Jesus falava palavrão, de Eloésio Paulo



Está aí um perfeito texto este do professor Eloésio Paulo. Vejo nele um apanhado de todos os posts que já publiquei por aqui cujo alvo estava o discurso religioso e suas imagens toscas. Notifico por este espaço porque, como Eloésio Paulo, creio que estamos – no atual desrumo – prestes a montar colônias de desmiolados. É que o poder da religião tem se metamorfoseado a ponto de atingir o reino da palavra – essa que pode tanto construir quanto destruir. É um poder superior ao da Inquisição porque é um poder sutil e cerceador. E esse poder está nas mãos não dos católicos, que se engalfinharam de vez no mercantilismo a ponto de não sabermos mais onde que termina a religião e onde que começa o capitalismo; esse poder está nas mãos de evangélicos, ou aquilo a que denominei de neo-cristãos. Esses são piores do que qualquer Inquisição. São cegos. Donos únicos da verdade. E acham que o mundo está dividido, incisivamente, entre Deus e o Diabo. Sendo que ao Diabo vão todos aqueles que discordem de uma vírgula da dita verdade na qual se agarram. Os católicos estão estudando com eles e já tem também seus avatares para esvaziamento de mentes. Eloésio é professor na Universidade de Alfenas, Minas Geais, e autor Os 10 pecados de Paulo Coelho. (Pedro Fernandes)

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Valei-me, Padre Vieira

“Os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino de Deus.” (Mt, 21, 31) Quem pode garantir que Jesus não disse putas em vez da palavra consagrada pelas traduções correntes, tipicamente afetadas pelo moralismo da ideologia em que acabou (aqui, no sentido que você quiser) o cristianismo?

Na Rede Vida passa uma “missa da cura” em que o tal frei Rinaldo nitidamente imita um locutor de rádio, e dos mais enjoados, tipo quase narrador de rodeio. É ajudado por outro frade que nitidamente puxa seu saco, enquanto ele se faz de humilde apontando para uma cruz, como que dizendo: “Não sou eu quem faz tudo isso, é Jesus”. A platéia está cheia de gente que bate palmas, canta e faz as caretas supostas como adequadas ao momento. Um cantor horrivelmente desafinado puxa canções da liturgia dos anos 1970 agora transformadas em roquinhos ou numa pasta sonora aparentada com o dito “axé”.

A triste constatação é que a Igreja Católica, responsável por boa parte do que chamamos cultura ocidental, rendeu-se ao inimigo. Descaradamente, agora, imita os evangélicos que lhe tomam cada dia mais fiéis. Ao contrário da época da Contra-Reforma, quando os papas ainda dispunham de grande força política e até militar, hoje a Santa Sé tem consciência de quão inerme está frente à marcha da História. Mas isso não a leva à conclusão que seria a mais lógica, ou seja, à idéia de que o catolicismo é inapelavelmente medieval e, como um peixe que não pode respirar fora de seu elemento, só conseguiria sobreviver se:

a) pudesse novamente levar à fogueira todos os hereges, caso em que o virtual churrasco que vos escreve não seria louco de redigir este artigo;

b) coerentemente se refugiasse num radicalismo que excluiria os fiéis (só sobrariam os verdadeiros) do mundo moderno – uma volta às catacumbas, enfim.

Ah, não podemos esquecer: na plateia de frei Rinaldo estão vários prefeitos e vereadores, aos quais ele agradece calorosamente a ajuda a sua obra missionária. Católicos antigos, talvez algo incomodados com a conspícua manipulação política de sua fé, mesmo assim não chegam a suspeitar que o dito frei talvez logo saia candidato a deputado, integrando um movimento encabeçado por Gabriel Chalita (leia-se, Opus Dei), o gênio da “pedagogia do amor”, fiel escudeiro de Geraldo Alckmin (leia-se, Opus Dei) no incansável trabalho dos Inimigos da Escola (leia-se, PSDB) para esculhambar ainda mais a educação paulista. Tudo isso num Estado que se pretende a vanguarda intelectual do Brasil.

Mas direis: tresloucado amigo, onde entra Jesus nessa história?

