Um caderno para Saramago - página um ou a capa

Por Pedro Fernandes



Que quem se cala quando me calei
não poderá morrer sem dizer tudo

(José Saramago, Os poemas possíveis)


O meu contato com a obra de José Saramago vem ainda quando da Graduação em Letras, meados do quinto para sexto semestre, em finais de 2006. Na época estava passando por um período de transição para os estudos com o texto literário; foi quando encontrei na biblioteca da faculdade O evangelho segundo Jesus Cristo, primeiro romance do escritor que tive a oportunidade de ler. Logo, minha atenção se voltou para um aspecto quase que unânime e corriqueiro aos que se deparam a primeira vez com a obra do autor português: o estilo típico de narrar, que preserva o fôlego da oralidade no trajeto de escrita, fazendo do texto literário “exercício muscular” (usando termos do escritor na entrevista dada a Carlos Reis, 1998), forma escorreita, impossível de à primeira vista precisar momentos de narração, falação ou volição psicológica do narrador e da personagem.

O estranhamento que esse estilo de narrar me causou, forçando-me a reler umas três ou quatro vezes, assim já de cara, as primeiras páginas do romance, foi quem me disse - uma voz - "esse é o escritor que irei estudar". De lá para cá, somam-se já quatro anos que leio a obra de José Saramago.

Quando descubro as raízes do escritor e aquilo que sempre traz à tona com seus romances, inúmeras questões das que perpassam e constituem o homem, sua existência, sua essência, seu espaço em suas mais diversas dimensões, me identifico totalmente com aquilo que ele escreve. Conforme disse na postagem sobre sua perda, é como se o que Saramago dissesse fosse aquilo que eu sempre quis dizer para mundo, mas não tive ou não sou capaz.

O resultado das minhas primeiras observações foi um trabalho de conclusão do curso, em que tomando como leitura O conto da ilha desconhecida (1997) como um texto permeado de uma residualidade do Existencialismo, movimento preconizado por Jean-Paul Sartre entre os anos 1940 e 1970, refleti sobre a constituição do ser tendo por matéria os movimentos operados pela personagem central do referido conto.

Ainda, na academia tenho ministrado algumas palestras e algumas comunicações, bem como escrito, ao longo desses quatro anos, uma leva de textos sobre a obra do escritor, que podem ser consultados no meu espaço curricular.

Por este espaço, foram variadas as posts que dediquei ao escritor. Notas sobre sua obra, sobre o andamento de sua obra ou mesmo especulações que meu o lado de fã deixou falar mais alto. E muito ainda haverá de sair por aqui. Hoje, republico todos os links das posts que já tiveram lugar no Letras in.verso e re.verso para assinalar o nascimento de um projeto que desenho junto com a elaboração de uma edição especial sobre a obra poética de José Saramago. Chama-se, como o título desta mensagem indica: Um caderno para Saramago.































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