Os escritores

segunda-feira, 30 de novembro de 2009




Jorge Amado


Jorge Amado e mãe Menininha do Gantois, imagem do site da Companhia das Letras em homenagem ao escritor


Desde março de 2008 a editora Companhia das Letras tem iniciado a empreitada de reunir numa coleção a obra completa do autor baiano. Trata-se de um vigoroso e belo projeto que traz às rodas das discussões literárias a obra do escritor. Preparo um texto sobre essa que é a sua mais famosa obra, e a mais editada até hoje, Capitães da areia para um congresso sobre Literatura Regional a se realizar em dezembro próximo em Cajazeiras, PB. Na verdade trata-se de um texto que eu escrevera ainda na graduação e que agora volto a ele para re-edição. Desde então, algumas informações biográficas do escritor me são pertinentes a título de compor a atmosfera contextual para esse trabalho.

Capitães da areia foi publicado em 1937 quando da volta do escritor de uma viagem que empreendera ao redor da América Latina. Naquele ano, Jorge seria preso, pela segunda vez. A primeira havia sido por acusação da Ditatura de conluio com o movimento comunista brasileiro o que levou o escritor ao exílio, primeiro em Paris e depois na Thecoslováquia. De modo que este livro tem toda uma carga de perseguição sobre ele, não apenas pelo fato de ter sido o escritor preso no ano de sua publicação, mas pelo movimento empreendido pelo próprio Estado de não permitir a circulação da obra por achá-la perigosa ao Regime. Pelo teor subversivo a ele atribuído, inúmeras foram as edições queimadas em via pública pela polícia.

A vida de escritor sua data de 1929, ano em que publicou sua primeira obra, a novela Lenita escrita em co-autoria com Edison Carneiro e Dias da Costa. Tal obra, entretanto, não figura oficialmente no rol de seus escritos, que só se firmaria com a chegada, em 1931, de O país do carnaval. Formou-se em Direito; foi militante atuante no Partido Comunista; e em meio à efervescência cultural carioca, compôs a roda do chamado ciclo regionalista. Nesse rol, Jorge introduz uma maneira outra de produção romanesca, o de fazer da realidade documento material para composição do romance, numa atitude que o aproxima o repórter do literário. Trata-se um obra que olhando de hoje oferece linhas aguçadas da realidade nacional que se mostrava em vias de construção à sua época. Por exemplo, é impossível de ler Capitães da areia e não ver ali a formação dos guetos de marginalização que circundam o país inteiro. A própria Salvador do escritor é exemplo vivo disso; seu famoso centro histórico quando lá estive este ano vi que é lugar privilegiado para a marginalidade, e esses certamente devem descender de Pedro Bala, Pirulito e outros garotos que povoam o imaginário dessa obra.


Alguns dos filmes brilhantes

domingo, 29 de novembro de 2009

Dostoiévski para as telas




Dos livros de Dostoiévski, o mais adaptado para o cinema é Crime e castigo, certamente por causa da trama detetivesca e dos diálogos envolventes entre o protagonista Raskolnikov e o juiz de instrução Porfiri Pietróvitch. A trajetória começa com os clássicos homônimos estrelados por Peter Sorre em 1935 (direção de Josef von Sternberg) e Jean Gabin, que na versão francesa dirigida por Georges Lamin em 1956, faz o papel de Porfiri.

A lista inclui a versão em desenho animado, feita em 1953 pelo japonês Osamu Tezuka (o mestre dos mangás), e uma adaptação livre, algo maneirista, feita no Brasil pelo diretos Heitor Dhalia e pelo escritor Marçal Aquino: Nina (2004), longa no qual Raskolnikov se transforma na garota desajustada do título (interpretada por Guta Stresser), que vive num quarto de aluguel e é explorada por uma rabujenta senhora (Myrian Muniz). Uma asfixiante versão, que investe menos na trama policial do que na densidade psicológica do romance, é o filme finlandês de 1983 dirigido por Aki Kaurismäki e ambientado numa Helsinque pós-moderna e inóspita.

Outro grande romance, O idiota, teve várias adptações, com destaque para o filme de Akira Kurosawa, com Toshiro Mifume, rodado em 1951, e o filme de Georges Lampin, de 1945, com Gerárd Philippe (ícone do cinema francês pós-guerra) no papel do príncipe Michkin.

A mais celébre versão de Os irmãos Karamasov é o filme soviético dirigido por Ivan Pyriev em 1968, mas o mais acessível é o de Richard Brooks (1958).




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texto de Manuel da Costa Pinto in Cadernos EntreLivros - Panorama da Literatura Russa, 2007, p.33.

Intervalo

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Dois rios que cortam o sertão nordestino






Amanhã, dia 28 de novembro, a partir das 8h da manhã, terá lugar no Auditório Central do Campus Avançado Professora Maria Eliza de Albuquerque Maia (CAMEAM) em Pau dos Ferros o diálogo em torno de duas obras da Literatura Brasileira: Vidas secas, de Graciliano Ramos e Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. As discussões serão conduzidas por mim, com a obra do João Cabral e pelo mestrando José Carlos Redson, com a obra do Graciliano. As discussões são abertas ao público em geral e, em específico aos alunos das escolas públicas vestibulandos, já que terão o formato de aulões para cursinho. 

