infinitas páginas da web. Chamo esta ideia de 7faces. Pretende ser um caderno de poesia, de publicação e distribuição eletrônica, sem fins lucrativos, portanto. A seguir posto como deve o escritor se inscrever no projeto e remeter seu material à primeira edição, programada para publicação em junho próximo.


1. Os poemas para a primeira edição deverão ser encaminhados em anexo para o e-mail pedro.letras@yahoo.com até o dia 26 de junho de 2009. Junto com o poema o autor deve encaminhar a ficha de inscrição preenchida, declaração de autoria e um resumo biográfico. Essa documentação pode ser pedida pelo mesmo e-mail de postagem do material. Em seguida, o autor receberá um e-mail de confirmação do envio do material. Caso não receba em até 48h, deverá entrar em contato pelo referido e-mail de postagem.


2. A temática para a produção poética desta primeira edição é livre.


3. Devido às questões de fechamento de edição e editoração, possivelmente esta data de envio do material não haverá adiamento. Logo, materiais remetidos fora do prazo automaticamente serão arquivados para uma próxima edição.


4. Os poemas recebidos serão lidos e apreciados pelo editor do caderno. Em seguida receberão um parecer com notas numa escala de 0 a 10 pontos. Os cinquenta primeiros serão publicados no caderno. Os demais ficam no banco de dados para edições subsequentes.


5. Não há necessidade de os trabalhos serem inéditos, entretanto, se já tiver sido publicado em outra local, seja impresso ou eletrônico, como saites, revistas, periódicos, jornais, blogue etc., deve ser mencionado em nota de roda-pé.


6. Os trabalhos devem vir digitados em Word, corpo 12, Arial, em língua portuguesa, o que não impede o uso de termos estrangeiros no texto. O tamanho do texto não deve ultrapassar uma página. E cada autor é responsável pelas suas correções ortográficas. Trabalhos fora desses padrões não serão publicados e ficam isentos de qualquer parecer por parte do editor.


7. O resumo biográfico do autor não deve ultrapassar 6 (seis) linhas de folha A4, corpo 12, Arial.


8. Ao participar do projeto o autor não abre mão de seus direitos autorais, entretanto, os textos que não forem publicados não serão devolvidos. Logo, cada autor é ciente de que deve ficar com uma cópia de seu texto.


1

Sejam todos bem-vindos à ideia.

Intervalo

quarta-feira, 13 de maio de 2009


Das misérias humanas



Quero relatar um episódio que não sei onde o colocaria na estante dos episódios, desses que frequentemente acontecem diariamente conosco, mas creio que fica bem no setor daqueles episódios que por baixo se escreve "Das misérias humanas". Também não sei o misto de sentimentos que me passou ponta a ponta pela cabeça no momento em que ocorreu o dito fato - se pena, se tristeza, se... O fato é que na saída de um sebo, certo dia, dia daqueles escolhidos para perigrinação em sebos, pedi a uma camelô, um copo de água, que ainda, apesar dos altos e baixos da economia, se é vendido a cinquenta centavos. Revirei minha mochila e catei os centavos que tinha. Quarenta e cinco no total. Não tomei cara emprestado e joguei com a vendedora: - Aceita os quarenta e cinco ou quer tirar de dez? Ela devolveu-me as moedas: - É melhor tirar de dez. É... E dizem por aí os economistas que o dinheiro anda curto. Não para aquela vendedora. Dei os dez, recebi o trocado e saí matutando, modo de filosofar nordestino: - Preciso de registrar isso.


Minhas falas

Diário Pedagógico - página 02


A equipe

Na sala que estive do 9o. ano, estava na parede: A, B, C, D, E, F, G, H, I, J, K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, X, W, Y, Z.


Fui introduzido a reunião em 18 de fevereiro de 2009, quando do último dia do que a Secretaria de Educação do Município chamou de Semana Pedagógica. Não revelarei nesta série, pelo menos a princípio, os nomes dos locais e das pessoas envolvidas nos fatos. Se estou tornando uma realidade à vista alheia, acho que me resta um pouco de ética em preservar esses nomes, ainda que isso se trate de um esboço de relato denúncia. Basta que o leitor saiba que as ações a que me refiro neste e noutros textos desta série decorrem na única escola da zona urbana do município que está a 45km, aproximadamente, da capital do Estado e está situado geograficamente no que se chama de região do mato grande.

