Minhas falas

sexta-feira, 31 de julho de 2009




Os sertões, notas e impressões de uma leitura

por Pedro Fernandes de O. Neto


A guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinamente, ressurreta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido
(Os sertões, p. 131)

Há alguns grandes livros da Literatura que são-nos custosos ler; parece que necessitam, por parte do leitor, de uma vontade que venha de fora para dentro para seu feitio. Os sertões, de Euclides da Cunha, foi-me um desses grandes livros que teve de vir o incentivo de leitura da parte de fora para a vontade de lê-lo, já em tempos em mim, realmente fosse desperta. O que irei apontar nesse texto são notas resultadas da primeira leitura que fiz da obra. Logo, talvez, muitas das constatações sejam constatações corriqueiras, capazes de serem encontradas na próxima esquina que o leitor comum for, mas são constatações válidas, no sentido de que trazem o sentimento meu de leitor diante desse texto.
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A primeira parte da obra, intitulada de A terra, é a meu ver a preparação de um cenário, meticulosa, dada num movimento de câmera que ora é uma miragem cartográfica, ora geográfica, distante como alguém que só observa/descreve um mapa de perto como que o narrador dele (o cenário) fazendo parte. Um movimento que primeiro obedecer uma linha de fora para dentro, mas que adentrando mais na narrativa percebemos que não há linhas a obedecer, apenas um fluxo, como o de uma mente/olho que observa e lança esse olhar no papel a partir de então esboça coordenadas para o cenário que vai se erguendo à sua frente. O sertão ou os sertões – o sertão está em toda parte, como dizia Guimarães Rosa – palco, da trama também é-nos na rica carga de detalhes que mais parecem aqueles bordados coloridos tecidos pelas sertanejas, de tons diversos, vivos, pulsantes, engenhoso, que perde a vista de quem vê/ler. Esta primeira parte dá ao romance o caráter de Gênesis cristão: primeiro a criação do mundo para depois povoá-lo com a vida. Detalhe interessante é que em sendo o sertão personagem maior da obra, os elementos que o vão compondo, enfeitando, como as árvores – juazeiro, umbuzeiro, jurema, mandacarus, xiquexiques etc. (verdadeiros apanhados biológicos de um bioma!) são eles também além de elementos do cenário que se vai sendo construído, são personagens do drama. Com o sertão elas sentem a seca e a fartura, padecem do mesmo processo cíclico que castiga ao passo que esculpe o cenário.

A primeira parte da obra tem sua plasticidade invadida já pelo caráter de denúncia: quando o narrador aponta o processo de desertificação – algo que cem anos depois ainda se discute acaloradamente e pouco tem sido feito – afinal, continua-se Brasil afora as queimadas sem controle; quando o narrador aponta a necessidade de se fazer algo para a convivência com a seca, fenômeno atestado como processo climático histórico.

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A segunda parte intitulada O homem, é, fazendo jus ao Gênesis cristão; uma vez formada a terra, o cenário, o palco, para o correr das ações, há de se colocar as persona em circulação, dá-lhes corda, movimento, para que se possam ser apuradas e processadas as cenas e, constituir-se o enredo. Esta segunda parte de Os sertões: a criação do homem/ interior do brasileiro/ sertanejo que trilhará o drama de Canudos, além, é claro, da constituição das figuras adjacentes, típicas personagens – o vaqueiro, o jagunço, o sertanejo etc. - figurantes ou coadjuvantes na empreitada. As reflexões do narrador euclidiano se colocam para além das cartografias, geografias, biologias da primeira parte; entram em cena o espírito de um historiador/ antropológo que se põe em movimento com aquele mesmo olhar perscrutador, fino nos detalhes, para refletir a constituição desses seres. E aqui reside o caráter fundamental que se vai distanciar do Gênesis cristão: não estamos acompanhando um sujeito de vara de condão nas mãos dizendo “faça-se a luz”, “faça-se o dia”, faça-se a noite”, “faça-se isso”, “faça-se aquilo”, e tudo vai surgindo como que num passe de mágica, não, estamos acompanhando um sujeito que tem o faro científico e entendimento de que tudo é um processo gradativo, lento, que se dá na corrente lerdeza dos séculos. Também assistimos um narrador entusiasmado com os fatos culturais, religiosos e com a formação de espaços outros que se vão esboçando nessa cena maior que é o sertão, até que damos Antônio Conselheiro, figura mítica do romance.

