Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais



O tempo e a memória servem de matéria na construção de obra que se posiciona contra os riscos do esquecimento

O tempo, como o vivemos, é composto de camadas nas quais o passado se acumula a cada minuto que passa. Em seu longa de estréia, o francês Alain Resnais foi saudado pela capacidade de traduzir em imagens e palavras tanto as múltiplas presenças do tempo quanto o lugar e a ação da memória, como a faculdade que faz tudo sempre retornar. Essa habilidade seria retomada dois anos depois em O passado em Marienbad (1961), sob uma forma ainda mais radical. 

Hiroshima, meu amor não é apenas um filme, é também um texto de autoria de Marguerite Duras, que imprime às imagens uma densidade poética que ultrapassa o mero sentido dos diálogos. A trama se resume ao encontro entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês na cidade reconstruída depois de ter sido devastada por uma das bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos em 1954. "Você não viu nada em Hiroshima", ele insiste. "Eu vi tudo", ela retruca. Pois, mesmo que nenhum dos dois tenha estado lá no momento do ataque, é a memória que se encarrega de não fazer esquecer os grandes traumas. 

E ela pode afirmar que "viu tudo" porque viveu a guerra a seu modo, na alma e na carne, quando jovem, ao se apaixonar por um soldado alemão, durante a ocupação nazista da França. O amante foi morto em combate, e ela acabou punida pelo envolvimento. Entretanto, para além das lembranças pessoais, é a memória coletiva que interessa a Resnais, o que já estava evidente em alguns de seus primeiros curtas (As estátuas também morrem, de 1953, e, sobretudo, em Noite e neblina, de 1955, e em Toda a memória do mundo, de 1956).

Em Noite e neblina, um documentário sobre os campos de extermínio nazista, o texto do escritor Jean Cayrol servia de alerta contra os riscos do esquecimento: "Onde estão os futuros carrascos? Com certeza, entre nós..."

Nesse sentido, Hiroshima, meu amor é acima de tudo um filme político, em que o romance individual serve de guia para a lição coletiva expressa nas palavras do texto de Duras, que reitera os riscos da "desigualdade posta em princípio por alguns povos contra outros povos, da desigualdade posta em princípio por algumas raças contra outras raças, da desigualdade posta em princípio por algumas classes contra outras classes".

*Revista Bravo!, 2007, p.97.

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