Outras informações podem ser tidas pelo Dpto. de Letras, (84) 3351-2560/2275, pelo e-mail do prof. Dr. Manuel Freire que é o  coordenador da ideia  mfreirerodrigues@yahoo.com.br

Intervalo

Os desafios de escrever um blogue





Hoje faz exatos dois anos que abri esta página na internet. No fechamento do primeiro ano eu escrevi do interesse meu quando resolvi criar este blogue. Nasceu a ideia meio que por acaso, dizia; tinha o interesse apenas de divulgar um evento na Faculdade; evento em que eu iria ministrar minicurso sobre a poeta potiguar Auta de Souza. Um blogue me permitiria além de divulgar o tal minicurso expor o material produzido e/ou necessário no decorrer dele.

Depois desse fato permaneci conduzindo seduzido ou viciado pela ideia e achei que este deveria ser o espaço para que eu organizasse minhas leituras que fossem sendo feitas na rede. E o propósito durou até certo ponto, quando comecei a postar matérias também minhas: poesia, ensaios, artigos. Ficou, desde então, como um espaço que preservava a ideia segunda, reunir materiais de leitura minhas na rede ao mesmo tempo que de divulgação de minhas ideias.

Nesse primeiro ano o blogue passa a reunir em si 7 colunas (Alguns dos filmes brilhantes, Apenas meus poemas, Intervalo, Letras&Livros, Os escritores, Escritores e escrituras potiguares, Minhas falas). Todas elas sãoo muito pessoais porque reúnem em si aqueles materais que tomo conhecimento e aqueles materiais meus.

No segundo ano de blogue achei por bem abrir mais uma sessão, a se chamar Eventos para a divulgação dos eventos dos quais participo ou simplesmente porque apoio a iniciativa. Noto, portanto, no correr desses dois anos que o blogue começa a demonstrar uma cara mais miha e sê-lo espaço estritamente pessoal haja vista que são as colunas Intervalo e Minhas falas as que mais receberam postagens. De modo que, comecei há alguns dias, muito lentamente, porque o tempo me tem sido algo mais que precioso, a fazer algumas operações de mudanças.

Uma de tais mudanças é o número de postagens, que tem caído consideravelmente, e outra é a valorização dos já referidos espaços porque são os mais intímos do blogue. Outra a padronização das postagens, principalmente aquelas já postas on-line. Isso tem o propósito de refazer essa página. Este espaço se fecha e, portanto, desde já está desativado o recebimento de material. O motivo de tudo é o famigerado tempo. Ele me tem sido mais curto do que fora e tenha a impressão de que daqui para frente mais curto será. Tenho além desse espaço de dar conta do caudal de leituras para uma dissertação de mestrado; uma revista, a 7faces, que vem se arrastando e espero dentro em breve pô-la em circulação; outra revista, esta do programa de pós-graduação cuja função de editor também me cabe; a organização de meu livro, o já anunciado Sertanices, que tenho fé também que, dentro em breve, deverá está nas livrarias; além de outras ideias que venho desenvolvendo e que, certamente, os leitores desse espaço ficarão sabendo.

A ideia de manutenção do blogue, entretanto, ainda me é sedutora como no princípio dessa aventura. A proposta de uma higienização do espaço, além de que, me é muito bem-vinda, por várias outras razões. O espaço ficará mais leve e mais intímo; deixará o leitor mais livre para visitação, tirando a ideia de assiduidade, que me parece coisa fátua na web. No mais que se multipliquem seus anos de vida.

Apenas meus poemas

quinta-feira, 26 de novembro de 2009


Receita de um poeta




Não nos preocupemos com as palavras
Elas caem não sei de onde
Vêm de cheio uma após outra
A galope ou fugindo do negro de nós
E escapam, derrapam, ficam e fincam em versos, por vezes destoados, mas versos.


Não faria sentido
Ficar sentado, parado, perdido no vácuo do papel
A suspirar por donzelas, por outros eus, pelo mundo
A esse modo as palavras correm, têm medo de como serão usadas
Elas preferm ser abusadas e caírem mortas-vivas, rotas, num verso sem fim.


Não há necessidade de arrumá-las como que numa prateleira
Elas vêm faceira, gostam mesmo é da desordem
Porque é na liberdade, no caos, que se ergue o sentido
Que se mostram coerências, coesões
É no desconexo que se ergue o poema.

Letras&Livros

terça-feira, 24 de novembro de 2009


A sangue frio, Truman Capote


A sangue frio é tradução para o português do original In cold blood do americano Truman Capote, publicado em 1966. Trata-se, em linhas gerais, de um livro que relata o assassinato de uma família de camponeses de Helcomb, interior dos Estados Unidos. O enredo gira em torno de Richard Hickock e Perry Smith que descrevem com certa maestria em tom adocicado pelo encantamento do escritor pelos assassinos (principalmente o segundo, com quem, dizem as más línguas, teria o escritor tido um envolvimento amoroso) o assassinato de Herb Clutter, Bonnie Clutter, sua esposa, e os seus dois filhos, Kenyon e Nancy. Trata-se daqueles crimes que abalam cidades pacatas e atrai a atenção de todos. Fora o já citado tom adocicado de Truman pelos assassinos, o que o livro tem de interessante é o modo como a narrativa procede - o outro lado da história, com direito aos preâmbulos do narrador por todos os espaços envolvidos na trama, da cadeia, onde ficaram presos Richard e Perry até suas condenações, à cidade de Helcomb, da família dos assassinos à rota da polícia e das investigações. Tudo minuciosamente relatado com fôlego jornalístico, mas sem, entretanto, reduzir-se a tanto. Em 2005, foi lançado o filme intitulado Capote, que levaria o Oscar de Melhor ator para Philip Seymour Hoffman (pela interpretação do escritor); o filme, não se detém a trama da obra, é mais uma tenda de bastidor, ao contar com seu deu o desenvolvimento do livro.