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A terceira parte d'Os sertões, não é nominada inocentemente, certamente. A luta. Assistimos o que foi o desenrolar real, no sentindo de verdadeiro, da formação do interior do Nordeste: é o correr das cenas, depois de montada a arena povoada. Povoada de cangaceiros, jagunços, o que o narrador de Euclides vai apontando nesse apocalipse são as pelejas, as rixas, que a sangue e valentia iam delineando a cara do sertão. É outro Brasil o que se vê. Bem distante da beleza e pacificidade com que narra as páginas tradicionais da História. Se por entre os fatos históricos se vão mesclando ficções, não deixamos, entretanto, de ter em mãos um rico documento dessa formação das veias internas do País, que se deu a custo de sangue, nas rixas entre famílias, entre polícia e Estado. Preservado está também a memória do que foi a saga de Canudos – fulcro dessa terceira fase do livro.
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Por tudo o que foi dito, deve ter ficado claro que, Os sertões é certamente o único romance que reflete diretamente a constituição/ formação do Brasil e sua multiplicidade étnica. “Não temos uma unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca.”; “Não há um tipo antropológico brasileiro”. Sem perder o caráter literário, Os sertões, também é o um rico documento histórico quando atesta os movimentos misóginos que povoaram o País a remontar as chegada dos portugueses. É, como documento, fotografia do poder opressor que sempre este pisoteando os mais fracos. Entretanto, é o sertanejo, antes de tudo, não fraco, mas um forte – parafraseando a célebre passagem do romancista de Os sertões: “O sertão é homízio. Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa.”

Alguns dos filmes brilhantes

quinta-feira, 30 de julho de 2009


15


2001 - uma odisséia no espaço, Stanley Kubick
Ficção científica revolucionária discute a aventura do homem para compreender o mistério da criação


A odisséia no espaço narrado em 1968 pelo genial Stanley Kubick pode parecer tediosa quando vista por olhos acostumados ao ritmo incessante das aventuras intergaláticas de Guerra nas esterelas (1977). Mas, desde seu ponto de partida, trata-se de uma obra supreendente: o diretor filma um grupo de hominídeos da pré-história disputando domínios à base de paus e pedras. Por perto, um enigmático monólito, que reaparecerá em outra etapa do filme como seu símbolo mais marcante. Aé que um pedaço de ferramenta arremessado para o alto funde-se com a imagem de uma espaçonave cruzando o cosmos. Assim, neste famoso plano que esboça um salto no tempo de milênios, está dado o tom filosófico que sío cresce ao longo da narrativa.

Sabe-se que os astronautas terão de enfrentar um computador que assumiu o controle da nave, HAL 9000. Construído para gerenciar a missão a Júpiter, o mecanismo tecnológico fala e raciocina como humano, e, vaidoso, não se desviará da sua tarefa: garantir que a viagem seja cumprida, mesmo que tenha, para isso, que se livrar de seus companheiros. O que reflete mais uma inquietação do diretor em relação ao avanço tecnológico. Este pedaço de trama, por sua vez, não esconde o verdadeiro centro de interesse de Kubrik nessa história saída da imaginação do autor de ficção científica Arthur C Clark (que assina o roteiro como o diretor): traçare um painel da humanidade, desde o nascimento até a morte e introduzir nessa trajetória a visão da transcendência.

Há inúmeras outras referências, como a religião fundada pelo profeta Zaratrusta, na qual o sol e a lua crescente representam a luta entre a luz e as trevas. Ao som de Danubio Azuli, de Johan Strauss, e de Assim falou Zaratrustra, de Richard Strauss, entre outras composições eruditas, Kubrick filma o espaço sideral como se fosse o cenário de uma ópera cósmica.

Indicado a quatro Oscar (incluindo do de Diretor e Roteiro Original), ficou a penas com o de Melhores Efeitos Especiais. Em 1984, o filme fanhou continuação, o pífio 2010 - O ano em que faremos contato, dirigido por Peter Hyams.

Revista BRAVO!, 2007, p. 36
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nota. Esta lista foi publicada ano passado pela Revista brasileira BRAVO! Essa lista é composta de 100 filmes. Para elaborar essa lista a revista tomou como base os resultados já consagrados nas escolhas de melhores de todos os tempos, como os do jornal The New York Times, das revistas Time, Sight&Sound e Cahiers du Cinema e do American Film Institute. À definição segundo o editorial da revista levou em consideração títulos que misturam o erudito e o popular, o sofisticado e comercial, o inventivo e o eficaz. Levou-se em consideração também o fato de estes filmes terem marcado época, por razões estéticas e de receptividade do público.

Intervalo

quarta-feira, 29 de julho de 2009

I colóquio de estudos críticos da literatura


O Grupo de Estudos Críticos da Literatura - GECLIT – promoverá, no período de 15 a 16 de outubro de 2009, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, Campus Avançado “Profa. Maria Elisa de Albuquerque Maia” – CAMEAM, em Pau dos Ferros, o I Colóquio de Estudos Críticos da Literatura – I CECLIT, com o apoio do Departamento de Letras e seus Grupos de Pesquisa e do Programa de Pós-Graduação em Letras. O evento tem como objetivo reunir professores, estudantes, pesquisadores e críticos interessados nos estudos literários, com foco nas abordagens que privilegiam a Crítica Literária e as linhas de pesquisa do GECLIT – “Poéticas do Literário” e “Literatura, Memória e Identidade”. O evento constará de conferências, mesas-redondas, e sessões de comunicação individual.
Informações em: GECLIT/Coordenação do I CECLIT – Fone (84) 3351.2560 e 3351.3909 - e-mail: ceclit.uern@yahoo.com.br ou no saite http://geclit.blogspot.com/

Os escritores

terça-feira, 28 de julho de 2009



Jorge Reis-Sá


Nascido em 1977 em Vila Nova de Famalicão, frequentou entre 1994 e 2000 os cursos de Astronomia e Biologia,da Universidade do Porto e estagiou no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto onde estudou genética populacional, interrompendo a formação académica para se tornar editor. Como editor é responsável pelas editoras Quasi Edições e Editorial Magnólia, inseridas na empresa Do Impensável – Projecto de Atitudes Culturais, que também dirige.