Apresentados os lugares voltemos à reunião de 18 de fevereiro de 2009. Não sei quais os objetivos a que se prestavam os que ali estavam reunidos, mas pelo correr das discussões não demorei muito para perceber que a peleja escrita no bate-boca era para a escrita de um projeto - que já havia sido discutido nos encontros anteriores - de um projeto a título de reduzir o elevado nível de analfabetismo e de evasão escolar que marca o cenário da educação no município. Fazia três dias, portanto, que os professores da rede municipal se encontravam reunidos para a escrita do tal projeto, nada estava escrito, vale ressaltar. Apenas rabiscos desencontrados, já que os professores se agruparam em dois grandes grupos a título de ambos produzirem um mesmo projeto e da fusão dos dois projetos sairia o tal projeto almejado. O que me deixou sem norte, além dos dados desastrosos apresentados por alto a nós professores da rede municipal, foi a incapacidade de uma equipe de mais de 20 professores da educação básica de redigir, acredite, a própria justificativa do projeto. E pensar que estavam ainda a discutir o como fazer para incorporar à carga horária disciplinas de alfabetização; e pensar que no correr da discussão ganhava fôlego a proposta de "separação" dos alunos alfabetizados dos analfabetos a título de por em prática a ação de alfabetizar. Como novo no ambiente, em nada, a princípio, dei pitaco; apenas quando vi que a tal proposta de separação ganhava fôlego não pude permanecer inerte. A essa altura não fazia sentido, disse, separar os alunos uns dos outros, isso era uma medida excludente que só faria criar/fortalecer o preconceito entre aqueles ditos alfabetizados e aqueles ditos analfabetizados; além de que, se o problema era também o da evasão, a criação de um horário extra não teria solução - os alunos, justifiquei, não seriam atraídos a permanecerem mais tempo na escola com as condições que a escola oferecia. A dívida da alfabetização era culpa dos professores, emendei, e do modelo de educação adotado pela escola e não cabia novamente punir os alunos por erros alheios. Isso só fez por lenha à fogueira. E eu ouvia. Apenas ouvia. E dentro de mim se processava uma série de críticas e indagações, como, a que se davam a incapacidade de escrita de um grupo de professores, ou a tomada de decisão diante de uma questão como esta?

Nessa incapacidade pude perceber de então que uma das justificativas aos altos índices de evasão e de analfabetismo se davam, antes de qualquer outro problema que venha se diagnosticar mais tarde, pela equipe responsável pelo ensino. Diante de uma equipe, a meu ver, totalmente desestimulada, jogando palavras ocas ao vento, sabedoras do problema, mas sem um diagnóstico pleno da situação que a levasse a adoção de modelo pedagógico essencial à resolver ou pelo menos tentar resolver o tal problema, me perguntei, que grupo de alunos, como são os de hoje, se interessaria por uma aula em que seus condutores apresentassem tal característica, o desestímulo?

É grave o problema, pensei e conclui desde então. Não há texto de auto-ajuda, como os que circularam ao correr da reunião pedagógica, que dê jeito, se, no correr das conversas que tive com os professores durante o intervalo, constatei que a prefeitura desse município não respeita sequer seus direitos salariais e não promove incentivos como cursos de capacitação de tais professores. Sou dos acreditam que o professor enquanto tal é quem deve correr à procura do seu aperfeiçoamento, entretanto, entendo que esse modo de pensar é fruto de cabeças como a minha que passou quatro anos de molho num banco de faculdade em contato constante com discussões outras acerca do ensino e não do modo de pensar de professores que sequer passaram por faculdade, de professores outros que vem de antiga formação chamada magistério, cujos valores acerca do ensino/aprendizagem eram outros. Dessa conversa rápida que tive com alguns professores pude entender o porquê que os ali reunidos já há três dias não conseguiam redigir sequer a justificativa do projeto. É uma roda: o município esquece seus educadores e os educadores esquecem seus alunos.

Além da formação antiga de alguns professores, há ainda um seleto grupo que mantém fortes laços políticos e que tomam as vagas sem nenhuma capacidade de assumi-la. Esse é um problema que se dá não só nesse município, mas em todo o cenário brasileiro. Tenho essa impressão. E se o um município e um estado não oferece subsídios ou aperfeiçoamento aos seus profissionais, o que dizer da ausência de concurso público à contratação de professores, nesse caso, capacitados ao preenchimento das vagas políticas? Por esse município até houve concurso público recente, mas o município não oferece estrutura alguma à permanência de profissionais que se formam com o perfil atual, por que, pergunto eu, qual o profissional recém-formado, que passou quatro anos numa licenciatura, sonha isolar-se de deus e do diabo e levar uma vidinha medíocre de proferssorzinho de uma escola pública do interior? Foi-se esses tempos.



Intervalo

terça-feira, 12 de maio de 2009

Chuvas e inundações no Nordeste



Há dias que a Tv vem mostrando o drama terrível que os temporais que este ano somam-se a muitos que tem desabado sobre Nordeste. Sensacionalismo barato esse da mídia televisiva, foi assim desde com Santa Catarina a poucos meses. A verdade é que são milhares de pessoas sem casa, sem um teto onde dormir hoje. Estas notícias, sensacionalismo barato à parte, tantas vezes vistas e lidas, não podem deixar-nos indiferentes. Pelo contrário. Mas o silêncio manifestado na falta de apoio a recuperação dos estragos é intediante. Até bem pouco tempo com Santa Catarina a própria mídia que celebra a contagem dos prejuízos fazia campanhas para os vitimados pelas enchentes, mas quando se trata de Nordeste, a mídia parece que dorme e sabe usar apenas a voz do descalabro da natureza para expor a dor alheia e ganhar audiência com ela. Por outro lado, as ajudas do Governo brasileiro parecem vir de canoa; muitas cidades sequer conseguiram se reestruturar do prejuízo que tiveram com as mesmas enchentes ano passado porque as ajudas financeiras por cá ainda não chegaram. Não é da natureza - mãe que tanto sofre - que devemos pedir clemência, não é aos deuses, eles padecem do mesmo sono humano, mas aos próprios homens, que são os responsáveis maiores por este drama.

