Jorge Fernandes: o viajante do tempo modernista, de Maria Lúcia de Amorim Garcia

Por Pedro Fernandes

O poeta Jorge Fernandes. Imagem: Arquivo do jornal Tribuna do norte.

Jorge Fernandes: o viajante do tempo modernista é para ser lido como o resultado de um esforço ou de uma paixão por uma obra ainda colocada à margem do cânone literário potiguar. Muito embora, o nome do poeta seja sempre lembrado quando o assunto é tratar do Rio Grande do Norte no contexto literário advindo da Semana de Arte Moderna, em São Paulo; contexto, aliás, que terá produzido seus abalos sísmicos em todas as regiões do Brasil. Basta que se diga sobre a quantidade de periódicos dedicados à poesia e à prosa surgidos quase a um só tempo que espaços como as revistas Antropofogia e Klaxon, para citar dois títulos que ficaram mais conhecidos.

A tarefa de Maria Lúcia de Amorim Garcia, professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Norte é magistral porque grande parte da obra de Jorge Fernandes encontrava-se dispersa em periódicos como os da cena modernista paulista ou em jornais no estado, afinal, os dois únicos títulos que o poeta chegou a organizar por conta própria e publicá-los foi, um, como se tratasse de uma referência muito explícita ao trabalho de Mário de Andrade, O livro de poemas de Jorge Fernandes, cuja edição há muito fora de catálogo ganhou nova forma, graças, de novo ao empenho de Maria Lúcia e, claro, a aceitação da obra como bibliografia para o vestibular da UFRN; outro, Contos e troças - loucuras em parceria com o poeta Ivo Filho. O primeiro data de 1927 e o segundo de 1909, aqui disposto pela posição não cronológica, porque mesmo o leitor mais afeito à produção literária potiguar deve primeiro conhecer (pelas questões assuntadas) o livro de poemas.

Jorge Fernandes: o viajante do tempo modernista assinala cerca de vinte e cinco anos de dedicação de uma pesquisadora. Terá "catado" toda a obra dispersa do potiguar? Possivelmente não. Sempre há, depois de outras investigações, coisas por descobrir; assim como sempre há coisas que se perdeu ao longo de tantos anos - ainda mais quando sabemos das condições paupérrimas de preservação da memória no Rio Grande do Norte. Tanto que, quando chegam pesquisadores assim como Maria Lúcia, não é exagero chamá-los de salvador e dizer do lance de sorte que tem o escritor por o destino colocar no caminho alguém interessado em não fazê-lo cair no anonimato, ruir com as traças e a poeira dos arquivos mal guardados.

É bem verdade que grande parte da obra de Jorge, talvez pela força com que ela se assumiu, sendo ponte entre um estado situado na ponta do país e o verdadeiro núcleo de eferverscência modernista, não esteve totalmente entregue ao descaso dos responsáveis pela cultura no Rio Grande do Norte. Sabe-se que Veríssimo de Melo, quem primeiro importou-se na divulgação da obra do poeta, tinha consigo um grande acervo, do qual Maria Lúcia se apropriou desde quando, em 1982, decidiu por estudar a poesia de Jorge Fernandes. Numa entrevista ao jornal Tribuna do norte, a pesquisadora conta que foi obra do acaso o encontro com Jorge: a UFRN interessava-se em fazer uma espécie de resgate dos autores do estado e ficou com a literatura desse escritor. 

Ao mergulhar no universo do poeta, Maria Lúcia descobriu que Veríssimo de Melo era homem fechado e não abria o arquivo a ninguém e descobriu que todos os textos de entre 1908 e 1953 encontrava-se em mãos de outras figuras que guardavam o mesmo zelo de intocabilidade dos arquivos. Possivelmente, esta deve ter sido a principal dificuldade da pesquisadora e novo reforço ao esmero com que rompeu essa barreira de posse da obra. Mas, foi do contato com arquivos de jornais como A República, um dos periódicos de maior atividade de escritores do Rio Grande do Norte, e Tribuna do norte o que favoreceu ela construir um corpus alheio aos da posse e também um artefato capaz de despertar interesses dos que se sentiam donos da obra a ponto de permitir a Maria Lúcia o contato mais aproximado com esses materiais.

