Franz Kafka


Os leitores iniciantes devem conhecer o nome de Franz Kafka através de duas obras das mais conhecidas: A metamorfose e O processo. São dois títulos indispensáveis a todo aquele que busca conhecer sua obra e integram, pela forma e pelo tema, o rol dos clássicos de seu século. Basta dizer que, sensível ao seu tempo, o escritor tcheco terá sido um dos primeiros a compreender pela literatura sobre a angústia do homem moderno, sentido pelo qual todo leitor há de passar diante dos títulos antes citados.

Se a questão poderia ser apenas um vulto no seu tempo, não há nada mais contemporâneo que esse sentimento tratado de maneira diversa pela psicologia, pela filosofia e outros campos do saber. Dizemos isso, pensando, sobretudo, no amplo estudo da corrente existencialista cujo tema designado por Jean-Paul Sartre de náusea constitui-se para a psicologia no mal estar do homem moderno.

Também Kafka soube modelar pela literatura outro mal da contemporaneidade: esse misto de sonho-realidade, ou de sonhar acordado, ou ainda a confusão entre realidade e virtualidade que traduz a vida como um grande mal-entendido ou pesadelo que custa a acabar. Não é um caso de profetismo - que essa, afinal, não é tarefa de sua literatura (e de nenhuma outra!), mas revela-o um sujeito de percepção bastante aguçada sobre o homem de seu tempo.

Milan Kundera em seu ensaio "Em algum lugar do passado" (de A arte do romance) deixa bem claro isso: "Kafka não profetizou. Ele apenas viu aquilo que estava 'em algum lugar do passado'. Ele não sabia que sua visão era também uma previsão. Ele não tinha a intenção de desmascarar um sistema social. Ele pôs em evidência os mecanismos que conhecia pela prática íntima e microssocial do homem, não duvidando que a evolução posterior da História os poria em movimento em seu grande palco".

Essa mente brilhante e inquieta (talvez brilhante porque inquieta) nasceu no dia 3 de julho de 1883, na cidade de Praga. Formou-se em Direito; conhecia, portanto, toda a esfera da burocracia e o claustro do escritório - elementos que viriam povoar obras suas como as já citadas O processo e A metamorfose. Os tais livros foram escritos: o último em 1912 (mas só publicado em 1915), e o primeiro - fragmentos do que seria uma obra mais acabada - publicado postumamente, em 1925, como quase toda sua obra. É sabido que antes de morrer, Kafka não tinha certeza de que havia escrito coisa que valesse ser publicada e deu ordens ao grande amigo Max Brod para que queimasse todos os papéis, o que, como se vê, não aconteceu.

Traição por uma parte, atitude coerente por outra (e esse julgamento pode ser coisa mesquinha de leitor kafkiano); Brod deve ter percebido certa qualidade intrínseca à obra do amigo e não quis deixá-la perecer no esquecimento. Também pode ter sido motivado pela ambição de escrever seu nome na história. Sim, sempre que falarmos sobre qualquer obra publicada postumamente de Kafka logo esse fato vem à tona e sempre o seu nome é citado ao lado do nome do escritor. Ou ainda mera ambição financeira. Enfim, ainda o fato é que nem O processo e nem A metamorfose findam como obras únicas de Kafka. Tem ainda O castelo, América ou o desaparecido, Um médico rural, Um artista da fome e A grande muralha da China.

Tuberculoso, a vida de Kafka foi outra depois de 1917; das estadias entre Praga e Berlim, findaria sua vida em sanatórios até que, em junho de 1924, em Kierling (Viena) veio morrer. Brod disse certa vez que o século XX ainda seria conhecido como o "século de Kafka". O escritor alcançou mais que isso: construiu um espírito e modo de ser kafkiano.


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