Alguns dos filmes brilhantes

segunda-feira, 23 de novembro de 2009



Ensaio sobre a cegueira por Fernando Meirelles




Longa do brasileiro Fernando Meirelles conseguiu por na tela o branco da cegueira metáforica de Saramago, mas não a metáfora que é o romance.


Um ano depois, volto a falar desse filme; o revi pela terceira vez esta semana. Mesmo perdendo boa parte da carga de sentido do romance, o filme merece destaque pelos seus recursos, seja a fotografia claríssima do longa - usada para representar o mar de leite pelo qual são inundadas as personagens da narrativa, seja pelos efeitos do corpora sonoro. Logo, "defeitos" de adaptação à parte, o filme é belíssimo, riquíssimo e pede para ser visto quantas vezes forem necessárias.


Minhas falas

sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Ler o Dom Quixote

Por Pedro Fernandes de Oliveira Neto


Depois de Crime e castigo, de Dostoievski, essa me foi a obra mais cara à leitura, entretanto, me parece ser essa a característica do clássico: a de marcar seu leitor por todas as vias possíveis, como se a leitura, para ser tida realmente como tal, devesse nos jogar no seu calabouço e de lá nos arrastar aos poucos, trazendo-nos, dessa experiência, carregados de uma nova camada de humanidade agarrada à nossa figura.

Como disse certa vez, num texto anterior a este sobre Os sertões, de Euclides da Cunha, renovo aquelas imagens de grande teatro para o clássico de Cervantes. Composto numa época de transição, clara sátira ao fadado romance de cavalaria, entretanto, sem reduzir-se a tanto, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nos coloca diante de uma grande arena, que é a Europa medieval povoada de tipos que vão desde o mais popular e picaresco ao sofisticado e grave; Dom Quixote é, sem dúvidas, uma grande aventura da linguagem, conforme entendeu Michel Foucault, e da tênue relação entre ficção e realidade. Tudo entrançado pelo fio do humor, que, não são raras as vezes que o leitor deverá rir-se com as ‘des-aventuras’ do Quixote e de seu escudeiro.

Muitas são as cenas e episódios possíveis de destaque. Fora a clássica cena da luta do Engenhoso Fidalgo com os moinhos de vento e da de suas loucuras e cavalhadas em penitência a sua Dulcineia Del Toboso, não dá para deixar de mencionar a cena da queima dos livros da biblioteca do D. Quixote, ainda no início da primeira parte do livro, como uma das mais significativas.

Os livros, em sua grande maioria de cavalaria, são os acusados de serem os que haviam levado o sossegado Alonso Quijano, o Bom, à loucura da cavalaria andante; na cena a sobrinha, a ama e o padre, figuras que moravam junto com D. Quixote, dão corda a empreitada do fim dos tais. Longe de se reduzir à opinião do próprio Cervantes, que era o do fim daquela “forma de literatura”, muito em voga na época, a cena que finda na queima dos livros tem em si uma série de sentidos. Primeiro, ela é empreendida por duas mulheres, as que na época não tinham acesso à leitura dado os meios de cerceamento da Igreja e do Estado, muito bem representados aqui na figura do padre, que é quem sentencia e quem julga o que é boa prosa e o que não é. Em seu juízo, as ações aqui processadas vêm denunciar os espartilhos amarrados com todas as formas de censura, principalmente a empregada a torto e a direito pela Igreja, que na época, sob a instituição da Inquisição juntamente com o controle do Estado tinha o interesse de julgar o que seria propício e adequado ao entretenimento ou ao desvirtuamento dos leitores. Por extensão, claro está uma denúncia ao crime de silenciamento e contra a memória, afinal, mesmo não vendo Cervantes com bons olhos a extensa produção de livros de cavalaria, é da leitura deles, e isso é claro no intenso diálogo intertextual que essa obra mantém com as do gênero, que ele escreve o Dom Quixote; certamente, não tinha ele o interesse de uma caça e queima no plano de uma realidade empírica. Além do mais, a própria biologia do Quixote vem corroborar para essa interpretação, bastando que se cite que a obra foi, por várias vezes, censurada pelos inquisidores e para ter sua circulação passou ainda pelo crivo de uma ‘licença’ concedida pela Coroa. O leitor também há de notar o cuidado, exacerbado até, que a novela tem, em todo seu decorrer, de louvar o cristianismo frente a outros credos, como o Islã e demonstrar o caráter de respeito para com o Império, desde as extensivas dedicatórias postas na abertura de ambas as partes da obra.

É também na cena de queima dos livros que se apresenta o tão conturbado debate instalado desde Platão e seu Banquete: o da relação entre prosa e poesia, de que esta estaria mais para o fingimento (fingimento que nos conhecidos versos do português Fernando Pessoa, contemporaneamente, viria ser ironizado: “O poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”, instalando uma poética do fingimento necessário para ser-se poeta), enquanto que a prosa teria um compromisso com o real empírico, compromisso que seria levado a fundo quando mais tarde se consolidaria aquilo que a historiografia literária chama de estética realista.

Ainda nessa cena outro debate se é instalado, um debate que remonta desde a invenção da imprensa por Gutenberg, quando os livros passaram a ser produzidos em maior escala e, destarte, a constituir um universo simbólico na esfera social, que é, o nem sempre harmonioso em torno da relação entre a crítica e o texto literário. Isso quando do ‘julgamento’ pelo padre de uma obra do próprio Cervantes. É nesse momento também que nos é possível tirar encaminhamentos para um conceito, que só viria se formar contemporaneamente nos estudos do texto, que é o de metatexto – uma vez que é o próprio autor que, pela boca da personagem, tenciona uma reflexão em torno do próprio texto. Haverá vários outros momentos dessa obra em que se processam tais relações, principalmente, quando na segunda parte, que Cervantes já a escreve bem depois de publicada a primeira. Remonte-se para o caso os vários momentos em que são as próprias personagens que se postam à leitura da primeira parte da obra.