Os escritores


Castro Alves



Parece que os astros são anjos

[pendidos

Das frouxas neblinas da abobada azul,

Que miram, que adoram ardentes

[pendidos

A filha morena dos pampas do sul.


C. Alves



Sicambros do sol da gloria

Ergamos a fronte ao sol,

Condores, tingi as azas

Morno é o banho do arrebol.


Como bardos inspirados,

Nos solares derrocados

Cantando os guerreiros seus,

Mandemos em brados fundos,

Nossa historia aos quatro mundos

Nossa historia aos quatro céus.


Quando palpita a victoria

Do Brazil no coração,

Quebram a lousa os Andradas

P’ra ver em face a nação.


O vento canta epopéas,

Parecem fulgem idéas

No rio, no céo, no ar,

E a luz do triumpho novo

Clarêa a fronte do povo,

Do povo maior que o mar.


Quando o tempo d’entre os dedos

Colhe um sec’lo, uma nação

Encontra nomes tão grandes

Que lhes não cabem na mão.


Debalde raio impotente

Mergulha a raiva na frente

Do Prometteu. Ao cahir

De um sol a luz so revella,

Naquella face amarella

Pallida ao sol do porvir.


Assim foi... E ha tantas per’las

Tantos astros por tropheos,

Que as folhas da nossa historia

Não são historias são céos.


Já de horror prorompe um grito

D’esta bocca de granito

Do petrio monstro – Humaitá

Mas espera... A bofetada

O condor co’aza arrojada

Vai dar-t’a Lopez... Irá.


Nos pampas dormido tremes

Ao tropel da legião

Ai! Dize assim porque tremes?

Pisamos-te o coração.


- Que sombra é aquella no norte?

- Diz o Paraguay – a morte

Desce dos Andes talvez!...

Responde um grito: Desperta,

De logo e fumo coberta

A aguia da gloria é o que vês.


Silencio. Calle-se o canto

Quebre-se a Lyra ao vibrar,

O verbo das catadupas

Onde o podera encontrar?

D’esses que alteiam as frontes,

Que sotopondo mil montes

Tem no mundo um pedestal,

Cantar a gloria arrogante

Só póde o povo gigante


O povo descommunal.


(este poema foi publicado no Jornal do Recife, n. 213, de 14 de setembro de 1865, p. 1)



A história da vida de Castro Alves não pode ser registrada apenas pelas datas e fatos que marcaram os seus 24 anos de intenso viver, de amar e sonhar sofregamente. Toma dimensão maior – dilata-se o período. Seu canto vem de longe, vem com o despertar do nativismo na sua própria Bahia do século XVII e continua belo, hoje e sempre. É que ele encarna o amor à liberdade, que caracteriza esta nação de jovens. Mas, para tentar explicar Castro Alves – poeta da raça –, é preciso primeiramente colocá-lo no chão da infância e no ambiente de sua família.


A terra onde ele nasceu é uma transição de paisagens: para o oeste, os recortes azuis da serra do Aporá, demarcando uma imensidão de terras calcinadas de sol, onde medram cactos e arbustos desfolhados. É o sertão que se estende rumo ao rio São Francisco. A leste, é a paisagem das baraúnas em flor e do bom cheiro do mel nos tachos de engenhos – zona dos verdes canaviais do Recôncavo Baiano. Mas, mais que transição, é o choque. O embate entre duas culturas: a do Recôncavo, barroco e escravocrata, e a do sertão, místico e violento.


Seu pai era o médico Antonio José Alves, moço da capital da província, culto apaixonado pela carreira e amante das artes. A mãe – Clélia Brasília – uma mulher frágil, doce e linda, educada na Bahia, embora sertaneja de Curralinho e membro da poderosa família cujo chefe, o major José Antonio da Silva Castro, tornara-se famoso nas guerras da independência. E havia também uma tia – Pórcia – que fora marcada por trágico amor. E mais ainda, a sua mãe de leite, a mulata Leopoldina.


Os anos de 61 e 62 vão definir os pendores poéticos de Castro Alves. O rapazinho lia com furor os românticos franceses, sendo Victor Hugo o guia espiritual, o seu guru. Estudava também inglês para conhecer Byron. Dos nacionais se apegava a Laurindo Rabelo, Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias. E tomava gosto pelas hipérboles, pelo uso de vigorosas e belas imagens. Sentia o fascínio das alturas. Infinito, eternidade, amplidão, condor, irão povoar seus versos.


Estudar direito, para exercer a advocacia ou vir a ser promotor, juiz ou desembargador, não é bem o objetivo do jovem Antônio, mas, porque não sente vocação para a medicina, e porque detesta a matemática, não vai poder nunca ser engenheiro e porque do que gosta mesmo é poetar, então a Faculdade do Recife há de ser a porta aberta, o seu passaporte para ingresso no Parnaso.


