O nascimento de uma nação, de D. W. Griffith



O épico do cinema mudo pode ser considerado o blockbuster de sua época, tamanho seu custo e bilheteria

Muitos títulos podem ser considerados grandes filmes ou clássicos; já os mais importantes e influentes são poucos. O nascimento de uma nação é um deles. Provavelmente, entraria em poucas listas pessoais de favoritos: trata-se de um filme longo (mais de três horas), difícil, perturbador por seu tema polêmico, datado em vários aspectos. Ainda assim, é considerado o marco inicial do cinema clássico, por suas inovações técnicas e narrativas que se tornaram a gramática oficial do cinema americano e são usadas até hoje. E, mesmo que atualmente ele não pareça fluente como um blockbuster hollywoodiano, na época causou comoção. Mais de um milhão de pessoas viram o longa em seu ano de lançamento.

Acusado de racista, O nascimento de uma nação  não pode, de maneira alguma ser reduzido a essa controvérsia. Tecnicamente é um trabalho exemplar. Nele aparecem pela primeira vez artifícios hoje indispensáveis ao cinema, como os close-up faciais, os cortes rápidos, as câmeras em movimento, além do processo de montagem de sequências paralelas que seu diretor já fazia em outros filmes e aqui desenvolvem com perfeição. Por trás de tudo está D. W. Griffith, "o pai de todos nós", na visão de Charles Chaplin. Sulista, filho de um ex-oficial confederado e apaixonado pelo tema Guerra Civil, o cineasta já havia dirigido 13 curtas sobre o assunto quando comprou os direitos da peça The clansman, de Thomas Dixon, e a transformou em O nascimento da nação.

A trama incitou sangrentos debates desde o início e deve continuar a fazê-lo indefinidamente, pois o filme aborda uma América recém-integrada pela guerra e agora livre da escravidão. Para eliminar os negros e outras raças supostamente inferiores surge a organização racista Ku Klux Klan, com o trabalho de higienização racial e religiosa. Em uma cena emblemática, um negro é linchado sem piedade, o que fez com que o filme fosse banido e repudiado em inúmeros lugares. Griffith se disse triste com as acusações de racismo. Afirmou que pretendia apenas contar um história da vida real. Em resposta aos críticos, filmou Intolerância (1916), um ataque histórico ao preconceito.

* Revista Bravo!, 2007, p. 52.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Cinco livros para conhecer a obra de William Faulkner

Essa estranha instituição chamada literatura: uma conversa com Jacques Derrida

Os melhores diários de escritores

Lolita, amor e perversão

O conto da aia, o pesadelo de ser mulher numa teocracia

Os ventos (e outros contos), de Eudora Welty

O primeiro conto de Ernest Hemingway

Há muitos Faulkner

Kazuo Ishiguro, Prêmio Nobel de Literatura 2017

Boletim Letras 360º #239