Impossível de não lembrar aqui de outra queima de livros, a do filme Fahrenheit 415, e das manobras operadas pela Igreja em O nome da rosa, de Umberto Eco.

No mais, acho que devo reparar na capacidade que tem Dom Quixote de, com toda a sua fantasia e loucura, envolver, por elas mesmas, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, todos os que dele estão próximos ou se aproximem: a mentira forjada pela sobrinha e pela ama, quando o Quixote dá contas de que sua biblioteca desaparecera, é um bom exemplo disso; cito ainda as proezas encenadas pelo duque e sua corte, na segunda parte da obra e pergunto se há loucura maior que a de dar corda e concretizar, como se fossem fatos reais, todas as façanhas imaginárias do Cavaleiro da Triste Figura; e, não posso deixar de citar a figura maior nesse jogo real-imaginário na novela, a do Sancho Pança, que ao se deixar levar pela ambição do governo de uma ilha, pactua, mesmo que, a contra-gosto algumas vezes, de todas as des-aventuras de seu amo. E, para finalizar essa galeria, relembro a armação fabricada pelo bacharel Sansão Carrasco que é impelido pela sobrinha, pela ama e pelo padre, sonhadores com a volta do fidalgo para o sossego de casa. É essa a cena que desencadeia o final do Dom Quixote, em que ele, derrotado nessa última batalha, já no seu leito de morte, renega sua condição de cavaleiro, esquecendo-se mesmo de todo seu projeto ‘pastoril’ planejado com Sancho Pança na volta para sua terra. Estratégia ou não do narrador cervantino, essa cena vem inscrever para os anais da literatura a imortalidade da personagem, uma vez que nesse seu ato de negação reside a esfera de uma auto-afirmação enquanto cavaleiro andante.

São por cenas como essas aqui citadas que a leitura do Dom Quixote diretamente reitera o papel da obra de arte literária, o de recuperar em nós a necessidade de imaginação e fantasia criadora, elementos fundamentais para não perdermos essa essência do que somos, humanos, ainda mais num mundo como o contemporâneo cujas forças de alienação e maquinização dos sujeitos são tão vibrantes.


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publicado no Caderno Domingo do Jornal de Fato, 16 de novembro de 2009.

Intervalo

quarta-feira, 18 de novembro de 2009




Já estão abertas as inscriçõs a 62 Reunião Anual da SBPC que este ano será realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); A 62 edição do evento será de 25 a 30 de julho de 2010 com o tema:"Ciências do Mar, herança para o futuro". A Reunião Anual tem como objetivo reunir cientistas, estudantes, professores universitários, professores da rede de ensino médio e fundamental, profissionais diversos e cidadãos em geral, interessados em discutir ou simplesmente conhecer os resultados mais recentes da pesquisa científica, expor trabalhos e apresentar comunicações, divulgar suas idéias e pontos de vista, debater as políticas de Ciência e Tecnologia, e proposições de metas estratégicas para o progresso da Ciência no Brasil.


Intervalo

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Cinquentenário Villa-Lobos


O Brasil celebra hoje o cinquentenário Heitor Villa Lobos, nosso gênio da música clássica. Como músico, Villa-Lobos foi o primeiro a conseguir compor "um tom" genuinamente brasileiro a música erudita. Operação que não foi gratuita, ao buscar nos ritmos africanos, índigenas etc. uma marca que fugisse do modelo europeu. À década de 1920, já o é senhor de seus recursos artísticos, revelados em obras como a Prole do Bebê, para piano, ou o Noneto. O que o faz ser violentamente atacado pela crítica especializada da época. Viajou para a Europa em 1923 com o e lá toma contato com toda a vanguarda musical da época. Expoente incompreendido, parece que precisaremos doutros mais cinquenta anos para redescobrir a qualidade e a genialidade musical.

Os escritores

quinta-feira, 12 de novembro de 2009




Maria Teresa Horta


eu e a escritora Teresa Horta - Salvador, 2009

A conheci em Natal, em setembro desse ano (2009), por ocasião do Seminário Internacional Mulher e Literatura, onde era ela uma das homenageadas. Lá a assisti em êxtase na sua fala; uma fala magna sobre a poesia e a palavra; literatura, genuianamente. Quinze dias depois a reencontrei em Salvador por ocasião do Encontro Internacional de Professores em Literatura Portuguesa; e assisti em êxtase na sua fala; uma fala magna sobre as mulheres e a literatura; literatura, genuinamente. Teresa é daquele grupo com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno que publica, em 1971, Novas cartas portuguesas, censurado pelo regime de Salazar. Poeta, jornalista, professora. De uma extensa obra, impetuosa e sensual: Espelho Inicial, Tatuagem, Cidadelas Submersas, Verão Coincidente, Amor Habitado, Candelabro, Jardim de Inverno, Cronista Não é Recado, Minha Senhora de Mim, Poesia Completa (dois volumes), Minha Senhora de Mim. Em Natal e Salvador a poeta lançava Poemas do Brasil.

Minhas falas

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


O grito de Caim por José Saramago

Pedro Fernandes de Oliveira Neto


É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue

José Saramago "O evangelho segundo Jesus Cristo (OESJC), 2006, p.327.