É que Jesus, como todo produto ideológico, presta-se a qualquer objetivo de quem estiver mais aparelhado para usar os meios de informação. Ou contra-informação. Ou mistificação. Da mensagem original do profeta galileu, não nos chegam mais que boatos, assim como da Bíblia inteira, um conjunto de livros baldeado ao longo de vários idiomas e vertido às línguas modernas conforme os interesses dos tradutores e de seus patrões. Assim é que as igrejas evangélicas preferem a versão de João Ferreira de Almeida, mais próxima da pobreza estética que são seus próprios cultos, com um vocabulário nivelado onde mulher é sempre “esposa” e doença é sempre “enfermidade”.

Por que essas igrejas (incluindo as neopentecostais, muitas das quais voltadas para o comércio puro e simples) tomam cada dia mais fiéis do catolicismo? Ora, porque souberam fazer sua opção mais cedo. Enquanto os católicos (por serem outrora mais profundos do ponto de vista filosófico) não se decidiam entre negar o mundo moderno e submeter-se a ele, faz tempo que o protestantismo em geral – as exceções são justamente as igrejas mais parecidas ao laxismo católico – resolveu de que lado está. Do lado de Jesus, claro. Mas de qual Jesus? O adocicado cordeirinho que aparece no evangelho de João ou o iracundo profeta retratado por Mateus? Os fatos históricos depõem a favor do segundo, pois o profeta galileu foi julgado como criminoso político, subversivo muito mais perigoso que Barrabás, este um simples meliante.

Os evangélicos e carismáticos em geral preferem o primeiro Jesus. O segundo se parece muito, por exemplo, com a antiga esquerda, e a bancada evangélica sempre foi uma das mais retrógradas e assiduamente venais do Congresso. De qualquer modo, em algumas igrejas desse naipe Jesus não passa de um nome na fachada, pois o filho de Maria não tem qualquer prestígio, sendo significativamente mais badalados Javé e a multidão de seus porta-vozes veterotestamentários, ou mesmo Paulo de Tarso, aquele espião do Império Romano que acabou sendo o primeiro publicitário.
Para não desviar o assunto: há igrejas que pastoreiam seus fiéis como se ainda estivéssemos na Idade Média. Fazem uma interpretação literal de sua tradução empobrecida do Antigo Testamento, o que as leva proibir as mulheres de depilar as pernas e todos os crentes de ver televisão (o que, aliás, nem é tão mau…) Outras obtiveram o aggiornamento, embora não aquele tentado pela igreja de Roma com João XXIII e Paulo VI: foram capazes de (ou descaradas o suficiente para) abraçar o espírito do tempo e assumir-se como supermercados espirituais onde se pode praticar uma religiosidade à la carte.

Independentemente das diferenças, a maioria delas fala a mesma língua quando se trata de desqualificar o catolicismo. Este, emparedado por sua própria incapacidade de optar – afinal,ainda tem interesses genuinamente espirituais –, ficou ao longo do papado de João Paulo II, o que nunca morria, convencendo-se de que precisava defenestrar sua inteligência e privilegiar os “simples”. Se a estes está reservado o reino de Deus, fica a vontade de perguntar: em tal reino caberiam os nada bobos Edir Macedo e Marcelo Rossi?

O reino de Deus, ao que parece, fica muito longe. Na vida concreta dos indivíduos, o que conta é o triste fato de sermos matéria fadada à decomposição. “Monstro de escuridão e rutilância”, como disse o poeta, podemos às vezes fazer de nossa precariedade algo de bom. E por isso existiram e existem pessoas que bem mereceriam ser chamadas de santos, gênios ou heróis. Em todas as épocas e em todos os países. Elas às vezes interferiram na vida coletiva e ajudaram a reduzir o sofrimento e a falta de sentido que caracterizam a existência dos degredados filhos de Eva.

O reino das mercadorias e dos interesses em jogo é que de fato importa. Do contrário, os religiosos passariam a maioria das horas de sua semana orando, e não comprando e vendendo suas posses (sendo o corpo a primeira delas, e quase sempre a única). Uma semana tem 168 horas, das quais dificilmente o fiel, por mais fanático que seja, passa mais do que umas vinte envolvido com práticas religiosas.

Nesse reino tão terrestre, é cada vez mais evidente o crescimento do número de fanáticos, agora também dentro do catolicismo. É preocupante a hipótese de que eles um dia se tornem a maioria dos consumidores e eleitores do Brasil e, apesar das  divergências entre a cornucópia de denominações, todas devidamente portadoras exclusivas da Verdade, o cristianismo evangélico-pentecostal acabe por impor-se como padrão ideológico dominante. Sendo mais claro, alguém já imaginou o país do futuro como uma teocracia? Melhor seria ter Sílvio Santos e Faustão de aiatolás.