A faculdade ficava num velho casarão da rua do Hospício. A rua dos loucos. O pai achava que José Antônio ficaria bom – tinha tiques vez em quando – convivendo com rapazes em república, numa vida alegre, saudável, descontraída. Zezinho pouco se interessava pelos estudos e nem acompanhava os colegas nas pândegas. E quando vez por outra conversava, era com os doidos do asilo.


Via, de longe, os professores metidos naquelas feias casacas que mais lembravam os bispos da Bahia. Ele também não sentia o menor interesse pelos preparatórios à faculdade. Passava os dias e as noites a jogar bilhar, a ler os seus poetas, a desenhar, a fazer versos.


Sua primeira paixão chega com a Companhia Dramática de Duarte Coimbra. Eugênia. Eugênia era uma renomada atriz. Admirável mulher de lindos olhos negros, negros como a noite. Do primeiro encontro, um roçar de vestido, é motivo suficiente para as noites de insônia


Eu tenho dentro d’alma o meu segredo

Guardado como pérola do mar,

Oculto ao mundo como a flor silvestre

Escondida no vale a vicejar.

...

Recorda-te do pobre que em silêncio

De ti fez o seu anjo de poesia,

Que tresnoita cismando em tuas graças,

Que por ti, só por ti, é que vivia,

Que tremia ao roçar do teu vestido,

E que por ti de amor era perdido...


Ao mesmo tempo acorda o poeta para a realidade. É preciso não esquecer a realidade. Nesta terra a escravidão do negro é parte da própria organização social. Um horror. Uma vergonha. O negro é peça que o senhor branco adquire para o trabalho. É como um animal para uso do senhor.


É preciso apostrafar este Pernambuco de 63, apenas interessado em vender açúcar. Voltar o látego da poesia contra os barões do engenho. É preciso compor um painel onde a infâmia fique estampada: os navios negreiros atravessando o oceano, as senzalas imundas, a mãe cativa a amamentar o filho sem futuro, os mercados de negros e o trabalho de sol a sol no eito dos engenhos, a cortar cana, a rodar moenda para espremer o caldo que se vai transformar no claro açúcar. Fortes negros como juntas de bois de canga, limária do rico senhor.


O estandarte de sua poesia


E assim está composto o painel estandarte da poesia de Castro Alves. Do período terceiro do romantismo brasileiro a poesia de Castro Alves deixa-se entrever pelas marcas da sensualidade – o que foi seus envolvimentos amorosos. E, principalmente, essa fase do condor, em prol da abolição. Esta é a mais importante da sua obra. Sua obra está organizada nas edições de Espumas flutuantes, de 1870, A cachoeira de Paulo Afonso, de 1876, Vozes d’África e O navio negreiro, de 1880, Os escravos, de 1883, além do drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, de 1875.



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Fonte. O poema que abre este texto foi retirado de DA SILVA, Francisco Pereira. Castro Alves. São Paulo: Editora Três, 2001 (col. A vida dos grandes brasileiros).


O texto que segue até O estandarte de sua poesia foi composto de fragmentos de DA SILVA, Francisco Pereira. Castro Alves. São Paulo: Editora Três, 2001 (col. A vida dos grandes brasileiros).


Intervalo

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Imprevistos



Nos últimos anos aqui no Brasil se instalou uma onda chamada de concurso público. Há até um nome cunhado para aqueles candidatos às vagas nos serviços públicos que entra ano e sai ano estão lotando salas de cursinhos e bancos de bibliotecas: concurseiros. Virou febre e, por que não, alienação. Domingo, dia 10/05/2009, houve dois concursos no Rio Grande do Norte: um para cargos na Universidade Federal e outro para cargos no Instituto Técnico - antigo CEFET. O que quero chamar atenção com este comentário não é para os jogos de alienação provocados pelos concursos, nem falar dos concursos que citei, nem falar dos concurseiros, mas de um ator fortemente atuante nos dias de hoje e mais ainda nos concursos que carregam horários a cumprir. Este ator de que falo chama-se imprevisto. O jornal Tribuna do Norte e a mídia local divulgou, como ritos de masoquismo, candidatos esbaforidos, vindos de estados de longe do País que chegaram atrasados aos locais de prova e logo foram eliminados. Moto enguiçada, trânsito lento, ônibus que não chega, são apenas algumas das formas que o tal ator apresenta-se. E em situações que lidamos com o tempo, principalmente, não há ficar livre deles. Que o diga as leis de Murphy.


Alguns dos filmes brilhantes

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Crepúsculo dos deuses, Billy Wilder


A mistura de realidade e ficção, com atores e diretores sendo eles mesmos em seus dramas reais, nunca havia sido feita antes