Já era de se esperar. E não há novidade alguma no fato. O novo romance de José Saramago, Caim, lançado há poucos dias, recebeu da Igreja o já esperado visto de condenação devido seu teor. Segundo o episcopado lusitano, a nova obra do escritor português não passa de uma operação publicitária e reduz o romancista à categoria de sujeito amante da descordialidade e da ofensa.

Depois de insistir na concepção carnal de Jesus, "nascido como todos os filhos dos homens, sujo do mesmo sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades" (OESJC, 2006, p.65), de uma Maria não virgem, do relacionamento amoroso entre Jesus e Madalena e do que possivelmente esteve envolvido no desfecho da vida de Cristo, Saramago avança sua veia crítica sobre o discurso religioso cristão quando nesse seu novo romance intima o leitor a se pôr novamente de cara com a face crua de um Deus que já no seu evangelho dava ares de seu egocentrismo, maquiavelice e crueldade.

Caim reconta a modo de Saramago, numa leitura leve e densa montada no seu já conhecido fluxo de narrar e nos jogos especulares de uma escrita que mira a si e os movimentos externos de alienação obliterados pelo balé das ideologias correntes, entrecortados tudo isso pelo tom de uma realidade às avessas, a já conhecida história do Gênesis, em que a oferenda de um dos filhos de Adão, no caso Caim, não teria sido do agrado de Deus, e, por isso, fora punido.

Com um título seco, Caim há de possuir uma carga forte de sentido quando faz por a personagem bíblica à horda dos oficiais mártires e recupera seu lance na materialidade mítico-histórica por outras vias. Esse romance vem retomar feixes de compreensão que são próprios do escritor português: os de que desde os primórdios já esse Deus a que adotamos como ser supremo nutre sua sede de sangue e o que o amor dedicado às suas crias à imagem e semelhança sua é algo questionável. Isso estaria implícito em atitudes como a de não aceitar como oferenda as frutas de Caim em detrimento do cordeiro oferecido por Abel. Em "Caim" quem recebe boa parcela da culpa pelo trágico desfecho - já sabemos que um irmão por inveja mata o outro - é o mesmo Deus sanguinário d'O evangelho.

Caim é para ser lido como se escrito antes d'O evangelho. Tem aqui a gênese do mal que vem entranhado nos modos ler Deus. No romance de 1991, recordo-me da cena em que se dá um dos primeiros encontros de Jesus com Deus: Ele o obriga o sacrifício de um cordeiro que Jesus a todo custo tentou esquivar do trágico fim; vendo a displicência do filho para com a ordem, Ele próprio fulmina o quadrúpede sem nem ao menos reparar que Jesus cortara-lhe pedaço da orelha para parecer cria sem serventia. Além dessa cena, é bom lembrar de outra: a em que Deus rejeita o arrependimento do diabo pelo interesse no sangue de Jesus: "Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora" (OESJC, 2006, p.328). São ambas as cenas como que fios que se amarram a esse novo romance, uma vez que "Caim" recupera os debates para o entendimento para o que venha ser a culpa e os sacrifícios feitos para o perdão. Ao mesmo tempo vem instaurar uma questão nova no debate: a do redimensionamento do conceito sobre a inveja.

No fundo o que pretende Saramago é injetar nos eixos das ideologias pequenos cartuchos a fim de proporcionar uma reflexão, uma nova maneira de ver e de mostrar que tudo o que nos cerca, inclusive nós próprios, é materialidade construída à base de nossas próprias escolhas.

Mas, matérias de ficção à parte, voltemos a querela da Igreja. Se estamos diante de artefatos ficcionais, o que a Igreja se finge de doida e não entende, se entende não admite, é o medo; esse não é nenhuma ingenuidade. É o arrepio que lhe corre pela dorsal de uma implosão de suas bases ideológicas, isto é, o desmantelamento de suas historietas de carochinha pelas vias "indevidas" dos fatos. O arrepio que lhe corre pela espinha da Igreja é o de um vento que desbarate toda a complexa rede de um poder que nada tem adiantado senão subverter os verdadeiros preceitos cristãos e estilhaçar as já frágeis bases da convivência humana.

A história oficial não nos deixa mentir. Quantos foram os mortos que em nome das causas da Igreja a terra embebeu-se de seu sangue e adubou-se com seus ossos e carnes? Quantos regimes de silenciamento e opressão tiveram as bênçãos da Igreja? Incontáveis são os números para as duas primeiras respostas. Todas, me parece ser a resposta mais concreta a última pergunta. Que o diga o extenso rosário de horrores rezado por Deus a Jesus por quase seis páginas corridas d'O evangelho, noutra cena também singular, a da barca, onde reunidos estão os dois mais o diabo a decidirem o destino de Jesus.

Caim vem pelas mãos de um escritor perspicaz, que enxerga por entre as frestas do nos posto como dito e aceito como realidade, propor um reengendramento dos discursos e da própria realidade. Senão isso, pelo menos uma reflexão criteriosa acerca disso tudo. Quanto ao entendimento da Igreja de que Saramago conhece superficialmente a Bíblia, me parece ser o contrário, ela é que conhece superficialmente a obra de Saramago.



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texto publicado inicialmente em Correio da Tarde, na sessão Artigos, em 23 de outubro de 2009; depois publicado sob o título O grito de Caim e o silêncio da igreja no Caderno Domingo, do Jornal de Fato, em 01 de novembro de 2009; depois publicado sob o referido o título no Caderno Universo do Jornal O Mossoroense, em 08 de novembro de 2009.

