Estorvo, de Chico Buarque

Por Pedro Fernandes



Estorvo é a história do sujeito em estado de sonho, de pavor de si. Tudo começa quando uma personagem, já não identificada, mira alguém por através do olho mágico e logo em seguida põe-se em disparada numa viagem de muitos retornos - não necessariamente eternos, nem de filho pródigo. Não tarda o itinerário da própria trama para que descubra-se que ele, membro de uma família da elite carioca, está envolvido, o porquê disso também não sabemos, com o tráfico de drogas. Com esse romance Chico apresenta-se como romancista, até então só compunha, cantava e escrevera, sim, peças para teatro e um livro infantil. Inaugura também aquilo que deverá se tornar rota, para não dizer estilo, de sua escrita: uma escrita de, senão forte apelo, mas de veio social muito vivo. O trânsito dessa personagem de Estorvo - que, ora está no seu berço de origem ora está no mundo à parte do seu - apresenta-nos que as fronteiras de classe no Brasil é divisada por linha muito frágil, impossível até de precisar onde que começa a burguesia e onde que finda uma classe baixa. Todas as classes são solavancadas por problemas que as fazem muito próximas umas das outras. Logo, o problema nosso parece ser outro: regrados por uma hipocrisia e por um falso moralismo estamos submissos a um estágio de pavor de nós mesmos, transbordando tudo isso, num itinerário errante. 


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