Lavoura arcaica, de Luiz Fernando Carvalho



A primeira é mais difícil tarefa do diretor Luiz Fernando Carvalho foi traduzir em linguagem cinematográfica o discurso literariamente complexo do narrador / protagonista do romance homônimo de Raduan Nassar sem perder a intensidade da palavra. A solução de Carvalho foi utilizar, pela voz do personagem principal, André (Selton Mello), quase todo o texto do livro. 

Coordenados com a narração, imagens e sons trabalhados até os detalhes fazem do filme tanto uma precisa transposição do romance para outra linguagem quanto recriação inventiva do texto original.

O enredo se desenvolve a partir da volta de André, o filho desgarrado, ao convívio da família. O reencontro tenso discute as incongruências entre os valores tradicionais da família libanesa, as relações de poder estabelecidas na casa e os desejos reprimidos, mas não aquietados de André.

A coexistência do fato narrado com um passado angustiante e da imagem no presente faz com que a ideia fatalista em relação ao destino das personagens seja intensificada. A força da palavra do narrador (que já conhece a história do começo ao fim) dá um caráter transitório e parcial à imagem dos personagens em ação e à construção gradual dos valores idealizados dessa família e cria a expectativa de uma desconstrução desses valores, que não se coordenam com os desejos dos envolvidos.

Vencedor de cinco prêmios no Festival de Cinema de Brasília de 2001, incluindo Melhor Filme. 

* Revista Bravo!, 2007, p.111.

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Boletim Letras 360º #239