Vieira, vida, engenho e arte

Por Pedro Fernandes



O céu estrela o azul e tem grandeza.
Este, que teve fama e a glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

Fernando Pessoa


Os versos de Fernando Pessoa que epigrafam este texto já trazem em si as dimensões inabarcáveis dessa personagem magnânima, que ano passado completou exatos 400 anos de seu nascimento. Português de nacionalidade, jesuíta, Vieira foi maleável aos espaços por onde esteve, foi a personagem que a circunstância o exigia ser: professor de tupi e de retórica, missionário, diplomata, serviçal do rei, teólogo e, inclusive, padre. Viveu em terras brasileiras por exatos 42 anos, até quando da sua morte no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, em 18 de dezembro de 1697, aos 89 anos.

Sua vida é uma grande epopeia. A começar pelo tempo de vida, numa época em que viver tudo isso era sinônimo de eternidade. Personagem intrigante pela não menos intrigante rede de influências em que esteve metido, a ponto de ser condenado pelo Tribunal do Santo Ofício, pelo qual foi processado entre 1633 e 1667, acusado de messianismo ao pregar que haveria um tempo em que todos os homens, inclusive índios e judeus, estariam reunidos pela fé cristã, no Quinto Império; e das labaredas do fogo da Inquisição, Vieira teve a pena comutada, em 1675, pelo próprio punho do papa Clemente X, que reconhecia nele zelo apostólico e ciência das letras sagradas.

Personagem de vida polêmica, atribulada e aventureira. Que o diga sua recém lançada biografia em dois densos volumes. E para se ter uma ideia dessas três qualidades, basta que se cite, primeiro, o clássico episódio de sua expulsão do Maranhão, depois do “Sermão da Vigésima Segunda Dominga de Pentecostes”, em que claro está o uso da alegoria para ensinar sobre o bom e o mau governo na ocasião em que a província se dividia em dois governos; segundo, sua capacidade de atuação, indo dos lugares mais remotos, como as colônias do Brasil, o Maranhão é uma delas, aos lugares mais importantes da civilização humana na época, como Lisboa, Paris, Amsterdã, Haia, Roma e isso defendendo os interesses mais inusitados, fosse os da Coroa, fosse os da Igreja; terceiro, as sete travessias do Atlântico, numa época em que tais viagens duravam a eternidade de três quatro meses em mar, em condições totalmente insalubres, lembrando ainda que as caravelas que faziam esse trânsito Brasil-Portugal, estavam mais para jangadas que para as grandes embarcações modernas que temos hoje.

De modo que, falar de Vieira não é tarefa fácil. Homem da Companhia de Jesus, empreendimento que ajudou a fundar e que tinha por missão, em seu sonho messiânico, ser uma espécie de FMI do projetado Quinto Império; homem a serviço dos interesses expansionistas da Coroa portuguesa; homem a serviço da Igreja na cruzada contra o protestantismo que se alastrava por toda Europa. Tamanha é sua dimensão que Vieira abarca o destino de dois cenários: o brasileiro e o português.

E neste ano de 2008, outra data deve ser posta em pauta: é a comemoração dos 330 anos da primeira edição do volume dos “Sermoens”, data de 1679, a edição e revisão do próprio punho de Antônio Vieira. Tal data é importante por vários motivos: primeiro, apesar de ter sido algo ordenado expressamente pelo Padre Geral da Companhia de Jesus, é a importância da consciência de Vieira em acatar a ordem de preservar seus ditos e escritos, que já eram, à época, parte da memória coletiva de um povo.

Sua obra é vasta. Depois dessa edição histórica do primeiro volume dos “Sermoens”, foram mais 12 volumes, que seguiram de mais duas edições organizadas a partir de rascunhos encontrados em seu espólio pessoal, perfazendo, ao todo 190 sermões em 15 volumes. Além de comentários e interpretações escriturárias, que constituem parte de sua obra profética, juntamente com textos apologéticos escritos durante o período em que esteve sob jugo do Santo Ofício, os quais ainda não foram editados em sua totalidade; sem falar das mais de 500 cartas sobre os acontecimentos do momento, a maioria sobre a geopolítica envolvendo a condição colonial brasileira e a querela entre Portugal e Holanda.

Para uma compreensão adequada desse vasto pensamento de Antônio Vieira, além de entender a “missão” de padre, por via das vezes, entre a cruz e a espada, é necessário ainda que o leitor retroceda na História e o entenda como líder político e pensador que o foi, pois, somente por esse caminho se pode vislumbrar o que ele representou, quais seus anseios e pretensões; senão, corre-se o risco sério de reduzi-lo à caricatura, à marionete a serviço de interesses alheios e escusos.

Vieira situa-se na linha limítrofe não apenas de dois poderes e ideologias dominantes, mas de dois momentos históricos: o momento em que a figura do divino domina toda uma cultura, gerando a visão de mundo em que Deus é o centro do Universo, na Idade Média, e o momento em que as aceleradas mudanças geopolíticas, econômicas e filosóficas acabam por abalar tal estrutura inserindo no centro do Universo a figura do homem. E aqui reside o segundo motivo de importância da compilação de seus sermões, que, apesar de não os serem o espelho fiel das pregações efetivamente pronunciadas, visto que muitos o haviam sido proferidos trinta ou quarenta anos antes e que Vieira, segundo registros, pregava apenas com o auxílio de apontamentos, nesses tantos sermões, em que cada um é uma verdadeira peça de teatro, haveremos de dar conta dos hábitos, formas e modos de pensar do espírito político-religioso de uma época.

Pela engenhosa obra que Vieira engendrou, tão engenhosa que pela retórica e organização discursiva adquire o caráter sublime de arte, entendemos onde está seu propósito. Ao adotar o sermão como categoria persuasiva, torpedos psicológicos que visavam interferir fortemente na estrutura da vida pública, política e religiosa do Estado português, Vieira punha em ordem sua função, a de em nome de Cristo, anunciar a instauração do Quinto Império, que partia de Portugal, o povo escolhido na cruzada ao mesmo tempo imperial e messiânica, e findava seus limites na América do Sul, depois de passar por parte da Ásia e da África.

Seu estilo engenhoso, arrojado, visava unir ideologias em prol desse sonho manifesto no tom grave e acidentado do requinte linguístico, até hoje, único em língua portuguesa. Isto é, “a ação de Vieira no mundo não se revestiria apenas de uma aura religiosa coerente, onde o Cristianismo seria o único fim, mas de um somatório de motivações de ordem política, social, religiosa e mística não necessariamente convergentes” (FERREIRA, Ermelinda. Leituras: autores portugueses revisitados. Recife: EDUFPE, 2003).

Se o Quinto Império foi um sonho abortado, porque o desfecho da glória de Portugal já conhecemos de um todo, ele existiu e ainda existe em pleno vapor nas figuras, nos jogos verbais, no mundo dos signos, engenhos tão bem esculpidos que beiram o divino e dá sentido a toda uma ação/intervenção que visa unir os planos estéticos e ideológicos para diminuir o poder contrário e acrescenta-lhe poder próprio.


* Publicado no caderno Domingo do jornal De Fato em 06 de dezembro de 2009.

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