Sua obra está em seis livros, entre eles Biologia do homem, Quasi Edições, 2004, Livro de Estimação, Quasi Edições, 2006, e Vou para Casa, Quasi Edições, 2008, e cinco de narrativa, entre os quais a memória Por Ser Preciso, Cosmorama, 2004, vencedor do Prémio Manuel Maria Barbosa du Bocage desse mesmo ano, o romance Todos os Dias, Publicações Dom Quixote, 2006, com edição no Brasil na Editora Record em 2007, os contos Terra Sextante Editora, 2007 e o que ele chama de "divertimento" O Dom, Editorial Magnólia, 2007, já disponível em edição brasileira. Também disponível por aqui, Todos os dias.


Organizou diversas antologias, entre as quais Anos 90 e Agora – Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa e colabora frequentemente com a imprensa.


Mais do autor, ver aqui.
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fonte. Site do autor

Intervalo

segunda-feira, 27 de julho de 2009

I Colóquio de Estudos Críticos da Literatura


O Grupo de Estudos Críticos da Literatura - GECLIT – promoverá, no período de 15 a 16 de outubro de 2009, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, Campus Avançado “Profa. Maria Elisa de Albuquerque Maia” – CAMEAM, em Pau dos Ferros, o I Colóquio de Estudos Críticos da Literatura – I CECLIT, com o apoio do Departamento de Letras e seus Grupos de Pesquisa e do Programa de Pós-Graduação em Letras.O evento tem como objetivo reunir professores, estudantes, pesquisadores e críticos interessados nos estudos literários, com foco nas abordagens que privilegiam a Crítica Literária e as linhas de pesquisa do GECLIT – “Poéticas do Literário” e “Literatura, Memória e Identidade”. O evento constará de conferências, mesas-redondas, e sessões de comunicação individual.

Intervalo

Brasileirar



O leitor já pode mirar mais a obra o escritor Paulo Martins; está disponível na rede o blogue do escritor, Brasileirar. O nome do blogue faz jus ao programa homônimo apresentado pelo escritor na Tv Orkut. Em Brasileirar estão disponíveis amostra das suas produções artísticas, como Era uma vez no nordeste, Rei do baião, Invejofrenia, entre outros, além dos linques para a compra do livro do escritor, De Gabriel a Noel uma festa na terra outra no céu, lançado pelo All Print Editora, de que já estive a falar por aqui.


Intervalo

sexta-feira, 24 de julho de 2009




7faces, pelo cinquentenário de O arado, Zila será a homenageada no primeiro número do caderno-revista eletrônico



Segue até o dia 31 de julho de 2009, o período para envio de imagens ao caderno-revista eletrônico 7faces. As regulagens estão disponíveis na página de divulgação do projeto, cujo linque está disponível abaixo. O recebimento de imagens é a segunda parte de preparação do caderno-revista, que teve em sua primeira fase o recebimento de material de poesia.

O primeiro número será dedicado a poeta potiguar Zila Mamede, cuja sua grande obra, O arado, faz cinquenta anos este ano. A seleção dos trabalhos anda a acontecer e a data para lançamento - até o fim de agosto - continua de pé.

Mais, clica aqui.

Intervalo

quinta-feira, 23 de julho de 2009


Filme conta a história do escritor português e Pílar del Río, sua esposa.


Entre Setembro e Outubro próximos, estará terminada a montagem do filme de Miguel Gonçalves Mendes, com o título provisório União Ibérica, e que com bastante probabilidade se chamará José e Pilar – Retrato de uma relação.

Resultado de três anos e meio de trabalho, a equipa de rodagem acompanhou José Saramago e Pilar del Río por diversos países, Portugal, México, Brasil, Espanha e Finlândia, daí advindo um conjunto de retratos vivos do Homem e do Escritor em diferentes momentos da sua vida de trabalho e não só.

Produzido pela JumpCut em co-produção com a El Deseo, de Pedro Almodôvar, o filme conta ainda com a parceria da SIC. A versão para TV terá a co-produção das estações televisivas SVT (Suécia) e Yle (Finlândia). O filme recebeu no passado dia 10 de Julho o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, através de um protocolo assinado com a produtora JumpCut, e não com o escritor, como erradamente alguns órgãos de comunicação veicularam, que não participa na produção do filme. Desse protocolo consta, para além do apoio à produção, a criação de um clip sobre a cidade de Lisboa, juntando, no mesmo suporte, imagens e sons da cidade a textos de José Saramago.

Por estes dias ultima-se a possível participação de capital brasileiro para a execução da última fase do filme, que pelas suas características envolve um elevado custo financeiro. Do mesmo modo, uma produtora norte-americana poderá participar assegurando a sua difusão no mercado de língua inglesa.