Com uma biografia cheia de eventos trágicos – a mãe e o padrasto foram executados no campo de extermínio de Auschwitz, ele mesmo teve de fugir da Europa para não ser preso pelos nazistas –, o austríaco Billy Wilder poderia ter criado uma obra pesada, triste, amarga. Em vez disso, escolheu o riso como arma. Seus filmes são carregados de ironia cortante, e ninguém, nenhuma ideologia ou instituição escapam de seus diálogos que fazem rir e pensar. Não surpreende, portanto, que ele tenha resolvido satirizar seu próprio ganha-pão – a indústria cinematográfica – em Crepúsculo dos deuses, um retrato um pouco piedoso de Hollywood e sua máquina recicladora de ídolos e tendências. O crepúsculo do título é o dos deuses do cinema mudo, renegados ao esquecimento com o advento da tecnologia sonora. Para o papel principal – uma antiga musa do cinema que contrata Joe Gillis (William Holden), um roteirista fracassado, para escrever seu grande retorno – foi convocada Gloria Swanson, ela própria numa estrela dos filmes mudos que viu sua carreira afundar. Participam também do filme ícones “mudos” como os diretores Cecil B. DeMille, Buster Keaton e Erich Von Stroheim, este no papel de mordomo de Norma Desmond, a personagem de Swanson. O cinismo, a anormalidade e a ânsia de Gillis por dinheiro sintetizam o comportamento de Hollywood, sempre mais dependente das cifras que de ambições artísticas. O auge da melancólica decadência de Norma Desmond é cena final, em que ela, perturbada, avisa a DeMille que está pronta para filmar um close-up. Ela desce as escadas em direção à polícia, e o que se vê é ela indo rumo à platéia.


O longa ganhou três estatuetas no Oscar de 1951 – Direção de Arte, Música e Roteiro. O último é emblemático, pois os roteiros sempre foram o ponto forte da carreira de Wilder. Ele próprio começou escrevendo para seu grande mestre, Ernst Lubitsch – está nos créditos de Ninotchka (1939). No caso de Crepúsculo dos Deuses, Wilder divide a autoria com Charles Brackett, parceiro também em Pacto de sangue (1944) e Farrapo humano (1945), entre outras obras-primas.


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nota. Esta lista foi publicada ano passado pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.

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Revista Bravo!, 2007, p. 33


Intervalo

domingo, 10 de maio de 2009

Pedro, Ângela, Monick e Anacely - a primeira equipe, fundadora do Jornal Trabuco


Jornal Trabuco, um tiro de boas ideias

O ano era 2008. O mês, igual a este, maio. Estava em gestação a ideia por parte dos alunos do curso de letras da Faculdade de Letras da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte juntamente com o professor e poeta Leontino Filho da criação de um jornal para publicação/divulgação de material dos alunos. O resultado desta gestação foi a criação do Trabuco, com o eslogan de "Um tiro de boas ideias". A primeira edição entrava em circulação no mês subsequente. Deu certo o projeto. Hoje a equipe nova - que está já em posse - prepara o que será a quarta edição do jornal. Está um blogue no ar na rede; e prepara-se para junto a quarta edição o lançamento de um caderno de poesia, intitulado Sarau. Esta é a meta mais ambiciosa do jornal , visto que está para além de uma edição especial de caderno de poesia, mas a criação de um projeto para a exposição de poetas de todo o país. Os frutos têm sido positivos, certamente. Este um ano é certamente interessante para o jornal.



Intervalo

Evento


Divulgo aos leitores e transeuntes desse blogue o XXII Congresso Internacional de Professores de Literatura Portuguesa. A ABRAPLIP - Associação Brasileira de Professres de Literatura Portuguesa -, conforme decisão da última assembléia, promoverá, entre 13 e 18 de setembro de 2009, na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, o XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, com o apoio de um conjunto de universidades baianas: Universi dade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Universidade Estadual da Bahia (UNEB), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Universidade Católica de Salvador (UCSal) e Universidade Jorge Amado (UniJorge).

O formato de Congresso Internacional adotado para o XXII Evento pretende enfatizar o viés que vem perpassando as reuniões anteriores da Associação, qual seja, a abrangência de área e procedência dos participantes, ouvintes, comunicadores e conferencistas, nomeadamente os convidados especiais.

Pensar a docência, pesquisa e extensão no terreno disciplinar de Literatura Portuguesa, no Brasil, aciona as áreas de Letras, Lingüística, Artes e Ciências Sociais e Humanas, convocadas a participar de um congresso calcado nas possibilidades de intercâmbio nacional, transnacional e internacional, entrelaçados a dilemas e ditames culturais brasileiros, em sua abertura para com as culturas portuguesa e africanas de língua oficial portuguesa.

O XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, a exemplo dos eventos anteriores, reunirá professores, estudantes, pesquisadores, críticos dos diversos estados brasileiros, escritores portugueses e profissionais estrangeiros, com o foco nos nexos sugeridos pelos termos “Memória, Trânsitos, Convergências”, a apontar para diferentes movimentos imbricados.


Informações Clica Aqui.


Os escritores

sexta-feira, 8 de maio de 2009


Camilo Castelo Branco, o exagero sentimentalista


por Pedro Fernandes



Quando li, ainda na Faculdade, talvez o romance seu mais conhecido, Amor de perdição, pude compreender o subtítulo que dou ao post de hoje. Sem dúvidas trata-se duma novela em que – e isso sempre me perguntei – tantas e tantas possibilidades se apresentam aos amantes, Teresa e Simão, mas eles como “bons” amantes do romance tradicional, optam pela cadência de fatos mais nebulosa a fim de constituir sua história de amor, que é o que é este romance de Camilo Castelo Branco. Estas personagens centrais de Amor de perdição representam o sentimento duma sociedade que não mais cria nos veios do destino como trajetórias de vida. Isso é marco para a segunda fase do Romantismo. A fase em que a crítica classifica como ultra-romântica, dado o exagero amoroso constituir-se fenômeno perene ao mote dos romances e daí ultrapassando à vida comum dos jovens da época. Deu já para entender que o post de hoje trata do autor e da obra do português Camilo Castelo Branco, apontado pela crítica com o mais passionais dos românticos.


