Haiti: a maldição branca



Nota: Tenho acompanhado diariamente as páginas dos telejornais acerca da catástrofe em Haiti. Entretanto, me parece que as informações que chegam acerca do caos instalado naquele país não são totalmente verdadeiras, porque a mídia sempre tem o dom de nos esconder alguma coisa ou virar o rosto para aquilo capaz de lhe dar, na melhor das hipóteses (sim, há as piores) os louros da audiência. O caos que agora o Haiti sofre é, antes de ser fruto apenas do terremoto que assolou o país, fruto da ganância e da presença do homem branco, que como levaram a cabo a nação indígena por onde estiveram, levaram também a desarmonia àquela antiga e rica colônia formada por descendentes de escravos africanos. Isso a mídia não nos mostra. Recentemente pude ler um texto ("Haiti: a maldição branca") publicado no site da Fundação José Saramago que o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de, entre outros títulos, de As veias abertas da América escreveu sobre o Haiti e a sua história. Para conhecer melhor o país e entender melhor o caos ora instalado e quem são aqueles que têm boa parcela de culpa pela catástrofe, vale a pena ler este texto que eu próprio insisti numa versão em língua portuguesa.

Pedro Fernandes


*
O primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém soube, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país aniversariante, Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicação; mas não pelo aniversário da liberdade universal, mas porque se iniciou aí um banho de sangue que acabou fazendo voltar o presidente Aristide. O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Sem dúvidas, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os textos de educação atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que um bom dia mudou de opinião o império que havia  sido campeão mundial do tráfico negreiro; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e foi tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão. 

Não há nada de novo na indiferença ao Haiti. Há dois séculos o país sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, ilustre e respeitado sobre o tema da liberdade e proprietário de escravos, dizia que do Haiti vinha o mal exemplo; e dizia que havia que "confinar a peste nessa ilha". Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram sessenta anos para outorgar reconhecimento diplomático à mais livre das nações. Entretanto, no Brasil, chamava-se haitianismo à desordem e à violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Neste ano, o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo.

O Haiti voltou a ser um país invisível até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas telas e nas páginas, no início deste ano, os meios transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem.

Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, conduzem ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio advém da selvagem herança trazida da África. Pelas mãos dos ancestrais. A maldição negra, que impulsiona o crime e o caos. Da maldição branca, nunca se falou.

A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitou: – Qual foi o regime mais próspero para as colônias? – O anterior. – Pois, que se restabeleça. E, para reimplantar a escravidão no Haiti enviou mais de cinquenta navios cheios de soldados. Os negros levantaram-se venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos. Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana de açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a dívida francesa". A França cobrou cara a humilhação infligida contra Napoleão Bonaparte. Acabado de nascer, o Haiti teve que comprometer-se a pagar uma indenização gigantesca pelo dano que havia feito libertando-se. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de franco em ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda amarrada ao pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a 21,700 milhões de dólares ou a 44 vezes doa soma do orçamento do Haiti de nossos dias. Levou-se muito mais de um século para o pagamento da dívida, que os interesses de usura iam multiplicando. Em 1938 se cumpriu, enfim, a redenção final. Para então, o Haiti já pertencia aos bancos dos Estados Unidos.

Em troca desse dinheiro, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. Haiti havia nascido condenado à solidão.

Tampouo Simón Bolívar a reconheceu, embora devesse. O Haiti havia lhe dado narcos, armas e soldados em 1816 quando Bolívar chegou à ilha, derrotado e pediu amparo e ajuda. Tudo o Haiti lhe deu, com uma só condição de libertar os escravos, uma ideia que até então não havia lhe ocorrido. Depois, o herói triunfou em sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. De reconhecimento, ninguém falou.

Na verdade, as colônias espanholas que haviam passado a ser países independentes seguiam tendo escravos, embora algumas tivessem, além disso, leis que os proibiam. Bolívar promulgou a sua em 1821, mas a realidade não se deu por acabada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão e a Venezuela em 1854.  

Em 1915, os militares desembarcaram no Haiti. Permaneceram dezenove anos. O primeiro que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que se resignou a assinar a liquidação do Banco da Nação, que se converteu numa sucursal do Citibank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinha a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas. E mataram muito. Não foi fácil apagar os focos de resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralt, pregado como numa cruz numa porta, foi exibido para escárnio, na praça pública.

A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando em seu lugar uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possibilidade de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois. Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e de Trujillo. 

E assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram se somando as desventuras e os anos.

Aristide, o padre rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a um tratamento e uma vez reciclado o devolveu, nos braços dos militares, à presidência. E outra vez ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E outra vez voltaram os m militares, que sempre regressam, como uma gripe.

Mas os especialistas internacionais são muito mais devastadores que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti sempre obedeceu suas instruções seriamente. Pagaram-lhe negando-lhe o pão e o sal. Congelaram o crédito, apensar de haver desmantelado o Estado e havia liquidado todos os direitos e subsídios que protegiam a produção nacional. Os agricultores plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou imigrantes clandestinos. Muitos foram e seguem indo parar nas profundezas do mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais.

Agora o Haiti importa toda o arroz que consome dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que são gente bastante distraída, se esqueceram de proibir os direitos e subsídios que protegem a produção nacional. 

Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa Haiti, há um grande outdoor que adverte: "O mal passou". Do outro lado, está o negro inferno. Sangue e fome, miséria e pestes. Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferros velhos e com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares. O Haiti é um país jogado aos restos, por eterno castigo de sua dignidade. Ali, deitado, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.


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