A literatura em perigo, de Tzvetan Todorov

Por Pedro Fernandes





A literatura em perigo pode ser lido numa manhã, numa tarde, em qualquer lugar; não exige do leitor nenhum esforço para compreensão porque estamos ante um Todorov despido de sua roupa de teórico. Os estudantes de Letras que sempre cruzam com o teórico nos estudos literários dirão: "que bom, se Todorov fosse sempre assim!" É um livro, entretanto, que guarda uma alerta de forte e profunda reflexão: o que fazer com a literatura nessa época em que ela parece atravessar por uma de suas mais graves crises? O teórico oferece-nos alguma resposta. Afinal, a conclusão vem através de uma pergunta um tanto catastrófica: a literatura poderá desaparecer?

Possivelmente não. Mas, cada vez mais ela se torna um recurso obsoleto, é renegada a um plano que não devia ser renegada. Acabar não, mas ter menos importância na vida dessa sociedade atravessada por uma extensa parafernália de objetos da técnica, sim. A questão é, o que é necessário ser feito para garantir (reafirmar) à literatura a importância para essa sociedade? Há alguns encaminhamentos e o principal deles é: olhar para literatura como necessidade; condição fundamental para compor sentido às existências. Mas, Todorov também espera que o leitor fundamente sua própria compreensão e elabore de si para si alguma forma de intervenção.

Antes de tudo, trata-se de um livro que é uma declaração de amor à Literatura. Diferente da tônica estruturalista de um precursor do Estruturalismo, A literatura em perigo é um livro despido de todo e qualquer malabarismo teórico; é interessado em provocar o leitor, dizê-lo que a literatura lhe é importante e em contexto diverso ela é um fator fundamental para nos fazer humanos. Antonio Candido já terá discutido bem isso. Apesar de nu do estruturalismo, não este um título que responda uma negativa ao movimento, tampouco de um pedido de perdão por ter encabeçado uma forma teórica que tirou da literatura seu espírito de atuação sobre a formação dos sujeitos

"Por mais longe que remontem minhas lembranças, sempre me vejo cercado de livros. Como meus pais eram ambos bibliotecários, havia sempre muitos livros em minha casa. Meu pai e minha mãe viviam às voltas com o planejamento de novas estantes para absorver todos os novos volumes; enquanto isso, os livros se acumulavam nos quartos e corredores, formando pilhas frágeis em meio às quais eu devia em esgueirar. Logo aprendi a ler e comecei a devorar os textos clássicos adaptados para jovens, As mil e Uma noites, os contos dos irmãos Grimm e de Andersen, Tom Sawyer, Oliver Twist e Os miseráveis. Um dia, aos oito anos, li um romance inteiro; devo ter ficado muito orgulhoso com o fato, pois escrevi em meu diário: "Hoje, li Sobre os Joelhos de Meu Avô, livro de 223, em uma hora e meia!" (TODOROV, 2009, p.15)

No correr do livro, Todorov reflete acerca do desrumo que a Literatura tem tomado no espaço social, escolar e acadêmico. A essência que só o texto literário em si pode oferecer ao leitor tem sido ao longo dos anos substituída pelo teoricismo barato e pelas categorizações fechadas da narrativa; não só isso, mas tem sido criado desde Aristóteles um verdadeiro muro que tem introduzido uma separação entre o mundo empírico e mundo literário, fabricando um fechamento do texto literário em si - uma das causas primeiras para a repulsa e o desmantelamento de um sentido prático dado à Literatura. Para o leitor de Literatura se libertar de certos dogmatismos teóricos é um livro indispensável de se ler; para o leitor amador que não põe tanto fé na Literatura, também, aí encontrará encaminhamentos para a famigerada pergunta "Literatura, pra quê?"; para o leitor amante da Literatura a confirmação às suas convicções de que somente pelo território da leitura se é possível enxergar o mundo real que ocupamos com outro olhar, o olhar do estranhamento, o olhar de ser habitante do mundo.

"Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade." (Todorov em entrevista a Revista BRAVO!)

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