Festivais de Cinema de renome bem como diversas cadeias de televisão mostraram já interesse pelos direitos do filme, que antes de ser emitido em televisão terá estreia em salas de cinema.
Na banda sonora encontram-se nomes como os de Pedro Gonçalves (Dead Combo), Noiserv ou Adriana Calcanhoto.

Sinopse

União Ibérica (título provisório) retrata a relação de José Saramago (prémio Nobel da literatura, português) e Pilar Del Río (jornalista espanhola).

Baseado no registo do seu dia a dia em Lanzarote, a sua casa, e nas suas viagens de trabalho pelo mundo este filme ambiciona ser um retrato intimista do casal.

União Ibérica tem como ponto de partida o processo de criação, produção e promoção do romance A viagem do elefante.

A ficção deste romance, ao longo do documentário, irá funcionar como metáfora do percurso do próprio Saramago desde o momento inicial da construção da história em Lanzarote (2006) até o lançamento do livro no Brasil (2008). Desta maneira, a dura e custosa viagem do elefante, entre a corte de D. João III em Lisboa e a corte do arquiduque Maximiliano na Áustria, irá reflectir a própria jornada do autor durante o processo de criação deste livro.


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fonte. texto e imagens disponíveis em o Blog da Fundação José Saramago.

Letras&livros

terça-feira, 21 de julho de 2009



A rosa do provo, Carlos Drummond de Andrade


por Pedro Fernandes

Este livro é um dos mais importantes livros da bibliografia de Drummond; é também um dos mais importantes livros de poesia brasileira e, por que não um dos mais significativos da poesia universal. Escrito em momentos de noite, dentro e fora do País – basta que se cite que passávamos pelos anos da ditadura Vargas e que, mundialmente estávamos submersos no maior conflito da história, a Segunda Guerra Mundial – A rosa do povo vem composto de cinquenta e cinco poemas em que a figura da noite é, certamente, o fio que costura boa parte deles: “É noite. Sinto que é noite// Sinto que somos noite” (Passagem da noite); “Que fazer, exausto,/ em país bloqueado,/ enlace de noite/ raiz de mistério?” (Áporo). Além de que, o leitor sente ao longo desse livro a oclusão, o peso da época em que foi escrito e o sentimento de um Drummond que se desanima frente às cortinas de ferro e os muros que por toda a parte se levantavam e se fechavam: “O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.” (A flor e a náusea). O tempo d'A rosa do povo é esse tempo que se dilata, que se escorre lentamente, “paradamente”, surdo, mas não só isso, vez por outra, se espreitam frestas por onde escapam halos de luz e de esperança: “Uma flor nasceu na rua! [mire o espanto, pela interrogação] Furou o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio.” (A flor e a náusea); “Eis que o labirinto/ (oh razão, mistério)/ uma orquídea forma-se.” (Áporo). Em A rosa do povo estão ainda os poemas mais conhecidos de Drummond, como Procura da poesia, o já citado A flor e a náusea, Áporo, Episódio, Morte do leiteiro, entre outros.

Intervalo

segunda-feira, 20 de julho de 2009


















À convite do professor Afrânio, hoje, segunda-feira, 20 de julho de 2009, às 19h, na Faculdade de Letras e Artes, no Campus Avançado Professora Maria Eliza de Albuquerque Maia, em Pau dos Ferros (RN) ministro palestra-diálogo com os alunos de Letras intitulada Ensaio sobre a visão - ver para ler, ler para ver, um olhar para a obra de José Saramago e a adaptação para o cinema.



minhas falas

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Essa segunda língua que supomos


por Pedro Fernandes de O Neto


Recentemente esteve pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), onde cursei minha graduação e hoje curso mestrado, a professora Gladis, da Universidade de Tolima, Colômbia. Contava ela na rápida conversa que teve com os alunos do mestrado, dada a extensa agenda de compromissos a cumprir na Universidade, que, na Colômbia, os alunos de graduação são todos bilingues; que em se tratando de mestrado e de doutorado os trabalhos de conclusão dos respectivos cursos, dissertação e tese, devem ser defendidos em versões da língua mãe, o espanhol, e de língua estrangeira, o inglês. O país, entretanto, padece3 de uma taxa de 70% de analfabetos. Pergunto, de que vale tanto rigor por parte das instituições diante dessa lastimável estatística. Daí, aplica-se bem aquele dito popular de que tudo demais é veneno. Mas, a questão que me leva a essa pergunta está num fato outro: o fato de ela ter mencionado, e mencionado bem, do atual poder de que o Brasil dispõe frente a outros países como a própria Colômbia e a importância que esta nossa nação verde-amarela representa na América Latina, e para o cenário mulndial na atualidade e junto a tudo isto o fato de ser o país pobre linguisticamente, no sentido de não sermos sequer uma nação bilingue. Bem, destá, se para sermos bilingue tivermos de chegar aos patamares de analfabetismo colombiano, continuemos monolingue e falando tudo errado mermo. Se um país deve demonstrar seu poderio deve-se começar pela língua. Não concordo que esse bilinguismo inglês seja bilinguismo. Isso que ocorre em Colômbia tem outro nome: submissão. Se fosse isso sinônimo de poder, estadunidense deveria ser mais que bilingue. E, no entanto, o que são? Falam inglês tão ruim como falamos português. Façamos como eles. Se algum dia o Brasil sonhar em ocupar a cadeira de líder mundial, queira Deus que isso nunca ocorra, que o resto do mundo aportugue-se, assim como se ingleisou.