Nasceu em 1825, em Lisboa. Suicidou-se em 1890. Foi diplomado em Química e Botânica. Fez tentativas a Medicina, mas abandonou o curso pela metade. Reflexos ou não na sua obra, teve o autor uma vida repleta de aventuras amorosas. Dedicou-se a outros gêneros literários, como a poesia, o teatro, a historiografia a crítica literária, as memórias.


Mas o gênero em que mais se destacou foi sem dúvidas o da novela, do qual figura sua obra prima, Amor de perdição. Estas suas histórias de amor passional tinham como mote o impedimento a vivificação do amor em seu estado de plenitude. Os motivos eram geralmente os de ordem social, como as diferenças de classes entre os apaixonados ou ainda no bom e modo velho shakespeariano, o da inimizade entre os familiares dos enamorados. As novelas castelianas tinham por quase obrigação o enaltecimento do sofrer amoroso. Este se constituía no ingrediente motriz ao caráter das personagens. Os jovens amantes viam-se nublados por uma aura de pureza e de abnegação em que ao ponto que os condenava os santificava. Com final sempre trágico, essas novelas davam margem a dualidade do sentimento amoroso. Isto porque a morte nesses casos pode ser vista como sentença punitiva para um amor que transgredia os princípios de uma sociedade interesseira e corrupta, ao mesmo tempo em que, espécie de redenção e pulo para a eternidade.



Camilo Castelo Branco também foi símbolo em Portugal do escritor enquanto profissão. O Romantismo, como estilo artístico, tinha fácil penetração social e, na época, a melhor forma de incentivo à leitura da produção na estética eram através dos folhetins. Coisa que por cá, também virou moda. E moda ainda é hoje, quando reparamos as novelas televisionadas. É aí que entra Castelo Branco, como escritor que supria essa carência burguesa da escrita para si.



Minhas falas

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Diário Pedagógico – página 01

por Pedro Fernandes


Apresentação

No dia 25 de março de 2009, o jornal Correio da Tarde publicou na segunda página, na sessão artigos, um artigo meu intitulado Um genocídio outro, um genocídio só. Este artigo expunha as condições que professores da rede pública de ensino enfrentam diariamente ao mesmo tempo em que apresentava uma crítica aos destinos traçados pelas forças maiores, Estados e Municípios que têm feito o uso da força a fim de barrar os movimentos de professores que ano após ano tem lutado em prol de melhores condições salariais e de trabalho. Neste artigo também indiretamente desconstruí ou re-construí uma imagem que havia feito do professor noutro artigo publicado em 15 de outubro de 2008 no referido jornal e no jornal Tribuna do Norte: em Escritores da liberdade, que foi como o artigo foi publicado na Tribuna, eu havia dito que o professor é uma espécie de super-herói. Esta foi a imagem de que me apossei e reapropriei para o nome de deus; antes de ser um herói, o professor há que ser um deus a título de enfrentar todas as condições que trabalho que lhe são impostas.

Essa minha visão acerca da Educação Pública sempre foi aguçada desde que pude notar, ainda nos meus anos de Ensino Médio, que não faz tanto tempo, que essa instituição – bem maior da humanidade – no Brasil andava mal das pernas. Não há necessidade alguma de ser especialista ou renomado em assuntos da Educação para perceber isso, basta que, como já disse noutra ocasião, que passemos um expediente numa escola pública qualquer – generalizo porque sei que são poucas as que reúnem condições de excelência – para percebermos as mazelas que não só rondam, mas já se instalaram e fizeram da escola pública morada fixa. Entretanto, essa visão foi se alterando desde que assumi, temporariamente, a vaga de professor na disciplina de Língua Inglesa numa determinada escola da rede municipal do interior do estado do Rio Grande do Norte. Muitas das impressões que pus naquele artigo de que falei no início deste texto, Um genocídio outro, um genocídio só, foram recolhidas dessa minha estada. Em conversas informais com amigos tenho relatado algumas das questões que pude perceber nos poucos dias que tive lecionando nessa escola. Em tais conversas tenho dito que não sou nenhum possuidor de espírito de Madre Tereza de Calcutá para encontrar, dar e resolver o rosário de problemas instalados apenas na educação pública desse município ao qual me vinquei por alguns dias. Tenho mesmo a certeza de que a própria Madre se desse para os assuntos da educação também concordaria comigo.