Até poucos anos atrás, era bastante rara a frequência de alunos evangélicos em cursos superiores e até mesmo em colégios. A proporção dessas denominações religiosas era insignificante na população brasileira. Os católicos de medievalismo assumido, por sua vez, eram até mais raros: tendo como única obrigação assistir a uma missa de 40 minutos por semana, decididamente poucos levavam a sério sua fé a ponto de por ela expor-se ao ridículo.

Ultimamente, tem sido muito comum a presença tanto de evangélicos como de membros da Renovação Carismática em sala de aula. Muitos deles se comportam como estudantes normais, no máximo deixando – no caso das pentecostais – notar sua condição por meio da vestimenta. Mas há os que pensam ter o direito de impor suas convicções religiosas à coletividade, incorporando um profetismo descabido em relação à natureza laica da instituição escolar. Existe por aí professor que já foi acusado de maníaco sexual porque sua disciplina (História) torna inevitável falar de sexo e religião; e aquele que, lecionando literatura, foi alvo de reclamação por falar palavrões em classe quando apenas lia poemas de Gregório de Matos ou Bocage. Eu mesmo já tive que me explicar a um diretor de escola por “difamar Nossa Senhora”, seja lá o que isso for.

Há pessoas cujas convicções lhes tornam intolerável qualquer menção a assuntos incômodos. Não importa se tais assuntos são parte da natureza humana. É-lhes necessário proteger a própria fé, já que ela é muito frágil. Freud esclareceu há muito tempo, num livrinho intitulado O futuro de uma ilusão, como a recusa do real leva muitas pessoas a criar mitos para ajustar o mundo ao que querem que ele seja. Quanto aos que de fato creem, os “absurdos” lingüísticos e conceituais lhes entram por um ouvido e pelo outro saem. Sua fé não necessita de proteção.

Aquela mentalidade neo-inquisitorial ainda se acha, o mais das vezes, encriptada no que Oscar Wilde talvez chamasse “o cristianismo que tem vergonha de dizer o próprio nome”. Mas, à medida que o fanatismo ganha visibilidade, mais e mais adeptos criam coragem para arvorar-se em policiais da linguagem. O engraçado é que isso ocorre na escola, cuja capacidade formadora encolhe a cada dia de maneira acabrunhante, frente ao poder que a indústria cultural tem de formatar mentes. Nas emissoras de rádio e TV, nos jornais e revistas e na Internet se veicula um volume crescente de pornografia e idiotice. Ninguém mais pode segurar isso, e a razão é simples: dá muito lucro. Eis o preço que pagamos pela separação entre religião e Estado, que fez rolar tantas cabeças na Revolução Francesa. Todo esse sangue derramado é um patrimônio da espécie humana, ou deveria ser assim considerado pelas pessoas civilizadas. No Islã, a história continua se repetindo como farsa.

Corta para os arredores de Cafarnaum, há quase dois milênios. Jesus, ao que parece, tinha um xodó com essa cidadezinha. Não deviam existir lá uns inferninhos maneiros. Tampouco em Jerusalém, pois ainda no final do século XIX o protagonista da novela A relíquia, de Eça de Queirós, reclamava da escassa oferta de sexo na Palestina: “Caramba, eu vim aos lugares santos para me refocilar!”. Mas certamente lá em Cafarnaum havia meretrizes arrumadinhas, ainda que nem tanto como a Maria Madalena do filme A última tentação de Cristo, por sinal uma das obras mais profundamente cristãs que já foram produzidas – e cuja exibição no Brasil a Igreja tentou proibir.

Os evangelhos deixam claro que Jesus andava com certa frequência na companhia de ladrões e prostitutas. Em episódios bastante significativos, absolveu dos pecados um exemplar de cada categoria. Os evangelhos também deixam claro que Jesus não odiava nada mais do que a hipocrisia. Nem com Satanás ele foi tão severo como com os hipócritas.