Alguns dos filmes brilhantes

quarta-feira, 15 de julho de 2009

As bruxas de Salém



Escrito incialmente para o teatro em 1953, As bruxas de Salém (The crucible, no original) foi adaptado em texto para o cinema pelo mesmo seu autor, Arthur Miller. De porte alegórico, no entendimento comum dado ao termo: o de dizer uma coisa para significar outra coisa, a obra dá conta de um fato histórico dado no ano de 1692, na pequena vila de Salem, em que algumas meninas ficaram doentes e foram vítimas de alucinações e convulsões, mas o foco desse fato se volta para outra dado histórico, o dos acontencimentos durante o mandato de Joseph Raymond McCarthy, senador republicano do estado de Wisconsin de 1947 até sua morte. No primeiro dado histórico, os moradores da vila, devido aos seus ideais religiosos, atribuíram tudo ao Diabo e seus consortes. O caso levou a população a acreditar num possível surto de bruxaria. As garotas e outros moradores começaram a acusar certos vizinhos de compactuarem com o demônio e de fazerem feitiços.O governo e o poder judicial do estado de Massachusetts, influenciados pelas suas crenças religiosas, agiram. Em algumas semanas, dezenas de pessoas foram presas acusadas de bruxaria. Quando o calor da coisa passou, no final de agosto de 1692, 19 pessoas (e dois cachorros) foram sentenciadas bruxas (os) e enforcadas (os). No segundo, em 1950, MacCarthy se tornou um dos mais influentes políticos do período, graças às suas afirmações sobre subversão Comunista, durante o período da Guerra Fria. Ficou conhecido por afirmar que haveria um grande número de Comunistas e Espiões e Simpatizantes da URSS dentro dos EUA. Em 1954, acusou todo o exército americano de comunista.




apenas meus poemas

segunda-feira, 13 de julho de 2009




filhos de adão






HEINRICH GRESBECK: Todo acto humano é cometido nas trevas, todo acto humano é criador de trevas.

Deus não é luz suficiente.



HANS VAN DER LANGENSTRATEN: Não há, pois, outro Diabo senão o homem, e a terra é o lugar único do inferno.



In nomine dei, José Saramago



1


no horizonte cai
de um açoite a noite
sobre duas almas vazias
aparece o bordo de uma lua vermelha
cheia amarela purulenta

uma fina neblina envolve
a nudez do nascer da noite

2

no azedume das ruas mortas
ele esperou que a lua toda se levantasse da terra
enorme sangrenta cheia de seu pus solar

3

a passos largos
as duas almas nuas
na sarjeta ainda quente da rua
gozo gala óvulo
uma vida

4

ao nascer calado doutra noite
negros voejantes
envoltos na neblina de junho
iss’é um assalto!


um estouro o disparo
um choro o desgozo
estendidos à porta da igreja
diante de um deus inocente
e de um diabo dito vil inclemente
o choro os gritos o sangue
de duas almas




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poema publicado no Caderno Literário, Editora Pragmata, maio de 2009, p. 59

Minhas falas

sexta-feira, 10 de julho de 2009


O privado, o público e o trabalhador



por Pedro Fernandes de O Neto

Todos os textos ou pelo menos a maioria deles certamente têm algum motivo pelo qual são escritos. Evidente que, dificilmente, o autor apresenta tal e tal motivo ao seu leitor. Acho que isso é mais frequente nos textos acadêmicos, pelo fato de pedirem uma justificativa para a idéia apresentada.

Tudo isso é para introduzir a exposição a que se presta este texto. Para tanto, começarei expondo o motivo que me leva a produzi-lo. Outro dia conversava com um amigo acerca de concurso público para prefeituras do interior do Estado, quando ele me sai com uma afirmativa de que jamais faria concurso para qualquer cidade que não pertencesse à zona metropolitana da capital. E eu insisti que, hoje pela estabilidade as pessoas estão fazendo de tudo, inclusive se deslocar de seus lugares preferidos para lugares ermos. Depois disso, ele me rebate que isso era sensacionalismo. E emendou que o melhor é trabalhar no setor privado porque lá estão as melhores oportunidades de crescimento e os melhores cargos. Isso é o fim, pensei. Isso, o leitor experiente já deve ter sacado, é o motivo pelo qual produzo este texto.

