Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, de Mário de Carvalho


Se pararmos para pensar a nossa vida e o cotidiano dela, sobretudo os modos de vidas e as ações triviais; se pararmos para pensar o modo como nos tornamos sujeitos... Eis a tentativa bem alcançada de Mário de Carvalho, escritor português que descubro agora nessa seara pós-José Saramago. A edição sobre a qual faço essas breves notas foi publicada no Brasil há cinco anos pela Companhia das Letras.

Se formos atribuir um perfil temático a este romance – Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto (frase-clichê de uma secretária personagem do livro) é nisso em que se resume: a vida e o cotidiano. Pode ser que, à primeira vista não tenham a universalização construída pelo romance contemporâneo, porque estamos numa Lisboa pós-ditadura que se metamorfoseia no corpo de uma personagem, o Joel Strosse. Mas, é só questão de avançarmos com a leitura para vermos que a trivialidade dessa capital portuguesa diz um tanto da minha trivialidade de leitor afasto alguns mil quilômetros que estou do espaço narrado.

Esse Joel Strosse é um tipo burocrata cinquentão à beira de um colapso profissional é distinguindo a servir de bibliotecário. Ocupando um estágio delegado apenas àqueles a que o Estado relega a condição de funcionário-mestre, Strosse buscará espaço para o Partido Comunista. Acontece que se tudo nessa nova sociedade portuguesa passa por um desgaste, cujo o espetáculo e as frases prontas vale por mil saberes e mil leituras clássicas, também a tradição política esquerdista se escusa entregar os pontos mas não é mais aquela que precursionou movimentos como o da Revolução de 74; resume-se mesmo a um grupo também de falidos sonhadores que ainda apostam alguma coisa na foice e no martelo já enferrujados.

Há, pois, um cenário pós-utopia. Assinalado por certa descrença sobre aquilo que vem depois que todos os sonhos possíveis de alcançar são, digamos, barrados de existir, porque uma vez no poder quem lá nunca esteve, percebe-se que os trâmites são outros e os desejos coletivos se individualizam frente a uma sorte de questões maiores que sonhos buscados. Essa desesperança, se ainda não chegou por aqui, corre o risco de chegar como corre o risco de ser uma verdade cada vez mais comum para a humanidade. E então estaremos no fundo do poço?

Merece atenção a forma como Mário constrói a narrativa: sempre pelo tom galhofeiro, pelo riso sádico, como se um deus a rir-se da marionete que criou e pôs e no mundo para padecimento. Mas, sabe-se mesmo que seu intuito é, fazer dos sujeitos de tinta e papel, peças pelas quais possa compreender sobre um tempo de valores em crise, mesmo sobre os valores da natureza do romanesco, que parece ser, esse o trabalho de desconstrução ora proposto. Desconstruir um ideário pelo riso não é vulgarizá-lo; é cobrar dos sujeitos que o fizeram/fazem outra posição diante de tudo que está aí.

Por esses dois simples motivos e por um narrador que tudo dirige  semelhante ao narrador forjado por Ítalo Calvino em Se um viajante numa noite de inverno  é que se pode dizer que é este um grande romance do cotidiano, dos modos de vida e das ações mais triviais do Portugal contemporâneo, mas em se tratando de modos de ser sujeito nessa contemporaneidade parece que o romance extrapola as linhas dimensionais daquele país para se compor em figura representativa de outros sujeitos e outros espaços sociais. Sim, porque aí já estão como operadores de sentido fenômenos como a globalização, este que à primeira vista se manifestou como uma utopia da união dos povos, mas tem-se demonstrado mais como um apagamento de fronteiras.

Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto foge da natureza espelhar do romance para compreender-se como criação sobre. Aí está a decadente sociedade portuguesa, a decadente sociedade globalizada patente no vazio dos sujeitos que necessitam alcançar uma posição para ser, um tempo em que para alcançar essa posição já não é necessário tanto esforço de criatividade porque basta ser descoberto na sua falta de talento pelo mass midia. Ou seja, mais atento e atual aos temas que afligem a comunidade humana, impossível.

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