Alguns dos filmes brilhantes

segunda-feira, 9 de novembro de 2009



22

Jules e Jim - uma mulher para dois, François Truffaut


Diretor celebra alegria de viver nos vínculos entre personagens que compõem triângulo amoroso


Se Jean-Luc Godard foi o cineasta mais inovador da Nouvelle vague, François Truffaut foi o mais amado. Dono de uma personalidade afetuosa e tranquila, ele nos legou uma obra delicada, que fala de sentimentos, relacionamentos, a alegria das pequenas coisas, e talvez essa ternura tenha ajudado no carinho do público pelo diretor. Alguns dos seus ideiais estão sintetizados em Jules e Jim - uma mulher para dois, história de um triângulo amoroso que sobrevive a uma guerra e a muitos percalços. A trama é baseada em um romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché que Truffaut comprou em um sebo anos antes e ficou encanntado com o que chamava de "perfeito hino ao amor e, talvez à vida". O então crítico prometeu que, caso um dia fizesse filmes, adaptaria Jules e Jim.
O austríaco Jules (Oskar Werner) é retraído e introspectivo, culto e inteligente. Torna-se amigo do francês Jim (Henri Serre), escritor como ele e quase o seu oposto em temperamento - bem humorado e extrovertido. De volta a Paris depois de uma viagem à Grécia, os dois conhecem Catherine (Jeanne Moureau), uma mulher livre, liberal e apaixonada pela vida. Ambos se apaixonam por ela, e os três dão início a uma sólida amizade e um amor platônico. Catherine e Jules se casam e têm uma filha, e Jim é enviado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Anos depois o trio se reencontra, ela se descobre apaixonada por Jim e eles se tornam amantes. E assim se passsam décadas, sem que ela consiga se decidir entre um deles.

Jules e Jim é celebração do amor e da sinceridade em tempos em que valores como esses parecem extintos. Impossível não se encantar com Catherine e sua alegria, graça e independência, somados a honestidade com os próprios sentimentos. Tragédias humanas como a guerra chegam e vão, e ela se mantém coerente com o seu único objetivo - ser feliz. Jeanne Moureau nunca esteve tão bem, tão bela, tão senhora de si.

Este é o terceiro longa de Truffaut. Os primeiros são as memórias de infância em Os incompreendidos (1959) e a homenagem ao noir Atire no pianista (1960). Em 1971, o diretor viria adaptar mais um livros de Henri-Pierre Roché, Duas inglesas e o amor.






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fonte. Revista BRAVO!, 2007, p.43.

Letras&Livros

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

As aventuras de Teresa Margarida da Silva e Orta em terras de Brasil e Portugal


por Pedro Fernandes


A primeira vez que tive contato com a pesquisadora autora da obra que intitula este post foi quando li para meus primeiros contornos em torno da obra de José Saramago um outro estudo seu intitulado Do mito ao romance - uma leitura de O evangelho segundo Saramago. Mais tarde, em 2007, tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente numa mesa redonda intitulada Gênero e literatura por ocasião do I Colóquio Nacional de Estudos da Linguagem (CONEL), realizado naquele ano na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A fala era um diálogo em torno da obra de Teresa Orta e da poeta contemporânea Teresa Horta.

Publicado em 2006, o estudo de Conceição Flores recompõe os passos da primeira Teresa e da gênese de sua obra, primeira de autoria feminina em língua portuguesa.

Teresa Margarida nasce em 1711, aqui no Brasil, brasileira, portanto - o que a faz ser vista por alguns estudiosos da nossa gênese literária como também precursora da Literatura Brasileira; vai, ainda com cinco anos de idade, vai para não mais voltar, com a família, para a capital portuguesa. Terá uma vida marcada pela rebeldia, pela insubmissão frente à sociedade duramente patriaracalista da época e pela quantidade de passagens trágicas. Basta que se cite um casamento contra a família que fará ser mal quista pelo resto da vida, ainda que toda ela, ou quase toda, 'financiada' pelas benesses paternas, depois, a pobreza e o endevidamento, estes já uma constante em toda a vida, mas mais acentuada com a morte de seu marido e a prole de doze filhos por sustentar, seu encarceramento por sete anos, a morte seguida de mais seis dos filhos, a condenação ao degredo em Angola de outro, entre outros episódios.

Aventuras de Diófanes, sua obra principal, publicada inicialmente em 1752, sob o longo título Máximas de virtude e formosura em que Diófanes, Climenea e Hermirena, Príncipes de Tebas, venceram os mais apertados lances de desgraça, sob o pseudônimo de Dorothea Engrassia Tavareda, alcançou ainda duas edições em vida da autora, que veio falecer aos 82 anos na Quinta do Grajal.

Tudo vem fielmente documentado no rico painel composto por Conceição Flores; a obra é singular por esse aspecto e pela proposta que vem deixar ao leitor, a de remodelagem do cânone literário brasileiro e português, ao reinscrever uma das peças do fractal do silenciamento.

Intervalo

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A obra de um polígrafo


Depois de lançado o polêmico Caim, Saramago já está trabalhando no que possivelmente será seu próximo romance a ser lançado para o ano de 2010. Se ele tem atirado para tudo quanto é matéria ideólogica de massacre ao sujeito humano: a política, o capitalismo, a religião, a bola da vez, será a indústria armamentista.

"Esse é o tema: as armas, quem as faz, quem as trafica. Estão por todas as partes. A televisão mostra continuamente cenas de violência com as quais fica claro que a vida não tem nenhuma importância", disse o escritor, segundo a agência EFE.

O Nobel da Literatura não falava de uma greve em busca de melhores salários. Saramago questiona-se por que não param os trabalhadores de construir armas pelo simples fato de estas servirem para matar as pessoas.