Não me é permitido concordar com o entendimento dele. A afirmativa dele não faz sentido numa época de crise econômica mundial, que ninguém ainda sabe onde está o erro, se sabem o mantém escondido, em que empresas no mundo inteiro estão indo à falência e seus empresários para não perderem seus lucros se põem às demissões em massa de funcionários. Perguntei a ele, que a garantias essas empresas oferecem a estes trabalhadores. Muitos deles estão mesmo indo mendigar nas ruas. No Japão já há desabrigados que ao perder o emprego perderam tudo o que tinham. E ele vem-me falar que é no setor privado onde estão as melhores oportunidades de crescimento. Só se for para os empresários. Que até estes, com a situação crítica em que o mercado financeiro se encontra, se vê a mercê dos banqueiros, que se sentem os donos do dinheiro, já que são os banqueiros a quem os países no mundo inteiro despejam diariamente toneladas de pacotes econômicos a fim de que os bancos ofertem crédito e restabeleça a ordem empresarial no mesmo ritmo de crescimento desenfreado que vinha apresentando nos anos anteriores.

Pode crer, leitor, que ele veio me dizer que as demissões eram motivadas pelo falta de diferencial dos funcionários. Não é possível que centena, mil, milhões de pessoas que estão hoje sem salário não tivessem um só diferencial, como diz ele, para merecerem seus empregos. E outra, qual o funcionário que ao entrar numa empresa privada não dão o melhor de si, a fim de obter algum êxito? Não faz sentido. As empresas pensam no lucro. As empresas são sanguessugas que sugam a força bruta humana para fazer girar a roleta dos lucros – quando não lhes servem mais, ou quando apresentam perigo aos lucros, jogam fora. Prova disso são as inúmeras dificuldades que uma pessoa de 40 anos ou mais tem para se locar numa área de serviço, porque o tal setor privado acredita que essa pessoa não possui mais a força física necessária para seus lucros.
Não estou com isso querendo dizer que o setor privado não serve para nada. Reconheço sua importância para as engrenagens da economia, mas reconheço o desprezo com que tratam seus trabalhadores. Se não fosse a rigidez das leis trabalhistas ainda estaríamos muito provavelmente no mesmo regime do período da Revolução Industrial. Essa é verdade.

No mais, basta ver que é do Estado que as empresas, que demitem seus funcionários com alarmes de uma crise, mais necessitam na hora dos apertos. Nesse jogo, o trabalhador é o produto final de tudo. Sem patriotismos, porque não me refiro apenas ao Estado brasileiro, mas acho que ainda posso dar “vivas” ao setor público, que com todos os entraves, vem, ainda que a passos de tartaruga, ajustando-se lentamente ao entendimento de que os funcionários que põem isso tudo que aí está a girar são seres humanos e não robôs programados para produção desenfreada.

Os escritores

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Os Escritores – Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte


A série Os escritores esta semana dedicou-se a apresentar os principais nomes que compuseram uma época em que “se morria de amor”, a segunda geração romântica ou o Ultra-romantismo. Hoje o nome de Junqueira Freire. Com ele encerramos a série. A proposta desta série foi a de retomar nomes significativos da literatura brasileira da época. Não difere, é verdade, dos já apresentados nos compêndios de literatura e/ou saites de referência à questão da segunda geração romântica. Logo, não tem pretexto nenhum de servir de documentação. Aliás, não é este o forte da coluna, como já é de ter percebido quem por aqui acessa. Esta proposta, evidente não descarta outros nomes que tenham sido importantes para época e nem tampouco atribui o mérito do que se produziu em literatura ultra-romântica a estes escritores. Entretanto, é a soma de nomes que certamente são fonte para outros escritores da época. Com esta série, de certa forma, abrem-se os leques para que sejam apresentados, futuramente, outros nomes de expressão significativa a segunda geração do Romantismo no Brasil. Apesar de fazer o uso de nomes do cânone, não confio nos cânones e até confio, desde que o cânone se apresente com uma nova proposta da original, ao invés de fixar nomes, ser aberto a sempre proposição de novos nomes que decorrer das pesquisas forem sendo apresentados.



Junqueira Freire

Morte
[fragmento]
(hora de delírio)

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
- Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.


Promessa de descanso eterno, refúgio para as dores da vida, a morte aparece também nos poemas ultra-românticos de Junqueira Freire. Não diferente dos demais da sua geração. Também nele a morte se apresenta indissociavelmente ligada ao amor não-correspondido, fonte de sofrimento insuportável. O binômio amor-morte será traduzido muitas vezes pela oposição entre o desejo de amar e o desejo de morrer. Esse conflito, influência byroniana, será as razões do mal-do-século. As razões também da poesia junqueiriana.

Junqueira Freire nasceu em 1832, em Salvador, Bahia. Estudou humanidades em Salvador, ingressando depois na ordem beneditina do Mosteiro de São Bento de Salvador. Abandonou o hábito um ano depois e passou a produzir poesias de meditação religiosa e filosófica. Deixou uma obra, Inspiração do claustro, publicada em 1855, ano de sua morte.






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O texto base para o post são informações coletadas da rede; o fragmento do poema Morte está em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000


Os escritores

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Os escritores – Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte

A série Os escritores esta semana dedica-se a apresentar os nomes que compuseram uma época em que “se morria de amor”, a segunda geração romântica, ou o Ultra-romantismo. Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte apresenta hoje o nome de Casimiro de Abreu.



