Psicose, de Alfred Hitchcock


Suspense é tão bem engendrado que, mesmo que se conheça a identidade do assassino, o medo continua a funcionar

Até quem nunca assistiu Psicose conhece a cena em que Marion (Janet Leigh) é assassinada no chuveiro. Cada detalhe dessa sequência foi explorado à exaustão em outros filmes, programas de televisão, desenhos animados, fotografias: a expressão horrorizada de Leigh gritando, a sombra da faca na parece, subindo e descendo, sangue espirrando, a trilha sonora assustadora de Bernard Herrmann. A histórica passagem revela muito do perfeccionismo de Alfred Hitchcock. Para filmá-la foi preciso uma semana inteira, com câmeras em 70 ângulos diferentes, em um total de mais de 90 rolos utilizados. Originalmente, não haveria som nela, porém Hermann apareceu no estúdio com  uma composição tão adequada que o cineasta sentiu-se obrigado a mudar de ideia.

Mas não foi só a sequência do chuveiro que fez deste o trabalho mais conhecido de Hitchcock. Psicose traz também Norman Bates, o esquizofrênico solitário vivido por Anthony Perkins (que nunca conseguiu se livrar do estigma do personagem), administrador do hotel da família, filho exemplar e dono de um segredo terrível. Para impedir que a plateia saísse das sessões contando como a história terminava, o próprio Hitchcock aparecia antes das projeções, em um material filmado, pedindo para que os espectadores não contassem o final. A precaução do mestre do suspense chegava às raias da paranóia: ao negociar os direitos do livro que deu origem ao longa, por apenas US$9 mil, fez questão de comprar o maior número possível de exemplares, para que ninguém pudesse ler o segredo de Bates.

A produção foi uma tentativa de Hitchcock de trabalhar com orçamento baixo (e a escolha do preto-e-branco foi motivada pelo receio de o filme ficar sangrento de mais com cores). O inglês vinha de trabalhos caros, como Um corpo que cai (1958) e Intriga internacional (1959). A saga de Norman Bates custou menos de US$ 1 milhão e foi um grande sucesso de público, arrecadando US$ 40 milhões em bilheteria. Reverenciado como o mais influente filme de horror, Psicose deu origem a várias continuações, uma delas (Psicose 3) dirigida, em 1986, pelo próprio Anthony Perkins. Em 1998, Gus Van Sant (Gênio indomável, Elefante) realizou um criticado remake, estrelado por Julianne Moore, no qual reproduziu cada ângulo do filme original.


* Revista Bravo!, 2007, p.56.

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