Também contou com a persistência na busca por manuscritos, grande parte inéditos. Esse contato com um arquivo mais próximo de Jorge Fernandes, obrigou a pesquisadora dedicar-se ao estudo da caligrafia para dar conta de uma letra ruim de decifrar e marcada por um vocabulário peculiar ao tempo do poeta. 

Maria Lúcia tem a obra de Jorge Fernandes como precursora do modernismo no estado por compreender que ele o primeiro poeta a explorar temas que destoavam da estética parnasiana que dominava o cenário literário da época. Era moderno falar de aviões, carros, de questões regionalistas, como a gastronomia, a exploração da grafia descontínua do verso, a crítica explícita a um tempo que não mais condizia com o espírito da época ou mesmo o exercício metapoético, isto é, a poesia falar da própria poesia. Tudo está gravado na obra de Jorge Fernandes que recebeu na ocasião em que foi apresentada os elogios de Câmara Cascudo, então um dos principais mentores de novos escritores; basta lembrar que a obra tímida de Jorge não teve qualquer recepção positiva pela imprensa do estado e precisou da leitura interventiva de Cascudo, quem mantinha uma ligação muito forte com nomes como Mário de Andrade, um dos que logo se encantaram com a obra de Jorge e certamente uma das condições para que ela ganhasse espaço nos periódicos em São Paulo.

Foi graças a Câmara Cascudo que o Livro de poemas de Jorge Fernandes ganhou forma. A publicação que terá causado um verdadeiro celeuma entre os grupos mais mauricinhos da literatura potiguar, completou o destaque que poesia de Jorge teve fora dessa pequena quadra. Maria Lúcia lembra que alguns poemas de Jorge chegou a ganhar a inusitada forma musical e parou na Rádio Nacional, tamanha a boa recepção para aqueles lados do Brasil. Não havemos de que esquecer, um movimento muito incipiente, gestado por um pequeno grupo da elite nacional, deveria guardar qualquer zelo com as propostas que iam surgindo país afora a fim de poder se consolidar como um movimento de forte impacto na reviravolta da nossa literatura. Desse modo, a obra de Jorge Fernandes contribuiu para a construção desse espírito.

A prova de que a obra, apesar de lidar com ideia de definitiva poderá num futuro não muito distante albergar outras descobertas está no próprio livro ora apresentado por Maria Lúcia: o livro já estava em processo de diagramação e teve de ser parado para contemplar o "aparecimento" de textos então publicados num revista dessas de vida breve, Eu e você, mais um que estava guardado a sete chaves e foi disputado aos tapas, como conta para o jornal Tribuna do Norte.

A rica edição recebe ainda o prefácio de Ana Maria Cascudo e Vicente Serejo, mais um novo estudo crítico preparado por Maria Lúcia; a  pesquisadora também preparou um extenso glossário com os vocábulos mais utilizados pelo poeta. Enfim, o trabalho que deve receber o devido reconhecimento por tudo aquilo que representa para a literatura brasileira, afinal, é dessas pequenas-grandes peças que se constrói o amplo e significativo mapa de nossa heterogênea cultura das letras.

A seguir editamos um catálogo com inéditos de Jorge Fernandes em edição fac-similar das edições da Revista de Antropofogia, da qual foi assíduo colaborador.

Ligações a esta post:


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Água viva, de Clarice Lispector

Pablo Neruda: o que não dá mais para ocultar

Quando Borges era Giorgie

Boletim Letras 360º #231

Salinger, um grupo de psicopatas e os do MKUltra

A filha perdida, de Elena Ferrante

Gostamos de causar danos (com o grande romance estadunidense)

Apontamentos sobre alguns textos curtos de Tolstói

Jane Austen: casamento e dinheiro

Boletim Letras 360º #232