Casimiro de Abreu



Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! Não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! Dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

(Casimiro de Abreu, Canção do exílio, fragmento)


Estes versos que abrem este post são de Casimiro de Abreu. Trata-se do primeiro texto que faz paródia à versão famosa de Gonçalves Dias, a também Canção do exílio. Também este poeta fez parte da segunda geração romântica. Falávamos no primeiro post desta série do sentimento amoroso e da morte como temática constante na poética deste período. Pois bem, quando se trata do sentimento amoroso o poeta não o trata em atmosfera de sonho e ilusão, como nos parece à primeira vista. Geralmente o sentimento amoroso advém de uma atmosfera marcada pelo saudosismo de uma infância perfeita, configurando-se, então, como uma emoção ingênua e inocente. Quem bem fez isso, foi este Casimiro de Abreu, cuja poética é toda dedicada ao saudosismo. Retome a leitura do fragmento de Canção do exílio, da abertura deste post. Seus versos marcam-se pela simplicidade e por isso mesmo foram caindo no gosto popular, fazendo-o junto com Álvares de Azevedo um dos nomes mais conhecidos e, portanto, mais significativos. Outro exemplo de saudosismo, este da infância, é a marca do imortalizado poema Meus oito anos.


Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fogueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;

O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

[...]

(Casimiro de Abreu, Meus oito anos, fragmento)


O poeta nasceu e morreu em Barra de São João, no Rio de Janeiro. Foi estudar em Portugal, onde escreveu parte de sua obra poética que tem como tema a saudade da terra natal, como os citados no corpo deste post. Morreu de tuberculose, o chamado mal do século, aos 21 anos de idade, semelhante Álvares de Azevedo. Do gênero poético deixou Primaveras, em 1859 e do gênero teatro deixou Camões e o jau, de 1856.





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Fonte. O texto base para o post e o fragmento do poema Meus oito anos está em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000; Os dados biográficos e o fragmento do poema Canção do exílio estão em FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de. Português série Brasil. São Paulo: Ática, 2005.

Os escritores

terça-feira, 7 de julho de 2009

Os Escritores – Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte


A série Os escritores esta semana dedica-se a apresentar os nomes que compuseram uma época em que “se morria de amor”, a segunda geração romântica, ou o Ultra-romantismo. Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte apresenta hoje o nome de Fagundes Varela.



Fagundes Varela

Certamente outro nome significativo da geração segunda do Romantismo no Brasil. Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu na cidade de Rio Claro, estado do Rio de Janeiro. Como os nomes da sua época, curso a Faculdade de Direito em São Paulo. Foi em São Paulo que o poeta levou uma vida de desatino e sofrimento, marcada pelo alcoolismo e pela não-realização amorosa. Cada vez mais pessimista, os dados de sua biografia apontam que parece ter o escritor encontrado refúgio na religião.

A morte prematura de Emiliano, filho do primeiro casamento do poeta, inspirou-lhes o poema que viria a ser o mais conhecido de toda a sua vasta obra.


Cântico do calvário
[fragmento]

[à memória de meu filho morto a 11 de dezembro de 1863]

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. – Eras a estrela
Que entre as nevoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, - a inspiração, - a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! No entanto,
Pomba, - varou-te a flecha do destino!
Astro, - engoliu-te o temporal do norte!
Teto, caíste! – Crença, já não vives!
Correi, correi, oh! Lágrimas saudosas,

[...]

Estrelas do sofrer, - gotas de mágoa,
Brando orvalho do céu! – Sede benditas!
Oh! Filho de minh’alma! Última rosa
Que neste solo ingrato vicejava!
Minha esperança amargamente doce!


Também como Álvares de Azevedo não chegou a concluir o curso. De forte influência byroniana, deixou, antes de morrer aos 34 anos em Niterói, no Rio, uma expressiva obra poética, publicada nos volumes Noturnas, de 1861, O estandarte auriverde, de 1863, Vozes da América, de 1864, Cantos meridionais, de 1869 e, Cânticos religiosos, de 1878.


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Fonte. Os dados biográficos e o fragmento do poema Cântico do calvário de Fagundes Varela para este post estão em FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de. Português série Brasil. São Paulo: Ática, 2005.

Os escritores

segunda-feira, 6 de julho de 2009



Os Escritores – Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte



Já sinto da geada dos sepulcros
O pavoroso frio enregelar-me...
A campa vejo aberta, e lá do fundo
Um esqueleto em pé vejo a acenar-me...

Entremos. Deve haver nestes lugares
Mudança grave na mundana sorte;
Quem sempre a morte achou no lar da vida,
Deve a vida encontrar no lar da morte.