A ideia surgiu de uma outra pergunta, que lhe foi há tempos colocada por um jornalista colombiano, que queria saber como a luta armada em Portugal, de tradição esquerdista, como disse, levou à ascensão da extrema-direita.

Saramago admitiu que tornou-se difícil saber onde está a esquerda, a extrema-direita e o fascismo – que não acabou, voltou a frisar o escritor - "Está aí, esperando na porta, e Itália é um caso claríssimo". Tudo se mistura e é corruptível. Se à extrema-direita gosta de aproveitar-se da luta armada, está na natureza das coisas", sublinhou.

O escritor está preocupado "com o desvio de rota dos movimentos de esquerda e acredita que a palavra mais importante deveria estar na ponta da língua de todos, um simples não, algo tão pequeno e que tanto compromete".

É esperar.


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fonte. Abola.pt


Intervalo

terça-feira, 3 de novembro de 2009


O ser em O conto da ilha desconhecida diante do ser sartriano





Este ano findei, não digo definitamente, minhas falas, a partir de meu trabalho monográfico, a esse conto do escritor português José Saramago. O apóstrofo "não digo definitamente" é parte de um desejo meu de, futuramente, proceder uma revisão acurada desse trabalho, elastecer suas fronteiras de dá-lo sob forma de livro. E digo que findei porque agora me envolvo noutra sequência temática da obra do escritor português, a da identidade feminina nas obras Ensaio sobre a cegueira e Memorial do convento, fruto de uma dissertação de mestrado que ainda está em gestação.

As falas, entretanto, foram muitas. E pensar que tudo começou em 2007, por ocasião do Colóquio Nacional de Estudos da Linguagem, o CONEL, que realizou-se naquele ano na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Era para ser este trabalho apenas um artigo. Era para ser este trabalho um sobre o romance Ensaio sobre a lucidez, texto que comecei a escrever, e cujos escritos ainda são inéditos. Era para ser tudo isso e acabou sendo um trabalho mais exaustivo e sobre um conto do escritor. As circunstâncias me levaram a isso. Este estudo foi levado a vários congressos, depois do nacional de estudos da linguagem. Dos locais, como a Semana de Humanidades - duas vezes, em 2008 e em 2009 e como a Semana de Estudos Linguísticos e Literários de Pau dos Ferros, a SELLP, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Profa. Maria Albuquerque Maia, em 2008, aos internacionais como foi o Texto e Cultura em Fortaleza, CE, ainda em 2008 e o Colóquio Internacional de Estudos Comparativos, o CONIEC, em Campina Grande, PB, neste ano. Dele partiram ainda dois estudos publicados em revistas nacionais, os periódicos Literatura e Cultura, da professora da UFRJ, Luiza Lobo, e Nau Literária, do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Completando o ciclo, eis que o trago para a web.

O estudo intitulado O ser em O conto da ilha desconhecidade José Saramago diante do ser sartriano parte do entendimento de que este conto, escrito em 1997, se é composto dentre tantos estilhaços do imaginário humano, os de um movimento incursionado na Europa de 40, principalmente na França de Jean-Paul Sartre, denominado de Existencilisme. Busca bases no próprio material literário, em espécifico as personagens para analisar a inserção do sujeito no mundo do devir, do ser no mundo, enxergando a personagem central do conto, o homem da ilha desconhecida, como sujeito entregue às possibilidades que se abrem à sua vida ao custo da busca.

É composto de duas partes. Na primeira busco no conto português as raízes ou os elementos que deram forma ao conto saramaguiano, depois detenho-me no conto saramaguiano, numa espécie de genealogia literária e findo esta parte como a leitura do conto ora posto em análise. Na segunda parte busco cruzar pensamentos, os do escritor português pelo interregno da forma literária com os do filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Usei o termo exaustivo acima, mas na verdade, trata-se de estudo simples, ingênuo ainda e, inocente; olho algumas asserções nele com certa cautela. Aconselho que sua leitura pode ser imprescindível aos que estão engatinhando na obra do escritor português como estava eu na época em que o escrevi - e ainda estou três anos depois.


Intervalo

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

No domingo, dia 01 de novembro, o Caderno Universo, do Jornal O Mossoroense, publicou entrevista da jornalista Larissa com o poeta, Leontino Filho. Vale a pena ouvi-lo. Por isso, recortei parte da entrevista para cá. Antes, deixa eu apresentar quem é o poeta (de quem sou devedor de post neste espaço há muito prometido). Além de ter sido meu professor, orientador e fiel conversador de corredor sobre Literatura e quem deu gás a publicação do jornal acadêmico Trabuco (que a essa altura não sei como anda), Leontino é poeta (e dos grandes). Autor de obras como Cidade Íntima, que li e adorei (falta também comentar sobre). Atualmente seu novo filho é o Geometria do fragmento, livro de ensaios sobre poesia e literatura.
eu e o poeta professor nos meus idos anos de faculdade


Você publicou seu primeiro livro com 22 anos de idade. Descobriu cedo o talento para a poesia e as letras?


Leontino - Sim, principalmente como leitor. Muito cedo acabei me identificando com a poesia. Foi assim a partir dos 14, 15 anos. Também tem a ver com a educação. Estudei no Colégio Marista e lá sempre tinha rodas de poesia. Assim acabei me identificando com o texto poético.

Por que a predileção pela poesia?


Leontino - Eu acho que a poesia é um texto que trabalha mais com a acuidade. A poesia trabalha com a palavra na sua densidade maior. Existem romances que também fazem esse jogo com as palavras. Mas no caso da poesia, é o trabalho com a linguagem de carregar as palavras com a questão da vida, do sentimento... Então eu reputo à poesia o exercício máximo da linguagem. E esse exercício máximo da linguagem é um desafio pra gente. Quer dizer, retratar as questões da existência humana, da minha existência, através de um trabalho com a linguagem.