Entretanto, é nessas horas, que dentro de mim, no alto de meu senso pedagógico que ergui nos quatro anos de licenciatura que vivi que se gesta um desengano mesclado com vontade de rasgar aos quatro cantos do mundo as mazelas que estive vendo e vivenciando nessa estadia. Isso tudo me explode na escrita. Ela é a minha ação de Madre Tereza diante da situação, apesar de não ser possuidor de tal espírito, conforme já disse. Envolvo-me com estas questões porque me vejo na obrigação de envolver-me, afinal, foi para isso que os quatro anos de licenciatura que vivi e maneira que encontro para gritar é através desse espaço – que um dia pensei estar postando apenas matérias acerca da literatura. E desse impulso de revolta que nasce essa série de textos que serão aqui postados sempre às quartas-feiras na sessão minhas falas. Ainda não tenho estimado o número exato de textos que serão postados, mas posso desde já incluir aqueles dois textos que citei no início dessa fala, Um genocídio outro, um genocídio só e Escritores da liberdade; como espécie de textos introdutores das questões a que devo tratar. Diário Pedagógico é o título que dou a este feixe de textos, justamente porque são textos escritos tomando como foco o dia-a-dia dessa escola e que tem como objetivo explorar e expor as questões da educação na escola e no município que estive.



Para ler o artigo Um genocídio outro, um genocídio só, CLICA AQUI;
Para ler o artigo Escritores da liberdade, CLICA AQUI.

Letras&Livros

terça-feira, 5 de maio de 2009

A Caverna, de José Saramago



por Pedro Fernandes

Este livro, A caverna, do escritor português José Saramago, é lançado pelo ano de 2001. Vem, portanto, cercado pelo O homem duplicado, do ano seguinte, 2002, e Todos os nomes, de 1997. Vem com ares do que a crítica literária tem chamado de fase da escrita que se volta para as questões em derredor do homem e do mundo contemporâneo, uma realidade fugidia, conforme bem assinalou a definição do Comitê do Prêmio Nobel em 1998 quando da comunicação do prêmio ao escritor. Trata-se do romance mais mal-quisto pela crítica. Esse livro e aquele outro de poemas, O ano de 1993. Foi o último livro da safra do Prêmio Nobel de Literatura que acabei de ler. Trata-se de um retrato por aproximação do tão conhecido mito da caverna de Platão.O livro nasce, segundo o próprio escritor em entrevistas da epóca, quando da sua viagem ao Brasil e do contato que teve com artesãos do barro numa dessas feiras montadas para turista ver, no Rio de Janeiro. Nele, os habitantes dessa releitura a Saramago do referido mito, estão imersos noutra caverna, mais contemporânea e corriqueira, tão corriqueira que certamente todos nós, de uma forma ou de outra, estamos encerrados nela: o Centro comercial, espécie de shopping center ou condomínio desses de luxo. Cipriano Algor fará as vezes daquele artesão do barro que mantém laços comerciais com o Centro, até o dia em que as pessoas deixam de fazer uso dos artefatos de barro em troca por outros mais sofisticados, herdeiros do combustível-motor do mundo, o plástico. O fim das atividades da olaria dos Algores, faz, como muito é do conhecimento dos países que ainda padecem com os processos de urbanização, como o Brasil, Cipriano Algor mudar para o Centro em companhia da filha Marta, casada com Marçal, empregado do Centro. Não se pode deixar de lado a presença doutra personagem que como aquela do livro brasileiro Graciliano Ramos, Vidas secas, é tão importante quanto as personagens de acabo de falar: o cão Achado, protagonista por excelência dos fatos/sentimentos de toda narrativa. Também por aproximação pode-se entender a ponto de dizer que o que Saramago quer com esse livro - o que saobressai como algo notável comum a todos os outros romances do escritor - é o entendimento por parte do leitor de que aquele mito de Platão nunca esteve tão em voga contemporaneamente - isso ele reforça na sua fala num documentário intitulado Janela da alma. É na comum e simples cena de comportamento zumbi, que notadamente marca os sujeitos diante das vitrines ou com futilidades outras por horas e horas nos shoppings centers, por exemplo, que Saramago depura seu olhar, pela lente do mito da caverna de Platão, para o entendimento de sua tese, a da fragmentação ou virtualização da sociedade pelo consumismo. Essa aparente simples constatação é fundamental para entender o livro e para entender a preocupação ideológica do escritor português. Se bem repararmos essa constatação em torno d'A caverna é algo que se aplica a romances outros do escritor, como o notadamente Ensaio sobre a cegueira.



minhas falas

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Em janeiro de 2007, este blogue ainda não existia, só foi posto na rede em meados de novembro daquele ano, eu escrevi um artigo acerca de um fato que vazou a mídia ponta a ponta, que foi a morte do menino João Hélio, na onda corrente de violência que cerca o Rio e todos os grandes centros do País. O artigo foi ter publicação no jornal De Fato, mas não com o título que trago para este blogue e sim com o título A morte do menino João Hélio. O leitor deverá entender o encurtamento do título; as mídias, sejam elas quais forem, prima pelo enxugamento e pela objetividade. Trago o texto para este espaço como via de registro, assim como tenho com alguns textos outros que por aqui tiveram espaço que eu cumpunha muito antes de pensar em ter um blogue.