(Laurindo Rabelo, Adeus ao mundo)

Os versos de Laurindo Rabelo expõem o que podemos chamar de exaltação à morte. Ela fascinou e ainda fascina vários escritores da literatura mundial. Teve seu apogeu, certamente, no decorrer do que a história literária denomina de segunda geração romântica. Nesse período a morte se apresenta quase que como uma constante nas obras literárias. Isso ocorre, atribui alguns críticos, como solução ao sofrimento imposto pela impiedosa e desumana sociedade burguesa. Talvez seja verdade. Nota-se nesse período a preponderância de outras características que vem reforçar essa tese, tais como a fuga para a infância, a criação de lugares outros, ermos, ou ainda a idealização de determinados aspectos. O que se assiste por esse época é uma valorização e uma atração pelo desconhecido, pelo indefinido, que, como tudo o que não tem forma certa, pode ser moldado aos desejos e fantasias de cada um. Assim, a morte passa a ser vista como um alívio, almejada pelos jovens artistas dessa geração, desiludidos com a vida. Fizeram parte dessa geração, no Brasil, muitos nomes importantes para a literatura nossa. Tais como Álvares de Azevedo – primeiro nome que talvez nos venha a mente quando recobramos esse momento –, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, entre outros. Eram jovens escritores que se viam atraídos pela possibilidade de expressão de um subjetivismo exacerbado e pessimista. Eram leitores ávidos de nomes como Lord Byron e Alfred Musset, nomes importantes, ídolos, podemos assim dizer, daquela turma. Pois bem, influenciados por nomes como estes, se punham a compor uma poesia que antes de tudo descrevia suas desilusões e fantasias como expressão das próprias emoções. Aliás, as emoções eram a razão de suas vidas.

A série Os escritores sob o título de Segunda Geração do Romantismo, uma temática de amor e morte esta semana dedica-se a apresentar esses citados nomes que compuseram, certamente, uma das mais importantes páginas da nossa Literatura. Começaremos pelo nome mais significativo desta época, o do poeta Álvares de Azevedo.


Álvares de Azevedo



Manuel Antônio Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo. Fez o curso primário no Rio de Janeiro e voltou a São Paulo para estudar Direito. Teve uma vida boêmia e tumultuada, segundo alguns; segundo outros, uma vida casta e serena. Morreu antes de concluir o curso, com apenas 21 anos e não viu publicada nenhuma de suas obras: da poesia, Lira dos vinte anos, 1853; O conde Lopo, 1866; da prosa, Noite na taverna, de 1855 e do teatro, Macário, de 1855.

Encontraremos na poesia de Álvares de Azevedo, por exemplo, um sem-número de virgens inacessíveis a povoar a imaginação de um eu lírico sempre frustrado pela impossibilidade de concretização daquele amor perfeito que ocupa seus sonhos. Era também característica comum da obra literária desse período: o desejo físico, um dos principais tormentos de jovens como Azevedo. E numa tentativa de negá-los compunha poemas em que a imagem de perfeição feminina apresentava traços surrealistas.


Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! Na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d’alvorada!
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no peito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

(Álvares de Azevedo, Soneto)

Repare no poema Soneto o modo como o eu lírico apresenta a mulher. Pálida. Virginal. Angelical. Dormindo entre as nuvens do amor. É esse o contexto para a expressão do erotismo feminino. Há toda uma preparação de um espaço outro, onírico, para a exposição de uma beleza física que transcende a realidade para habita outro plano, o da imaginação. Outra. O valor dado a morte, quando no desfecho do Soneto o eu lírico se expõe como disposto a morrer sorrindo, em sonhos, por essa beleza inacessível.

Esse caráter apresentado na poesia azevediana, também é preponderante na sua prosa. Os contos de Noite na taverna são marcados pela presença de criaturas marginalizadas que deslizam por espaços escuros, tétricos.


Haveriam outros nomes que ajudariam a compor este cenário duma época da literatura brasileira. Amanhã relembraremos o nome de Fagundes Varela.





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Fonte. O texto base para o post está em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000; o poema Soneto de Aluísio Azevedo está em AZEVEDO, Álvares de. Poesias completas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996. (coleção Prestígio).


Intervalo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Regulagens para envio de imagens ao Caderno-revista 7faces

1 – Podem ser remetidas fotografias, incursões plásticas, gráficas, grafites, desenhos, colagens, montagens, artes digitais etc.;

2 – Podem participar autores ou iniciantes brasileiros ou não e cada um podem enviar o número de imagens que lhe convir;

3 – Não necessariamente as imagens devam ser inéditas, entretanto, cada autor deve fazer uso do bom senso para, principalmente em casos de imagens expostas em alguma exposição, física ou virtual, mencionar tais especificidades, além dos créditos de seus autores;

4 – As imagens devem ser enviadas em anexo para o email pedro.letras@yahoo.com.br com o título em Assunto “Imagens para o caderno-revista 7faces”;

5 – Não haverá devolução dos trabalhos, logo cada autor é ciente de que deve ficar com cópia; os trabalhos que não se adequarem a uma edição poderão aparecer em edições subsequentes do caderno-revista; também o autor não abrirá mão de seus direitos autorais;

6 – Juntamente com as imagens o autor deve encaminhar uma declaração de direitos, que deve ser solicitada pessoalmente pelo email pedro.letras@yahoo.com.br;

7 – Os materiais devem ser encaminhados até o dia 31 de julho de 2009.