A linguagem liberta?


Leontino - Ela pode lhe libertar, mas pelo que ela significa. Quer dizer, a linguagem é a significação da gente. Nós existimos através dessa significação da linguagem, seja ela de que tipo for: verbal, ou não verbal. A gente só é significante a partir da linguagem. Só nos reconhecemos através da linguagem. Mas ela aprisiona porque quando você não consegue se expressar, você se limita.


Quer dizer que a pobreza do vocabulário aprisiona e a riqueza favorece essa libertação.


Leontino - É. A literatura não se faz com pobreza de linguagem. Não existe literatura pobre. Não é arte. Quando se diz que linguagem de fulano é pobre, no sentido de que ela é reduzida, deixa de ser arte, deixa de ser poesia, deixa de ser romance. Na poesia a linguagem é trabalhada no sentido de dar significação à existência da gente, à experiência da gente. É nesse sentido que eu falo.


Quando um poema termina de ser escrito, o que acontece?


Leontino - Ele passa a ter vida própria. Às vezes o próprio autor quando lê percebe coisas novas. O grande texto de uma forma geral permite várias leituras. Ele se pereniza através disso. Por que você lê um autor depois de 400, 500, mil anos? Porque ele se pereniza através do texto, das palavras. Por exemplo, Shakespeare, Cervantes. Então o texto não acaba no ponto final. Ele se amplia para o próprio autor e para o leitor.


Dos livros que você publicou, qual você gosta mais?


Leontino - Foi quando eu passei por uma fase de pulsão e fiquei vários dias, meses , escrevendo. É o livro Cidade Íntima. Mesmo assim foi uma coisa pensada, meditada. E foi a partir dele que eu norteei outros textos que eu tenho hoje. E tem também o Sagrações ao Meio, que foi um livro artesanal, que produzi com sobras de papel de uma gráfica lá de Pau dos Ferros. Este livro acabou saindo tão bem feito como um objeto de arte.


A maioria dos poetas sempre tem uma outra profissão...


Leontino - Você pode ser uma jornalista e a poesia tomar conta de você. Eu, por exemplo, sou professor. Porque não dá pra viver de poesia neste país. Os grandes poetas brasileiros, os escritores, tinham outra atividade. Eles procuravam atividades mais próximas a deles. Jornalismo por exemplo, professores. Drummond e Rubem Braga eram cronistas. Mário Quintana era tradutor. No meu caso, sou professor. Alguns dizem que atrapalha a poesia sendo professor, de tão enfronhado na teoria, essas coisas. E quando fazemos a obra isso tudo vem refletido. Claro que a obra, o formato, isso tudo reflete a vivência, a experiência que a gente tem. Não há como fugir disso, há uma necessidade de traduzir isso, a própria existência.


O poeta, o artista... eles se expõem. É preciso coragem para isso, de se expor a críticas, à opinião pública...


Leontino - A coragem de mostrar a verdade. E essas verdades têm suas ambiguidades. Mas você precisa ser verdadeiro com você mesmo, de traduzir essa verdade, no sentido de ser um fingimento verdadeiro ou uma verdade mentirosa. Porque a arte é esse espelho, e que espelha várias verdades. Então a coragem é nesse aspecto, é a pulsão de se expor. Há escritores que passam a vida toda sem publicar um livro, um poema. O máximo que fizeram foi mostrar a um amigo, a um colega. Qual a necessidade que eu tenho de expor aquilo que eu penso para alguém, para a sociedade? É como eu falei: para ter uma significação, um sentido. Então essa coragem se dar pela necessidade da busca de uma verdade, se essa verdade realmente existisse. E a gente supõe que ela exista. E existem várias maneiras de se dizer alguma coisa. Ao se buscar essa exposição surge um ponto muito positivo que é a leitura, que pode ser totalmente diferente de uma pessoa para outra. Às vezes você escreve uma frase e não acha muito legal, chega alguém lê e se identifica. Isso é um prêmio! É ter uma ressonância, um “feed-back” de algo que você criou.

Falando em linguagem e mudando de assunto. Que caminhos você vê para melhorar o nível cultural do povo em geral?


Leontino - Já é redundante. Mas o único caminho é a leitura. Na verdade só existem duas grandes atividades na área da educação: ler e escrever. Ou seja, a partir do momento em que você reflete através da leitura, de certa forma ela lhe encaminha e facilita as outras coisas. Não existem fórmulas mágicas, as pessoas é que criam fórmulas mágicas só para não resolver. A leitura é que vai abrir novos caminhos. E isso não afeta apenas as pessoas analfabetas. Há uma gama de pessoas alfabetizadas, pós-graduadas e tudo mais que não fazem o exercício da leitura. Não leem romances, não leem poesias. Essas pessoas contribuem e muito para a falta do hábito da leitura, e para esse estado de coisas. Então, o que faz melhorar o nível cultural das pessoas? Só a massificação da leitura. A educação tem que estar destravada desses mecanismo de fórmulas mágicas, pois isso não existe. Por isso que nunca se resolve isso. E a solução é simples: massificar a leitura. Ou seja: quem é mais analfabeto? Quem não sabe ler, ou quem sabe ler e não lê? Na minha concepção é quem tem todas as informações e não lê. Que adianta isso? Continua aquela coisa bitolada, aquele conhecimento estancado.









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Para ler a entrevista completa ver O Mossoroense de 02 de novembro de 2009.