Algumas reflexões acerca dos momentos pós-permanente trágicos da sociedade brasileira: sobre a morte do menino João Hélio

Pedro Fernandes de Oliveira Neto
aluno do quinto período de Letras da UERN

Faço questão de iniciar o presente artigo com o nome estampado JOÃO HÉLIO no subtítulo para mostrar um pouco de atitude de respeito para com a família e o menino, especificamente, uma vez que a mídia televisiva a cada telejornal faz questão de usar O MENINO QUE FOI ARRASTADO (em negrito para dar ênfase) POR 7 KM como aposto para o nome João Hélio ou até substantivo próprio; ganhar nome com a tragédia e desgraça alheia parece que tem sido o pretexto (e um desrespeito) específico da mídia nossa que, me desculpem, é também uma tragédia, uma desgraça.

Mas o fato é que o acontecimento em si tem gerado diversas opiniões entre os sujeitos brasileiros, componentes, sendo redundante, de uma sociedade brasileira, que se diz moralmente pacífica:

(i) o sentimento de indignação. em sã consciência confesso que não fiquei chocado com o fato(parece que escuto alguém falando "isso é um doido, num tem coração!"). Pois se não tenho coração é porque já "me" sou um brasileiro genuinamente brasileiro e abrasileirado, sendo novamente redundante; porque com tanto apelo e sensacionalismo da mídia acerca do fato e as pessoas ainda permanecem em casa apenas chamando por Deus ou esculhambando o diabo, o presidente, os políticos, a justiça (senhores, filhos da p...), eu vou ser chamado de "sem coração"? Não foi o fato de não ter ficado chocado que fará de mim um sem coração, mas o comodismo deslavado que habita as entranhas da sociedade brasileira, isso sim, faz do Brasil um país degenerado.

(ii) a mãe aparece em telejornais. na telenovela. em sã consciência, sendo repetitivo, cofesso que, sequer tenho pena dela (parece que escuto alguém rasgando o jornal). Dizer individualmente quantos João Hélio precisam morrer para que a Justiça tome as providências, parece a mim sensacionalismo descarado; eu pergunto, quantas crianças envolvidas no tráfico de drogas, por exemplo, não são executadas? Nem por isso a mídia está lá entrevistando suas mães ou jogando elas para darem depoimentos em telenovela. Isso só acontece porque um crime desse porte feriu de alguma forma o comodismo dos ricos. Acredito que mais que usar o discurso a favor de uns e contra outros usando a imagem de uma família de classe média abalada e decepada, a mídia poderia fazer. Mostrar e ganhar audiência com isso é muito fácil, mostrar outras realidades que não as da elite, debater a questão com a sociedade parece mais complicado que assobiar e chupar cana.

(iii) a tragédia em si. em sã consciência, repito, confesso que os bandidos não deveriam ser presos (faz até medo usar essa palavra, bandido, vai que alguém que seja seu defensor me pega falando assim...), mas permancerem soltos em perfeita harmonia com a sociedade (parece que, agora, escuto passos de alguém correndo à minha procura). Isso é tão cumum. Por que haveríamos de estranhar? Os engravatados senhores políticos corruptos não estão soltos? - Rapaz, mas pere aí, você quer comparar um roubozinho de milhões a morte de uam criancinha inocente? Parece que ouço o leitor, pós remendar o jornal, perguntando isso. Sim podemos comparar a traição e roubalheira descarada desse covil Brasil a um assassinato desses, sim! A tragédia do João Hélio é simbólo da impunidade que emerge da esfera superior: bom, se político passa por cima de tudo e fica impune, por que prender assassinos? Os assassinos são reflexos cruéis dos assassinos do dinheiro público.

(iv) o que absorvemos ou aprendemos com o fato. em sã consciência confesso que ainda existe cura para isto, assassinos são normais! (o jornal é re-rasgado, ouço sendo-o jogado no lixo). Pois bem, retomo, quantos morreram antes do João Hélio? Quantos morreram depois de João Hélio? A tragédia João Hélio já foi apenas mais uma, a perda é dos pais. Os culpados? Do assassinato de João Hélio todos têm a sua parcela de culpa, afinal apenas a família com três pessoas pingadas fizeram uma passeata pedindo por Justiça; uma parte da sociedade estava em casa assistindo TV, outra já havia esquecido, só mesmo lembrou porque na abertura de um telejornal ouviram "PARENTES DO MENINO QUE FOI ARRASTADO POR 7 KM, joão hélio, FIZERAM CAMIHADA DE PROTESTO HOJE PELA TARDE." É, parece mesmo que o homem brasilis adapta-se às condições mais inóspitas de vida; nesse país, pós-permanente Estado de tragédia, ele ainda fica em casa à Raul Seixas, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, talvez faça isso parte de seu espírito de pacífico.




Intervalo

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sala Grumo

Quero postar aos leitores e transeuentes deste blogue a dica de um espaço, por sinal interessante e belíssimo aos olhos da arte. Esse espaço tomei conhecimento ao escavar pelas linhas virtuais da rede internete. Trata-se da Sala Grumo, um projeto-revista - que está on-line e impresso - iniciado em 2002 e que, como sublinha a sua apresentação, se pensa como um empreendimento entre línguas e culturas. Realizada entre Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo os primeiros números da revista são dedicados à cultura argentina e brasileira. O saite reúne poesia, crônicas, ensaios e um rico material latino americano, visto ser este o foco do projeto-revista.


Para acessar, CLICA AQUI.