Salt, de Philip Noyce

Por Pedro Fernandes



Uma volta aos maus da história americana. Parece que os inimigos reais americanos não fazem  tanto sucesso assim e Hollywood volta aos vilões russos. O cenário é o de uma Guerra Fria à beira do estopim. Salt é o filme policial que consegue a força de muita ação e de um enredo interessante para o gênero, prender o fôlego do telespectador do início ao fim do filme. Na tela figura a ideia superficial ainda de uma bomba-relógio de programação retardada; últimos e raros exemplares de uma extinta KGB estão infiltrados na CIA, ocupam cargos de alta fiança, todos à espera do Dia X, o dia em que um curto grupo reativa as fagulhas do passado soviético ao império americano.  Se no cenário atual Rússia e Estados Unidos vivem uma aparente lua de mel, para esse grupo aquele ódio do século passado permanece em estado lívido ao ponto de condensar-se. Nessa ideia superficial voltamos a nos assustar com a ideia da fragilidade humana que nos assustou em momentos como os do fim da Segunda Guerra Mundial - isto é, tudo basta a um pequeno grupo de mal-intencionados para levar o planeta pelos ares.

Importante nesse jogo de inimigos dispersos é a personagem de Angelina Jolie, Salt, a que nomeia o filme. Hollywood volta a outro começo: o dos grandes heróis. E se no rol não há mais caras de machões que possam duplicar a imagem de um Rambo, por exemplo, porque agora todos os homens de Hollywood foram contaminados pelo síndrome da metrossexualidade, o jeito é por na tela um herói feminino, mas com força tanta quanto um Rambo. Ou melhor, mais que um Rambo, já que na mulher reside o comportamento de uma inteligência a Missão Impossível, e isso não faz de Salt uma atiradora que saia queimando tudo à bala inclusive a tela do cinema, além é claro, do toque de sutilidade, sensualidade e astúcia, tipicamente femininos. E tudo se nos apresenta de tal modo que, por mais absurdo que possa esse novo herói, ficamos sempre de dedos cruzados torcendo para todas as táticas elaboradas por ela funcionem tal e qual.

Com essa personagem é que chegamos ao cerne do filme. Por mais antagônico que possa parecer essa trama policial é uma trama de amor. Quando o marido de Salt é raptado e executado à sua frente é que vemos que tudo aquilo que parecia ser não é. A vira-volta no filme se dá pelo fato de que tudo agora que será feito claramente em nome desse amor - aliás, fato típico dos outros heróis do cinema, todos, em sua grande maioria, movidos seja pela morte de uma amada, seja pela morte de um filho, seja pela morte da família inteira. E somente nessa vira-volta é que entendemos a trama de Salt. Vale muito a pena ver esse filme.

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