Agora, imagine Jesus expulsando os mercadores do templo. Ele ficou puto da vida, não? Nenhuma expressão seria hoje, em português brasileiro, mais adequada para descrever o acesso de fúria do galileu. Por que deveríamos hipocritamente supor que ele mediria as palavras naquela ocasião? Ele era um homem do povo, certamente usava vocabulário popular. E a língua do povo sempre teve, em todos os tempos e lugares, palavras chulas que acabaram transitando para o vocabulário do dia-a-dia a ponto de perder sua conotação ofensiva.

Uma crônica de Luís Fernando Veríssimo lembra como o palavrão é insubstituível em alguns casos. Por exemplo, como explicar para uma pessoa simples o tamanho do universo, medido em bilhões de anos-luz? Será que mesmo a maioria de nossos estudantes universitários é capaz de conceber tais dimensões? Mas quando se diz que o universo é “grande pra caralho”, o que se perde em precisão se ganha em concretude.

Jesus não só freqüentava os marginais, mas também acusava os membros da classe alta de praticarem todos os matizes no arco-íris da hipocrisia. Sepulcros caiados, filhos de uma geração adúltera (filhos da puta?). Quem é cristão e tem consciência deve sentir-se mais ofendido ao ser chamado de sepulcro caiado do que de corno ou bicha. Ou, então, não compreendeu nada sobre aquele Jesus que os judeus penduraram no madeiro.

Se o filho de Maria andava com os marginais, é certo que falava a linguagem deles. Tente entrar numa favela falando classemediês. Todo mundo sabe que ninguém entra nesse tipo de comunidade usando língua de gente “normal”. Os marginais desconfiam, e com razão, de quem não se parece com eles. E qual é a classe social que mais fala palavrão? Fica difícil imaginar que Jesus discursasse tão cultamente como apresentam os evangelhos – de resto, vertidos do grego para o latim e transformados em obra-prima da literatura universal por São Jerônimo (que por sinal terá feito suas adequações ao texto original) e posteriormente do latim para as línguas vernáculas, graças à campanha de Lutero, mesmo tendo sido este, ao que tudo indica, um péssimo caráter.

Quando um autodenominado cristão se arvora em policial da linguagem, passa por cima de alguns problemas importantes. Primeiro, quem na verdade pode dizer-se cristão, se é impossível conhecer a doutrina de Cristo em sua origem? O que temos é uma versão da versão da versão, sendo a própria Bíblia um amontoado de livros dispares e contraditórios que resulta de complicadas negociações dentro da Igreja num determinado momento de sua história, e não da iluminação dos bispos pelo Espírito Santo. Se deixassem a decisão aos dois últimos papas, a Bíblia (no grego, plural de “biblion”: “livros”) talvez fosse expurgada de episódios pouquíssimo edificantes como a sedução de Ló por suas filhas e os comportamentos desprezíveis de Judite e do rei Davi.

(Cá entre nós, se me encarregassem da nova edição, eu tiraria dois itens: primeiro, o livro de Jó, pois nele Javé aparece como um papudo insuportável, altamente necessitado de auto-afirmação, e isso não fica bem para uma divindade; segundo, aquela tentativa de assassinato de Isac por Abraão, péssimo exemplo para os pais. Aquilo era um povinho bárbaro, ignorante e paranóico. Soa bastante irônico que hoje Israel seja o país com a maior proporção de ateus em sua população; confiam mais em seu poderio bélico financiado pelos Estados Unidos que no Deus dos Exércitos.)

Segundo, como podem garantir que passarão a vida toda prometendo o que não podem cumprir? Porque o programa moral do cristianismo, mostra-o todo o conhecimento que adquirimos da natureza humana nos últimos séculos, não se reduz a uma educação dos instintos, mas é uma negação completa do que de fato somos, quase-macacos cuja barbárie é apenas contida (e nem sempre) pelo verniz civilizatório.

Terceiro, sua visão de mundo será realmente cristã? Ou seria mais cristão preocupar-se com o sofrimento do próximo, com a injustiça social, com o açambarcamento do poder político, econômico e cultural pelos sacripantas mais abjetos, os quais sempre aparecem ao povo como exemplos de sucesso na vida? Não estava brincando o profeta galileu quando disse que primeiro vão entrar no Céu os cobradores de impostos (ladrões, corruptos) e as putas. De fato, eles costumam ser mais sinceros que os pregadores moralistas. Destes, tenhamos principalmente piedade, pois deve ser muito doloroso passar a vinda fingindo ser o que não se é.

* A publicação original está aqui.


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